11 outubro 2013

4uatro ao Sul distinguido com o Prémio José Afonso



«No início era o Verbo... Ou a melodia? E a palavra nasce do cante, ou é o cante que ganha asas e faz
nascer as palavras? As Vozes que dão corpo a estes textos cantados são reveladoras do sentir, transportam poemas dando-lhes suporte emocional e expressivo. Como se tudo se tivesse de fazer de novo, reinventando num ciclo interminável o desejo de mudança, a procura do amor, a certeza dos afectos, a memória dos lugares e dos Deuses. Para que esta liturgia se cumpra há que cuidar dos estilos, encontrar a colocação vocal adequada a cada canção, trabalhar muito até se chegar a uma "escrita no tempo" celebrada de cada vez que se canta. E ouvir, experimentar e recriar o que noutros lugares cristalizou em modos de cantar. Porque só quando sabemos ouvir os outros somos capazes de nos entender a nós mesmos.» (Domingos Morais, IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas / Univ. Nova de Lisboa, em Março de 2011)


Demudado em Tudo, de 4uatro ao Sul
(CD, 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)

1. Entrai, Pastores, Entrai (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
2. O Tempo do Entrudo (Tradicional; adapt. José Barros)
3. Cantam as Filhas da Rosa (Tradicional; adapt. José Barros)
4. Vai Remando (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
5. Descante aos Noivos (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
6. Manazinha (Tradicional; adapt. José Barros)
7. La Me Brunetta (Tradicional – Córsega)
8. O Círculo que Leva a Lua (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
9. O Menino Está na Neve (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
10. O Altinho (Tradicional; adapt. José Barros)
11. Versu di Tirriola (Tradicional – Córsega)
12. Fui Dispor a Salsa Verde (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
13. Mariana Campaniça (Tradicional; adapt. José Barros)
14. Esta Noite de Janeiras (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
15. Mariana (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul)
16. Ilha dos Vidros (Tradicional; adapt. Pedro Mestre)
17. Kyrie (Tradicional – Córsega)

Temas tradicionais do Alentejo e da Córsega (faixas 7, 11 e 17).

4uatro ao Sul:
José Barros – voz e viola campaniça
José Manuel David – voz, tarota (faixa 2) e percussões (faixa 2)
Pedro Mestre – voz e viola campaniça
Rui Vaz – voz
Grupo convidado:
Rancho dos Cantadores de Vila Nova de São Bento, Serpa – coro (faixa 2)

Produção executiva – José Barros
Gravado em Ourique, Vila Nova de São Bento (Serpa) e Estúdio da Ribeira (Sintra)
Mistura e masterização – João Magalhães

Fotos – Rui Moreno (grupo) e Ivone Ralha
Grafismo – Ivone Ralha


Comungando de uma grande paixão pelo cante alentejano e da vontade de recriar, sem preconceitos ou pruridos inibidores, o cancioneiro da planície transtagana, quatro reputados músicos da área tradicional – José Barros (Navegante), José Manuel David (Gaiteiros de Lisboa), Pedro Mestre (Grupo Coral e Etnográfico "Os Cardadores"; Grupo de Violas Campaniças) e Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa) – resolveram encontrar-se para cantar, a quatro vozes, modas e cantigas, assim nascendo o grupo Cante Sul, depois rebaptizado de 4uatro ao Sul. De tão grata experiência surgiu muito naturalmente o desejo de gravar um disco, que veio a lume na Primavera de 2011 com o nome de "Demudado em Tudo" (título retirado de um verso da moda "O Tempo do Entrudo"). Constituem o alinhamento dezassete espécimes: catorze do Alentejo, uns mais ligados à tradição coral a cappella, outros ao modo de cantar solista com acompanhamento de uma ou duas violas campaniças; e três da ilha da Córsega (vide o alinhamento acima), que servem para mostrar o parentesco que liga as duas tradições vocais mediterrânicas. Não sem razão o etnógrafo corso Michel Giacometti, que calcorreou Portugal de lés-a-lés e a quem o país tanto deve, se apaixonou pela polifonia do Alentejo e muito especialmente pela praticada em Peroguarda, a tal ponto que escolheu aquela aldeia do concelho de Ferreira do Alentejo para a sua última morada (e a sua vontade foi cumprida).
Pois "Demudado em Tudo" teve recentemente a ventura de ser o eleito para receber o Prémio José Afonso referente à colheita discográfica de 2011. Assim decidiu o júri formado por Olga Prats (pianista), Sérgio Azevedo (compositor), António Moreira (vereador da Cultura da Câmara Municipal da Amadora) e Vanda Santos (chefe da Divisão de Intervenção Cultural da mesma autarquia), ao considerar o álbum «uma revelação extraordinária, uma oportunidade rara de nos confrontarmos com a enorme riqueza do cante alentejano, membro de pleno direito da antiquíssima tradição das polifonias vocais da região mediterrânica, berço de civilizações.» E o comunicado acrescenta: «A abordagem séria e sem compromissos, o rigor da recolha e da interpretação, e a pura – quase comovente – beleza sonora deste disco mereceram, na opinião unânime do júri, a atribuição do prémio.»
É de aplaudir a decisão e por três boas razões: primeira, porque não se repete o desvario registado em duas das três anteriores edições do Prémio José Afonso em que foram distinguidos discos estranhos à música de matriz portuguesa e sem qualquer afinidade com o legado estético do patrono cuja memória é suposto honrar-se; segunda, porque dá reconhecimento ao bom trabalho que, entre nós, se vem fazendo no domínio da recriação e reinvenção da música tradicional; e terceira, porque convida o público a descobrir ou a ouvir com outros ouvidos o canto alentejano, que será sempre Património da Humanidade, com ou sem classificação da UNESCO. Escusado será dizer que a adesão do público dependerá – e muito – da divulgação radiofónica. Aqui impõe-se uma pergunta: o que tem feito a estatal Antena 1 em prol do cante? Praticamente nada, se exceptuarmos a acção de Rafael Correia e de Armando Carvalhêda, respectivamente com o programa "Lugar ao Sul" e a rubrica "Cantos da Casa". Acção essa que, todavia, não obtém o desejável impacto, não por culpa dos dois eméritos realizadores, claro está, mas de quem manda na estação. Vejamos: o "Lugar ao Sul" foi criminosamente escondido num buraco negro (6:00 da madrugada de sábado) e os "Cantos da Casa" de tão exíguos que são (cerca de cinco minutos por dia, de segunda a sexta-feira), e tendo de abarcar toda a música tradicional portuguesa, não têm margem de manobra para muito mais. Importa, portanto, que a Antena 1, ao abrigo da missão de serviço público a que está obrigada e que é afinal a razão da sua existência, dê cabal e conveniente divulgação ao cante. E isso poderá ser feito não só criando um espaço reservado para o género (a exemplo do que existe para o fado) como dando-lhe visibilidade na 'playlist' que é, pela esmagadora preponderância que tem na grelha, a grande montra musical da estação. No caso concreto do CD "Demudado em Tudo", será aceitável que nem um – um sequer – dos dezassete temas figure na 'playlist'? O blogue "A Nossa Rádio" apresenta seis propostas, qualquer uma boa para seduzir os ouvidos menos habituados às tocantes sonoridades dos cantares alentejanos (a cappella ou com acompanhamento de violas campaniças).



O Tempo do Entrudo



Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Adaptação: José Barros
Intérprete: 4uatro ao Sul* com o Rancho dos Cantadores de Vila Nova de São Bento (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


O tempo do Entrudo
É um tempo louco:
Faz sair as velhas
Fora dos "atoucos".

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem
Voltas de Entruda(da).

Anda cá, Maria,
Vem ver o teu Zé!
Traz um chapéu novo,
Trai-la-li-ló-lé.

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem
Voltas de Entruda(da).

O meu lindo amor
Merece, merecia
Chapadas na cara
Três vezes ao dia.

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem
Voltas de Entruda(da).

[instrumental]

Amor, se não era
De vontade tua,
Porque é que me davas   | bis
Conversa na rua?            |

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem   | bis
Voltas de Entruda(da).   |

[instrumental]

Algum dia eu era,
Agora já não,
Da tua roseira     | bis
O melhor botão.  |

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem   | bis
Voltas de Entruda(da).   |

[instrumental]

Anda cá p'rá'qui,
Não chores jamais,
Que eu ainda aqui estou   | bis
Para ouvir teus ais.          |

Não sei se é por ser
As voltas do Entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo,
Demudado em nada;
Não sei se é por serem   | bis
Voltas de Entruda(da).   |


* José Barros – voz
José Manuel David – voz, tarota e percussões
Pedro Mestre – voz
Rui Vaz – voz
Grupo convidado:
Rancho dos Cantadores de Vila Nova de São Bento, Serpa – coro



Vai Remando



Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Adaptação: 4uatro ao Sul
Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


Ó água, que vais correndo
Mansamente e vagarosa,
Passa lá ao meu jardim,
Rega-me lá uma rosa!

Vai remando, vai remando,
Lindo amor o seu barquinho;
Se fores ao rio abaixo
Eu cá ficarei sozinho.

Eu cá ficarei sozinho,
Ficarei por ti chorando;
Vai amor no seu barquinho,
Vai remando, vai remando.

Mocidade, mocidade,
Mocidade tudo tem;
Em chegando a certa idade
Até perde o cantar bem.

Vai remando, vai remando,
Lindo amor o seu barquinho;
Se fores ao rio abaixo
Eu cá ficarei sozinho.

Eu cá ficarei sozinho,
Ficarei por ti chorando;
Vai amor no seu barquinho,
Vai remando, vai remando.


* José Barros – voz
José Manuel David – voz
Pedro Mestre – voz
Rui Vaz – voz



Manazinha



Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Adaptação: José Barros
Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


[instrumental]

Muito gosto eu de ouvir
Uma bonita conversa.
Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.

Inda que eu vagar não tenha,
Logo se me acaba a pressa.
Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.

O tempo da mocidade
Nunca devia acabar.
Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.

É um tempo tão bonito,
Todos o querem deixar.
Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.

Ai, eu agora quando eu tinha
Dezasseis anos de idade.
Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.

Ai, toda vida chorarei
Nossa bela mocidade.
Ó minha manazinha
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha
Quem to diz sou eu.

[instrumental]

Ó minha manazinha,
O nosso amor já morreu;
Ó minha manazinha,
Quem to diz sou eu.


* José Barros – voz e viola campaniça
José Manuel David – voz
Pedro Mestre – voz e viola campaniça
Rui Vaz – voz



O Altinho



Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Adaptação: José Barros
Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


[instrumental]

Quero ir para o altinho,
Que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver do meu amor
Se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém,
Se ele me ama a mim sozinho;
Que eu daqui não vejo bem,
Quero ir para o altinho.

A alegria duma mãe
É ter a filha solteira;
Casa a filha, vai-se embora,
Vai-se a rosa da roseira.

Quero ir para o altinho,
Que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver do meu amor
Se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém,
Se ele me ama a mim sozinho;
Que eu daqui não vejo bem,
Quero ir para o altinho.

[instrumental]

Quero ir para o altinho,
Que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver do meu amor
Se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém,
Se ele me ama a mim sozinho;
Que eu daqui não vejo bem,
Quero ir para o altinho.


* José Barros – voz e viola campaniça
José Manuel David – voz
Pedro Mestre – voz e viola campaniça
Rui Vaz – voz



Mariana Campaniça



Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Adaptação: José Barros
Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


[instrumental]

A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem;
Do Monte da Légua às Pias,
À missa não vai ninguém.

À missa não vai ninguém,
À missa já ninguém vai;
A Mariana Campaniça,
Coitadinha, não tem pai.

Coitadinha, não tem pai,
Coitadinha, mãe não tem;
A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem.

É tão longe do céu à terra    | bis
Como é da morte à vida;     |
Do meu coração ao teu    | bis
É uma estrada seguida.   |

A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem;
Do Monte da Légua às Pias,
À missa não vai ninguém.

À missa não vai ninguém,
À missa já ninguém vai;
A Mariana Campaniça,
Coitadinha, não tem pai.

Coitadinha, não tem pai,
Coitadinha, mãe não tem;
A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem.

[instrumental]

A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem;
Do Monte da Légua às Pias,
À missa não vai ninguém.

À missa não vai ninguém,
À missa já ninguém vai;
A Mariana Campaniça,
Coitadinha, não tem pai.

Coitadinha, não tem pai,
Coitadinha, mãe não tem;
A Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem.


* José Barros – voz e viola campaniça
José Manuel David – voz
Pedro Mestre – voz e viola campaniça
Rui Vaz – voz



Ilha dos Vidros



Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Adaptação: Pedro Mestre
Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)


[instrumental]

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Ando no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.

Os olhos do meu amor         | bis
São duas continhas pretas;  |
São criados ao relento      | bis
No jardim das violetas.     |

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Ando no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.

A paixão me há-de matar,       | bis
É o mais certo que eu tenho;   |
Não me há-de deixar gozar        | bis
O amor que eu faço empenho.   |

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Ando no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.

[instrumental]

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Ando no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.


* José Barros – voz e viola campaniça
José Manuel David – voz
Pedro Mestre – voz e viola campaniça
Rui Vaz – voz
Produção executiva – José Barros
Gravado em Ourique, Vila Nova de São Bento (Serpa) e Estúdio da Ribeira (Sintra)
Mistura e masterização – João Magalhães
URL: http://www.violacampanicaproducoesculturais.blogspot.com/
http://www.facebook.com/violacampanicaproducoesculturais
http://www.youtube.com/user/QuatroAoSul/videos
http://www.youtube.com/user/PedroMestreCampanica/search?query=sul



Da esquerda para a direita:
José Barros, Rui Vaz, José Manuel David e Pedro Mestre

04 outubro 2013

Antena 2: uma miséria de rádio



Perante a imposição de Alberto da Ponte (presidente do conselho de administração da Rádio e Televisão de Portugal) de reduzir ainda mais o orçamento do sector rádio, António Luís Marinho (director-geral de conteúdos) e Rui Pêgo (director de programas das Antenas 1, 2 e 3), não estiveram com meias medidas e voltaram a escolher a Antena 2 para arcar com o sacrifício. Assim, e prosseguindo a operação de aniquilação realizada no início do ano (cf. "Antena 2: uma pobreza de rádio"), a 'rentrée' ficou tristemente assinalada com a eliminação de quase todos os programas de autor que restavam, dos quais destaco como perdas mais significativas: "Em Sintonia com António Cartaxo", "Matrizes" (de Rui Vieira Nery) e "Véu Diáfano" (de Pedro Amaral). Foi, no entanto, poupada – pasme-se! – a verruga que dá pelo nome de "Fuga da Arte". E também não foi extirpado o quisto chamado "Quinta Essência". Não que eu seja contra a existência de programas de entrevista na Antena 2, se feitos com profissionalismo e proficiência, qualidades arredias ao pretenso entrevistador, que tão insuportavelmente leviano e ignorante em múltiplos assuntos se tem revelado (em matéria de entrevistas, prefiro mil vezes as conduzidas por Luís Caetano no seu imperdível "A Força das Coisas").
Será que para o consórcio Marinho & Pêgo as verrugas e os quistos são mais importantes do que os músculos? Pois é! A Antena 2 já praticamente não tem massa muscular, reduzida que está a pele e osso (pele verrugosa e quistosa cobrindo um esqueleto deformado por raquitismo e osteoporose), de tão maltratada e martirizada que tem sido às mãos de indivíduos desprovidos de formação, sensibilidade e vocação para lidarem com uma rádio de cultura. A bem dizer, a Antena 2 é hoje pouco mais que uma vulgar estação toca-discos, ainda com a agravante da música que é debitada não ter qualquer arrumação por género, estilo ou época. Enfim, uma espécie de 'jukebox' de música variada, no erróneo pressuposto de que assim se corresponde simultaneamente a todas as sensibilidades, mas que, em boa verdade, acaba por não satisfazer plenamente ninguém. Não cativa nem proporciona efectivo enriquecimento a quem deseje cultivar-se na música erudita (pois falta a contextualização histórica e estética) e defrauda de sobremaneira os públicos mais selectos e diferenciados. Porque é de públicos que verdadeiramente falamos e não de uma massa amorfa disposta a papar tudo o que sai na rifa.
Mas se a Antena 2 é obrigada a viver (ou a sobreviver, melhor dizendo) num deplorável estado de indigência e miséria, a irmã Antena 1, ainda que de estrato cultural inferior, continua pródiga e a alimentar uma vasta clientela de colaboradores externos, muitos deles perfeitamente dispensáveis. E, como se isso não bastasse, também não tem faltado dinheiro para abundantes viagens ao estrangeiro – não só de jornalistas como de locutores –, a pretexto de tudo e de nada. Veneza, Paris, Nova York, Timor...
«Quem disse que a contribuição do audiovisual serve para proporcionar aos cidadãos cultura e saber? Isso são romantismos de idealistas! Preciso é entreter e distrair o povo! Com circo... mas sem pão porque esse é para nós!»

30 setembro 2013

Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)



Hoje [17-Out-2004], dia em que António Ramos Rosa completa oitenta anos de idade, cumpre saudar a sua intervenção poética global, ou seja, quer no plano da criação poética, quer no da reflexão sobre a poesia, como porventura a mais marcante e plena de consequências de toda a segunda metade do século XX português.
Desde, pelo menos, aquele longínquo Outono de 1951, em que, no primeiro número da revista Árvore, da qual foi o mais proeminente director e colaborador, publicou um poema tão carismático e influente como Viagem através duma nebulosa e, entre outras, recensões críticas a obras tão importantes como Coral de Sophia de Mello Breyner ou Corpo Visível de Mário Cesariny, a presença de Ramos Rosa no quadro diverso e complexo da nossa poesia contemporânea não parou de impor-se como uma voz poderosa e inconfundível, capaz de levantar um mundo poético e ensaístico que se tem vindo a fixar no extraordinário monumento que é a sua obra, composta já por mais de setenta volumes.
Podemos dizer que, com maior insistência e mais cedo que qualquer outro crítico de poesia (e a sua acção neste campo está sólida e coerentemente ligada à sua actividade como poeta), foi António Ramos Rosa quem, sobretudo, lutou pela aceitação (por parte de leitores que, na década de 50 e no começo da de 60, eram ainda bastante reticentes, até mesmo, por vezes, em relação a Pessoa) de uma linguagem poética nova, em ruptura com os vários tradicionalismos líricos (mas não com a tradição lírica, como já o demonstrava, por exemplo, a própria poesia ortónima de Pessoa) e frequentemente apodada de incompreensível, arbitrária, incongruente.
O autor de Poesia, Liberdade Livre, que chegou a envolver-se em polémicas a este respeito, já no ensaio A Poesia é um diálogo com o Universo, saído, em 1953, no quarto e último número de Árvore, defendia que o "hermetismo, que se combate superficialmente, é muitas vezes o nome que se dá à densidade, à riqueza, à liberdade, à imaginação, ao especificamente poético". Este seu ponto de vista manteve-se, naturalmente, até ao presente e ainda recentemente, no livro A Parede Azul, e particularmente em ensaios, nele incluídos, como "A alteridade da poesia moderna", "O princípio criador", "A palavra subversiva" ou "Perspectivas da poesia portuguesa contemporânea", Ramos Rosa reformula uma idêntica concepção do poema como corpo autónomo ("A poesia moderna erige a sua total autonomia em relação ao real. Esta autonomia implica a ruptura da causalidade realista."), com o seu sentido próprio, incoincidente, muitas vezes, com o que se supõe ser o sentido de um certo real: "A palavra (poética) subverte, instaura. Um mundo em que se formula uma palavra nova é um mundo que perde as suas articulações habituais." Este entendimento do fenómeno poético determina também, obviamente, a função e a atitude do crítico: "Interpretar já não é reduzir o poema a um sentido anterior mas procurar o que o poema inaugura, sabendo de antemão que qualquer reinscrição teórica é deveras impossível. Deste modo o 'comentário' deve evitar traduzir as figuras ou as imagens obscuras porque assim as reduziria a simples alegorias a fim de as tornar claras e compreensíveis. É que a palavra poética não é da ordem do discurso. Ela atinge esse ponto em que o discurso tende a abolir-se e a transmudar-se."
Em Herberto Helder encontra Ramos Rosa o caso ideal que lhe permite ilustrar o seu conceito de poesia como liberdade absoluta, como invenção verbal surpreendente mas nunca gratuita: "Mesmo nos poemas mais obscuros e mais densos, a poesia de Herberto Helder nunca é opaca. A sua efectiva obscuridade é luminosa e, não raro, incandescente. A sua luz, aliás enigmática, é a luz de um poeta que não cessa de acorrer ao enigma da criação poética e da matéria a que ela se liga, realizando assim uma fulgurante osmose verbal com o que é vertiginosamente incompreensível."
Em António Ramos Rosa, todavia, a situação é algo diferente, sobretudo na sua fase inicial. A "aventura poética" tem raízes num contexto histórico e social de que muitos dos seus primeiros poemas são a denúncia feroz e o implacável diagnóstico. O boi da paciência ou Telegrama sem classificação especial (como diz Eduardo Lourenço, "com a fulgurante síntese de uma universal e portuguesa situação – 'Estamos nus e gramamos'"), por exemplo, são pontos de intersecção privilegiados das mais fortes e densas linhas provenientes quer do neo-realismo, quer do surrealismo, o que, de resto, não deixa de ser igualmente verdadeiro para certos textos dos outros dois poetas maiores, ao lado de Ramos Rosa, da década de 50, O'Neill e Cesariny.
O certo é que o conceito de poesia como uma potenciação da intensidade do uso da palavra, como uma "voz inicial", com peso e energia próprios, estava já lá, nesses poemas do começo, em 1958 recolhidos no pequeno caderno intitulado O Grito Claro, significativamente o número I da colecção A Palavra, em que sairia, entre outras, a obra de estreia de Luiza Neto Jorge, A Noite Vertebrada.
Para a minha geração, António Ramos Rosa representou, se não propriamente a abertura, a consolidação de uma via, paralela, sem dúvida, a algumas outras igualmente decisivas, mas especialmente consciente das exigências da inovação e da modernidade.

GASTÃO CRUZ, poeta e crítico (in "Público", 17-Out-2004)


A melhor forma de homenagear um poeta é – e sempre será – o cultivo e a divulgação da obra que nos legou. A pretexto do falecimento de António Ramos Rosa (vide a biografia e bibliografia no sítio da DGLB e o artigo do jornal "Público"), o blogue "A Nossa Rádio" apresenta uma série de poemas seus – uns recitados, outros cantados.
Não podia a Antena 1 ter transmitido, se não a totalidade, a maioria destes espécimes (bem como outros existentes no arquivo histórico da RDP) ao longo do dia em que a triste notícia foi veiculada e nos dias seguintes? Podia, com certeza, se Rui Pêgo fosse uma pessoa minimamente ciente das obrigações culturais da rádio que lhe puseram nas mãos. Lamentavelmente, e para prejuízo dos ouvintes e da cultura portuguesa, a negligência, a inércia e o marasmo voltaram a cantar vitória.



UM CAMINHO DE PALAVRAS



Poema de António Ramos Rosa (in "Sobre o Rosto da Terra", Covilhã: Livraria Nacional, col. Pedras Brancas, 1961; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 67)
Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")


Sem dizer o fogo — vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso — duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que eu sei já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

                   Caminho um caminho de palavras
                   (porque me deram o sol)
                   e por esse caminho me ligo ao sol
                   e pelo sol me ligo a mim

                   E porque a noite não tem limites
                   alargo o dia e faço-me dia
                   e faço-me sol porque o sol existe

                   Mas a noite existe
                   e a palavra sabe-o.



POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO



Poema de António Ramos Rosa (in "O Grito Claro", Faro: Ed. do Autor, col. A Palavra, 1958; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 30-31)
Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só



UM MUNDO



Poema de António Ramos Rosa (in "Acordes", Lisboa: Quetzal Editores, 1989 – pág. 67) 
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



O que escrevo por vezes



Poema: António Ramos Rosa (in "A Intacta Ferida", Lisboa: Relógio d'Água, 1991)
Música: António Pinho Vargas (ciclo "Nove Canções de António Ramos Rosa")
Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD "António Pinho Vargas: Versos", Strauss, 2001)


O que escrevo por vezes
é como se um sopro de sombra
no meu corpo abrisse
o espaço de um silêncio
um espaço intacto e puro



Entre o Deserto e o Deserto



Poema: António Ramos Rosa, tendo como referente "Daqui deste deserto em que persisto" [texto >> abaixo]
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Não Sou Daqui", Vachier & Associados, 2006) 




Entre o deserto e o deserto
numa viagem sem destino
procuras a água e o vinho
nenhuma pista nenhum signo

vivo de pouco ou de nada
sem nunca ter um lugar
sempre a insónia mais branca
e a sede de um novo ar

escurece já o olvido
e é noite quando amanhece
nenhum barco traz aquela
por quem a escrita se tece

talvez esteja perdido
como um náufrago na areia
talvez me reste a canção
e o vento que desenleia

Entre o deserto e o deserto
Entre o deserto e o deserto


* [Créditos gerais do disco:]
Amélia Muge – voz, voz de sala, coros e viola braguesa
António José Martins – darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador
Carlos Mil-Homens – cajón
Catarina Anacleto – violoncelo
Filipe Raposo – piano acústico, piano Rhodes e acordeão
José Manuel David – flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala
José Peixoto – guitarra acústica sem trastos
Yuri Daniel – contrabaixo e baixo eléctrico
Arranjos – António José Martins, José Manuel David e Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa)
Direcção musical – António José Martins
Produção – Amélia Muge e António José Martins
Gravado por Samuel Henriques no Estúdio MDL, Paço d'Arcos (voz, piano, baixo, contrabaixo e cajón)
e por António José Martins no estúdio da ETIC (Escola de Tecnologias Inovação e Criação), Lisboa, e no AJM Estúdio, Sobreda
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e António José Martins, no Estúdio Pé-de-Meia



DAQUI DESTE DESERTO EM QUE PERSISTO

(António Ramos Rosa, in "A Nuvem sobre a Página", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 160-162)


Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra

escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
                                       uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras

Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto

Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto

As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito

Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único do abismo branco

Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total

Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada



Não sou daqui, mas...



Letra: Amélia Muge, inspirada no poema de António Ramos Rosa "Não podemos dizer" [texto >> abaixo]
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Não Sou Daqui", Vachier & Associados, 2006) 




Não sou daqui
Mas gosto daqui estar
De aprender no lugar do outro
A me encontrar
De poder um lugar achar
No estar aqui
Desejar o lugar de todos neste lugar
E saber no lugar daqui
O meu lugar
Não sou daqui

Não sou daqui
Mas se aqui estou
É porque para mim
Também há aqui lugar
E porque há um eu
Que aqui se foi achar
E porque um teu
Gostou de mim
De me encontrar

Não sou daqui
Mas gosto daqui estar
De aprender no lugar do outro
A me encontrar
De poder um lugar achar
No estar aqui
Desejar o lugar de todos neste lugar
E saber no lugar daqui
O meu lugar
Não sou daqui

Não sou daqui
Mas se aqui estou
É porque para mim
Também há aqui lugar
E porque há um eu
Que aqui se foi achar
E porque um teu
Gostou de mim
De me encontrar


* [Créditos gerais do disco:]
Amélia Muge – voz, voz de sala, coros e viola braguesa
António José Martins – darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador
Carlos Mil-Homens – cajón
Catarina Anacleto – violoncelo
Filipe Raposo – piano acústico, piano Rhodes e acordeão
José Manuel David – flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala
José Peixoto – guitarra acústica sem trastos
Yuri Daniel – contrabaixo e baixo eléctrico
Arranjos – António José Martins, José Manuel David e Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa)
Direcção musical – António José Martins
Produção – Amélia Muge e António José Martins
Gravado por Samuel Henriques no Estúdio MDL, Paço d'Arcos (voz, piano, baixo, contrabaixo e cajón)
e por António José Martins no estúdio da ETIC (Escola de Tecnologias Inovação e Criação), Lisboa, e no AJM Estúdio, Sobreda
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e António José Martins, no Estúdio Pé-de-Meia



Não podemos dizer

(António Ramos Rosa, in "À Mesa do Vento seguido de As Espirais de Dioniso", Guimarães: Pedra Formosa, 1997; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 377-378)


Não podemos dizer
Cheguei aqui e inverter a perspectiva
olhando para trás
O solo nos solicita
e a sede de ser nos move para a frente
E é então que talvez reconheçamos o que fomos
entre os fragmentos dispersos da nossa identidade

Nós queremos sobretudo a relação mais viva
ainda quando sabemos que ela é incerta ou ilusória
As palavras desviam-se do que as excede ou as quer reter
mas elas querem corresponder com o seu lume frágil
ao que não conhecem mas pressentem para além das fronteiras silenciosas

Talvez toda a relação seja ilusória
mas poderá ser mais verdadeira do que a separação
Só a palavra adolescente não hesita embora trema
e caminhe nua sobre a linha da sua sombra
Tal é a maturidade do juvenil ardor
que abre o caminho que conduz às grandes águas

Quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta
O espaço é de ninguém o espaço é ninguém
e de um só mas de um só em todos nós
O cantor modula a voz de mil vozes
O que no poema se move é um território de solidão comum
atraído pelo íman da unidade latente e latejante

Temos de ir ao extremo de uma solitária linha
mas é para voltarmos aqui ao ponto de partida
que já será outro começo e terá o timbre unânime das vozes
embora coadas pela espessura roxa da solidão
Estaremos então entre duas margens entre o princípio e o fim
e seremos mais do que fomos o que poderemos ser
ainda que não venhamos a ser senão o movimento de uma sombra



Passagem



Poema: António Ramos Rosa (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Diogo Clemente
Intérprete: Ana Laíns* (in CD "Sentidos", Difference, 2006)


[instrumental]

É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo este poema
Já onde estou agora e nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.
É onde escuto agora a própria casa.

É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.
É onde pouso a mão na terra calma.

É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e oiço o seu passar.
É onde escuto agora a própria casa.

[instrumental]

É onde escuto agora a própria casa.


* [Créditos gerais do disco:]
Guitarras acústicas – Diogo Clemente
Viola baixo – Fernando Araújo
Guitarra portuguesa – Bernardo Couto 
Acordeão, piano e melódica – Ruben Alves
Violoncelo – Ricardo Mota
Percussão – Vicky (Hugo Marques)
Direcção musical, arranjos e produção – Diogo Clemente
Técnico de som – Fernando Nunes
Gravado, misturado e masterizado nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro e Fevereiro de 2006



PASSAGEM

(António Ramos Rosa, in "Voz Inicial", Lisboa: Livraria Moraes, col. Círculo de Poesia, 1960; "Não Posso Adiar o Coração", vol. I da Obra Poética, Lisboa: Plátano Editora, col. Sagitário, 1974)


É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo este poema.
Já onde estou agora nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.

É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.

É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e sou no seu passar.



Há um ofegar de terra na garganta



Poema de António Ramos Rosa (in "Ciclo do Cavalo", Porto: Limiar, col. Os Olhos e a Memória, 1975 – pág. 36) 
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


Há um ofegar de terra na garganta,
há um feixe de ervas que perfuma a casa.
O ar é solidez, o caminho é de pedra.
Procuro a água funda e negra de bandeiras.

Encho a cabeça de terra, quero respirar mais alto,
quero ser o pó de pedra, o poço esverdeado,
o tempo é o de um jardim
em que a criança encontra as formigas vermelhas.

Vou até ao fim do muro buscar um nome escuro:
é o da noite próxima, é o meu próprio nome?


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Não tenho lágrimas



Poema: António Ramos Rosa (in "A Intacta Ferida", Lisboa: Relógio d'Água, 1991)
Música: António Pinho Vargas (ciclo "Nove Canções de António Ramos Rosa")
Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD "António Pinho Vargas: Versos", Strauss, 2001)


Não tenho lágrimas 
estou mais baixo 
junto à cal 

Vejo o solo extinto 
não oiço ninguém 
e não regresso 

Adormecer talvez 
junto a uma estaca 
com uma pequena pedra 
sobre as pálpebras



Não era um barco



Poema: António Ramos Rosa (in "A Intacta Ferida", Lisboa: Relógio d'Água, 1991)
Música: António Pinho Vargas (ciclo "Nove Canções de António Ramos Rosa")
Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD "António Pinho Vargas: Versos", Strauss, 2001)


Não era um barco 
nem uma guitarra 
era uma pedra 
que girava na sua fronte

Anoitecera 
alguém cantava sobre um muro
a pedra 
girava. 



A PEDRA



Poema de António Ramos Rosa (in "Ocupação do Espaço", Lisboa: Portugália Editora, 1963; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 79) 
Recitado por Luísa Cruz* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Não posso adiar o coração



Poema: António Ramos Rosa (adaptado de "Não posso adiar o amor para outro século") [texto integral >> abaixo]
Música: Luís Varatojo e Dora Fidalgo
Intérprete: Linha da Frente* (in CD "Linha da Frente", Mercury/Universal, 2002)




Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar este abraço

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar este abraço

Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração

[instrumental / vocalizos]

Não posso adiar o amor para outro século
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar 
não posso adiar 
não posso adiar
não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar 
para outro século a minha vida
nem o meu amor

Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração
Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o coração
Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor
Não, não posso adiar o amor
Não posso adiar o coração


* Dora Fidalgo – voz principal
Luís Varatojo e João Aguardela – todos os instrumentos e programações
Músicos adicionais:
Samuel Palitos – bateria
João Cabrita – saxofone
Isabel Rato – teclados
João Marques – trompete
Janelo da Costa – voz
Produção – Luís Varatojo e João Aguardela
Gravado e misturado por Luís Varatojo e António Bragança, no Pérola Estúdio 1
Masterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Não posso adiar o amor para outro século



Poema de António Ramos Rosa (in "Viagem através duma Nebulosa", Lisboa: Edições Ática, 1960; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 42)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "No Palco da Poesia", Ovação, 1995, reed. Ovação, 2000)


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


* [Créditos gerais do disco:]
Produção musical – Zé Nabo
Músicas – Alexandre Manaia, José Moz Carrapa e José Nabo
Arranjos – Manuel Paulo
Guitarra – Raimundo Seixas
Viola – Carlos Manuel



Quem bate a uma porta de folhas na noite



Poema de António Ramos Rosa (in "Nos Seus Olhos de Silêncio", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970; "Respirar a Sombra Viva", vol. III da Obra Poética, Lisboa: Plátano Editora, col. Sagitário, 1975)
Recitado por Mário Viegas* (in LP/CD "Poemas de Bibe: grande poesia portuguesa escolhida para os mais pequenos", UPAV, 1990; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 10 – "Poemas de Bibe", Público, 2006)




Quem bate a uma porta de folhas na noite
uma porta de folhas na noite
Quem toca a dura casca do teu nome na noite
a uma porta de folhas

Uma porta de folhas uma porta
Quem bate a essa porta de folhas
Quem bate a essa porta de folhas na noite
Quem bate a essa porta sou eu


* Produção – José Mário Branco e António José Martins 
Gravado no Angel Studio, Lisboa
Técnico de som – José Manuel Fortes



SEM SEGREDO ALGUM



Poema de António Ramos Rosa (in "Volante Verde", Lisboa: Moraes Editores, col. Círculo de Poesia, 1986) 
Recitado por Luísa Cruz* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


Rodeio-te de nomes, água, fogo, sombra,
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.

A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.

O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



AMOR DA PALAVRA, AMOR DO CORPO 



Poema de António Ramos Rosa (in "Nos Seus Olhos de Silêncio", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 116)
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey", vol. I, Edere, 2001)


A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.


* Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato - Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro



AQUI MEREÇO-TE



Poema de António Ramos Rosa (in "A Construção do Corpo", Lisboa: Portugália Editora, 1969)
Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")


O sabor do pão e da terra 
e uma luva de orvalho na mão ligeira. 
A flor fresca que respiro é branca. 
E corto o ar com um pão enquanto caminho entre searas. 
Pertenço em cada movimento a esta terra. 
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras. 
Sorvo o silêncio visível entre as árvores. 
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono. 
Sob as pálpebras transparentes deste dia 
o ar é o suspiro dos próprios lábios. 
Amar aqui é amar no mar, 
mas com a resistência das paredes da terra.

A mão flui liberta tão livre como o olhar. 
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio 
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas, 
ao fogo esparso que alastra ao horizonte. 
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra, 
o leve martelar das línguas de água, 
as feridas da seiva, o estalar das crostas, 
murmúrio do ar e do fogo sobre a terra, 
incessante alimento que percorre o meu corpo. 
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio 
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais, 
os alimentos puros, 
as espessas e nutritivas paredes do sono, 
o teu corpo com todo o vagar da sua massa, 
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.

Ao flexível volante trabalhado pelas seivas 
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte. 
Uma saúde nova vai nascer destes ombros. 
A lâmpada respira ao ritmo da terra. 
Sei os caminhos da água pelas veredas, 
as mãos das ervas finas embriagadas de ar, 
o silêncio donde se ergue a torre do canto.

Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te. 
É este o reino de insectos e de jogos, 
das carícias que sabem a uma sede feliz. 
Aqui entre o poço e o muro, 
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo: 
uma infância inextinguível se alimenta 
de uma fábula que renasce em todas as idades. 
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar 
com seu brilho sedoso de erva fina 
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte. 
É aqui o eterno recanto onde a água diz 
a pura praia da infância. 
Aqui bebe e bebe longamente 
o hálito da tristeza no silêncio da vida, 
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce, 
da fundura do tempo, da lonjura permanente, 
aqui, bom dia, minha filha. 



TEU CORPO PRINCIPIA



Poema de António Ramos Rosa (in "Estou Vivo e Escrevo Sol", Lisboa: Editora Ulisseia, 1966)
Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")


Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

Ó maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

Ó vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz. 



DA GRANDE PÁGINA ABERTA DO TEU CORPO



Poema de António Ramos Rosa (in "Nos Seus Olhos de Silêncio", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 117)
Recitado por José-António Moreira (2006) (in "Sons da Escrita")




Da grande página aberta do teu corpo
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara

Pela janela vejo a pequenina mão
de um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol

Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor 



Viste o cavalo varado a uma varanda?



Poema de António Ramos Rosa (in "Ciclo do Cavalo", Porto: Limiar, col. Os Olhos e a Memória, 1975 – pág. 21; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 133)
Recitado por Manuel Alegre* (in CD "Vozes Poéticas da Lusofonia por Timor: Festa da Língua Portuguesa", Gravisom, 1999)


Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.

Do outro lado da margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.

Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força

e tudo em ti jazia na noite do cavalo.


* Gravado nos estúdios da RDP, Lisboa, a 22 de Junho de 1999
Produção digital – José M. Gouveia (RDP)
Masterização – João Oliveira, nos Estúdios Gravisom, Lisboa



O Que Vê o Meu Olhar



Letra: Popular (quadra) e Amélia Muge, inspirada no poema de António Ramos Rosa "Nada mais delicado do que o tecido do olhar" [texto >> abaixo]
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Não Sou Daqui", Vachier & Associados, 2006)




No alto daquele mar
Está uma pombinha branca;
Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.

[instrumental]

O que olha o meu olhar
Por fora disto que é ver
Como se deixa esconder
No que vê o coração
Pode não ser confusão
Pode ser só sensação
Vá lá a gente saber
Mas há sempre uma ilusão
Lá ao longe a flutuar
Entre espuma e hesitação
No alto daquele mar

No alto daquele mar
Está uma pombinha branca;
Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.
[bis]

E o mar ao dar à anca
Torna branco o movimento
E faz disto sentimento
Que se levanta do chão
Em rota de colisão
Com o olhar espião
Dele e do próprio momento
Em que voa a sedução
Que ao poisar diz que manca
E ao colo da criação
Está uma pombinha branca

Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.

No alto daquele mar
Está uma pombinha branca;
Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.

No torpor da madrugada
Todas as ondas são uma
Vemos todas e nenhuma
E toda a espuma é fusão
Irmã da própria ficção
Que transforma a emoção
Em breve gesto de espuma
E nesta desatenção
Esta morte alevantada
É um véu no som do não
Não é pomba, não é nada

No alto daquele mar
Está uma pombinha branca;
Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.
[bis]

E a cegueira se espanta
De ninguém lhe querer falar
E nem sequer p'ra ela olhar
Já que é dela a condição
De encontrar outra razão
P'ra iludir a solidão
E a vista não se calar
Em nenhuma situação
E só de ouvir ela canta
Que não há engano não
É o mar que se alevanta

No alto daquele mar
Está uma pombinha branca;
Não é pomba, não é nada:
É o mar que se alevanta.


* [Créditos gerais do disco:]
Amélia Muge – voz, voz de sala, coros e viola braguesa
António José Martins – darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador
Carlos Mil-Homens – cajón
Catarina Anacleto – violoncelo
Filipe Raposo – piano acústico, piano Rhodes e acordeão
José Manuel David – flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala
José Peixoto – guitarra acústica sem trastos
Yuri Daniel – contrabaixo e baixo eléctrico
Arranjos – António José Martins, José Manuel David e Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa)
Direcção musical – António José Martins
Produção – Amélia Muge e António José Martins
Gravado por Samuel Henriques no Estúdio MDL, Paço d'Arcos (voz, piano, baixo, contrabaixo e cajón)
e por António José Martins no estúdio da ETIC (Escola de Tecnologias Inovação e Criação), Lisboa, e no AJM Estúdio, Sobreda
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e António José Martins, no Estúdio Pé-de-Meia



Nada mais delicado do que o tecido do olhar

(António Ramos Rosa, in "Delta seguido de Pela Primeira Vez", Lisboa: Quetzal Editores, 1996; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 356)


Nada mais delicado do que o tecido do olhar
absoluta nascente do silêncio abóbada cristalina
Em inocência branca os olhos vêem a concreta limpidez
e a sua essência é como um levíssimo aroma rapidíssimo
Entre ser e não ser ondula esta alfombra transparente
cuja exactidão é terna e subtil potência breve
Uma cortesia do imponderável armistício do indizível
secreta graça da atenção e distracção do centro
Como uma lua entre sombras esquiva e confidente
ou como um cristal em movimento ou um nadador redondo
o olhar é um nascimento no permanente olvido
e como um navio equilibra a substância das coisas



NÓS SOMOS



Poema: António Ramos Rosa (in "Sobre o Rosto da Terra", Covilhã: Livraria Nacional, col. Pedras Brancas, 1961; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 72)
Música: Tiago Bettencourt
Intérprete: Tiago Bettencourt* com Dalila Carmo (in CD "Tiago na Toca e os Poetas", Metropolitana/EMI, 2011)




Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.


* Dalila Carmo – voz, coros
Tiago Bettencourt – guitarras, Fender Rhodes, coros
Produção executiva – Tiago Bettencourt e Paulo Ventura
Gravado na TOCA, por Tiago Bettencourt
Misturado por Artur David, no Lisboa Studio
Masterizado por Ars Lindberg, no Lisboa Studio

































Desenhos de António Ramos Rosa


Os olhos, os traços soltos em carícias leves,
murmuram o mundo, a sua dança, o seu clamor,
os seus aromas festivos,
e a lua, em seu rosto levíssimo flutua,
porque o sol é o astro, que em seu silêncio levita.

Na extremidade das flores, onde um veludo
precioso dormita,
a vida é o anoitecer deslumbrado.
Nos olhos de um Poeta, a dança do mundo,
os seus desenhos festivos acariciam a luz,
os seus bailados.
Nos jardins do seu nome, as palavras
resplandecem.

Nos ramos do silêncio, um pássaro pousou,
ainda há pouco,
nas praias obscuras, em suas fúlgidas areias,
o Poeta, em seus olhos de silêncio se banhou,
inebriado de canto e púrpura

e os seus traços, acompanhando os acordes
misteriosos, reinventaram os ritmos,
a criação,

              sobre membranas fluidas,
                                                   recamadas de vida.

Maria do Sameiro Barroso ("Poema com desenhos de António Ramos Rosa", in "António Ramos Rosa: Imagens do Caminho das Palavras e dos Afectos: Fotobiografia", de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005)