«No início era o Verbo... Ou a melodia? E a palavra nasce do cante, ou é o cante que ganha asas e faz nascer as palavras? As Vozes que dão corpo a estes textos cantados são reveladoras do sentir, transportam poemas dando-lhes suporte emocional e expressivo. Como se tudo se tivesse de fazer de novo, reinventando num ciclo interminável o desejo de mudança, a procura do amor, a certeza dos afectos, a memória dos lugares e dos Deuses. Para que esta liturgia se cumpra há que cuidar dos estilos, encontrar a colocação vocal adequada a cada canção, trabalhar muito até se chegar a uma "escrita no tempo" celebrada de cada vez que se canta. E ouvir, experimentar e recriar o que noutros lugares cristalizou em modos de cantar. Porque só quando sabemos ouvir os outros somos capazes de nos entender a nós mesmos.» (Domingos Morais, IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas / Univ. Nova de Lisboa, em Março de 2011)
Demudado em Tudo, de 4uatro ao Sul (CD, 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)
1. Entrai, Pastores, Entrai (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul) 2. O Tempo do Entrudo (Tradicional; adapt. José Barros) 3. Cantam as Filhas da Rosa (Tradicional; adapt. José Barros) 4. Vai Remando (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul) 5. Descante aos Noivos (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul) 6. Manazinha (Tradicional; adapt. José Barros) 7. La Me Brunetta (Tradicional – Córsega) 8. O Círculo que Leva a Lua (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul) 9. O Menino Está na Neve (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul) 10. O Altinho (Tradicional; adapt. José Barros) 11. Versu di Tirriola (Tradicional – Córsega) 12. Fui Dispor a Salsa Verde (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul) 13. Mariana Campaniça (Tradicional; adapt. José Barros) 14. Esta Noite de Janeiras (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul) 15. Mariana (Tradicional; adapt. 4uatro ao Sul) 16. Ilha dos Vidros (Tradicional; adapt. Pedro Mestre) 17. Kyrie (Tradicional – Córsega)
Temas tradicionais do Alentejo e da Córsega (faixas 7, 11 e 17).
4uatro ao Sul: José Barros – voz e viola campaniça José Manuel David – voz, tarota (faixa 2) e percussões (faixa 2) Pedro Mestre – voz e viola campaniça Rui Vaz – voz Grupo convidado: Rancho dos Cantadores de Vila Nova de São Bento, Serpa – coro (faixa 2)
Produção executiva – José Barros Gravado em Ourique, Vila Nova de São Bento (Serpa) e Estúdio da Ribeira (Sintra) Mistura e masterização – João Magalhães
Comungando de uma grande paixão pelo cante alentejano e da vontade de recriar, sem preconceitos ou pruridos inibidores, o cancioneiro da planície transtagana, quatro reputados músicos da área tradicional – José Barros (Navegante), José Manuel David (Gaiteiros de Lisboa), Pedro Mestre (Grupo Coral e Etnográfico "Os Cardadores"; Grupo de Violas Campaniças) e Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa) – resolveram encontrar-se para cantar, a quatro vozes, modas e cantigas, assim nascendo o grupo Cante Sul, depois rebaptizado de 4uatro ao Sul. De tão grata experiência surgiu muito naturalmente o desejo de gravar um disco, que veio a lume na Primavera de 2011 com o nome de "Demudado em Tudo" (título retirado de um verso da moda "O Tempo do Entrudo"). Constituem o alinhamento dezassete espécimes: catorze do Alentejo, uns mais ligados à tradição coral a cappella, outros ao modo de cantar solista com acompanhamento de uma ou duas violas campaniças; e três da ilha da Córsega (vide o alinhamento acima), que servem para mostrar o parentesco que liga as duas tradições vocais mediterrânicas. Não sem razão o etnógrafo corso Michel Giacometti, que calcorreou Portugal de lés-a-lés e a quem o país tanto deve, se apaixonou pela polifonia do Alentejo e muito especialmente pela praticada em Peroguarda, a tal ponto que escolheu aquela aldeia do concelho de Ferreira do Alentejo para a sua última morada (e a sua vontade foi cumprida). Pois "Demudado em Tudo" teve recentemente a ventura de ser o eleito para receber o Prémio José Afonso referente à colheita discográfica de 2011. Assim decidiu o júri formado por Olga Prats (pianista), Sérgio Azevedo (compositor), António Moreira (vereador da Cultura da Câmara Municipal da Amadora) e Vanda Santos (chefe da Divisão de Intervenção Cultural da mesma autarquia), ao considerar o álbum «uma revelação extraordinária, uma oportunidade rara de nos confrontarmos com a enorme riqueza do cante alentejano, membro de pleno direito da antiquíssima tradição das polifonias vocais da região mediterrânica, berço de civilizações.» E o comunicado acrescenta: «A abordagem séria e sem compromissos, o rigor da recolha e da interpretação, e a pura – quase comovente – beleza sonora deste disco mereceram, na opinião unânime do júri, a atribuição do prémio.» É de aplaudir a decisão e por três boas razões: primeira, porque não se repete o desvario registado em duas das três anteriores edições do Prémio José Afonso em que foram distinguidos discos estranhos à música de matriz portuguesa e sem qualquer afinidade com o legado estético do patrono cuja memória é suposto honrar-se; segunda, porque dá reconhecimento ao bom trabalho que, entre nós, se vem fazendo no domínio da recriação e reinvenção da música tradicional; e terceira, porque convida o público a descobrir ou a ouvir com outros ouvidos o canto alentejano, que será sempre Património da Humanidade, com ou sem classificação da UNESCO. Escusado será dizer que a adesão do público dependerá – e muito – da divulgação radiofónica. Aqui impõe-se uma pergunta: o que tem feito a estatal Antena 1 em prol do cante? Praticamente nada, se exceptuarmos a acção de Rafael Correia e de Armando Carvalhêda, respectivamente com o programa "Lugar ao Sul" e a rubrica "Cantos da Casa". Acção essa que, todavia, não obtém o desejável impacto, não por culpa dos dois eméritos realizadores, claro está, mas de quem manda na estação. Vejamos: o "Lugar ao Sul" foi criminosamente escondido num buraco negro (6:00 da madrugada de sábado) e os "Cantos da Casa" de tão exíguos que são (cerca de cinco minutos por dia, de segunda a sexta-feira), e tendo de abarcar toda a música tradicional portuguesa, não têm margem de manobra para muito mais. Importa, portanto, que a Antena 1, ao abrigo da missão de serviço público a que está obrigada e que é afinal a razão da sua existência, dê cabal e conveniente divulgação ao cante. E isso poderá ser feito não só criando um espaço reservado para o género (a exemplo do que existe para o fado) como dando-lhe visibilidade na 'playlist' que é, pela esmagadora preponderância que tem na grelha, a grande montra musical da estação. No caso concreto do CD "Demudado em Tudo", será aceitável que nem um – um sequer – dos dezassete temas figure na 'playlist'? O blogue "A Nossa Rádio" apresenta seis propostas, qualquer uma boa para seduzir os ouvidos menos habituados às tocantes sonoridades dos cantares alentejanos (a cappella ou com acompanhamento de violas campaniças).
O Tempo do Entrudo
Letra e música: Tradicional (Alentejo) Adaptação: José Barros Intérprete: 4uatro ao Sul* com o Rancho dos Cantadores de Vila Nova de São Bento (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)
O tempo do Entrudo É um tempo louco: Faz sair as velhas Fora dos "atoucos".
Não sei se é por ser As voltas do Entrudo, Acho o meu amor Demudado em tudo.
Demudado em tudo, Demudado em nada; Não sei se é por serem Voltas de Entruda(da).
Anda cá, Maria, Vem ver o teu Zé! Traz um chapéu novo, Trai-la-li-ló-lé.
Não sei se é por ser As voltas do Entrudo, Acho o meu amor Demudado em tudo.
Demudado em tudo, Demudado em nada; Não sei se é por serem Voltas de Entruda(da).
O meu lindo amor Merece, merecia Chapadas na cara Três vezes ao dia.
Não sei se é por ser As voltas do Entrudo, Acho o meu amor Demudado em tudo.
Demudado em tudo, Demudado em nada; Não sei se é por serem Voltas de Entruda(da).
[instrumental]
Amor, se não era De vontade tua, Porque é que me davas | bis Conversa na rua? |
Não sei se é por ser As voltas do Entrudo, Acho o meu amor Demudado em tudo.
Demudado em tudo, Demudado em nada; Não sei se é por serem | bis Voltas de Entruda(da). |
[instrumental]
Algum dia eu era, Agora já não, Da tua roseira | bis O melhor botão. |
Não sei se é por ser As voltas do Entrudo, Acho o meu amor Demudado em tudo.
Demudado em tudo, Demudado em nada; Não sei se é por serem | bis Voltas de Entruda(da). |
[instrumental]
Anda cá p'rá'qui, Não chores jamais, Que eu ainda aqui estou | bis Para ouvir teus ais. |
Não sei se é por ser As voltas do Entrudo, Acho o meu amor Demudado em tudo.
Demudado em tudo, Demudado em nada; Não sei se é por serem | bis Voltas de Entruda(da). |
* José Barros – voz José Manuel David – voz, tarota e percussões Pedro Mestre – voz Rui Vaz – voz Grupo convidado: Rancho dos Cantadores de Vila Nova de São Bento, Serpa – coro
Vai Remando
Letra e música: Tradicional (Alentejo) Adaptação: 4uatro ao Sul Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)
Ó água, que vais correndo Mansamente e vagarosa, Passa lá ao meu jardim, Rega-me lá uma rosa!
Vai remando, vai remando, Lindo amor o seu barquinho; Se fores ao rio abaixo Eu cá ficarei sozinho.
Eu cá ficarei sozinho, Ficarei por ti chorando; Vai amor no seu barquinho, Vai remando, vai remando.
Mocidade, mocidade, Mocidade tudo tem; Em chegando a certa idade Até perde o cantar bem.
Vai remando, vai remando, Lindo amor o seu barquinho; Se fores ao rio abaixo Eu cá ficarei sozinho.
Eu cá ficarei sozinho, Ficarei por ti chorando; Vai amor no seu barquinho, Vai remando, vai remando.
* José Barros – voz José Manuel David – voz Pedro Mestre – voz Rui Vaz – voz
Manazinha
Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo) Adaptação: José Barros Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)
[instrumental]
Muito gosto eu de ouvir Uma bonita conversa. Ó minha manazinha, O nosso amor já morreu; Ó minha manazinha, Quem to diz sou eu.
Inda que eu vagar não tenha, Logo se me acaba a pressa. Ó minha manazinha, O nosso amor já morreu; Ó minha manazinha, Quem to diz sou eu.
O tempo da mocidade Nunca devia acabar. Ó minha manazinha, O nosso amor já morreu; Ó minha manazinha, Quem to diz sou eu.
É um tempo tão bonito, Todos o querem deixar. Ó minha manazinha, O nosso amor já morreu; Ó minha manazinha, Quem to diz sou eu.
Ai, eu agora quando eu tinha Dezasseis anos de idade. Ó minha manazinha, O nosso amor já morreu; Ó minha manazinha, Quem to diz sou eu.
Ai, toda vida chorarei Nossa bela mocidade. Ó minha manazinha O nosso amor já morreu; Ó minha manazinha Quem to diz sou eu.
[instrumental]
Ó minha manazinha, O nosso amor já morreu; Ó minha manazinha, Quem to diz sou eu.
* José Barros – voz e viola campaniça José Manuel David – voz Pedro Mestre – voz e viola campaniça Rui Vaz – voz
O Altinho
Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo) Adaptação: José Barros Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)
[instrumental]
Quero ir para o altinho, Que eu daqui não vejo bem; Quero ir ver do meu amor Se ele adora mais alguém.
Se ele adora mais alguém, Se ele me ama a mim sozinho; Que eu daqui não vejo bem, Quero ir para o altinho.
A alegria duma mãe É ter a filha solteira; Casa a filha, vai-se embora, Vai-se a rosa da roseira.
Quero ir para o altinho, Que eu daqui não vejo bem; Quero ir ver do meu amor Se ele adora mais alguém.
Se ele adora mais alguém, Se ele me ama a mim sozinho; Que eu daqui não vejo bem, Quero ir para o altinho.
[instrumental]
Quero ir para o altinho, Que eu daqui não vejo bem; Quero ir ver do meu amor Se ele adora mais alguém.
Se ele adora mais alguém, Se ele me ama a mim sozinho; Que eu daqui não vejo bem, Quero ir para o altinho.
* José Barros – voz e viola campaniça José Manuel David – voz Pedro Mestre – voz e viola campaniça Rui Vaz – voz
Mariana Campaniça
Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo) Adaptação: José Barros Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)
[instrumental]
A Mariana Campaniça Que lindos olhos que tem; Do Monte da Légua às Pias, À missa não vai ninguém.
À missa não vai ninguém, À missa já ninguém vai; A Mariana Campaniça, Coitadinha, não tem pai.
Coitadinha, não tem pai, Coitadinha, mãe não tem; A Mariana Campaniça Que lindos olhos que tem.
É tão longe do céu à terra | bis Como é da morte à vida; | Do meu coração ao teu | bis É uma estrada seguida. |
A Mariana Campaniça Que lindos olhos que tem; Do Monte da Légua às Pias, À missa não vai ninguém.
À missa não vai ninguém, À missa já ninguém vai; A Mariana Campaniça, Coitadinha, não tem pai.
Coitadinha, não tem pai, Coitadinha, mãe não tem; A Mariana Campaniça Que lindos olhos que tem.
[instrumental]
A Mariana Campaniça Que lindos olhos que tem; Do Monte da Légua às Pias, À missa não vai ninguém.
À missa não vai ninguém, À missa já ninguém vai; A Mariana Campaniça, Coitadinha, não tem pai.
Coitadinha, não tem pai, Coitadinha, mãe não tem; A Mariana Campaniça Que lindos olhos que tem.
* José Barros – voz e viola campaniça José Manuel David – voz Pedro Mestre – voz e viola campaniça Rui Vaz – voz
Ilha dos Vidros
Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo) Adaptação: Pedro Mestre Intérprete: 4uatro ao Sul* (in CD "Demudado em Tudo", 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011)
[instrumental]
Venho da ilha dos vidros, Da praia dos diamantes; Ando no mundo perdido Pelos teus olhos brilhantes.
Pelos teus olhos brilhantes, Pelo teu rosto de prata; Ter amores não me custa, Deixá-los é que me mata.
Os olhos do meu amor | bis São duas continhas pretas; | São criados ao relento | bis No jardim das violetas. |
Venho da ilha dos vidros, Da praia dos diamantes; Ando no mundo perdido Pelos teus olhos brilhantes.
Pelos teus olhos brilhantes, Pelo teu rosto de prata; Ter amores não me custa, Deixá-los é que me mata.
A paixão me há-de matar, | bis É o mais certo que eu tenho; | Não me há-de deixar gozar | bis O amor que eu faço empenho. |
Venho da ilha dos vidros, Da praia dos diamantes; Ando no mundo perdido Pelos teus olhos brilhantes.
Pelos teus olhos brilhantes, Pelo teu rosto de prata; Ter amores não me custa, Deixá-los é que me mata.
[instrumental]
Venho da ilha dos vidros, Da praia dos diamantes; Ando no mundo perdido Pelos teus olhos brilhantes.
Pelos teus olhos brilhantes, Pelo teu rosto de prata; Ter amores não me custa, Deixá-los é que me mata.
Perante a imposição de Alberto da Ponte (presidente do conselho de administração da Rádio e Televisão de Portugal) de reduzir ainda mais o orçamento do sector rádio, António Luís Marinho (director-geral de conteúdos) e Rui Pêgo (director de programas das Antenas 1, 2 e 3), não estiveram com meias medidas e voltaram a escolher a Antena 2 para arcar com o sacrifício. Assim, e prosseguindo a operação de aniquilação realizada no início do ano (cf. "Antena 2: uma pobreza de rádio"), a 'rentrée' ficou tristemente assinalada com a eliminação de quase todos os programas de autor que restavam, dos quais destaco como perdas mais significativas: "Em Sintonia com António Cartaxo", "Matrizes" (de Rui Vieira Nery) e "Véu Diáfano" (de Pedro Amaral). Foi, no entanto, poupada – pasme-se! – a verruga que dá pelo nome de "Fuga da Arte". E também não foi extirpado o quisto chamado "Quinta Essência". Não que eu seja contra a existência de programas de entrevista na Antena 2, se feitos com profissionalismo e proficiência, qualidades arredias ao pretenso entrevistador, que tão insuportavelmente leviano e ignorante em múltiplos assuntos se tem revelado (em matéria de entrevistas, prefiro mil vezes as conduzidas por Luís Caetano no seu imperdível "A Força das Coisas"). Será que para o consórcio Marinho & Pêgo as verrugas e os quistos são mais importantes do que os músculos? Pois é! A Antena 2 já praticamente não tem massa muscular, reduzida que está a pele e osso (pele verrugosa e quistosa cobrindo um esqueleto deformado por raquitismo e osteoporose), de tão maltratada e martirizada que tem sido às mãos de indivíduos desprovidos de formação, sensibilidade e vocação para lidarem com uma rádio de cultura. A bem dizer, a Antena 2 é hoje pouco mais que uma vulgar estação toca-discos, ainda com a agravante da música que é debitada não ter qualquer arrumação por género, estilo ou época. Enfim, uma espécie de 'jukebox' de música variada, no erróneo pressuposto de que assim se corresponde simultaneamente a todas as sensibilidades, mas que, em boa verdade, acaba por não satisfazer plenamente ninguém. Não cativa nem proporciona efectivo enriquecimento a quem deseje cultivar-se na música erudita (pois falta a contextualização histórica e estética) e defrauda de sobremaneira os públicos mais selectos e diferenciados. Porque é de públicos que verdadeiramente falamos e não de uma massa amorfa disposta a papar tudo o que sai na rifa. Mas se a Antena 2 é obrigada a viver (ou a sobreviver, melhor dizendo) num deplorável estado de indigência e miséria, a irmã Antena 1, ainda que de estrato cultural inferior, continua pródiga e a alimentar uma vasta clientela de colaboradores externos, muitos deles perfeitamente dispensáveis. E, como se isso não bastasse, também não tem faltado dinheiro para abundantes viagens ao estrangeiro – não só de jornalistas como de locutores –, a pretexto de tudo e de nada. Veneza, Paris, Nova York, Timor... «Quem disse que a contribuição do audiovisual serve para proporcionar aos cidadãos cultura e saber? Isso são romantismos de idealistas! Preciso é entreter e distrair o povo! Com circo... mas sem pão porque esse é para nós!»
Hoje [17-Out-2004], dia em que António Ramos Rosa
completa oitenta anos de idade, cumpre saudar a sua intervenção poética global,
ou seja, quer no plano da criação poética, quer no da reflexão sobre a poesia,
como porventura a mais marcante e plena de consequências de toda a segunda
metade do século XX português. Desde, pelo menos, aquele longínquo Outono de 1951, em
que, no primeiro número da revista Árvore,
da qual foi o mais proeminente director e colaborador, publicou um poema tão
carismático e influente como Viagem
através duma nebulosa e, entre outras, recensões críticas a obras tão importantes como Coral de Sophia de Mello Breyner ou Corpo Visível de Mário Cesariny, a
presença de Ramos Rosa no quadro diverso e complexo da nossa poesia
contemporânea não parou de impor-se como uma voz poderosa e inconfundível,
capaz de levantar um mundo poético e ensaístico que se tem vindo a fixar no
extraordinário monumento que é a sua obra, composta já por mais de setenta
volumes. Podemos dizer
que, com maior insistência e mais cedo que qualquer outro crítico de poesia (e
a sua acção neste campo está sólida e coerentemente ligada à sua actividade
como poeta), foi António Ramos Rosa quem, sobretudo, lutou pela aceitação (por
parte de leitores que, na década de 50 e no começo da de 60, eram ainda
bastante reticentes, até mesmo, por vezes, em relação a Pessoa) de uma
linguagem poética nova, em ruptura com os vários tradicionalismos líricos (mas
não com a tradição lírica, como já o demonstrava, por exemplo, a própria poesia
ortónima de Pessoa) e frequentemente apodada de incompreensível, arbitrária,
incongruente. O autor de Poesia, Liberdade Livre, que chegou a
envolver-se em polémicas a este respeito, já no ensaio A Poesia é um diálogo com o Universo, saído, em 1953, no quarto e
último número de Árvore, defendia que
o "hermetismo, que se combate superficialmente, é muitas vezes o nome que
se dá à densidade, à riqueza, à liberdade, à imaginação, ao especificamente
poético". Este seu ponto de vista manteve-se, naturalmente, até ao
presente e ainda recentemente, no livro A
Parede Azul, e particularmente em ensaios, nele incluídos, como "A
alteridade da poesia moderna", "O princípio criador", "A
palavra subversiva" ou "Perspectivas da poesia portuguesa
contemporânea", Ramos Rosa reformula uma idêntica concepção do poema como
corpo autónomo ("A poesia moderna erige a sua total autonomia em relação
ao real. Esta autonomia implica a ruptura da causalidade realista."), com
o seu sentido próprio, incoincidente, muitas vezes, com o que se supõe ser o
sentido de um certo real: "A palavra (poética) subverte, instaura. Um
mundo em que se formula uma palavra nova é um mundo que perde as suas
articulações habituais." Este entendimento do fenómeno poético determina
também, obviamente, a função e a atitude do crítico: "Interpretar já não é
reduzir o poema a um sentido anterior mas procurar o que o poema inaugura,
sabendo de antemão que qualquer reinscrição teórica é deveras impossível. Deste
modo o 'comentário' deve evitar traduzir as figuras ou as imagens obscuras
porque assim as reduziria a simples alegorias a fim de as tornar claras e
compreensíveis. É que a palavra poética não é da ordem do discurso. Ela atinge
esse ponto em que o discurso tende a abolir-se e a transmudar-se." Em Herberto
Helder encontra Ramos Rosa o caso ideal que lhe permite ilustrar o seu conceito
de poesia como liberdade absoluta, como invenção verbal surpreendente mas nunca
gratuita: "Mesmo nos poemas mais obscuros e mais densos, a poesia de
Herberto Helder nunca é opaca. A sua efectiva obscuridade é luminosa e, não
raro, incandescente. A sua luz, aliás enigmática, é a luz de um poeta que não
cessa de acorrer ao enigma da criação poética e da matéria a que ela se liga,
realizando assim uma fulgurante osmose verbal com o que é vertiginosamente
incompreensível." Em António
Ramos Rosa, todavia, a situação é algo diferente, sobretudo na sua fase
inicial. A "aventura poética" tem raízes num contexto histórico e
social de que muitos dos seus primeiros poemas são a denúncia feroz e o
implacável diagnóstico. O boi da paciência
ou Telegrama sem classificação especial
(como diz Eduardo Lourenço, "com a fulgurante síntese de uma universal e
portuguesa situação – 'Estamos nus e gramamos'"), por exemplo, são pontos
de intersecção privilegiados das mais fortes e densas linhas provenientes quer
do neo-realismo, quer do surrealismo, o que, de resto, não deixa de ser
igualmente verdadeiro para certos textos dos outros dois poetas maiores, ao
lado de Ramos Rosa, da década de 50, O'Neill e Cesariny. O certo é que
o conceito de poesia como uma potenciação da intensidade do uso da palavra,
como uma "voz inicial", com peso e energia próprios, estava já lá,
nesses poemas do começo, em 1958 recolhidos no pequeno caderno intitulado O Grito Claro, significativamente o
número I da colecção A Palavra, em
que sairia, entre outras, a obra de estreia de Luiza Neto Jorge, A Noite Vertebrada. Para a minha
geração, António Ramos Rosa representou, se não propriamente a abertura, a
consolidação de uma via, paralela, sem dúvida, a algumas outras igualmente
decisivas, mas especialmente consciente das exigências da inovação e da
modernidade. GASTÃO CRUZ, poeta e crítico (in "Público",
17-Out-2004)
A melhor forma de homenagear um poeta é – e sempre será – o cultivo e a divulgação da obra que nos legou. A pretexto do falecimento de António Ramos Rosa (vide a biografia e bibliografia no sítio da DGLB e o artigo do jornal "Público"), o blogue "A Nossa Rádio" apresenta uma série de poemas seus – uns recitados, outros cantados. Não podia a Antena 1 ter transmitido, se não a totalidade, a maioria destes espécimes (bem como outros existentes no arquivo histórico da RDP) ao longo do dia em que a triste notícia foi veiculada e nos dias seguintes? Podia, com certeza, se Rui Pêgo fosse uma pessoa minimamente ciente das obrigações culturais da rádio que lhe puseram nas mãos. Lamentavelmente, e para prejuízo dos ouvintes e da cultura portuguesa, a negligência, a inércia e o marasmo voltaram a cantar vitória.
UM CAMINHO DE PALAVRAS
Poema de António Ramos Rosa (in "Sobre o Rosto da Terra", Covilhã: Livraria Nacional, col. Pedras Brancas, 1961; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 67) Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")
Sem dizer o fogo — vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso — duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que eu sei já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.
Caminho um caminho de palavras (porque me deram o sol) e por esse caminho me ligo ao sol e pelo sol me ligo a mim
E porque a noite não tem limites alargo o dia e faço-me dia e faço-me sol porque o sol existe
Mas a noite existe e a palavra sabe-o.
POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO
Poema de António Ramos Rosa (in "O Grito Claro", Faro: Ed. do Autor, col. A Palavra, 1958; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 30-31) Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")
A noite trocou-me os sonhos e as mãos dispersou-me os amigos tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo as casas engolem-nos sumimo-nos estou num quarto só num quarto só com os sonhos trocados com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado um funcionário triste a minha alma não acompanha a minha mão Débito e Crédito Débito e Crédito a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente e debitou-me na minha conta de empregado Sou um funcionário cansado dum dia exemplar Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
São as palavras cruzadas do meu sonho palavras soterradas na prisão da minha vida isto todas as noites do mundo numa só noite comprida num quarto só
UM MUNDO
Poema de António Ramos Rosa (in "Acordes", Lisboa: Quetzal Editores, 1989 – pág. 67) Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)
É um sonho ou talvez só uma pausa na penumbra. Esta massa obscura que ela revolve nas águas são estrelas. Entre aromas e cores, um barco de calcário prossegue uma viagem imóvel num jardim. Vejo a brancura entre os astros e os ramos. Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra e que tudo ascende sob um sopro silencioso. Nenhum sentido mas os signos amam-se e o brilho e o rumor formam um mundo.
* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz Coordenação editorial – Teresa Belo Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004 Supervisão de gravação – Vasco Pimentel
O que escrevo por vezes
Poema: António Ramos Rosa (in "A Intacta Ferida", Lisboa: Relógio d'Água, 1991) Música: António Pinho Vargas (ciclo "Nove Canções de António Ramos Rosa") Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD "António Pinho Vargas: Versos", Strauss, 2001)
O que escrevo por vezes é como se um sopro de sombra no meu corpo abrisse o espaço de um silêncio um espaço intacto e puro
Entre o Deserto e o Deserto
Poema: António Ramos Rosa, tendo como referente "Daqui deste deserto em que persisto" [texto >> abaixo] Música: Amélia Muge Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Não Sou Daqui", Vachier & Associados, 2006)
Entre o deserto e o deserto numa viagem sem destino procuras a água e o vinho nenhuma pista nenhum signo
vivo de pouco ou de nada sem nunca ter um lugar sempre a insónia mais branca e a sede de um novo ar
escurece já o olvido e é noite quando amanhece nenhum barco traz aquela por quem a escrita se tece
talvez esteja perdido como um náufrago na areia talvez me reste a canção e o vento que desenleia
Entre o deserto e o deserto Entre o deserto e o deserto
* [Créditos gerais do disco:] Amélia Muge – voz, voz de sala, coros e viola braguesa António José Martins – darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador Carlos Mil-Homens – cajón Catarina Anacleto – violoncelo Filipe Raposo – piano acústico, piano Rhodes e acordeão José Manuel David – flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala José Peixoto – guitarra acústica sem trastos Yuri Daniel – contrabaixo e baixo eléctrico Arranjos – António José Martins, José Manuel David e Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa) Direcção musical – António José Martins Produção – Amélia Muge e António José Martins Gravado por Samuel Henriques no Estúdio MDL, Paço d'Arcos (voz, piano, baixo, contrabaixo e cajón) e por António José Martins no estúdio da ETIC (Escola de Tecnologias Inovação e Criação), Lisboa, e no AJM Estúdio, Sobreda Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e António José Martins, no Estúdio Pé-de-Meia
DAQUI DESTE DESERTO EM QUE PERSISTO
(António Ramos Rosa, in "A Nuvem sobre a Página", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 160-162)
Nenhum ruído no branco. Nesta mesa cavo e escavo rodeado de sombras sobre o branco abismo desta página em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página atiro o branco sobre o branco em busca de um rosto ou folha ou de um corpo intacto a figura de um grito ou às vezes simplesmente uma pedra busco no branco o nome do grito o grito do nome busco com uma fúria sedenta a palavra que seja a água do corpo o corpo intacto no silêncio do seu grito ressurgindo do abismo da sede com a boca de pedra com os dentes das letras com o furor dos punhos nas pedras
Sou um trabalhador pobre que escreve palavras pobres quase nulas às vezes só em busca de uma pedra uma palavra violenta e fresca um encontro talvez com o ínfimo a orquestra ao rés da erva um insecto estridente o nome branco à beira da água o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas na esperança de encontrar um dia o diadema no abismo a transformação do grito num corpo descoberto na página do vento que sopra deste buraco desta cinzenta ferida no deserto
As minhas palavras são frias têm o frio da página e da noite de todas as sombras que me envolvem são palavras frágeis como insectos como pulsos e acumulo pedras sobre pedras cavo e escavo a página deserta para encontrar um corpo entre a vida e a morte entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto sempre isto desta maneira ou doutra que procuro eu senão falar desta busca vã de um espaço em que respira a boca de mil bocas do corpo único do abismo branco
Sou um trabalhador pobre nesta mina branca onde todas as palavras estão ressequidas pelo ardor do deserto pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer neste país se um homem levanta os braços e grita com os braços o que de mais oculto havia na secreta ternura de uma boca que era a única boca do seu povo Que posso eu fazer senão daqui deste deserto em que persisto chamar-lhe camarada
Não sou daqui, mas...
Letra: Amélia Muge, inspirada no poema de António Ramos Rosa "Não podemos dizer" [texto >> abaixo] Música: Amélia Muge Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Não Sou Daqui", Vachier & Associados, 2006)
Não sou daqui Mas gosto daqui estar De aprender no lugar do outro A me encontrar De poder um lugar achar No estar aqui Desejar o lugar de todos neste lugar E saber no lugar daqui O meu lugar Não sou daqui
Não sou daqui Mas se aqui estou É porque para mim Também há aqui lugar E porque há um eu Que aqui se foi achar E porque um teu Gostou de mim De me encontrar
Não sou daqui Mas gosto daqui estar De aprender no lugar do outro A me encontrar De poder um lugar achar No estar aqui Desejar o lugar de todos neste lugar E saber no lugar daqui O meu lugar Não sou daqui
Não sou daqui Mas se aqui estou É porque para mim Também há aqui lugar E porque há um eu Que aqui se foi achar E porque um teu Gostou de mim De me encontrar
* [Créditos gerais do disco:] Amélia Muge – voz, voz de sala, coros e viola braguesa António José Martins – darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador Carlos Mil-Homens – cajón Catarina Anacleto – violoncelo Filipe Raposo – piano acústico, piano Rhodes e acordeão José Manuel David – flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala José Peixoto – guitarra acústica sem trastos Yuri Daniel – contrabaixo e baixo eléctrico Arranjos – António José Martins, José Manuel David e Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa) Direcção musical – António José Martins Produção – Amélia Muge e António José Martins Gravado por Samuel Henriques no Estúdio MDL, Paço d'Arcos (voz, piano, baixo, contrabaixo e cajón) e por António José Martins no estúdio da ETIC (Escola de Tecnologias Inovação e Criação), Lisboa, e no AJM Estúdio, Sobreda Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e António José Martins, no Estúdio Pé-de-Meia
Não podemos dizer
(António Ramos Rosa, in "À Mesa do Vento seguido de As Espirais de Dioniso", Guimarães: Pedra Formosa, 1997; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 377-378)
Não podemos dizer Cheguei aqui e inverter a perspectiva olhando para trás O solo nos solicita e a sede de ser nos move para a frente E é então que talvez reconheçamos o que fomos entre os fragmentos dispersos da nossa identidade
Nós queremos sobretudo a relação mais viva ainda quando sabemos que ela é incerta ou ilusória As palavras desviam-se do que as excede ou as quer reter mas elas querem corresponder com o seu lume frágil ao que não conhecem mas pressentem para além das fronteiras silenciosas
Talvez toda a relação seja ilusória mas poderá ser mais verdadeira do que a separação Só a palavra adolescente não hesita embora trema e caminhe nua sobre a linha da sua sombra Tal é a maturidade do juvenil ardor que abre o caminho que conduz às grandes águas
Quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta O espaço é de ninguém o espaço é ninguém e de um só mas de um só em todos nós O cantor modula a voz de mil vozes O que no poema se move é um território de solidão comum atraído pelo íman da unidade latente e latejante
Temos de ir ao extremo de uma solitária linha mas é para voltarmos aqui ao ponto de partida que já será outro começo e terá o timbre unânime das vozes embora coadas pela espessura roxa da solidão Estaremos então entre duas margens entre o princípio e o fim e seremos mais do que fomos o que poderemos ser ainda que não venhamos a ser senão o movimento de uma sombra
Passagem
Poema: António Ramos Rosa (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo] Música: Diogo Clemente Intérprete: Ana Laíns* (in CD "Sentidos", Difference, 2006)
[instrumental]
É onde escuto agora a própria casa. Sou eu que escrevo este poema Já onde estou agora e nada espero. Ouço o som que vem de estar aqui lembrando isto que sou agora mesmo esperando. É onde escuto agora a própria casa.
É onde eu pouso a mão na terra calma ouvindo quantos anos já vivi, mas não aqui nem além, agora só num tempo em que não sou mais que este estar passando sem passar neste deserto. É onde pouso a mão na terra calma.
É onde agora ninguém me vem chamar e uma outra luta prossegue imponderável. O tempo vai chegar mas eu aqui passei ou algo em mim passou quando o final chegar deste sem fim que escuto e oiço o seu passar. É onde escuto agora a própria casa.
[instrumental]
É onde escuto agora a própria casa.
* [Créditos gerais do disco:] Guitarras acústicas – Diogo Clemente Viola baixo – Fernando Araújo Guitarra portuguesa – Bernardo Couto Acordeão, piano e melódica – Ruben Alves Violoncelo – Ricardo Mota Percussão – Vicky (Hugo Marques) Direcção musical, arranjos e produção – Diogo Clemente Técnico de som – Fernando Nunes Gravado, misturado e masterizado nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro e Fevereiro de 2006
PASSAGEM
(António Ramos Rosa, in "Voz Inicial", Lisboa: Livraria Moraes, col. Círculo de Poesia, 1960; "Não Posso Adiar o Coração", vol. I da Obra Poética, Lisboa: Plátano Editora, col. Sagitário, 1974)
É onde escuto agora a própria casa. Sou eu que escrevo este poema. Já onde estou agora nada espero. Ouço o som que vem de estar aqui lembrando isto que sou agora mesmo esperando.
É onde eu pouso a mão na terra calma ouvindo quantos anos já vivi, mas não aqui nem além, agora só num tempo em que não sou mais que este estar passando sem passar neste deserto.
É onde agora ninguém me vem chamar e uma outra luta prossegue imponderável. O tempo vai chegar mas eu aqui passei ou algo em mim passou quando o final chegar deste sem fim que escuto e sou no seu passar.
Há um ofegar de terra na garganta
Poema de António Ramos Rosa (in "Ciclo do Cavalo", Porto: Limiar, col. Os Olhos e a Memória, 1975 – pág. 36) Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)
Há um ofegar de terra na garganta, há um feixe de ervas que perfuma a casa. O ar é solidez, o caminho é de pedra. Procuro a água funda e negra de bandeiras.
Encho a cabeça de terra, quero respirar mais alto, quero ser o pó de pedra, o poço esverdeado, o tempo é o de um jardim em que a criança encontra as formigas vermelhas.
Vou até ao fim do muro buscar um nome escuro: é o da noite próxima, é o meu próprio nome?
* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz Coordenação editorial – Teresa Belo Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004 Supervisão de gravação – Vasco Pimentel
Não tenho lágrimas
Poema: António Ramos Rosa (in "A Intacta Ferida", Lisboa: Relógio d'Água, 1991) Música: António Pinho Vargas (ciclo "Nove Canções de António Ramos Rosa") Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD "António Pinho Vargas: Versos", Strauss, 2001)
Não tenho lágrimas estou mais baixo junto à cal
Vejo o solo extinto não oiço ninguém e não regresso
Adormecer talvez junto a uma estaca com uma pequena pedra sobre as pálpebras
Não era um barco
Poema: António Ramos Rosa (in "A Intacta Ferida", Lisboa: Relógio d'Água, 1991) Música: António Pinho Vargas (ciclo "Nove Canções de António Ramos Rosa") Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD "António Pinho Vargas: Versos", Strauss, 2001)
Não era um barco nem uma guitarra era uma pedra que girava na sua fronte
Anoitecera alguém cantava sobre um muro a pedra girava.
A PEDRA
Poema de António Ramos Rosa (in "Ocupação do Espaço", Lisboa: Portugália Editora, 1963; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 79) Recitado por Luísa Cruz* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)
A pedra é bela, opaca, peso-a gostosamente como um pão. É escura, baça, terrosa, avermelhada, polvilhada de cinza. Contemplo-a: é evidente, impenetrável, preciosa.
* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz Coordenação editorial – Teresa Belo Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004 Supervisão de gravação – Vasco Pimentel
Não posso adiar o coração
Poema: António Ramos Rosa (adaptado de "Não posso adiar o amor para outro século") [texto integral >> abaixo] Música: Luís Varatojo e Dora Fidalgo Intérprete: Linha da Frente* (in CD "Linha da Frente", Mercury/Universal, 2002)
Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração
Não posso adiar o amor Não, não posso adiar o amor Não posso adiar este abraço
Não posso adiar o amor Não, não posso adiar o amor Não posso adiar este abraço
Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração
[instrumental / vocalizos]
Não posso adiar o amor para outro século ainda que o grito sufoque na garganta ainda que o ódio estale e crepite e arda
Não posso adiar este abraço que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas e a aurora indecisa demore não posso adiar não posso adiar não posso adiar não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas e a aurora indecisa demore não posso adiar para outro século a minha vida nem o meu amor
Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração Não posso adiar o coração
Não posso adiar o amor Não, não posso adiar o amor Não posso adiar o coração
Não posso adiar o amor Não, não posso adiar o amor Não posso adiar o coração
Não posso adiar o amor Não, não posso adiar o coração Não posso adiar o amor Não, não posso adiar o coração
Não posso adiar o amor Não, não posso adiar o amor Não posso adiar o coração
Não posso adiar o amor Não, não posso adiar o amor Não posso adiar o coração
* Dora Fidalgo – voz principal Luís Varatojo e João Aguardela – todos os instrumentos e programações Músicos adicionais: Samuel Palitos – bateria João Cabrita – saxofone Isabel Rato – teclados João Marques – trompete Janelo da Costa – voz Produção – Luís Varatojo e João Aguardela Gravado e misturado por Luís Varatojo e António Bragança, no Pérola Estúdio 1 Masterizado por Luís Delgado, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Não posso adiar o amor para outro século
Poema de António Ramos Rosa (in "Viagem através duma Nebulosa", Lisboa: Edições Ática, 1960; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 42) Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "No Palco da Poesia", Ovação, 1995, reed. Ovação, 2000)
Não posso adiar o amor para outro século não posso ainda que o grito sufoque na garganta ainda que o ódio estale e crepite e arda sob montanhas cinzentas e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas e a aurora indecisa demore não posso adiar para outro século a minha vida nem o meu amor nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
* [Créditos gerais do disco:] Produção musical – Zé Nabo Músicas – Alexandre Manaia, José Moz Carrapa e José Nabo Arranjos – Manuel Paulo Guitarra – Raimundo Seixas Viola – Carlos Manuel
Quem bate a uma porta de folhas na noite
Poema de António Ramos Rosa (in "Nos Seus Olhos de Silêncio", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970; "Respirar a Sombra Viva", vol. III da Obra Poética, Lisboa: Plátano Editora, col. Sagitário, 1975) Recitado por Mário Viegas* (in LP/CD "Poemas de Bibe: grande poesia portuguesa escolhida para os mais pequenos", UPAV, 1990; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 10 – "Poemas de Bibe", Público, 2006)
Quem bate a uma porta de folhas na noite uma porta de folhas na noite Quem toca a dura casca do teu nome na noite a uma porta de folhas
Uma porta de folhas uma porta Quem bate a essa porta de folhas Quem bate a essa porta de folhas na noite Quem bate a essa porta sou eu
* Produção – José Mário Branco e António José Martins Gravado no Angel Studio, Lisboa Técnico de som – José Manuel Fortes
SEM SEGREDO ALGUM
Poema de António Ramos Rosa (in "Volante Verde", Lisboa: Moraes Editores, col. Círculo de Poesia, 1986) Recitado por Luísa Cruz* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)
Rodeio-te de nomes, água, fogo, sombra, vagueio dentro das tuas formas nebulosas. Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens. Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido? Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.
A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água ou és o fogo azul das casas silenciosas? Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada ou és a evidência rápida, inacessível, que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.
O que és não és, não há segredo algum. Selvagem e suave, entre miséria e música, o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem. Estou no interior da árvore, entre negros insectos. Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.
* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz Coordenação editorial – Teresa Belo Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004 Supervisão de gravação – Vasco Pimentel
AMOR DA PALAVRA, AMOR DO CORPO
Poema de António Ramos Rosa (in "Nos Seus Olhos de Silêncio", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 116) Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey", vol. I, Edere, 2001)
A nudez da palavra que te despe. Que treme, esquiva. Com os olhos dela te quero ver, que não te vejo. Boca na boca através de que boca posso eu abrir-te e ver-te? É meu receio que escreve e não o gosto do sol de ver-te? Todo o espaço dou ao espelho vivo e do vazio te escuto. Silêncio de vertigem, pausa, côncavo de onde nasces, morres, brilhas, branca? És palavra ou és corpo unido em nada? É de mim que nasces ou do mundo solta? Amorosa confusão, te perco e te acho, à beira de nasceres tua boca toco e o beijo é já perder-te.
* Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato - Lagos Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro
AQUI MEREÇO-TE
Poema de António Ramos Rosa (in "A Construção do Corpo", Lisboa: Portugália Editora, 1969) Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")
O sabor do pão e da terra e uma luva de orvalho na mão ligeira. A flor fresca que respiro é branca. E corto o ar com um pão enquanto caminho entre searas. Pertenço em cada movimento a esta terra. O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras. Sorvo o silêncio visível entre as árvores. É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono. Sob as pálpebras transparentes deste dia o ar é o suspiro dos próprios lábios. Amar aqui é amar no mar, mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar. Aqui posso estar seguro e leve no silêncio entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas, ao fogo esparso que alastra ao horizonte. No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada. Tudo o que eu disser são os lábios da terra, o leve martelar das línguas de água, as feridas da seiva, o estalar das crostas, murmúrio do ar e do fogo sobre a terra, incessante alimento que percorre o meu corpo. Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais, os alimentos puros, as espessas e nutritivas paredes do sono, o teu corpo com todo o vagar da sua massa, todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas a minha mão alia-se: bom dia, horizonte. Uma saúde nova vai nascer destes ombros. A lâmpada respira ao ritmo da terra. Sei os caminhos da água pelas veredas, as mãos das ervas finas embriagadas de ar, o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te. É este o reino de insectos e de jogos, das carícias que sabem a uma sede feliz. Aqui entre o poço e o muro, neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo: uma infância inextinguível se alimenta de uma fábula que renasce em todas as idades. É aqui, minha filha, que dança a fada do ar com seu brilho sedoso de erva fina e a sua abelha silenciosa sobre a fronte. É aqui o eterno recanto onde a água diz a pura praia da infância. Aqui bebe e bebe longamente o hálito da tristeza no silêncio da vida, aqui, ó pátria de água calada e de pão doce, da fundura do tempo, da lonjura permanente, aqui, bom dia, minha filha.
TEU CORPO PRINCIPIA
Poema de António Ramos Rosa (in "Estou Vivo e Escrevo Sol", Lisboa: Editora Ulisseia, 1966) Recitado por Luís Gaspar (2008) (in "Estúdio Raposa")
Dou-te um nome de água para que cresças no silêncio.
Invento a alegria da terra que habito porque nela moro.
Invento do meu nada esta pergunta. (Nesta hora, aqui.)
Descubro esse contrário que em si mesmo se abre: ou alegria ou morte.
Silêncio e sol – verdade, respiração apenas.
Amor, eu sei que vives num breve país.
Os olhos imagino e o beijo na cintura, ó tão delgada.
Se é milagre existires, teus pés nas minhas palmas.
Ó maravilha, existo no mundo dos teus olhos.
Ó vida perfumada cantando devagar.
Enleio-me na clara dança do teu andar.
Por uma água tão pura vale a pena viver.
Um teu joelho diz-me a indizível paz.
DA GRANDE PÁGINA ABERTA DO TEU CORPO
Poema de António Ramos Rosa (in "Nos Seus Olhos de Silêncio", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 117) Recitado por José-António Moreira (2006) (in "Sons da Escrita")
Da grande página aberta do teu corpo sai um sol verde um olhar nu no silêncio de metal uma nódoa no teu peito de água clara
Pela janela vejo a pequenina mão de um insecto escuro percorrer a madeira do momento intacto meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa ó favos de sol
Da grande página aberta sai a água de um chão vermelho e doce saem os lábios de laranja beijo a beijo o grande sismo do silêncio em que soberba cais vencida flor
Viste o cavalo varado a uma varanda?
Poema de António Ramos Rosa (in "Ciclo do Cavalo", Porto: Limiar, col. Os Olhos e a Memória, 1975 – pág. 21; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 133) Recitado por Manuel Alegre* (in CD "Vozes Poéticas da Lusofonia por Timor: Festa da Língua Portuguesa", Gravisom, 1999)
Viste o cavalo varado a uma varanda? Era verde, azul e negro e sobretudo negro. Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase. E o aroma do estábulo penetrando a noite.
Do outro lado da margem ascendia outro astro como uma lua nua ou como um sol suave e o cavalo varado abria a noite inteira ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.
Uma língua de sabor para ficar na sombra de todo um verão feliz e de uma sombra de água. Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste o tambor do silêncio marcar a tua força
e tudo em ti jazia na noite do cavalo.
* Gravado nos estúdios da RDP, Lisboa, a 22 de Junho de 1999 Produção digital – José M. Gouveia (RDP) Masterização – João Oliveira, nos Estúdios Gravisom, Lisboa
O Que Vê o Meu Olhar
Letra: Popular (quadra) e Amélia Muge, inspirada no poema de António Ramos Rosa "Nada mais delicado do que o tecido do olhar" [texto >> abaixo] Música: Amélia Muge Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Não Sou Daqui", Vachier & Associados, 2006)
No alto daquele mar Está uma pombinha branca; Não é pomba, não é nada: É o mar que se alevanta.
[instrumental]
O que olha o meu olhar Por fora disto que é ver Como se deixa esconder No que vê o coração Pode não ser confusão Pode ser só sensação Vá lá a gente saber Mas há sempre uma ilusão Lá ao longe a flutuar Entre espuma e hesitação No alto daquele mar
No alto daquele mar Está uma pombinha branca; Não é pomba, não é nada: É o mar que se alevanta. [bis]
E o mar ao dar à anca Torna branco o movimento E faz disto sentimento Que se levanta do chão Em rota de colisão Com o olhar espião Dele e do próprio momento Em que voa a sedução Que ao poisar diz que manca E ao colo da criação Está uma pombinha branca
Não é pomba, não é nada: É o mar que se alevanta.
No alto daquele mar Está uma pombinha branca; Não é pomba, não é nada: É o mar que se alevanta.
No torpor da madrugada Todas as ondas são uma Vemos todas e nenhuma E toda a espuma é fusão Irmã da própria ficção Que transforma a emoção Em breve gesto de espuma E nesta desatenção Esta morte alevantada É um véu no som do não Não é pomba, não é nada
No alto daquele mar Está uma pombinha branca; Não é pomba, não é nada: É o mar que se alevanta. [bis]
E a cegueira se espanta De ninguém lhe querer falar E nem sequer p'ra ela olhar Já que é dela a condição De encontrar outra razão P'ra iludir a solidão E a vista não se calar Em nenhuma situação E só de ouvir ela canta Que não há engano não É o mar que se alevanta
No alto daquele mar Está uma pombinha branca; Não é pomba, não é nada: É o mar que se alevanta.
* [Créditos gerais do disco:] Amélia Muge – voz, voz de sala, coros e viola braguesa António José Martins – darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador Carlos Mil-Homens – cajón Catarina Anacleto – violoncelo Filipe Raposo – piano acústico, piano Rhodes e acordeão José Manuel David – flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala José Peixoto – guitarra acústica sem trastos Yuri Daniel – contrabaixo e baixo eléctrico Arranjos – António José Martins, José Manuel David e Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa) Direcção musical – António José Martins Produção – Amélia Muge e António José Martins Gravado por Samuel Henriques no Estúdio MDL, Paço d'Arcos (voz, piano, baixo, contrabaixo e cajón) e por António José Martins no estúdio da ETIC (Escola de Tecnologias Inovação e Criação), Lisboa, e no AJM Estúdio, Sobreda Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e António José Martins, no Estúdio Pé-de-Meia
Nada mais delicado do que o tecido do olhar
(António Ramos Rosa, in "Delta seguido de Pela Primeira Vez", Lisboa: Quetzal Editores, 1996; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 356)
Nada mais delicado do que o tecido do olhar absoluta nascente do silêncio abóbada cristalina Em inocência branca os olhos vêem a concreta limpidez e a sua essência é como um levíssimo aroma rapidíssimo Entre ser e não ser ondula esta alfombra transparente cuja exactidão é terna e subtil potência breve Uma cortesia do imponderável armistício do indizível secreta graça da atenção e distracção do centro Como uma lua entre sombras esquiva e confidente ou como um cristal em movimento ou um nadador redondo o olhar é um nascimento no permanente olvido e como um navio equilibra a substância das coisas
NÓS SOMOS
Poema: António Ramos Rosa (in "Sobre o Rosto da Terra", Covilhã: Livraria Nacional, col. Pedras Brancas, 1961; "Antologia Poética", prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 72) Música: Tiago Bettencourt Intérprete: Tiago Bettencourt* com Dalila Carmo (in CD "Tiago na Toca e os Poetas", Metropolitana/EMI, 2011)
Como uma pequena lâmpada subsiste e marcha no vento, nestes dias, na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra, dificilmente nas calçadas, nos quartos, um país puro existe, homens escuros, uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro, uma terra existe nesta terra, nós somos, existimos
Como uma pequena gota às vezes no vazio, como alguém só no mar, caminhando esquecidos, na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados, subsiste uma palavra, uma sílaba de vento, uma pálida lâmpada ao fundo do corredor, uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos, uma voz num portal e a manhã é de sol, nós somos, existimos.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho, uma carta que segue, um bom dia que chega, hoje, amanhã, ainda, a vida continua, no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia, nas mãos que se dão, nos punhos torturados, nas frontes que persistem, nós somos, existimos.
* Dalila Carmo – voz, coros Tiago Bettencourt – guitarras, Fender Rhodes, coros Produção executiva – Tiago Bettencourt e Paulo Ventura Gravado na TOCA, por Tiago Bettencourt Misturado por Artur David, no Lisboa Studio Masterizado por Ars Lindberg, no Lisboa Studio
Desenhos de António Ramos Rosa
Os olhos, os traços soltos em carícias leves, murmuram o mundo, a sua dança, o seu clamor, os seus aromas festivos, e a lua, em seu rosto levíssimo flutua, porque o sol é o astro, que em seu silêncio levita. Na extremidade das flores, onde um veludo precioso dormita, a vida é o anoitecer deslumbrado. Nos olhos de um Poeta, a dança do mundo, os seus desenhos festivos acariciam a luz, os seus bailados. Nos jardins do seu nome, as palavras resplandecem. Nos ramos do silêncio, um pássaro pousou, ainda há pouco, nas praias obscuras, em suas fúlgidas areias, o Poeta, em seus olhos de silêncio se banhou, inebriado de canto e púrpura e os seus traços, acompanhando os acordes misteriosos, reinventaram os ritmos, a criação, sobre membranas fluidas, recamadas de vida.
Maria do Sameiro Barroso ("Poema com desenhos de António Ramos Rosa", in "António Ramos Rosa: Imagens do Caminho das Palavras e dos Afectos: Fotobiografia", de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005)