Da esquerda para a direita: Pedro Ayres Magalhães, Rodrigo Leão, Gabriel Gomes, Teresa Salgueiro e Francisco Ribeiro (fotografia de Álvaro Rosendo, 1987) [defronte ao portal da antiga igreja do convento de Xabregas / Teatro Ibérico]
«Há pouco mais de um quarto de século, trabalhava eu na maior editora de música portuguesa [Valentim de Carvalho], participei numa reunião muito acalorada. Tudo, claro, por causa de um disco...» Assim começa David Ferreira a contar a história do nascimento e primeiros passos dos Madredeus, o nome da música portuguesa que, depois de Amália Rodrigues, maior projecção alcançou além-fronteiras. É uma história repartida por seis capítulos cuja audição se recomenda vivamente, quer aos admiradores do grupo, quer àqueles que, em razão da jovem idade, não conheçam a obra da fase inicial. E com a vantagem de ser contada por alguém que fala com conhecimento de causa:
Esta justíssima evocação dos Madredeus teve o bendito condão de levar-me a revisitar esse fabuloso álbum inaugural, "Os Dias da MadreDeus". O mais genuíno, inspirado e arrebatador de toda a discografia do grupo que revelou a bela e portentosa voz de Teresa Salgueiro e que, nas palavras de Jorge Pires (in "Madredeus: Um Futuro Maior", 1995), «além de ser aquele que lançou a semente à terra, é um disco que ainda hoje mantém alguns dos melhores momentos da sua criação. Totalmente descomprometido ante estratégias que não as que levavam directamente à música, encerra pérolas que estabelecem um equilíbrio irrepetível entre fragilidade e rudeza, entre inocência e solenidade, e que na sua beleza são plenamente capazes de provocar arrepios na espinha a quem as ouça». Lamentavelmente, nem sequer uma dessas pérolas figura na 'playlist' da RDP-Antena 1, apesar da obrigação que tem, legalmente estipulada, de divulgar o nosso património musical mais valioso e perene. Aliás, os Madredeus (com Teresa Salgueiro, bem entendido) têm sido muito mal tratados pela rádio estatal nos últimos anos. Nada mais do que "Alfama" (do álbum "Ainda") e a versão electrónica de "Haja o Que Houver"... Razão bastante para que o blogue "A Nossa Rádio" empreenda o serviço público de "trazer para a luz do dia" as pérolas mais esplendorosas d' "Os Dias da MadreDeus", fazendo justiça a esse auspicioso trabalho e aos músicos que, com muito amor e entrega, o realizaram: Maria Teresa Salgueiro (voz), Pedro Ayres Magalhães (guitarra clássica), Rodrigo Leão Muñoz (teclados), Gabriel Gomes (acordeão) e Francisco Ribeiro (violoncelo).
Capa do álbum "Os Dias da MadreDeus" (EMI-VC, Dezembro de 1987) Concepção de Pedro Ayres Magalhães, sobre uma aguarela de José Alexandre Gonefrey Fotografia de Luís Ramos
A Sombra (à memória de António Variações)
Letra e música: Pedro Ayres Magalhães Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
[instrumental]
Anda pela noite só Um capote errante, ai, ai E uma sombra negra cai, em redor Do homem no cais
Das ruas antigas vem Um cantar distante ai, ai E ninguém das casas sai, por temor Dos passos no cais
Se eu cair ao mar, quem me salvará? Lalalala... Que eu não tenho amigos, quem é que será? Lalalala... Ai ó solidão, que não andas só! Lalalala... Anda lá à vontade, mas de mim tem dó!...
Lalalala... Lalalala...
Cantar, sempre cantou Jamais esteve ausente, ai, ai E uma vela branca vai, por amor Largar pela noite
Se eu cair ao mar, quem me salvará? Lalalala... Que eu não tenho amigos, quem é que será? Lalalala... Ai ó solidão, que não andas só! Lalalala... Anda lá à vontade, mas de mim tem dó!...
Lalalala... Lalalala...
[instrumental]
As Montanhas
Música: Gabriel Gomes Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
(instrumental)
A Vaca de Fogo
Letra: Pedro Ayres Magalhães Música: Gabriel Gomes e Pedro Ayres Magalhães Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
[instrumental]
À porta Daquela igreja Vai um grande corrupio À porta Daquela igreja Vai um grande corrupio Às voltas Duma coisa velha Reina grande confusão Às voltas Duma coisa velha Reina grande confusão
Os putos Já fogem dela Deita o fogo a rebentar Os putos Já fogem dela Deita o fogo a rebentar Soltaram Uma vaca em chamas Com um homem a guiar Soltaram Uma vaca em chamas Com um homem a guiar
São voltas Ai amor são voltas São as voltas São as voltas da maralha Ai são voltas Ai amor são voltas São as voltas da canalha Ai são voltas Sete voltas São as voltas da maralha Ai são voltas Sete voltas São as voltas da canalha
[instrumental]
À porta Daquela igreja Vive o ser tradicional À porta Daquela igreja Vive o ser tradicional Às voltas Duma coisa velha E não muda a condição Às voltas Duma coisa velha E não muda a condição
À porta Daquela igreja Vai um grande corrupio À porta Daquela igreja Vai um grande corrupio Às voltas Duma coisa velha Reina grande confusão Às voltas Duma coisa velha Reina grande confusão
São voltas Ai amor são voltas São as voltas São as voltas da maralha Ai são voltas Ai amor são voltas São as voltas da canalha Ai são voltas Sete voltas São as voltas da maralha Ai são voltas Sete voltas São as voltas da canalha
[instrumental]
A Estrada do Monte
Letra: Pedro Ayres Magalhães Música: Rodrigo Leão e Pedro Ayres Magalhães Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987)
Não digas nada a ninguém Que eu ando no mundo triste A minha amada, que eu mais gostava, Dançou, deixou-me da mão Eu a dizer-lhe que a queria Ela a dizer-me que não E a passarada Não se calava Cantando esta canção
Sim, foi na estrada do monte Perdi o teu grande amor Sim, ali ao pé da fonte Perdi o teu grande amor
Ai que tristeza que eu sinto Fiquei no mundo tão só E aquela fonte ficou manchada Com tanto que se chorou Se alguém aqui nunca teve Uma razão p'ra chorar Siga essa estrada Não custa nada Que eu fico aqui a cantar
Sim, foi na estrada do monte Perdi o teu grande amor Sim, ali ao pé da fonte Perdi o teu grande amor
[vocalizos / instrumental]
A Península
Música: Rodrigo Leão, Pedro Ayres Magalhães e Gabriel Gomes Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
(instrumental)
Adeus... e Nem Voltei
Letra e música: Pedro Ayres Magalhães Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
[instrumental]
"Adeus" dissemos E nada mais de então ficou; De asas quebradas Foi a ave branca que voou; Voa lá alto, que eu morro, bem sei, sem voltar; Cantem as aves do monte que eu fui ver o mar...
Ai, não sei de mim; Ai, não sinto nada... Ai, e nem voltei.
[instrumental]
Voa lá alto, que eu morro, bem sei, sem voltar; Cantem as aves do monte que eu fui ver o mar...
Ai, não sei de mim; Ai, não sinto nada... Ai, e nem voltei.
A Cantiga do Campo
Poema: Gomes Leal (excerto) [texto integral >> abaixo] Música: Rodrigo Leão e Pedro Ayres Magalhães Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
[instrumental]
Porque andas tu mal comigo, Ó minha doce trigueira? Quem me dera ser o trigo Que, andando, pisas na eira!
[instrumental]
Quando entre as mais raparigas Vais cantando entre as searas, Eu choro, ao ouvir-te as cantigas Que cantas nas noites claras!
Por isso nada me medra, Ando curvado e sombrio! Quem me dera ser a pedra Em que tu lavas no rio!
E falam com tristes vozes Do teu amor singular Àquela casa onde coses, Com varanda para o mar.
Por isso nada me medra, Ando curvado e sombrio! Quem me dera ser a pedra Em que tu lavas no rio!
Quem me dera ser a pedra Em que tu lavas no rio! Quem me dera ser a pedra Em que tu lavas no rio!
[instrumental]
Quem me dera ser a pedra Em que tu lavas no rio! Quem me dera ser a pedra Em que tu lavas no rio!
[instrumental]
CANTIGA DO CAMPO
(Gomes Leal, in "Claridades do Sul", Lisboa: Braz Pinheiro, 1875; Lisboa: Assírio & Alvim, col. Obras Clássicas da Literatura Portuguesa – Século XIX, edição de José Carlos Seabra Pereira, 1998)
Como eu adoro as tuas "simplicidades"! HEINE
Porque andas tu mal comigo, Ó minha doce trigueira? Quem me dera ser o trigo Que, andando, pisas na eira!
Quando entre as mais raparigas Vais cantando entre as searas, Eu choro, ao ouvir-te as cantigas Que cantas nas noites claras!
Os que andam na descamisa Gabam a viola tua, Que, às vezes, ouço na brisa Pelos serenos da lua.
E falam com tristes vozes Do teu amor singular Àquela casa onde coses, Com varanda para o mar.
Por isso nada me medra, Ando curvado e sombrio! Quem me dera ser a pedra Em que tu lavas no rio!
E andar contigo, ó meu pomo, Exposto às chuvas e aos sóis! E uma noite morrer como Se morrem os rouxinóis!
Morrer chorando, num choro Que mais as mágoas consola, Levando só o tesouro Da nossa triste viola!
Porque andas tu mal comigo, Ó minha doce trigueira? Quem me dera ser o trigo Que, andando, pisas na eira!
A Marcha da Oriental
Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
(instrumental)
Fado do Mindelo
Letra: António Jorge Pacheco e Pedro Ayres Magalhães Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
Mindelo, minh'alma chora e eu estou triste o amor demora
Mindelo, já não existe minh'alma chora e o mar assiste
Mindelo, o amor é isto não tem demora porque eu insisto
Mindelo, mar a bater e o meu amor anda a sofrer Mindelo, conta comigo que eu vivo e tudo espera por mim
[instrumental]
Mindelo, mar a bater e o meu amor anda a sofrer Mindelo, conta comigo que eu vivo e tudo espera por mim
[instrumental]
Mindelo, mar a bater e o meu amor anda a sofrer Mindelo, conta comigo que eu vivo e tudo espera por mim
A Cidade
Letra: Francisco Menezes e Pedro Ayres Magalhães Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
[instrumental]
Esta saudade Não tem idade Não tem idade Esta saudade Esta saudade
Esta cidade Não tem idade Não tem idade Ai, esta cidade Ai, esta cidade
[instrumental]
Esta saudade Não tem idade Não tem idade Esta saudade Esta saudade
Esta cidade Não tem idade Não tem idade Ai, esta cidade Ai, esta cidade
[instrumental]
A Andorinha
Música: Pedro Ayres Magalhães Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
(instrumental)
Amanhã
Letra: Pedro Ayres Magalhães Música: Pedro Ayres Magalhães, Rodrigo Leão e Gabriel Gomes Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)
[instrumental]
A vida não me larga O mundo não me foge A estrada é grande e larga E eu levo o albornoz Caminho à luz do dia Por campos e montanhas E bebo a água fria E a sede não me apanha E o céu ali é lindo Azul, e eu não resisto Ao céu, ao céu profundo Distante E eu insisto
[instrumental]
Caminho à lua nova Caminho à lua cheia Caminho à lua nova E a sede não me apanha Caminho à lua nova Caminho à lua cheia Caminho à lua nova E a sede não me apanha E o céu ali é lindo Azul, e eu não resisto Ao céu, ao céu profundo Distante E eu insisto
Rui Pêgo, um indivíduo "nado e criado" em rádios comerciais, mal foi colocado na direcção da Antena 1 não descansou enquanto a não infestou com essa autêntica praga que são os cartuchos de 'spots' promocionais religiosamente disparados duas vezes em cada hora (aos 20 e aos 40 minutos) ou imediatamente antes de programas de autor. Se já é grande a minha aversão a essa e a outras formas de poluição sonora na rádio pública, fico deveras irritado, e com o sentimento de estarem a gozar com a minha cara de pagante de uma taxa obrigatória, quando sou bombardeado com publicidade a marcas comerciais e/ou a empresas com fins lucrativos. Foi o que aconteceu ontem (ou melhor, hoje, pois já tinham soado as badaladas da meia-noite de domingo), antes de começar mais uma emissão de fim-de-semana do programa "Alma Lusa", com um despudorado anúncio à marca Continente a pretexto de um concurso de imitadores do cantador Tony Carreira a ter lugar no programa "Praça da Alegria", da RTP-1, iniciativa essa patrocinada pela referida cadeia de super/hipermercados. Por princípio, não discordo de que a rádio pública promova programas dos canais televisivos do mesmo grupo empresarial, a Rádio e Televisão de Portugal, desde que tal se faça com sensatez e bom gosto (portanto, na observância de escrupulosos e rigorosos e critérios de qualidade) e – muito importante – que haja reciprocidade, isto é, que as antenas de rádio e respectivos programas sejam igualmente promovidos nos canais televisivos. Usar a Antena 1 para promover telelixo da RTP-1 e à boleia publicitar uma marca comercial é um procedimento claramente abusivo e falho de ética – por desrespeito pelos ouvintes/contribuintes e por infringir grosseiramente o estatuto que rege as rádios do serviço público (cláusula 10.ª do Contrato de Concessão do Serviço Público de Radiodifusão Sonora). Presumo que o principal responsável por esta obscena promiscuidade seja o director-geral de conteúdos, António Luís Marinho. Eu pergunto: será que o sujeito anda em roda livre e quem está acima dele se demite do dever de o controlar e de lhe refrear os desmandos?
Qualquer dia é bom para se comungar da obra de um poeta, sendo que as efemérides (do nascimento ou da morte) se apresentam sempre como excelentes pretextos para o efeito. Assinalando-se hoje oito anos exactos sobre a data em que a "senhora da gadanha" ceifou a vida ao autor de "As Mãos e os Frutos", o blogue "A Nossa Rádio" recomenda vivamente a audição da edição do programa "A Força das Coisas", que Luís Caetano muito oportunamente realizou em celebração do grande poeta por ocasião do 90.º aniversário do nascimento, a 19 de Janeiro de 2013. Além de dez poemas (abaixo referenciados) e do texto "Poética" lidos pelo autor, o programa contém excertos de entrevistas/depoimentos em que Eugénio de Andrade fala si mesmo, que nos ajudam a conhecer melhor o homem e em que medida as afeições e os interesses que teve – mormente pela música – marcaram a sua obra. E a música, como não podia deixar de ser, tem presença relevante no programa, numa selecção primorosa de Luís Caetano: Bach, Debussy, Puccini, Jan Kaczmarek, Rachmaninov, Chopin, Haendel, Wallace Willis (espiritual negro "Swing Low, Sweet Chariot"), Pergolesi, Bach, Chopin e Elgar. Para ouvir basta aceder a: http://www.rtp.pt/play/p321/e105600/a-forca-das-coisas - Green God (in "As Mãos e os Frutos", 1948) - As Palavras (in "Coração do Dia", 1958) - O Silêncio (in "Obscuro Domínio", 1971) - Os Amantes sem Dinheiro (in "Os Amantes sem Dinheiro", 1950) - Poema à Mãe (in "Os Amantes sem Dinheiro", 1950) - É Assim, a Música (in "Os Lugares do Lume", 1998) - Coral (in "Os Lugares do Lume", 1998) - O Lugar da Casa (in "O Sal da Língua", 1995) - Poética (in "Afluentes do Silêncio", 1968) - Crianças de São Victor (in "Escrita da Terra", 1974) - Adeus (in "Os Amantes sem Dinheiro", 1950)
Nota: Quem desejar receber a circular com os textos, especialmente preparada para os Amigos do LUGAR AO SUL, basta que a solicite escrevendo para: ajferreira74@gmail.com
Capa da primeira edição de "As Mãos e os Frutos" (Portugália Editora, 1948) Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia
Retrato de Luís de Camões, pintado em Goa por artista não identificado, no ano de 1581.
Causa-me muita impressão que o Dia de Camões sirva para tudo menos para a divulgação e o cultivo da obra (poesia e teatro) do maior vulto literário de língua portuguesa. Até há uns anos, era habitual a RTP-1 transmitir o filme "Camões", de Leitão de Barros. Não era muito, mas já era alguma coisa. Agora, nem isso... Nada que vá além das cerimónias oficiais com as paradas militares, os discursos de circunstância e a aposição de medalhas ao peito de um rol (mais ou menos extenso) de notáveis.
A Antena 1, nos últimos anos, tem afinado pelo mesmo diapasão de indigência, fazendo tábua-rasa de uma das obrigações culturais do serviço público que é dar a ouvir (porque é de rádio que falamos) a obra dos nossos valores literários, sem esquecer, como é óbvio, o expoente mais elevado de todos – Luís Vaz de Camões. Não fosse a rubrica "David Ferreira a Contar" em que esteve em foco a polémica gerada pela edição, em 1965, do EP "Amália canta Luís de Camões", com a passagem de excertos dos três espécimes poético-musicais nele incluídos ("Lianor", "Erros Meus" e "Dura Memória") e de "Endechas a Bárbara Escrava", por José Afonso, e o nosso poeta maior teria sido completamente negligenciado no principal canal da rádio do Estado, durante o dia em que é suposto ser condignamente celebrado. Era assim tão complicado resgatar do arquivo histórico a adaptação de uma das três peças teatrais de Luís de Camões – "Auto dos Anfitriões", "Auto de Filodemo" ou "Auto de El-Rei Seleuco"? E seria pedir muito que se transmitisse, ao longo do dia, diversos dos seus poemas, ora recitados ora cantados? Uma coisa simples e despretensiosa, mas que seria de muito bom tom e não deixaria de ter benefício cultural no auditório. O mais difícil seria mesmo escolher entre o muito e bom que foi gravado, seja na forma recitada seja na forma musicada/cantada.
O blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar sete belos espécimes, antecedidos do soneto "A Camões", da autoria do brasileiro Manuel Bandeira, na voz de João Villaret, tal como os demais poemas recitados, homenageando o imortal recitador no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento. Dão voz aos poemas cantados: Amália Rodrigues, José Afonso, Amélia Muge e Cristina Branco.
A Camões
Poema (soneto) de Manuel Bandeira (in "A Cinza das Horas", Rio de Janeiro: Edição do autor, 1917)
Recitado por João Villaret* (in LP "João Villaret Falando com Igrejas Caeiro", Guilda da Música/Sassetti, 1973, reed. Strauss, 1997)
Quando n'alma pesar de tua raça
Um signo de apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
No teu poema de heroísmo e de beleza.
Génio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O grande amor da pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que entre perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente
Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.
* Gravado ao vivo no Teatro de São Luiz, Lisboa, em 1960
Remasterizado por Jorge d'Avillez, no Strauss Studio, Lisboa
Lianor
Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1668)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in EP "Amália canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989)
MOTE
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
vai fermosa e não segura.
VOLTAS
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos d'oiro entrançado,
fita de cor d'encarnado...
tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.
Notas:
Escarlata – tecido de lã de cor vermelha muito viva
Sainho – casaco curto que se vestia por cima da blusa
Chamalote – tecido de pêlo ou lã geralmente com seda, talvez assemelhando-se ao actual cetim
Vasquinha – saia com muitas pregas em volta da cintura
De cote – de uso quotidiano
* Arranjo e direcção de orquestra – Jorge Costa Pinto
Amor é um fogo que arde sem se ver
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é solitário andar por entre a gente;
é um não contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode o seu favor
nos mortais corações conformidade,
sendo a si tão contrário o mesmo Amor?
Endechas a Bárbara Escrava
Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968; reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)
Endechas a ũa cativa
com quem andava d'amores na Índia,
chamada Bárbara.
Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.
Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.
Presença serena
que a tormenta amansa;
nela enfim descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.
* Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva
Sete anos de pastor Jacob servia
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
assim lhe era negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;
começou a servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.
Nota:
Jacob – patriarca bíblico, filho de Isaac e de Rebeca, irmão gémeo de Esaú.
Serviu seu tio Labão durante sete anos com a condição de, findo esse período, casar-se com a mais bela das suas filhas, Raquel. No dia das bodas, Labão trocou Raquel pela sua filha mais velha, Lia. Como, segundo o rito hebraico de então, a noiva era oferecida ao noivo completamente envolvida num véu, Jacob só deu pelo logro no dia seguinte. O tio justificou-se dizendo que não era costume casarem-se as filhas mais novas primeiro e contratou com Jacob mais sete anos, após o que lhe deu Raquel em casamento.
De Lia, de Raquel e das suas duas escravas, Zilfa e Bila, Jacob teve doze filhos que fundaram as doze tribos de Israel.
Aos Olhos de Helena
Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Múgica", UPAV, 1992)
MOTE
Se Helena apartar
do campo seus olhos,
nascerão abrolhos.
VOLTAS
A verdura amena,
gados, que pasceis
sabei que a deveis
aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
faz flores de abrolhos
o ar de seus olhos.
Faz serras floridas,
faz claras as fontes:
se isto faz nos montes,
que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
como ervas em molhos,
na luz de seus olhos.
Os corações prende
Com graça inumana,
de cada pestana
uma alma lhe pende.
Amor se lhe rende
e, posto em geolhos,
pasma nos seus olhos.
Notas:
Abrolhos – plantas herbáceas, de fruto espinhoso, que crescem nos terrenos incultos da região mediterrânica
Pasceis – pastais
Inumana – sobre-humana, divina
Amor – Eros/Cupido (deus do amor)
Geolhos – joelhos
* Alberto Campos – violoncelo
Maria João Correia – acordeão
Paulo Curado – flauta
Carlos Bica – contrabaixo
António José Martins – sintetizadores
Produção, arranjos e direcção musical – António José Martins
Gravado e misturado nos Estúdios Angel I e II, Lisboa, em Outubro de 1991
Gravação – Fernando Rascão e Jorge Barata
Mistura – Jorge Barata e António José Martins
Alma minha gentil, que te partiste
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não esqueças nunca aquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo dos meus olhos te levou.
Nota:
No manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, lê-se: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...»
Ninfas
Poema: Luís de Camões (estrofes 82 e 83 do Canto IX d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Sensus", Emarcy/Universal Classics France, 2003)
Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.
Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
Nota:
Julgá-lo – imaginá-lo
* Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção musical e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Classics France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Setembro a Dezembro de 2002
"Vasco da Gama na Ilha dos Amores"
Desenho de Alexandre-Joseph Desenne; gravura de Richomme (in "Os Lusíadas", ed. Morgado de Mateus, Paris, 1817).
Roubaste ao sol a luz que te escorrega pelo dorso quando cais em fio aproximando-te dolente de uma música de sal.
Caminhas paralelamente às mais vastas extensões azuis.
Vestes a sardinha com teus líquidos fatos de fazenda grossa e lenta. Beijas o tomate. Casas o teu corpo dócil mas altivo com a renda de brancura de uma fatia de pão.
Em ti o Livro existe ó verde irmão. E a bandeira existe. E os deuses mais antigos. E o barro da palavra dignidade.
És o amigo mais puro dos puros azeitoneiros. Sangue do seu sangue. Mágoa dos seus olhos numa fronteira queimada.
Entras na boca dos pobres com a tua doçura vegetal e a tua transparência tão densa como um sexo de mulher.
És o meu consolo ó líquido cristal. Em ti há um mar tranquilo a espreguiçar-se todas as manhãs, e todas as mães cantam e os deuses vêm consagrar a casa daqueles que te oferecem a luz de um olhar sem mancha ao nascer de cada dia.
«Nem todas as notícias pressagiam marés de desgraça ou confirmam os temidos ventos adversos sobre o Sul da Europa. É natural que num ano particularmente difícil para os europeus periféricos face ao centro geográfico e económico que é Berlim, podíamos e devíamos estar a ser brindados, ao menos, com as bênçãos do clima. Nem isso! Com uma desgraça nunca vem só, temos que suportar chuvas, ventos e frios fora de época e já começamos a fazer contas ao que estas nuvens negras nos vão trazer de despesa, desde a agricultura ao turismo. Torna-se compreensível neste quadro cinzento-escuro que nos agarremos a tudo o que possa representar uma novidade positiva ou, no limite, uma confirmação simpática. É o caso de uma notícia trazida até nós pelo "Jornal de Notícias" e que nos dá conta de uma conclusão animadora de um estudo, realizado pela Universidade de Navarra, tendo como ponto de foco a alimentação. A sentença dos cientistas é então esta: a dieta mediterrânica, alegadamente praticada em Portugal também, não se limita a ser boa para o coração – é igualmente benéfica para o cérebro ou se quisermos pormenorizar, e passo a citar, "o azeite e os frutos secos melhoram significativamente a capacidade cognitiva dos adultos". Ora vamos lá dissecar a história. O Departamento de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Navarra teve como base de trabalho 522 adultos com idades compreendidas entre os 55 e os 80 anos, com uma particularidade: nenhuma destas pessoas apresentava problemas cardíacos mas todas tinham aquilo que é considerado um perfil de risco derivado de diabetes [do tipo 2], de hipertensão ou de consequências do tabagismo. Parte deste grupo adoptou a dieta mediterrânica e passados seis anos e meio foram realizados testes que visavam apurar eventuais problemas de deterioração cognitiva. Ora segundo o jornal espanhol "El Mundo", que refere declarações do cientista responsável por este estudo, Miguel Ángel Martínez, a incidência de problemas cerebrais era substancialmente mais baixa naqueles que tinham perfilhado a referida dieta. O médico justifica este desfecho com o seguinte: o azeite consegue eliminar do cérebro a proteína beta-amilóide, tida como a responsável pela doença de Alzheimer; além disso, o mesmo azeite reduz inflamações e o risco de diabetes. O estudo, publicado pelo "Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry", defende que ainda assim são necessários mais estudos para apurar melhor as propriedades antioxidantes da dieta mediterrânica. Está confirmado então que os cereais, as frutas, as hortaliças, o peixe (mais do que a carne), alguns lacticínios, e as gorduras ligadas ao azeite e às nozes nos deixarão mais próximos de evitar a degradação do nosso próprio cérebro. A pequena ou média contradição vem, claro está, do facto de termos que matar a cabeça para descobrir como, nas actuais circunstâncias, podermos pagar a dieta mediterrânica que nos pode salvar a cabeça. Com tudo isto continua a falhar-me a origem e o alcance da expressão "estar com os azeites". Afinal, é uma coisa boa! E digo mesmo mais: a partir daqui, de hoje, agora e sempre – azeiteiro e com muito orgulho.» (João Gobern, na crónica "A vitória do azeite", da rubrica "Pano para Mangas", 22-Mai-2013).
E como está, nos dias de hoje, a olivicultura em Portugal? A impressão que tenho é de que se trata de um sector em declínio. Será mesmo? Se sim, seria bom que quem tem poder de decisão na matéria lesse notícias tão boas como esta e agisse em conformidade! Em jeito de ilustração musical ao presente assunto, aqui se deixam alguns espécimes musicais relacionados com o fruto do qual se extrai o azeite – a oliva ou azeitona – e, bem assim, com a árvore que a produz, a oliveira. Tratando-se de repertório boicotado na actual Antena 1 (perdão, na coutada de Rui Pêgo e António Luís Marinho, sustentada pelo povo) mais uma razão para o blogue "A Nossa Rádio" proporcionar a sua audição/descoberta.
Fases de produção do azeite (diagrama) [clique na imagem para ver melhor]
Oliveira da Serra
Letra e música: Popular Harmonização: Eurico Carrapatoso Intérprete: Coro Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 1", Numérica, 2007)
Ó oliveira da serra, O vento leva a flor; (ó ai, ó linda) Só a mim ninguém me leva (ó ai, ó linda) Para ao pé do meu amor. [2x]
* Direcção – Jorge Carvalho Alves
Cantiga da Azeitona
Letra: Popular Música: João Cavadinhas Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Recantos", Polygram, 1996)
[instrumental]
Vou p'rá apanha da azeitona Namorar nos olivais; Por andar preso por ti Cada vez padeço mais.
E os amores da azeitona São como os da cotovia: Em se apanhando a azeitona Adeus amores de um só dia.
Já lá vem o sol raiando Por cima das oliveiras; Já se vão ouvindo as vozes Das moças apanhadeiras.
A azeitona já está preta, Já passou por tantas cores: Já foi verde e foi vermelha, Agora é rainha de amores.
[instrumental]
A oliveira tem pé de oiro E tem raminhos de prata; Menina, dê os seus olhos A quem por eles se mata!
A vara vareja o ramo, A azeitona cai no chão; Se tu me pedires um beijo Nunca te direi que não.
[instrumental]
A rama da oliveira Quando cai no lume estala: Assim é o meu coração Quando contigo não fala.
Canta quem já tem amores, Fica triste quem não tem;Foi na apanha da azeitona Que eu encontrei o meu bem.
[instrumental]
* Ronda dos Quatro Caminhos: António Prata – violas, violino, bandolim, coros Carlos Barata – acordeão, adufe, 2.ª voz Daniel Completo – baixo acústico, coros João Cavadinhas – viola amarantina, voz solo Vítor Costa – bateria, percussões Músicos convidados: A.C. – violino Filipe Martins – contrabaixo, baixo acústico José Barros – viola braguesa Pedro Fragoso – piano, coros António Lopes e Alexandre Jerebtzov – coros Arranjos – António Prata, João Cavadinhas e Carlos Barata Produção e direcção musical – António Prata Produção executiva – Alain Vachier Gravado no Regiestúdio, Amadora, e misturado no Estúdio Sincronia, Madrid, em Janeiro e Fevereiro de 1996
Azeitona Preta
Música: Tradicional (Beira Baixa) Arranjo: Júlio Pereira Intérprete: Júlio Pereira* (in LP "Cádoi", Transmédia, 1984, reed. CNM, 1994)
(instrumental / vocalizos)
* Produção e direcção musical – Júlio Pereira Gravado e misturado no Angel Studio II, Lisboa, em Outubro de 1984 Técnico de som – José Manuel Fortes
Azeitona Galeguinha
Letra e música: Tradicional (Beira Baixa) Arranjo: Carlos Gama Intérprete: Orquestra Típica de Alcains
A azeitona galeguinha (Ai) Não a comem os pardais: Comem uma, comem duas, (Ai) Comem três, não querem mais.
[instrumental]
A azeitona galeguinha (Ai) Quando vai para o lagar É como a moça bonita (Ai) Que todos lhe vão falar.
[instrumental]
Na Apanha da Azeitona
Música: Rão Kyao Intérprete: Rão Kyao* (in CD "Porto Alto", Farol Música, 2004)
(instrumental)
* Rão Kyao – flautas de bambu António Pinto – viola braguesa Ruca Rebordão – escova no sofá, shaker André Sousa Machado – bateria Produção musical – Luís Pedro Fonseca Produção executiva – António Cunha (Uguru) & Luís Pedro Fonseca Gravado por Pedro Rego e Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, em Dezembro de 2003 e Janeiro de 2004 Misturado e masterizado por Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa
Dás Oliveira Frutos
Poema: António Saias Música: Fernando Lopes-Graça (1978) Intérprete: Coro Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 1", Numérica, 2007)
Dás, oliveira, frutos redondos; colhê-los dói nas mãos, nos ombros.
Dás, oliveira, frutos pequenos; sabê-los d'outros – a quem os colhe – não lhe dói menos.
Dás, oliveira, frutos amargos das feridas fundas que vais fazendo nos dedos magros.
* Direcção – Jorge Carvalho Alves
Balada da Oliveira
Música: Pedro Caldeira Cabral Intérprete: Pedro Caldeira Cabral* (in CD "Memórias da Guitarra Portuguesa", Tradisom, 2003)
(instrumental)
* Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa Fernando Alvim – viola Duncan Fox – contrabaixo Produção – José Moças Gravado na Igreja da Cartuxa, Caxias, em 1999 Engenheiro de som – José Manuel Fortes
Canção da Azeitona
Letra e música: Tradicional (Quadrazais - Sabugal, Beira Alta) Recolha: César Prata e Julieta Silva Intérprete: Chuchurumel* com Maria Augusta Moleira (in CD "No Castelo de Chuchurumel", Chuchurumel/Luzlinar, 2005)
Azeitona miudinha, Já morreu quem te apanhava; Agora deixa-te andar Por esse chão espalhada.
A oliveira tem pé de ouro, Não tem galhadas de prata; Menina, dê os seus olhos A quem por eles se mata!
A azeitona cordovil Traz o caroço escondido; Não me percas a amizade, Eu não te perco o sentido!
Debaixo da oliveira Aí é que é o falar; Traz a rama escondida, Não entra lá o luar.
[instrumental]
* Maria Augusta Moleira – voz César Prata – viola e voz Julieta Silva – piano e voz Gravado no Primogénitos Studios, Soito - Sabugal, entre Fevereiro de 2004 e Abril de 2005 Produção, arranjos e edição – Chuchurumel Gravação e masterização – Artur Emídio Misturas – Artur Emídio e Chuchurumel
Debaixo da Oliveira
Letra e música: Popular (Beira Litoral) Intérprete: Toques do Caramulo* com Bernard Massuir (in CD "Toques do Caramulo É ao Vivo!", Associação d'Orfeu, 2007)
[vocalizos / instrumental]
Meu benzinho, eu vou-me embora, Dá carinhos a quem te adora! Meu benzinho, eu já cá estou, Dá carinhos a quem te amou!
* Toques do Caramulo: Luís Fernandes – voz, acordeão, viola braguesa Aníbal Almeida – rabeca Gonçalo Rodrigues – bandolim Miguel Cardoso – contrabaixo Lara Figueiredo – flauta Ricardo Coutinho – bateria tradicional Convidado especial: Bernard Massuir – voz Gravado ao vivo no Espaço d'Orfeu, Águeda, na noite de 21 de Outubro de 2006 Direcção técnica – Rui Oliveira Assistência técnica de gravação – Paulo Brites, Ricardo Relvas, Bitocas e Jorge Sousa Misturas – Rui Oliveira & Luís Fernandes, no Gravad'Or, Águeda, de Novembro de 2006 a Março de 2007 Masterização – João Neves & Rui Oliveira, no Espaço Sons, Aveiro, em Março de 2007
Amores da Azeitona
Letra e música: Tradicional (Beira Baixa) Intérprete: Musicalbi* (in CD "Mastiço", I Som, 2007)
A folha da oliveira Ai, deitada no lume estala; Assim é meu coração Ai, quando para ti não fala!
A folha da oliveira Ai, tem dois bicos como a renda; Estes rapazes de agora Ai, já não há quem os entenda!
A oliveira pequena Ai, que azeitona pode dar? A filha de um homem pobre Ai, que amores pode tomar?
[instrumental]
A folha da oliveira Ai, deitada no lume estala; Assim é meu coração Ai, quando para ti não fala!
A folha da oliveira Ai, tem dois bicos como a renda; Estes rapazes de agora Ai, já não há quem os entenda!
A oliveira pequena Ai, que azeitona pode dar? A filha de um homem pobre Ai, que amores pode tomar?
Se a oliveira falasse Ai, ela diria o que viu: Debaixo da sua sombra Ai, dois amores encobriu.
Os amores da azeitona Ai, são como os do milho miúdo: À acabada da azeitona Ai, lá vai amor, lá vai tudo!
A folha da oliveira Ai, deitada no lume estala!
* Musicalbi: Carlos Salvado – voz, bandolim, guitarra, cavaquinho, bouzouki e flautas Filipa Melo – voz Horácio Pio – baixo, acordeão e coros Maria Côrte – violino, harpa celta e gaita-de-foles António Pedro – piano, percussões e coros António Lourinho – bateria Participações especiais: Catarina Ventura – acordeão e coros Emília Melo (mãe de Filipa Melo) – voz Gravado no Estúdio I Som, Alcains Misturas e masterização – Nuno Gelpi
Ó Rama, Ó Que Linda Rama
Letra e música: Popular (Alentejo) Intérprete: Teresa Silva Carvalho* (in LP "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1994)
[instrumental]
Ó rama, ó que linda rama, Ó rama da oliveira, O meu par é o mais lindo Que anda aqui na roda inteira!
Que anda aqui na roda inteira, Aqui e em qualquer lugar! Ó rama, ó que linda rama, Ó rama do olival!
Eu gosto muito de ouvir Cantar a quem aprendeu; Se houvesse quem me ensinara Quem aprendia era eu.
[instrumental]
Ó rama, ó que linda rama, Ó rama da oliveira, O meu par é o mais lindo Que anda aqui na roda inteira!
Que anda aqui na roda inteira, Aqui e em qualquer lugar! Ó rama, ó que linda rama, Ó rama do olival!
Não me inveja de quem tem Carros, parelhas e montes; Só me inveja de quem bebe A água em todas as fontes.
[instrumental]
Ó rama, ó que linda rama, Ó rama da oliveira, O meu par é o mais lindo Que anda aqui na roda inteira!
Que anda aqui na roda inteira, Aqui e em qualquer lugar! Ó rama, ó que linda rama, Ó rama do olival!
[instrumental]
* [Créditos gerais do disco:] Júlio Pereira – violas acústica e clássica, bandolim e percussões Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa e rabeca Catarina Latino – flauta barroca e cornamusa Zé Luiz Iglésias – viola clássica Pintinhas – percussões Hélder Reis – acordeão Voz masculina – Vitorino Grupo Coral de Cantadores do Redondo Produção e direcção musical – Vitorino Técnicos de som – Manuel Cunha e Moreno Pinto
À Oliveira da Serra
Música: Popular Adaptação: Rão Kyao Intérprete: Rão Kyao* & Lu Yanan (in CD "Porto Interior", Fundação Jorge Álvares, 2008)
(instrumental)
* Rão Kyao – flauta de bambu Lu Yanan – pi'pa Produtor musical – Rão Kyao Produtor executivo – António Avelar de Pinho Gravação e mistura – Luís Delgado, no Estúdio Sonic State, Miraflores
«Vinha do tempo em que os animais falavam, se quisermos perceber a doçura que há nesta expressão e na ideia quando olhamos a música popular. Significa que era um dos pilares, um dos últimos guardiões de uma época em que as palavras em francês ainda tinham – passe a redundância – uma palavra a dizer na definição das regras da canção antes da hegemonia esmagadora do império anglo-americano. Mais: o homem era um dos exemplos da disponibilidade gaulesa para aceitar gente de fora entre os seus maiores. Basta lembrar que Henri Salvador veio da Guiana, Jacques Brel e Adamo eram belgas, Serge Reggiani e Yves Montand nasceram em Itália, Charles Aznavour pertence a uma família da Arménia, Dalida nasceu no Egipto. Tal e qual como o homem que aqui nos traz, filho de gregos judeus [de língua italiana], mais um dos talentos descobertos por Edith Piaf, admirador incondicional de Georges Brassens ao ponto de lhe ter pedido emprestado para sempre o nome próprio, a que juntou depois uma adaptação do apelido. Símbolo do Maio de 68, vagabundo incorrigível das canções: é de Georges Moustaki [de seu verdadeiro nome Giuseppe Mustacchi] que aqui se fala, ao mesmo tempo que nos lembramos de "Le Métèque" ou de "Ma Liberté", de "Milord" ou de "Il Faudra Mourir un Jour". E voltamos a concluir que este parceiro de barba e cabelos soltos, tantas vezes fotografado com a viola que o seguia para toda a parte, personificou o lado bom da globalização ao assumir sem preconceitos, e com todas as vantagens para quem o ouvia, a sua miscigenação cultural. Gravou em, pelo menos, meia-dúzia de idiomas – francês, italiano, castelhano, português, grego e árabe – e teve oportunidade de completar os cinquenta anos de carreira, até que uma insuficiência respiratória ditou o irreversível e amargo adeus aos palcos e aos estúdios. Antes de oferecer "Milord", um clássico, a Edith Piaf [1958], já tinha mergulhado nas causas e nas boémias parisienses, tendo chegado à cidade em 1951. Tinha dezassete anos. Acabaria por ser cantado por muitos dos grandes: de Salvador a Herbert Pagani, sem esquecer Barbara, Montand, Reggiani, Françoise Hardy ou a eterna Juliette Gréco, a mesma que sobre a sua morte deixou justas sentenças: "Georges possuía uma doçura infinita e imenso talento. Era, como todos os poetas, alguém diferente, porque acaba sempre por ser essa diferença que conduz ao talento". Colaborou com alguns dos seus músicos de eleição, de Astor Piazzolla a António Carlos Jobim. Deixa cerca de trezentas canções como bandeiras de um património em que a simplicidade sempre andou de braço dado com a convicção, tendo igualmente assinado adaptações memoráveis como, por exemplo, a do "Fado Tropical", de Chico Buarque, a que chamou simplesmente "Portugal". Usou-a para festejar a Revolução Portuguesa. Despediu-se de nós na última digressão em 2008, quando lançou o espantoso disco "Vagabond". Com ele, morto aos 79 anos, desaparece provavelmente o último de um grupo, mais do que de uma geração, de geniais autores, daqueles que usamos como faróis de nevoeiro nos dias cinzentos como os de agora. Dele disse Leo Ferré: "Georges sussurra onde eu grito, mas é a mesma coisa". Ferré sabia o que dizia: depois de "Avec le Temps" não há canção maior sobre a erosão e o desgaste do amor do que "La femme qui est dans mon lit / N'a plus vingt ans depuis longtemps" [canção "Sarah"]. É de Georges Moustaki, um daqueles que parte mas fica para sempre.» (João Gobern, na crónica "Parceiro de palavra", da rubrica "Pano para Mangas", 24-Mai-2013).
Logo que João Gobern terminou a leitura desta crónica, que subscrevo e aplaudo, o locutor António Macedo teve a louvável atitude de passar, extra-'playlist', o grande cartão-de-visita de Georges Moustaki, "Le Métèque". Não obstante, a rádio pública (mormente com as Antenas 1 e 3) devia fazer muito mais em tributo ao grande (enorme) cantautor, ademais tendo ele também gravado canções em língua portuguesa. Sem prejuízo da realização de um programa especial, bem poderia ser transmitido, a cada hora do dia em que a triste notícia foi veiculada, um dos mais belos espécimes do repertório de Georges Moustaki. Alguns exemplos: "Le Métèque" (o original e a versão em português), "Natalia" (instrumental), "Ma Solitude", "Lettre à Marianne" (instrumental), "Il Est Trop Tard", "Rue des Fosses Saint-Jacques" (instrumental), "Ma Liberté", "Margot" (instrumental), "Marche de Sacco et Vanzetti" (versão do tema "Here's to You", criado por Joan Baez), "Kim" (instrumental) e "Portugal" (versão do "Fado Tropical", de Chico Buarque). De todos eles se faculta a audição nesta página. É serviço público que o blogue "A Nossa Rádio" se orgulha de prestar aos seus leitores, designadamente aos ouvintes das Antenas 1 e 3 que gostariam de revisitar ou de descobrir um dos vultos maiores da canção francesa – e do mundo. Tivesse dado um fanico a Lady Gaga (ou a qualquer outra nulidade artística fabricada pela MTV), que a levasse desta para melhor, e é certo que a "perda" seria objecto de amplo destaque nas Antenas 1 e 3 (e até nos noticiários da Antena 2). Com esta aberrante e empobrecedora inversão de valores é que eu jamais poderei contemporizar no serviço público de rádio, pelo menos enquanto for obrigado a desembolsar, anualmente, a quantia (não tão irrisória assim) de 28,62 euros.
Le Métèque
Letra e música: Georges Moustaki Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)
Avec ma gueule de métèque De juif errant, de pâtre grec Et mes cheveux aux quatre vents Avec mes yeux tout délavés Qui me donnent l'air de rêver Moi qui ne rêve plus souvent
Avec mes mains de maraudeur De musicien et de rôdeur Qui ont pillé tant de jardins Avec ma bouche qui a bu Qui a embrassé et mordu Sans jamais assouvir sa faim
Avec ma gueule de métèque De juif errant, de pâtre grec De voleur et de vagabond Avec ma peau qui s'est frottée Au soleil de tous les étés Et tout ce qui portait jupon
Avec mon cœur qui a su faire Souffrir autant qu'il a souffert Sans pour cela faire d'histoires Avec mon âme qui n'a plus La moindre chance de salut Pour éviter le purgatoire
Avec ma gueule de métèque De juif errant, de pâtre grec Et mes cheveux aux quatre vents Je viendrai, ma douce captive Mon âme sœur, ma source vive Je viendrai boire tes vingt ans
Et je serai prince de sang Rêveur ou bien adolescent Comme il te plaira de choisir Et nous ferons de chaque jour Toute une éternité d'amour Que nous vivrons à en mourir
Et nous ferons de chaque jour Toute une éternité d'amour Que nous vivrons à en mourir
* [Créditos gerais do disco:] Georges Moustaki – voz, guitarra Françoise Walch – voz Raymond Gimenez – guitarra Sylvano – guitarra Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer Direcção artística – Jacques Bedos Produção – Henri Belolo Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy
O Estrangeiro
Letra: Georges Moustaki; versão de Nara Leão
Música: Georges Moustaki Intérprete: Georges Moustaki
Com minha cara de estrangeiro, Judeu errante, aventureiro, Com meu riso e minha dor, Com esses meus olhos descorados, Que parecem desbotados E me dão ar de sonhador;
Com minha mão de marinheiro, Marginal e seresteiro, Que roubou tantos jardins, E minha boca que bebeu, Muito beijou, tanto mordeu Numa fome que não tem fim;
Com minha cara de estrangeiro, Judeu errante, aventureiro, De ladrão e vagabundo, Com essa pele bem curtida, Acarinhando sempre a vida E o sol de todo esse mundo;
E o coração que sofreu tanto, Muito amou, e sem espanto Vive ainda a sua história, E minha alma que sem sorte Não espera nem na morte Seu consolo, sua glória;
Com minha cara de estrangeiro, Judeu errante, aventureiro, E meus cabelos pelo vento, Vou encontrar minha querida, A alma irmã, a fonte viva, E celebrar esse bom tempo;
E vou ser príncipe valente, Sonhador adolescente, O que você quiser de mim... E viveremos cada dia O amor sem fim, a alegria Intensamente até o fim;
E viveremos cada dia O amor sem fim, a alegria Intensamente até o fim.
Natalia
Música: Georges Moustaki Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)
(instrumental)
* [Créditos gerais do disco:] Georges Moustaki – voz, guitarra Françoise Walch – voz Raymond Gimenez – guitarra Sylvano – guitarra Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer Direcção artística – Jacques Bedos Produção – Henri Belolo Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy
Ma Solitude
Letra e música: Georges Moustaki Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)
Pour avoir si souvent dormi Avec ma solitude Je m'en suis fait presqu'une amie Une douce habitude Elle ne me quitte pas d'un pas Fidèle comme une ombre Elle m'a suivi ça et là Aux quatre coins du monde
Non, je ne suis jamais seul Avec ma solitude
Quand elle est au creux de mon lit Elle prend toute la place Et nous passons de longues nuits Tous les deux face à face Je ne sais vraiment pas jusqu'où Ira cette complice Faudra-t-il que j'y prenne goût Ou que je réagisse?
Non, je ne suis jamais seul Avec ma solitude
Par elle j'ai autant appris Que j'ai versé de larmes Si parfois je la répudie Jamais elle ne désarme Et si je préfère l'amour D'une autre courtisane Elle sera à mon dernier jour Ma dernière compagne
Non, je ne suis jamais seul Avec ma solitude Non, je ne suis jamais seul Avec ma solitude
* [Créditos gerais do disco:] Georges Moustaki – voz, guitarra Françoise Walch – voz Raymond Gimenez – guitarra Sylvano – guitarra Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer Direcção artística – Jacques Bedos Produção – Henri Belolo Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy
Lettre à Marianne
Música: Georges Moustaki Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Les Amis de Georges", Polydor, 1974, reed. Polydor, 1994)
(instrumental)
* Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing, Jean Musy Direcção artística – Jacques Bedos Engenheiro de som – William Flageollet
Il Est Trop Tard
Letra e música: Georges Moustaki Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)
Pendant que je dormais, pendant que je rêvais Les aiguilles ont tourné, il est trop tard Mon enfance est si loin, il est déjà demain Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps
Pendant que je t'aimais, pendant que je t'avais L'amour s'en est allé, il est trop tard Tu étais si jolie, je suis seul dans mon lit Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps
Pendant que je chantais ma chère liberté D'autres l'ont enchaînée, il est trop tard Certains se sont battus, moi je n'ai jamais su Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps
Pourtant je vis toujours, pourtant je fais l'amour M'arrive même de chanter sur ma guitare Pour l'enfant que j'étais, pour l'enfant que j'ai fait Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps
Pendant que je chantais, pendais que je t'aimais Pendant que je rêvais il était encore temps
* [Créditos gerais do disco:] Georges Moustaki – voz, guitarra Françoise Walch – voz Raymond Gimenez – guitarra Sylvano – guitarra Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer Direcção artística – Jacques Bedos Produção – Henri Belolo Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy
Rue des Fosses Saint-Jacques
Música: Georges Moustaki Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)
(instrumental)
* [Créditos gerais do disco:] Georges Moustaki – voz, guitarra Françoise Walch – voz Raymond Gimenez – guitarra Sylvano – guitarra Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer Direcção artística – Jacques Bedos Produção – Henri Belolo Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy
Ma Liberté
Letra e música: Georges Moustaki Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Bobino 70", Polydor, 1970, reed. Polydor, 1998)
Ma liberté Longtemps je t'ai gardée Comme une perle rare Ma liberté C'est toi qui m'a aidé A larguer les amarres Pour aller n'importe où Pour aller jusqu'au bout Des chemins de fortune Pour cueillir en rêvant Une rose des vents Sur un rayon de lune
Ma liberté Devant tes volontés Mon âme était soumise Ma liberté Je t'avais tout donné Ma dernière chemise Et combien j'ai souffert Pour pouvoir satisfaire Tes moindres exigences J'ai changé de pays J'ai perdu mes amis Pour gagner ta confiance
Ma liberté Tu as su désarmer Toutes mes habitudes Ma liberté Toi qui m'a fait aimer Même la solitude Toi qui m'as fait sourire Quand je voyais finir Une belle aventure Toi qui m'as protégé Quand j'allais me cacher Pour soigner mes blessures
Ma liberté Pourtant je t'ai quittée Une nuit de décembre J'ai déserté Les chemins écartés Que nous suivions ensemble Lorsque sans me méfier Les pieds et poings liés Je me suis laissé faire Et je t'ai trahi pour Une prison d'amour Et sa belle geôlière Et je t'ai trahi pour Une prison d'amour Et sa belle geôlière
* [Créditos gerais do disco:] Georges Moustaki – voz, guitarra Catherine Le Forestier – voz Joël Favreau – guitarra Michel Gaudry – contrabaixo Philippe Combelle – tabla Jean-Charles Capon – violoncelo Direcção artística – Jacques Bedos Produção – Henri Belolo Engenheiro de som – Claude Martenot
Margot
Música: Georges Moustaki Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Il Y Avait Un Jardin", Polydor, 1971, reed. Polydor/Universal, 2012)
(instrumental)
* [Créditos gerais do disco:] Joël Favreau – guitarra Michel Gaudry – contrabaixo Jean-Charles Capon – violoncelo Benoit Charvet – flauta Michel Delaporte – percussões Orquestra dirigida por Hubert Rostaing Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing Direcção artística – Jacques Bedos
Marche de Sacco et Vanzetti
Letra: Joan Baez (tema "Here's to You", do filme "Sacco e Vanzetti", de Giuliano Montaldo, 1971); versão de Georges Moustaki Música: Ennio Morricone Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Il Y Avait Un Jardin", Polydor, 1971, reed. Polydor/Universal, 2012)
[instrumental]
Maintenant Nicolas et Bart, Vous dormez au fond de nos cœurs, Vous étiez tous seuls dans la mort, Mais par elle vous vaincrez! [6x]
* [Créditos gerais do disco:] Joël Favreau – guitarra Michel Gaudry – contrabaixo Jean-Charles Capon – violoncelo Benoit Charvet – flauta Michel Delaporte – percussões Orquestra dirigida por Hubert Rostaing Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing Direcção artística – Jacques Bedos
Kim
Música: Georges Moustaki Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Si Je Pouvais t'Aider", Polydor, 1979, reed. Polydor/Universal, 2000)
(instrumental)
* [Créditos gerais do disco:] Marta Contreras – voz e percussões Mário Lima – guitarras e voz Kimpoh Cheah – flauta e percussões Benhamadi Ameziane – voz, bateria e congas Lionel Lecreux – bateria Tony Bonfils – guitarra baixo Pierre-Yves Sorin – contrabaixo e voz Christian Chevallier – teclados e orquestrações Claude Maisonneuve – oboé e corne inglês Les Troubadours – guitarras e coros Gérard Niobey – guitarra Marcel Azzola – acordeão Engenheiro de som – Christian Chevallier
Portugal
Letra: Ruy Guerra ("Fado Tropical") e Georges Moustaki Música: Chico Buarque ("Fado Tropical") Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Les Amis de Georges", Polydor, 1974, reed. Polydor, 1994)
Oh muse, ma complice Petite sœur d'exil Tu as les cicatrices D'un 21 avril
Mais ne sois pas sévère Pour ceux qui t'ont déçue De n'avoir rien pu faire Ou de n'avoir jamais su
A ceux qui ne croient plus Voir s'accomplir leur idéal Dis leur qu'un œillet rouge A fleuri au Portugal
On crucifie l'Espagne On torture au Chili La guerre du Viêt-Nam Continue dans l'oubli
Aux quatre coins du monde Des frères ennemis S'expliquent par les bombes Par la fureur et le bruit
A ceux qui ne croient plus Voir s'accomplir leur idéal Dis leur qu'un œillet rouge A fleuri au Portugal
Pour tous les camarades Pourchassés dans les villes Enfermés dans les stades Déportés dans les îles
Oh muse ma compagne Ne vois-tu rien venir Je vois comme une flamme Qui éclaire l'avenir
A ceux qui ne croient plus Voir s'accomplir leur idéal Dis leur qu'un œillet rouge A fleuri au Portugal
Oh musa do meu fado, Oh minha mãe gentil, Te deixo consternado No primeiro Abril!
Mas não sê tão ingrata! Não esquece quem te amou E em tua densa mata Se perdeu e se encontrou.
[instrumental]
Débouche une bouteille Prends ton accordéon Que de bouche à oreille S'envole ta chanson
Car enfin le soleil Réchauffe les pétales De mille fleurs vermeilles En avril au Portugal
Et cette fleur nouvelle Qui fleurit au Portugal C'est peut-être la fin D'un empire colonial
Et cette fleur nouvelle Qui fleurit au Portugal C'est peut-être la fin D'un empire colonial