21 junho 2013

Revisitando "Os Dias da MadreDeus"


Da esquerda para a direita: Pedro Ayres Magalhães, Rodrigo Leão, Gabriel Gomes, Teresa Salgueiro e Francisco Ribeiro (fotografia de Álvaro Rosendo, 1987)
[defronte ao portal da antiga igreja do convento de Xabregas / Teatro Ibérico]


«Há pouco mais de um quarto de século, trabalhava eu na maior editora de música portuguesa [Valentim de Carvalho], participei numa reunião muito acalorada. Tudo, claro, por causa de um disco...»
Assim começa David Ferreira a contar a história do nascimento e primeiros passos dos Madredeus, o nome da música portuguesa que, depois de Amália Rodrigues, maior projecção alcançou além-fronteiras. É uma história repartida por seis capítulos cuja audição se recomenda vivamente, quer aos admiradores do grupo, quer àqueles que, em razão da jovem idade, não conheçam a obra da fase inicial. E com a vantagem de ser contada por alguém que fala com conhecimento de causa:


I - Nos bastidores do lançamento de um disco estranho
http://www.rtp.pt/play/p955/e108071/david-ferreira-a-contar

II - O novo grupo de Pedro Ayres e Rodrigo Leão
http://www.rtp.pt/play/p955/e108246/david-ferreira-a-contar

III - Os dias da Madredeus
http://www.rtp.pt/play/p955/e108443/david-ferreira-a-contar

IV - As primeiras viagens dos Madredeus
http://www.rtp.pt/play/p955/e108527/david-ferreira-a-contar

V - Madredeus "Existir"
http://www.rtp.pt/play/p955/e108631/david-ferreira-a-contar

VI - Madredeus à conquista do mundo
http://www.rtp.pt/play/p955/e108742/david-ferreira-a-contar

Esta justíssima evocação dos Madredeus teve o bendito condão de levar-me a revisitar esse fabuloso álbum inaugural, "Os Dias da MadreDeus". O mais genuíno, inspirado e arrebatador de toda a discografia do grupo que revelou a bela e portentosa voz de Teresa Salgueiro e que, nas palavras de Jorge Pires (in "Madredeus: Um Futuro Maior", 1995), «além de ser aquele que lançou a semente à terra, é um disco que ainda hoje mantém alguns dos melhores momentos da sua criação. Totalmente descomprometido ante estratégias que não as que levavam directamente à música, encerra pérolas que estabelecem um equilíbrio irrepetível entre fragilidade e rudeza, entre inocência e solenidade, e que na sua beleza são plenamente capazes de provocar arrepios na espinha a quem as ouça». Lamentavelmente, nem sequer uma dessas pérolas figura na 'playlist' da RDP-Antena 1, apesar da obrigação que tem, legalmente estipulada, de divulgar o nosso património musical mais valioso e perene. Aliás, os Madredeus (com Teresa Salgueiro, bem entendido) têm sido muito mal tratados pela rádio estatal nos últimos anos. Nada mais do que "Alfama" (do álbum "Ainda") e a versão electrónica de "Haja o Que Houver"... Razão bastante para que o blogue "A Nossa Rádio" empreenda o serviço público de "trazer para a luz do dia" as pérolas mais esplendorosas d' "Os Dias da MadreDeus", fazendo justiça a esse auspicioso trabalho e aos músicos que, com muito amor e entrega, o realizaram: Maria Teresa Salgueiro (voz), Pedro Ayres Magalhães (guitarra clássica), Rodrigo Leão Muñoz (teclados), Gabriel Gomes (acordeão) e Francisco Ribeiro (violoncelo).



Capa do álbum "Os Dias da MadreDeus" (EMI-VC, Dezembro de 1987)
Concepção de Pedro Ayres Magalhães, sobre uma aguarela de José Alexandre Gonefrey
Fotografia de Luís Ramos




A Sombra (à memória de António Variações)



Letra e música: Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)





[instrumental]

Anda pela noite só
Um capote errante, ai, ai
E uma sombra negra cai, em redor
Do homem no cais


Das ruas antigas vem
Um cantar distante ai, ai
E ninguém das casas sai, por temor
Dos passos no cais


Se eu cair ao mar, quem me salvará?
Lalalala...
Que eu não tenho amigos, quem é que será?
Lalalala...
Ai ó solidão, que não andas só!
Lalalala...
Anda lá à vontade, mas de mim tem dó!...


Lalalala...
Lalalala...


Cantar, sempre cantou
Jamais esteve ausente, ai, ai
E uma vela branca vai, por amor
Largar pela noite

Se eu cair ao mar, quem me salvará?
Lalalala...
Que eu não tenho amigos, quem é que será?
Lalalala...
Ai ó solidão, que não andas só!
Lalalala...
Anda lá à vontade, mas de mim tem dó!...


Lalalala...
Lalalala...


[instrumental]



As Montanhas



Música: Gabriel Gomes
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)





(instrumental)



A Vaca de Fogo



Letra: Pedro Ayres Magalhães
Música: Gabriel Gomes e Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)





[instrumental]

À porta
Daquela igreja
Vai um grande corrupio
À porta
Daquela igreja
Vai um grande corrupio
Às voltas
Duma coisa velha
Reina grande confusão
Às voltas
Duma coisa velha
Reina grande confusão


Os putos
Já fogem dela
Deita o fogo a rebentar
Os putos
Já fogem dela
Deita o fogo a rebentar
Soltaram
Uma vaca em chamas
Com um homem a guiar
Soltaram
Uma vaca em chamas
Com um homem a guiar


São voltas
Ai amor são voltas
São as voltas
São as voltas da maralha
Ai são voltas
Ai amor são voltas
São as voltas da canalha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da maralha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da canalha


[instrumental]

À porta
Daquela igreja
Vive o ser tradicional
À porta
Daquela igreja
Vive o ser tradicional
Às voltas
Duma coisa velha
E não muda a condição
Às voltas
Duma coisa velha
E não muda a condição


À porta
Daquela igreja
Vai um grande corrupio
À porta
Daquela igreja
Vai um grande corrupio
Às voltas
Duma coisa velha
Reina grande confusão
Às voltas
Duma coisa velha
Reina grande confusão


São voltas
Ai amor são voltas
São as voltas
São as voltas da maralha
Ai são voltas
Ai amor são voltas
São as voltas da canalha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da maralha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da canalha


[instrumental]



A Estrada do Monte



Letra: Pedro Ayres Magalhães
Música: Rodrigo Leão e Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987)





Não digas nada a ninguém
Que eu ando no mundo triste
A minha amada, que eu mais gostava,
Dançou, deixou-me da mão
Eu a dizer-lhe que a queria
Ela a dizer-me que não
E a passarada
Não se calava
Cantando esta canção


Sim, foi na estrada do monte
Perdi o teu grande amor
Sim, ali ao pé da fonte
Perdi o teu grande amor


Ai que tristeza que eu sinto
Fiquei no mundo tão só
E aquela fonte ficou manchada
Com tanto que se chorou
Se alguém aqui nunca teve
Uma razão p'ra chorar
Siga essa estrada
Não custa nada
Que eu fico aqui a cantar


Sim, foi na estrada do monte
Perdi o teu grande amor
Sim, ali ao pé da fonte
Perdi o teu grande amor


[vocalizos / instrumental]



A Península



Música: Rodrigo Leão, Pedro Ayres Magalhães e Gabriel Gomes
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)



(instrumental)



Adeus... e Nem Voltei



Letra e música: Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)





[instrumental]

"Adeus" dissemos
E nada mais de então ficou;
De asas quebradas
Foi a ave branca que voou;
Voa lá alto, que eu morro, bem sei, sem voltar;
Cantem as aves do monte que eu fui ver o mar...


Ai, não sei de mim;
Ai, não sinto nada...
Ai, e nem voltei.

[instrumental]


Voa lá alto, que eu morro, bem sei, sem voltar;
Cantem as aves do monte que eu fui ver o mar...


Ai, não sei de mim;
Ai, não sinto nada...
Ai, e nem voltei.




A Cantiga do Campo



Poema: Gomes Leal (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: Rodrigo Leão e Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)





[instrumental]

Porque andas tu mal comigo,
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!


[instrumental]

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas,
Eu choro, ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noites claras!


Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!


E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Àquela casa onde coses,
Com varanda para o mar.


Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!


Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!


[instrumental]

Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!


[instrumental]



CANTIGA DO CAMPO

(Gomes Leal, in "Claridades do Sul", Lisboa: Braz Pinheiro, 1875; Lisboa: Assírio & Alvim, col. Obras Clássicas da Literatura Portuguesa – Século XIX, edição de José Carlos Seabra Pereira, 1998)


                  Como eu adoro as tuas "simplicidades"!
                                                HEINE


Porque andas tu mal comigo,
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!


Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas,
Eu choro, ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noites claras!


Os que andam na descamisa
Gabam a viola tua,
Que, às vezes, ouço na brisa
Pelos serenos da lua.


E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Àquela casa onde coses,
Com varanda para o mar.


Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!


E andar contigo, ó meu pomo,
Exposto às chuvas e aos sóis!
E uma noite morrer como
Se morrem os rouxinóis!


Morrer chorando, num choro
Que mais as mágoas consola,
Levando só o tesouro
Da nossa triste viola!


Porque andas tu mal comigo,
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!




A Marcha da Oriental



Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)



(instrumental)



Fado do Mindelo



Letra: António Jorge Pacheco e Pedro Ayres Magalhães
Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)



Mindelo, minh'alma chora
e eu estou triste
o amor demora


Mindelo, já não existe
minh'alma chora
e o mar assiste


Mindelo, o amor é isto
não tem demora
porque eu insisto


Mindelo, mar a bater
e o meu amor
anda a sofrer
Mindelo, conta comigo
que eu vivo e tudo
espera por mim

[instrumental]


Mindelo, mar a bater
e o meu amor
anda a sofrer
Mindelo, conta comigo
que eu vivo e tudo
espera por mim


[instrumental]

Mindelo, mar a bater
e o meu amor
anda a sofrer
Mindelo, conta comigo
que eu vivo e tudo
espera por mim




A Cidade



Letra: Francisco Menezes e Pedro Ayres Magalhães
Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)



[instrumental]

Esta saudade
Não tem idade
Não tem idade
Esta saudade
Esta saudade


Esta cidade
Não tem idade
Não tem idade
Ai, esta cidade
Ai, esta cidade


[instrumental]

Esta saudade
Não tem idade
Não tem idade
Esta saudade
Esta saudade


Esta cidade
Não tem idade
Não tem idade
Ai, esta cidade
Ai, esta cidade


[instrumental]



A Andorinha



Música: Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)





(instrumental)



Amanhã



Letra: Pedro Ayres Magalhães
Música: Pedro Ayres Magalhães, Rodrigo Leão e Gabriel Gomes
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)



[instrumental]

A vida não me larga
O mundo não me foge
A estrada é grande e larga
E eu levo o albornoz
Caminho à luz do dia
Por campos e montanhas
E bebo a água fria
E a sede não me apanha
E o céu ali é lindo
Azul, e eu não resisto
Ao céu, ao céu profundo
Distante
E eu insisto


[instrumental]

Caminho à lua nova
Caminho à lua cheia
Caminho à lua nova
E a sede não me apanha
Caminho à lua nova
Caminho à lua cheia
Caminho à lua nova
E a sede não me apanha
E o céu ali é lindo
Azul, e eu não resisto
Ao céu, ao céu profundo
Distante
E eu insisto


[instrumental]

Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã


[instrumental]


* Madredeus:
Maria Teresa Salgueiro – voz
Pedro Ayres Magalhães – guitarra clássica
Rodrigo Leão Muñoz – teclados
Gabriel Gomes – acordeão
Francisco Ribeiro – violoncelo
Concepção de projecto – Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Produção artística e direcção dos arranjos – Pedro Ayres Magalhães
Assistência de produção na gravação – Pedro Bidarra de Almeida
Gravado na antiga igreja do convento de Xabregas / Teatro Ibérico, Lisboa, nos dias 28, 29 e 30 de Julho de 1987
Técnicos de gravação – Pedro Vasconcelos e Miguel Gonçalves
URL:
http://anos80.no.sapo.pt/madredeus.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Madredeus
http://www.infopedia.pt/$madredeus
http://www.madredeus.pt/
http://www.facebook.com/MadredeusOfficial
http://www.myspace.com/madredeuspt
http://www.youtube.com/user/MadredeusVEVO
http://rubicat2.paginas.sapo.pt/index.html
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/madredeus
http://cotonete.clix.pt/artistas/home.aspx?id=1618
http://www.lastfm.pt/music/Madredeus



Capa do livro "Madredeus: Um Futuro Maior", de Jorge Pires (Temas & Debates, 1995)

17 junho 2013

Publicidade comercial na rádio pública (III)



Rui Pêgo, um indivíduo "nado e criado" em rádios comerciais, mal foi colocado na direcção da Antena 1 não descansou enquanto a não infestou com essa autêntica praga que são os cartuchos de 'spots' promocionais religiosamente disparados duas vezes em cada hora (aos 20 e aos 40 minutos) ou imediatamente antes de programas de autor. Se já é grande a minha aversão a essa e a outras formas de poluição sonora na rádio pública, fico deveras irritado, e com o sentimento de estarem a gozar com a minha cara de pagante de uma taxa obrigatória, quando sou bombardeado com publicidade a marcas comerciais e/ou a empresas com fins lucrativos. Foi o que aconteceu ontem (ou melhor, hoje, pois já tinham soado as badaladas da meia-noite de domingo), antes de começar mais uma emissão de fim-de-semana do programa "Alma Lusa", com um despudorado anúncio à marca Continente a pretexto de um concurso de imitadores do cantador Tony Carreira a ter lugar no programa "Praça da Alegria", da RTP-1, iniciativa essa patrocinada pela referida cadeia de super/hipermercados. Por princípio, não discordo de que a rádio pública promova programas dos canais televisivos do mesmo grupo empresarial, a Rádio e Televisão de Portugal, desde que tal se faça com sensatez e bom gosto (portanto, na observância de escrupulosos e rigorosos e critérios de qualidade) e – muito importante – que haja reciprocidade, isto é, que as antenas de rádio e respectivos programas sejam igualmente promovidos nos canais televisivos. Usar a Antena 1 para promover telelixo da RTP-1 e à boleia publicitar uma marca comercial é um procedimento claramente abusivo e falho de ética – por desrespeito pelos ouvintes/contribuintes e por infringir grosseiramente o estatuto que rege as rádios do serviço público (cláusula 10.ª do Contrato de Concessão do Serviço Público de Radiodifusão Sonora). Presumo que o principal responsável por esta obscena promiscuidade seja o director-geral de conteúdos, António Luís Marinho. Eu pergunto: será que o sujeito anda em roda livre e quem está acima dele se demite do dever de o controlar e de lhe refrear os desmandos?


Textos relacionados:
Publicidade comercial na rádio pública
Publicidade comercial na rádio pública (II)

13 junho 2013

Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade


Eugénio de Andrade por Jorge Ulisses (1980)

Qualquer dia é bom para se comungar da obra de um poeta, sendo que as efemérides (do nascimento ou da morte) se apresentam sempre como excelentes pretextos para o efeito. Assinalando-se hoje oito anos exactos sobre a data em que a "senhora da gadanha" ceifou a vida ao autor de "As Mãos e os Frutos", o blogue "A Nossa Rádio" recomenda vivamente a audição da edição do programa "A Força das Coisas", que Luís Caetano muito oportunamente realizou em celebração do grande poeta por ocasião do 90.º aniversário do nascimento, a 19 de Janeiro de 2013. Além de dez poemas (abaixo referenciados) e do texto "Poética" lidos pelo autor, o programa contém excertos de entrevistas/depoimentos em que Eugénio de Andrade fala si mesmo, que nos ajudam a conhecer melhor o homem e em que medida as afeições e os interesses que teve – mormente pela música – marcaram a sua obra. E a música, como não podia deixar de ser, tem presença relevante no programa, numa selecção primorosa de Luís Caetano: Bach, Debussy, Puccini, Jan Kaczmarek, Rachmaninov, Chopin, Haendel, Wallace Willis (espiritual negro "Swing Low, Sweet Chariot"), Pergolesi, Bach, Chopin e Elgar.
Para ouvir basta aceder a:

http://www.rtp.pt/play/p321/e105600/a-forca-das-coisas

- Green God (in "As Mãos e os Frutos", 1948)
- As Palavras (in "Coração do Dia", 1958)
- O Silêncio (in "Obscuro Domínio", 1971)
- Os Amantes sem Dinheiro (in "Os Amantes sem Dinheiro", 1950)
- Poema à Mãe (in "Os Amantes sem Dinheiro", 1950)
- É Assim, a Música (in "Os Lugares do Lume", 1998)
- Coral (in "Os Lugares do Lume", 1998)
- O Lugar da Casa (in "O Sal da Língua", 1995)
- Poética (in "Afluentes do Silêncio", 1968)
- Crianças de São Victor (in "Escrita da Terra", 1974)
- Adeus (in "Os Amantes sem Dinheiro", 1950)


Nota: Quem desejar receber a circular com os textos, especialmente preparada para os Amigos do LUGAR AO SUL, basta que a solicite escrevendo para: ajferreira74@gmail.com



Capa da primeira edição de "As Mãos e os Frutos" (Portugália Editora, 1948)
Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia

10 junho 2013

Camões recitado e cantado


Retrato de Luís de Camões, pintado em Goa por artista não identificado, no ano de 1581.


Causa-me muita impressão que o Dia de Camões sirva para tudo menos para a divulgação e o cultivo da obra (poesia e teatro) do maior vulto literário de língua portuguesa. Até há uns anos, era habitual a RTP-1 transmitir o filme "Camões", de Leitão de Barros. Não era muito, mas já era alguma coisa. Agora, nem isso... Nada que vá além das cerimónias oficiais com as paradas militares, os discursos de circunstância e a aposição de medalhas ao peito de um rol (mais ou menos extenso) de notáveis.
A Antena 1, nos últimos anos, tem afinado pelo mesmo diapasão de indigência, fazendo tábua-rasa de uma das obrigações culturais do serviço público que é dar a ouvir (porque é de rádio que falamos) a obra dos nossos valores literários, sem esquecer, como é óbvio, o expoente mais elevado de todos – Luís Vaz de Camões. Não fosse a rubrica "David Ferreira a Contar" em que esteve em foco a polémica gerada pela edição, em 1965, do EP "Amália canta Luís de Camões", com a passagem de excertos dos três espécimes poético-musicais nele incluídos ("Lianor", "Erros Meus" e "Dura Memória") e de "Endechas a Bárbara Escrava", por José Afonso, e o nosso poeta maior teria sido completamente negligenciado no principal canal da rádio do Estado, durante o dia em que é suposto ser condignamente celebrado. Era assim tão complicado resgatar do arquivo histórico a adaptação de uma das três peças teatrais de Luís de Camões – "Auto dos Anfitriões", "Auto de Filodemo" ou "Auto de El-Rei Seleuco"? E seria pedir muito que se transmitisse, ao longo do dia, diversos dos seus poemas, ora recitados ora cantados? Uma coisa simples e despretensiosa, mas que seria de muito bom tom e não deixaria de ter benefício cultural no auditório. O mais difícil seria mesmo escolher entre o muito e bom que foi gravado, seja na forma recitada seja na forma musicada/cantada.
O blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar sete belos espécimes, antecedidos do soneto "A Camões", da autoria do brasileiro Manuel Bandeira, na voz de João Villaret, tal como os demais poemas recitados, homenageando o imortal recitador no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento. Dão voz aos poemas cantados: Amália Rodrigues, José Afonso, Amélia Muge e Cristina Branco.



A Camões



Poema (soneto) de Manuel Bandeira (in "A Cinza das Horas", Rio de Janeiro: Edição do autor, 1917)
Recitado por João Villaret* (in LP "João Villaret Falando com Igrejas Caeiro", Guilda da Música/Sassetti, 1973, reed. Strauss, 1997)


Quando n'alma pesar de tua raça
Um signo de apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
No teu poema de heroísmo e de beleza.

Génio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O grande amor da pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que entre perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente

Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.


* Gravado ao vivo no Teatro de São Luiz, Lisboa, em 1960
Remasterizado por Jorge d'Avillez, no Strauss Studio, Lisboa



Lianor



Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1668)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in EP "Amália canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989)




          MOTE

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
vai fermosa e não segura.

          VOLTAS

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos d'oiro entrançado,
fita de cor d'encarnado...
tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.


Notas:
Escarlata – tecido de lã de cor vermelha muito viva
Sainho – casaco curto que se vestia por cima da blusa
Chamalote – tecido de pêlo ou lã geralmente com seda, talvez assemelhando-se ao actual cetim
Vasquinha – saia com muitas pregas em volta da cintura
De cote – de uso quotidiano

* Arranjo e direcção de orquestra – Jorge Costa Pinto



Amor é um fogo que arde sem se ver



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é solitário andar por entre a gente;
é um não contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode o seu favor
nos mortais corações conformidade,
sendo a si tão contrário o mesmo Amor?



Endechas a Bárbara Escrava



Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968; reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)




          Endechas a ũa cativa
          com quem andava d'amores na Índia,
          chamada Bárbara.


Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela enfim descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.


* Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva



Sete anos de pastor Jacob servia



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
assim lhe era negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começou a servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.


Nota:
Jacob – patriarca bíblico, filho de Isaac e de Rebeca, irmão gémeo de Esaú.
Serviu seu tio Labão durante sete anos com a condição de, findo esse período, casar-se com a mais bela das suas filhas, Raquel. No dia das bodas, Labão trocou Raquel pela sua filha mais velha, Lia. Como, segundo o rito hebraico de então, a noiva era oferecida ao noivo completamente envolvida num véu, Jacob só deu pelo logro no dia seguinte. O tio justificou-se dizendo que não era costume casarem-se as filhas mais novas primeiro e contratou com Jacob mais sete anos, após o que lhe deu Raquel em casamento.
De Lia, de Raquel e das suas duas escravas, Zilfa e Bila, Jacob teve doze filhos que fundaram as doze tribos de Israel.



Aos Olhos de Helena



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "Múgica", UPAV, 1992)


          MOTE

Se Helena apartar
do campo seus olhos,
nascerão abrolhos.

          VOLTAS

A verdura amena,
gados, que pasceis
sabei que a deveis
aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
faz flores de abrolhos
o ar de seus olhos.

Faz serras floridas,
faz claras as fontes:
se isto faz nos montes,
que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
como ervas em molhos,
na luz de seus olhos.

Os corações prende
Com graça inumana,
de cada pestana
uma alma lhe pende.
Amor se lhe rende
e, posto em geolhos,
pasma nos seus olhos.


Notas:
Abrolhos – plantas herbáceas, de fruto espinhoso, que crescem nos terrenos incultos da região mediterrânica
Pasceis – pastais
Inumana – sobre-humana, divina
Amor – Eros/Cupido (deus do amor)
Geolhos – joelhos

* Alberto Campos – violoncelo
Maria João Correia – acordeão
Paulo Curado – flauta
Carlos Bica – contrabaixo
António José Martins – sintetizadores
Produção, arranjos e direcção musical – António José Martins
Gravado e misturado nos Estúdios Angel I e II, Lisboa, em Outubro de 1991
Gravação – Fernando Rascão e Jorge Barata
Mistura – Jorge Barata e António José Martins



Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não esqueças nunca aquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo dos meus olhos te levou.


Nota:
No manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, lê-se: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...»



Ninfas



Poema: Luís de Camões (estrofes 82 e 83 do Canto IX d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Sensus", Emarcy/Universal Classics France, 2003)




Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.


Nota:
Julgá-lo – imaginá-lo

* Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção musical e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Classics France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Setembro a Dezembro de 2002



"Vasco da Gama na Ilha dos Amores"
Desenho de Alexandre-Joseph Desenne; gravura de Richomme (in "Os Lusíadas", ed. Morgado de Mateus, Paris, 1817).

07 junho 2013

A vitória do azeite



O AZEITE

Roubaste ao sol a luz que te escorrega
pelo dorso
quando cais em fio
aproximando-te dolente de uma música de sal.


Caminhas paralelamente
às mais vastas extensões azuis.


Vestes a sardinha
com teus líquidos fatos
de fazenda grossa e lenta.
Beijas o tomate.
Casas o teu corpo dócil mas altivo
com a renda de brancura de uma fatia de pão.


Em ti o Livro existe
ó verde irmão.
E a bandeira existe.
E os deuses mais antigos.
E o barro da palavra dignidade.


És o amigo mais puro
dos puros azeitoneiros.
Sangue do seu sangue.
Mágoa dos seus olhos numa fronteira
queimada.


Entras na boca dos pobres
com a tua doçura vegetal
e a tua transparência
tão densa
como um sexo de mulher.


És o meu consolo
ó líquido cristal.
Em ti
há um mar tranquilo
a espreguiçar-se todas as manhãs,
e todas as mães cantam
e os deuses vêm consagrar
a casa daqueles que te oferecem
a luz de um olhar sem mancha
ao nascer de cada dia.


(José Fanha, in http://zefanha.blogspot.com/2006/08/o-azeite.html)


«Nem todas as notícias pressagiam marés de desgraça ou confirmam os temidos ventos adversos sobre o Sul da Europa. É natural que num ano particularmente difícil para os europeus periféricos face ao centro geográfico e económico que é Berlim, podíamos e devíamos estar a ser brindados, ao menos, com as bênçãos do clima. Nem isso! Com uma desgraça nunca vem só, temos que suportar chuvas, ventos e frios fora de época e já começamos a fazer contas ao que estas nuvens negras nos vão trazer de despesa, desde a agricultura ao turismo. Torna-se compreensível neste quadro cinzento-escuro que nos agarremos a tudo o que possa representar uma novidade positiva ou, no limite, uma confirmação simpática. É o caso de uma notícia trazida até nós pelo "Jornal de Notícias" e que nos dá conta de uma conclusão animadora de um estudo, realizado pela Universidade de Navarra, tendo como ponto de foco a alimentação. A sentença dos cientistas é então esta: a dieta mediterrânica, alegadamente praticada em Portugal também, não se limita a ser boa para o coração – é igualmente benéfica para o cérebro ou se quisermos pormenorizar, e passo a citar, "o azeite e os frutos secos melhoram significativamente a capacidade cognitiva dos adultos". Ora vamos lá dissecar a história. O Departamento de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Navarra teve como base de trabalho 522 adultos com idades compreendidas entre os 55 e os 80 anos, com uma particularidade: nenhuma destas pessoas apresentava problemas cardíacos mas todas tinham aquilo que é considerado um perfil de risco derivado de diabetes [do tipo 2], de hipertensão ou de consequências do tabagismo. Parte deste grupo adoptou a dieta mediterrânica e passados seis anos e meio foram realizados testes que visavam apurar eventuais problemas de deterioração cognitiva. Ora segundo o jornal espanhol "El Mundo", que refere declarações do cientista responsável por este estudo, Miguel Ángel Martínez, a incidência de problemas cerebrais era substancialmente mais baixa naqueles que tinham perfilhado a referida dieta. O médico justifica este desfecho com o seguinte: o azeite consegue eliminar do cérebro a proteína beta-amilóide, tida como a responsável pela doença de Alzheimer; além disso, o mesmo azeite reduz inflamações e o risco de diabetes. O estudo, publicado pelo "Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry", defende que ainda assim são necessários mais estudos para apurar melhor as propriedades antioxidantes da dieta mediterrânica.
Está confirmado então que os cereais, as frutas, as hortaliças, o peixe (mais do que a carne), alguns lacticínios, e as gorduras ligadas ao azeite e às nozes nos deixarão mais próximos de evitar a degradação do nosso próprio cérebro. A pequena ou média contradição vem, claro está, do facto de termos que matar a cabeça para descobrir como, nas actuais circunstâncias, podermos pagar a dieta mediterrânica que nos pode salvar a cabeça. Com tudo isto continua a falhar-me a origem e o alcance da expressão "estar com os azeites". Afinal, é uma coisa boa! E digo mesmo mais: a partir daqui, de hoje, agora e sempre – azeiteiro e com muito orgulho.» (João Gobern, na crónica "A vitória do azeite", da rubrica "Pano para Mangas", 22-Mai-2013).



E como está, nos dias de hoje, a olivicultura em Portugal? A impressão que tenho é de que se trata de um sector em declínio. Será mesmo? Se sim, seria bom que quem tem poder de decisão na matéria lesse notícias tão boas como esta e agisse em conformidade!
Em jeito de ilustração musical ao presente assunto, aqui se deixam alguns espécimes musicais relacionados com o fruto do qual se extrai o azeite – a oliva ou azeitona – e, bem assim, com a árvore que a produz, a oliveira. Tratando-se de repertório boicotado na actual Antena 1 (perdão, na coutada de Rui Pêgo e António Luís Marinho, sustentada pelo povo) mais uma razão para o blogue "A Nossa Rádio" proporcionar a sua audição/descoberta.




Fases de produção do azeite (diagrama)
[clique na imagem para ver melhor]




Oliveira da Serra



Letra e música: Popular
Harmonização: Eurico Carrapatoso
Intérprete: Coro Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 1", Numérica, 2007)



Ó oliveira da serra,
O vento leva a flor; (ó ai, ó linda)
Só a mim ninguém me leva (ó ai, ó linda)
Para ao pé do meu amor.
[2x]



* Direcção – Jorge Carvalho Alves



Cantiga da Azeitona



Letra: Popular
Música: João Cavadinhas
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Recantos", Polygram, 1996)



[instrumental]

Vou p'rá apanha da azeitona
Namorar nos olivais;
Por andar preso por ti
Cada vez padeço mais.


E os amores da azeitona
São como os da cotovia:
Em se apanhando a azeitona
Adeus amores de um só dia.


Já lá vem o sol raiando
Por cima das oliveiras;
Já se vão ouvindo as vozes
Das moças apanhadeiras.


A azeitona já está preta,
Já passou por tantas cores:
Já foi verde e foi vermelha,
Agora é rainha de amores.


[instrumental]

A oliveira tem pé de oiro
E tem raminhos de prata;
Menina, dê os seus olhos
A quem por eles se mata!


A vara vareja o ramo,
A azeitona cai no chão;
Se tu me pedires um beijo
Nunca te direi que não.


[instrumental]

A rama da oliveira
Quando cai no lume estala:
Assim é o meu coração
Quando contigo não fala.


Canta quem já tem amores,
Fica triste quem não tem;
Foi na apanha da azeitona
Que eu encontrei o meu bem.


[instrumental]


* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – violas, violino, bandolim, coros
Carlos Barata – acordeão, adufe, 2.ª voz
Daniel Completo – baixo acústico, coros
João Cavadinhas – viola amarantina, voz solo
Vítor Costa – bateria, percussões
Músicos convidados:
A.C. – violino
Filipe Martins – contrabaixo, baixo acústico
José Barros – viola braguesa
Pedro Fragoso – piano, coros
António Lopes e Alexandre Jerebtzov – coros
Arranjos – António Prata, João Cavadinhas e Carlos Barata
Produção e direcção musical – António Prata
Produção executiva – Alain Vachier
Gravado no Regiestúdio, Amadora, e misturado no Estúdio Sincronia, Madrid, em Janeiro e Fevereiro de 1996




Azeitona Preta



Música: Tradicional (Beira Baixa)
Arranjo: Júlio Pereira
Intérprete: Júlio Pereira* (in LP "Cádoi", Transmédia, 1984, reed. CNM, 1994)





(instrumental / vocalizos)


* Produção e direcção musical – Júlio Pereira
Gravado e misturado no Angel Studio II, Lisboa, em Outubro de 1984
Técnico de som – José Manuel Fortes




Azeitona Galeguinha



Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Arranjo: Carlos Gama
Intérprete: Orquestra Típica de Alcains





A azeitona galeguinha
(Ai) Não a comem os pardais:
Comem uma, comem duas,
(Ai) Comem três, não querem mais.


[instrumental]

A azeitona galeguinha
(Ai) Quando vai para o lagar
É como a moça bonita
(Ai) Que todos lhe vão falar.


[instrumental]



Na Apanha da Azeitona



Música: Rão Kyao
Intérprete: Rão Kyao* (in CD "Porto Alto", Farol Música, 2004)



(instrumental)


* Rão Kyao – flautas de bambu
António Pinto – viola braguesa
Ruca Rebordão – escova no sofá, shaker
André Sousa Machado – bateria
Produção musical – Luís Pedro Fonseca
Produção executiva – António Cunha (Uguru) & Luís Pedro Fonseca
Gravado por Pedro Rego e Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, em Dezembro de 2003 e Janeiro de 2004
Misturado e masterizado por Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa




Dás Oliveira Frutos



Poema: António Saias
Música: Fernando Lopes-Graça (1978)
Intérprete: Coro Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 1", Numérica, 2007)



Dás, oliveira,
frutos redondos;
colhê-los dói
nas mãos, nos ombros.


Dás, oliveira,
frutos pequenos;
sabê-los d'outros
– a quem os colhe –
não lhe dói menos.


Dás, oliveira,
frutos amargos
das feridas fundas
que vais fazendo
nos dedos magros.



* Direcção – Jorge Carvalho Alves



Balada da Oliveira



Música: Pedro Caldeira Cabral
Intérprete: Pedro Caldeira Cabral* (in CD "Memórias da Guitarra Portuguesa", Tradisom, 2003)





(instrumental)


* Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola
Duncan Fox – contrabaixo
Produção – José Moças
Gravado na Igreja da Cartuxa, Caxias, em 1999
Engenheiro de som – José Manuel Fortes




Canção da Azeitona



Letra e música: Tradicional (Quadrazais - Sabugal, Beira Alta)
Recolha: César Prata e Julieta Silva
Intérprete: Chuchurumel* com Maria Augusta Moleira (in CD "No Castelo de Chuchurumel", Chuchurumel/Luzlinar, 2005)



Azeitona miudinha,
Já morreu quem te apanhava;
Agora deixa-te andar
Por esse chão espalhada.


A oliveira tem pé de ouro,
Não tem galhadas de prata;
Menina, dê os seus olhos
A quem por eles se mata!


A azeitona cordovil
Traz o caroço escondido;
Não me percas a amizade,
Eu não te perco o sentido!


Debaixo da oliveira
Aí é que é o falar;
Traz a rama escondida,
Não entra lá o luar.


[instrumental]


* Maria Augusta Moleira – voz
César Prata – viola e voz
Julieta Silva – piano e voz
Gravado no Primogénitos Studios, Soito - Sabugal, entre Fevereiro de 2004 e Abril de 2005
Produção, arranjos e edição – Chuchurumel
Gravação e masterização – Artur Emídio
Misturas – Artur Emídio e Chuchurumel




Debaixo da Oliveira



Letra e música: Popular (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo* com Bernard Massuir (in CD "Toques do Caramulo É ao Vivo!", Associação d'Orfeu, 2007)



[vocalizos / instrumental]

Meu benzinho, eu vou-me embora,
Dá carinhos a quem te adora!
Meu benzinho, eu já cá estou,
Dá carinhos a quem te amou!



* Toques do Caramulo:
Luís Fernandes – voz, acordeão, viola braguesa
Aníbal Almeida – rabeca
Gonçalo Rodrigues – bandolim
Miguel Cardoso – contrabaixo
Lara Figueiredo – flauta
Ricardo Coutinho – bateria tradicional
Convidado especial:
Bernard Massuir – voz
Gravado ao vivo no Espaço d'Orfeu, Águeda, na noite de 21 de Outubro de 2006
Direcção técnica – Rui Oliveira
Assistência técnica de gravação – Paulo Brites, Ricardo Relvas, Bitocas e Jorge Sousa
Misturas – Rui Oliveira & Luís Fernandes, no Gravad'Or, Águeda, de Novembro de 2006 a Março de 2007
Masterização – João Neves & Rui Oliveira, no Espaço Sons, Aveiro, em Março de 2007




Amores da Azeitona



Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Intérprete: Musicalbi* (in CD "Mastiço", I Som, 2007)



A folha da oliveira
Ai, deitada no lume estala;
Assim é meu coração
Ai, quando para ti não fala!


A folha da oliveira
Ai, tem dois bicos como a renda;
Estes rapazes de agora
Ai, já não há quem os entenda!


A oliveira pequena
Ai, que azeitona pode dar?
A filha de um homem pobre
Ai, que amores pode tomar?


[instrumental]

A folha da oliveira
Ai, deitada no lume estala;
Assim é meu coração
Ai, quando para ti não fala!


A folha da oliveira
Ai, tem dois bicos como a renda;
Estes rapazes de agora
Ai, já não há quem os entenda!


A oliveira pequena
Ai, que azeitona pode dar?
A filha de um homem pobre
Ai, que amores pode tomar?


Se a oliveira falasse
Ai, ela diria o que viu:
Debaixo da sua sombra
Ai, dois amores encobriu.


Os amores da azeitona
Ai, são como os do milho miúdo:
À acabada da azeitona
Ai, lá vai amor, lá vai tudo!


A folha da oliveira
Ai, deitada no lume estala!



* Musicalbi:
Carlos Salvado – voz, bandolim, guitarra, cavaquinho, bouzouki e flautas
Filipa Melo – voz
Horácio Pio – baixo, acordeão e coros
Maria Côrte – violino, harpa celta e gaita-de-foles
António Pedro – piano, percussões e coros
António Lourinho – bateria
Participações especiais:
Catarina Ventura – acordeão e coros
Emília Melo (mãe de Filipa Melo) – voz
Gravado no Estúdio I Som, Alcains
Misturas e masterização – Nuno Gelpi




Ó Rama, Ó Que Linda Rama



Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Teresa Silva Carvalho* (in LP "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1994)





[instrumental]

Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama da oliveira,
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira!


Que anda aqui na roda inteira,
Aqui e em qualquer lugar!
Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama do olival!


Eu gosto muito de ouvir
Cantar a quem aprendeu;
Se houvesse quem me ensinara
Quem aprendia era eu.


[instrumental]

Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama da oliveira,
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira!


Que anda aqui na roda inteira,
Aqui e em qualquer lugar!
Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama do olival!


Não me inveja de quem tem
Carros, parelhas e montes;
Só me inveja de quem bebe
A água em todas as fontes.


[instrumental]

Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama da oliveira,
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira!


Que anda aqui na roda inteira,
Aqui e em qualquer lugar!
Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama do olival!


[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Júlio Pereira – violas acústica e clássica, bandolim e percussões
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa e rabeca
Catarina Latino – flauta barroca e cornamusa
Zé Luiz Iglésias – viola clássica
Pintinhas – percussões
Hélder Reis – acordeão
Voz masculina – Vitorino
Grupo Coral de Cantadores do Redondo
Produção e direcção musical – Vitorino
Técnicos de som – Manuel Cunha e Moreno Pinto




À Oliveira da Serra



Música: Popular
Adaptação: Rão Kyao
Intérprete: Rão Kyao* & Lu Yanan (in CD "Porto Interior", Fundação Jorge Álvares, 2008)



(instrumental)


* Rão Kyao – flauta de bambu
Lu Yanan – pi'pa
Produtor musical – Rão Kyao
Produtor executivo – António Avelar de Pinho
Gravação e mistura – Luís Delgado, no Estúdio Sonic State, Miraflores








31 maio 2013

Em memória de Georges Moustaki (1934-2013)



«Vinha do tempo em que os animais falavam, se quisermos perceber a doçura que há nesta expressão e na ideia quando olhamos a música popular. Significa que era um dos pilares, um dos últimos guardiões de uma época em que as palavras em francês ainda tinham – passe a redundância – uma palavra a dizer na definição das regras da canção antes da hegemonia esmagadora do império anglo-americano. Mais: o homem era um dos exemplos da disponibilidade gaulesa para aceitar gente de fora entre os seus maiores. Basta lembrar que Henri Salvador veio da Guiana, Jacques Brel e Adamo eram belgas, Serge Reggiani e Yves Montand nasceram em Itália, Charles Aznavour pertence a uma família da Arménia, Dalida nasceu no Egipto. Tal e qual como o homem que aqui nos traz, filho de gregos judeus [de língua italiana], mais um dos talentos descobertos por Edith Piaf, admirador incondicional de Georges Brassens ao ponto de lhe ter pedido emprestado para sempre o nome próprio, a que juntou depois uma adaptação do apelido. Símbolo do Maio de 68, vagabundo incorrigível das canções: é de Georges Moustaki [de seu verdadeiro nome Giuseppe Mustacchi] que aqui se fala, ao mesmo tempo que nos lembramos de "Le Métèque" ou de "Ma Liberté", de "Milord" ou de "Il Faudra Mourir un Jour". E voltamos a concluir que este parceiro de barba e cabelos soltos, tantas vezes fotografado com a viola que o seguia para toda a parte, personificou o lado bom da globalização ao assumir sem preconceitos, e com todas as vantagens para quem o ouvia, a sua miscigenação cultural. Gravou em, pelo menos, meia-dúzia de idiomas – francês, italiano, castelhano, português, grego e árabe – e teve oportunidade de completar os cinquenta anos de carreira, até que uma insuficiência respiratória ditou o irreversível e amargo adeus aos palcos e aos estúdios. Antes de oferecer "Milord", um clássico, a Edith Piaf [1958], já tinha mergulhado nas causas e nas boémias parisienses, tendo chegado à cidade em 1951. Tinha dezassete anos. Acabaria por ser cantado por muitos dos grandes: de Salvador a Herbert Pagani, sem esquecer Barbara, Montand, Reggiani, Françoise Hardy ou a eterna Juliette Gréco, a mesma que sobre a sua morte deixou justas sentenças: "Georges possuía uma doçura infinita e imenso talento. Era, como todos os poetas, alguém diferente, porque acaba sempre por ser essa diferença que conduz ao talento". Colaborou com alguns dos seus músicos de eleição, de Astor Piazzolla a António Carlos Jobim. Deixa cerca de trezentas canções como bandeiras de um património em que a simplicidade sempre andou de braço dado com a convicção, tendo igualmente assinado adaptações memoráveis como, por exemplo, a do "Fado Tropical", de Chico Buarque, a que chamou simplesmente "Portugal". Usou-a para festejar a Revolução Portuguesa. Despediu-se de nós na última digressão em 2008, quando lançou o espantoso disco "Vagabond". Com ele, morto aos 79 anos, desaparece provavelmente o último de um grupo, mais do que de uma geração, de geniais autores, daqueles que usamos como faróis de nevoeiro nos dias cinzentos como os de agora. Dele disse Leo Ferré: "Georges sussurra onde eu grito, mas é a mesma coisa". Ferré sabia o que dizia: depois de "Avec le Temps" não há canção maior sobre a erosão e o desgaste do amor do que "La femme qui est dans mon lit / N'a plus vingt ans depuis longtemps" [canção "Sarah"]. É de Georges Moustaki, um daqueles que parte mas fica para sempre.» (João Gobern, na crónica "Parceiro de palavra", da rubrica "Pano para Mangas", 24-Mai-2013).

Logo que João Gobern terminou a leitura desta crónica, que subscrevo e aplaudo, o locutor António Macedo teve a louvável atitude de passar, extra-'playlist', o grande cartão-de-visita de Georges Moustaki, "Le Métèque". Não obstante, a rádio pública (mormente com as Antenas 1 e 3) devia fazer muito mais em tributo ao grande (enorme) cantautor, ademais tendo ele também gravado canções em língua portuguesa. Sem prejuízo da realização de um programa especial, bem poderia ser transmitido, a cada hora do dia em que a triste notícia foi veiculada, um dos mais belos espécimes do repertório de Georges Moustaki. Alguns exemplos: "Le Métèque" (o original e a versão em português), "Natalia" (instrumental), "Ma Solitude", "Lettre à Marianne" (instrumental), "Il Est Trop Tard", "Rue des Fosses Saint-Jacques"  (instrumental), "Ma Liberté", "Margot" (instrumental), "Marche de Sacco et Vanzetti" (versão do tema "Here's to You", criado por Joan Baez), "Kim" (instrumental) e "Portugal" (versão do "Fado Tropical", de Chico Buarque).
De todos eles se faculta a audição nesta página. É serviço público que o blogue "A Nossa Rádio" se orgulha de prestar aos seus leitores, designadamente aos ouvintes das Antenas 1 e 3 que gostariam de revisitar ou de descobrir um dos vultos maiores da canção francesa – e do mundo.
Tivesse dado um fanico a Lady Gaga (ou a qualquer outra nulidade artística fabricada pela MTV), que a levasse desta para melhor, e é certo que a "perda" seria objecto de amplo destaque nas Antenas 1 e 3 (e até nos noticiários da Antena 2). Com esta aberrante e empobrecedora inversão de valores é que eu jamais poderei contemporizar no serviço público de rádio, pelo menos enquanto for obrigado a desembolsar, anualmente, a quantia (não tão irrisória assim) de 28,62 euros.





Le Métèque



Letra e música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)





Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents
Avec mes yeux tout délavés
Qui me donnent l'air de rêver
Moi qui ne rêve plus souvent


Avec mes mains de maraudeur
De musicien et de rôdeur
Qui ont pillé tant de jardins
Avec ma bouche qui a bu
Qui a embrassé et mordu
Sans jamais assouvir sa faim


Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
De voleur et de vagabond
Avec ma peau qui s'est frottée
Au soleil de tous les étés
Et tout ce qui portait jupon


Avec mon cœur qui a su faire
Souffrir autant qu'il a souffert
Sans pour cela faire d'histoires
Avec mon âme qui n'a plus
La moindre chance de salut
Pour éviter le purgatoire


Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents
Je viendrai, ma douce captive
Mon âme sœur, ma source vive
Je viendrai boire tes vingt ans


Et je serai prince de sang
Rêveur ou bien adolescent
Comme il te plaira de choisir
Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour
Que nous vivrons à en mourir


Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour
Que nous vivrons à en mourir



* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Françoise Walch – voz
Raymond Gimenez – guitarra
Sylvano – guitarra
Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy




O Estrangeiro



Letra: Georges Moustaki; versão de Nara Leão
Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki





Com minha cara de estrangeiro,
Judeu errante, aventureiro,
Com meu riso e minha dor,
Com esses meus olhos descorados,
Que parecem desbotados
E me dão ar de sonhador;


Com minha mão de marinheiro,
Marginal e seresteiro,
Que roubou tantos jardins,
E minha boca que bebeu,
Muito beijou, tanto mordeu
Numa fome que não tem fim;


Com minha cara de estrangeiro,
Judeu errante, aventureiro,
De ladrão e vagabundo,
Com essa pele bem curtida,
Acarinhando sempre a vida
E o sol de todo esse mundo;


E o coração que sofreu tanto,
Muito amou, e sem espanto
Vive ainda a sua história,
E minha alma que sem sorte
Não espera nem na morte
Seu consolo, sua glória;


Com minha cara de estrangeiro,
Judeu errante, aventureiro,
E meus cabelos pelo vento,
Vou encontrar minha querida,
A alma irmã, a fonte viva,
E celebrar esse bom tempo;


E vou ser príncipe valente,
Sonhador adolescente,
O que você quiser de mim...
E viveremos cada dia
O amor sem fim, a alegria
Intensamente até o fim;


E viveremos cada dia
O amor sem fim, a alegria
Intensamente até o fim.




Natalia



Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)





(instrumental)


* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Françoise Walch – voz
Raymond Gimenez – guitarra
Sylvano – guitarra
Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy




Ma Solitude



Letra e música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)





Pour avoir si souvent dormi
Avec ma solitude
Je m'en suis fait presqu'une amie
Une douce habitude
Elle ne me quitte pas d'un pas
Fidèle comme une ombre
Elle m'a suivi ça et là
Aux quatre coins du monde

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude

Quand elle est au creux de mon lit
Elle prend toute la place
Et nous passons de longues nuits
Tous les deux face à face
Je ne sais vraiment pas jusqu'où
Ira cette complice
Faudra-t-il que j'y prenne goût
Ou que je réagisse?

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude

Par elle j'ai autant appris
Que j'ai versé de larmes
Si parfois je la répudie
Jamais elle ne désarme
Et si je préfère l'amour
D'une autre courtisane
Elle sera à mon dernier jour
Ma dernière compagne

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude



* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Françoise Walch – voz
Raymond Gimenez – guitarra
Sylvano – guitarra
Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy




Lettre à Marianne



Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Les Amis de Georges", Polydor, 1974, reed. Polydor, 1994)



(instrumental)


* Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing, Jean Musy
Direcção artística – Jacques Bedos
Engenheiro de som – William Flageollet




Il Est Trop Tard



Letra e música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)





Pendant que je dormais, pendant que je rêvais
Les aiguilles ont tourné, il est trop tard
Mon enfance est si loin, il est déjà demain
Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps


Pendant que je t'aimais, pendant que je t'avais
L'amour s'en est allé, il est trop tard
Tu étais si jolie, je suis seul dans mon lit
Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps


Pendant que je chantais ma chère liberté
D'autres l'ont enchaînée, il est trop tard
Certains se sont battus, moi je n'ai jamais su
Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps


Pourtant je vis toujours, pourtant je fais l'amour
M'arrive même de chanter sur ma guitare
Pour l'enfant que j'étais, pour l'enfant que j'ai fait
Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps


Pendant que je chantais, pendais que je t'aimais
Pendant que je rêvais il était encore temps



* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Françoise Walch – voz
Raymond Gimenez – guitarra
Sylvano – guitarra
Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy




Rue des Fosses Saint-Jacques



Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)





(instrumental)


* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Françoise Walch – voz
Raymond Gimenez – guitarra
Sylvano – guitarra
Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy




Ma Liberté



Letra e música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Bobino 70", Polydor, 1970, reed. Polydor, 1998)





Ma liberté
Longtemps je t'ai gardée
Comme une perle rare
Ma liberté
C'est toi qui m'a aidé
A larguer les amarres
Pour aller n'importe où
Pour aller jusqu'au bout
Des chemins de fortune
Pour cueillir en rêvant
Une rose des vents
Sur un rayon de lune


Ma liberté
Devant tes volontés
Mon âme était soumise
Ma liberté
Je t'avais tout donné
Ma dernière chemise
Et combien j'ai souffert
Pour pouvoir satisfaire
Tes moindres exigences
J'ai changé de pays
J'ai perdu mes amis
Pour gagner ta confiance


Ma liberté
Tu as su désarmer
Toutes mes habitudes
Ma liberté
Toi qui m'a fait aimer
Même la solitude
Toi qui m'as fait sourire
Quand je voyais finir
Une belle aventure
Toi qui m'as protégé
Quand j'allais me cacher
Pour soigner mes blessures


Ma liberté
Pourtant je t'ai quittée
Une nuit de décembre
J'ai déserté
Les chemins écartés
Que nous suivions ensemble
Lorsque sans me méfier
Les pieds et poings liés
Je me suis laissé faire
Et je t'ai trahi pour
Une prison d'amour
Et sa belle geôlière

Et je t'ai trahi pour
Une prison d'amour
Et sa belle geôlière



* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Catherine Le Forestier – voz
Joël Favreau – guitarra
Michel Gaudry – contrabaixo
Philippe Combelle – tabla
Jean-Charles Capon – violoncelo
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Claude Martenot




Margot



Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Il Y Avait Un Jardin", Polydor, 1971, reed. Polydor/Universal, 2012)



(instrumental)


* [Créditos gerais do disco:]
Joël Favreau – guitarra
Michel Gaudry – contrabaixo
Jean-Charles Capon – violoncelo
Benoit Charvet – flauta
Michel Delaporte – percussões
Orquestra dirigida por Hubert Rostaing
Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing
Direcção artística – Jacques Bedos




Marche de Sacco et Vanzetti



Letra: Joan Baez (tema "Here's to You", do filme "Sacco e Vanzetti", de Giuliano Montaldo, 1971); versão de Georges Moustaki
Música: Ennio Morricone
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Il Y Avait Un Jardin", Polydor, 1971, reed. Polydor/Universal, 2012)





[instrumental]

Maintenant Nicolas et Bart,
Vous dormez au fond de nos cœurs,
Vous étiez tous seuls dans la mort,
Mais par elle vous vaincrez!
[6x]



* [Créditos gerais do disco:]
Joël Favreau – guitarra
Michel Gaudry – contrabaixo
Jean-Charles Capon – violoncelo
Benoit Charvet – flauta
Michel Delaporte – percussões
Orquestra dirigida por Hubert Rostaing
Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing
Direcção artística – Jacques Bedos




Kim



Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Si Je Pouvais t'Aider", Polydor, 1979, reed. Polydor/Universal, 2000)



(instrumental)


* [Créditos gerais do disco:]
Marta Contreras – voz e percussões
Mário Lima – guitarras e voz
Kimpoh Cheah – flauta e percussões
Benhamadi Ameziane – voz, bateria e congas
Lionel Lecreux – bateria
Tony Bonfils – guitarra baixo
Pierre-Yves Sorin – contrabaixo e voz
Christian Chevallier – teclados e orquestrações
Claude Maisonneuve – oboé e corne inglês
Les Troubadours – guitarras e coros
Gérard Niobey – guitarra
Marcel Azzola – acordeão
Engenheiro de som – Christian Chevallier




Portugal



Letra: Ruy Guerra ("Fado Tropical") e Georges Moustaki
Música: Chico Buarque ("Fado Tropical")
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Les Amis de Georges", Polydor, 1974, reed. Polydor, 1994)





Oh muse, ma complice
Petite sœur d'exil
Tu as les cicatrices
D'un 21 avril


Mais ne sois pas sévère
Pour ceux qui t'ont déçue
De n'avoir rien pu faire
Ou de n'avoir jamais su


A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal


On crucifie l'Espagne
On torture au Chili
La guerre du Viêt-Nam
Continue dans l'oubli


Aux quatre coins du monde
Des frères ennemis
S'expliquent par les bombes
Par la fureur et le bruit


A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal


Pour tous les camarades
Pourchassés dans les villes
Enfermés dans les stades
Déportés dans les îles


Oh muse ma compagne
Ne vois-tu rien venir
Je vois comme une flamme
Qui éclaire l'avenir


A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal


Oh musa do meu fado,
Oh minha mãe gentil,
Te deixo consternado
No primeiro Abril!


Mas não sê tão ingrata!
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.


[instrumental]

Débouche une bouteille
Prends ton accordéon
Que de bouche à oreille
S'envole ta chanson


Car enfin le soleil
Réchauffe les pétales
De mille fleurs vermeilles
En avril au Portugal


Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C'est peut-être la fin
D'un empire colonial


Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C'est peut-être la fin
D'un empire colonial



* Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing, Jean Musy
Direcção artística – Jacques Bedos
Engenheiro de som – William Flageollet
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