27 maio 2013

Aquilino Ribeiro: cinquentenário da morte



Faz hoje exactamente cinquenta anos que a morte subtraiu ao número dos vivos um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa do século XX e de sempre, Aquilino Ribeiro [>> biografia e bibliografia no site do Instituto Camões].
Luís Caetano, na edição de sábado passado (25 de Maio) do seu programa "A Força das Coisas", tomou a louvável iniciativa de evocar o grande escritor, lendo um belo e suculento naco da prosa aquiliniana extraído do romance "Andam Faunos Pelos Bosques", bem como dando conta da reedição que a Bertrand Editora vem fazendo de diversos dos seus títulos e – sobretudo – transmitindo a interessantíssima entrevista que o ilustre autor concedeu a Francisco Igrejas Caeiro, em 1957, para o programa "Perfil dum Artista". Quem a não ouviu ou deseje reouvi-la poderá fazê-lo a todo o momento acedendo a:
http://www.rtp.pt/play/p321/e118401/a-forca-das-coisas


Gostei imenso de ouvir esta homenagem ao autor d' "A Casa Grande de Romarigães" e aplaudo Luís Caetano por tê-la levado a cabo. Fica é a saber-me a pouco no âmbito geral do serviço público de rádio que tinha a obrigação de assinalar com outra ênfase e visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) a efeméride, atendendo à importância do escritor. Se João Pereira Bastos fosse ainda director da Antena 2 não tenho dúvidas de que teria feito um ciclo de programas em torno da vida e da obra de Aquilino Ribeiro. Mas eu nem vou ao ponto de pedir à actual direcção, conhecendo a sua insensibilidade a tudo o que seja matéria cultural não musical, que tomasse idêntico procedimento. O que não posso aceitar, de forma alguma, é que Rui Pêgo e/ou João Almeida nem sequer se tivessem dado ao "incómodo" de resgatar do arquivo histórico a adaptação radiofónica do romance "Terras do Demo", de que ainda tenho reminiscências na memória de a ter ouvido algures nos anos 80, emitida pela Antena 1. A idade que tenho não me permite ter memória de escuta de rádio anterior a finais dos anos 70, mas quero acreditar que outras obras aquilinianas terão merecido a atenção de Eduardo Street, de Odete de Saint-Maurice ou de outros realizadores de programas dramáticos que trabalharam na rádio pública, pelo que se em vez de "Terras do Demo" fosse escolhida outra obra não haveria da minha parte a mais pequena objecção. Nada de nada é que não! Digo mais: a Antena 2 (ou a Antena 1 – para o caso é-me indiferente) devia ter na sua grelha um espaço permanente expressamente consagrado à reposição dessas adaptações de obras literárias de grandes autores portugueses (e não só). As efemérides do nascimento ou da morte de um determinado escritor seriam apenas pretextos para dar a ouvir obras suas. Tais adaptações radiofónicas eram geralmente muito bem feitas, na componente técnica da realização, e altamente valorizadas pela participação de actores de primeiríssima categoria com as suas vozes extremamente bem colocadas e moduladas. Como muito bem lembrou a jornalista Helena Matos, convidada a falar das suas memórias radiofónicas ao programa "A Vida dos Sons", tais vozes eram em si mesmas autênticas personalidades sonoras, proporcionando a quem as ouvia a formação de um imaginário rico e único. Era a marca distintiva dos timbres e era o uso irrepreensível da língua portuguesa – na prosódia, na sintaxe e na vertente lexical. Só neste aspecto, bom e relevante serviço público prestaria a rádio estatal nos dias de hoje com a transmissão desses registos! Ouvir falar bem ajuda a bem falar.
Bem, eu parto do princípio de que as adaptações radiofónicas de obras romanescas, a exemplo das de peças teatrais, não foram destruídas... É que se o foram há que meter na prisão (não é caso para menos) os responsáveis por tão inominável crime contra o nosso património fonográfico!




Capa do romance "Terras do Demo" (Bertrand Editora, edição de 2012)




Capa do romance "Andam Faunos Pelos Bosques" (Bertrand Editora, edição de 2011)

10 maio 2013

João Villaret: centenário do nascimento



Filho do médico Frederico Villaret e de D. Josefina Gouveia da Silva Pereira, João Henrique Pereira Villaret nasceu em Lisboa (no n.º 69 da rua da Boavista, freguesia de São Paulo), a 10 de Maio de 1913.
A vocação artística manifestou-se nele em tenra idade, mas não sem se deparar com algumas incompreensões e contrariedades. Primeiro foi a família que não levava a sério as suas exibições baléticas privadas, embora lhes achasse graça. Depois foi Miss Price, directora do Anglo-Portuguese College (à Calçada Marquês de Abrantes), que resolveu excluí-lo, à última hora, de uma récita escolar por alegada falta de jeito para representar o papel que lhe fora atribuído. Mas o triste episódio, em vez de o derrotar, teve o condão de reforçar a confiança em si mesmo, avivando-lhe o desejo de se tornar actor. Ele tinha de provar à professora e aos colegas que troçavam dele que sabia representar, e que fora uma injustiça a sua exclusão.
Concluída a instrução primária, ingressou no Liceu Passos Manuel, calhando-lhe em sorte uma professora, Amália de seu nome, que não demorará a devotar-lhe uma grande e incondicional admiração. Chamava-lhe, com muita ternura, "Frei João sem cuidados". E talvez por essa empatia, por esse reconhecimento das suas potencialidades, Villaret lia de tal maneira "Os Lusíadas" que a docente ficava rendida e nem se atrevia a sugerir qualquer alteração. Pelo precoce entendimento que tinha da poesia, e por se considerar a sua leitura tão exemplar, o jovem era enviado para as salas do 7.º ano (actual 11.º ano de escolaridade) a ensinar os colegas mais velhos como se devia ler o nosso grande épico.
Em 1928, ainda antes de completar quinze anos de idade, tomou a decisão de concorrer ao curso de representação dramática do Conservatório Nacional de Lisboa. Nas provas de admissão, recitou dois vilancetes e um soneto de Luís de Camões. «Recitei-os como eu os sentia e, no fim, o mestre, que era professor conceituado da casa, olhou-me com severidade e disse: "O menino tem boa voz, mas os versos não se dizem assim, mas como se fossem prosa". E eu, muito pespinete, nervoso e irritado, respondi: "Então por que é que são versos?" E o mestre: "O menino é insolente mas inteligente, está admitido."». Decorridos três anos, na noite de 16 de Outubro de 1931, João Villaret vem a estrear-se profissionalmente no Teatro Nacional D. Maria II, integrado na Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, interpretando a figura de Fernão Lopes na peça "Leonor Teles", de Marcelino Mesquita. Assim se iniciava a gloriosa carreira do actor que, no entanto, não se confinaria ao drama e à alta comédia (Gil Vicente, Shakespeare, Molière, Almeida Garrett, Bernard Shaw, Eugene O'Neill, etc.). Villaret também nutria um especial apreço pelo teatro de revista, onde se veio a estrear em 1941, suscitando o escândalo daqueles que consideravam o género uma arte menor. Em 1947, para a revista "'Tá Bem ou Não 'Tá?", Aníbal Nazaré, Nelson de Barros e António Ascensão Barbosa (também conhecido por António Porto) escrevem-lhe o "Fado Falado" (sobre música de Francisco Paulo Menano), verdadeira peça de antologia da história da música e do teatro popular portugueses. Um recitativo sobre uma melodia de fado onde a letra, que jogava habilmente com a mitologia do género, era não cantada mas verdadeiramente "representada" por Villaret, que assim juntou ao cânone da música portuguesa mais um clássico. Outros êxitos vieram depois, como "Esta Vida É Um Corridinho" (1952, na revista "Lisboa Nova"), "Procissão" (1955, na revista "Melodias de Lisboa"), "Rosa Araújo" e "Santo António", os dois últimos criados na revista "Não Faças Ondas!" (1956).
Uma das representações bem paradigmáticas da sua enorme versatilidade e que mais fascinou o público foi, sem dúvida alguma, a peça "Esta Noite Choveu Prata", do brasileiro Pedro Bloch, levada à cena, em 1954, no Teatro Avenida. Aí desempenhou três papéis distintos (um em cada acto): Francisco Rodrigues – comerciante português; Pietro Bonardi – músico italiano; e Camilo – actor brasileiro. O crítico Fernando Fragoso afirmou a propósito desta extraordinária criação: «É de tal forma brilhante que os outros valores do espectáculo – embora para ele concorram – se diluem na sombra.».
Na sétima arte, participou nos seguintes filmes: "Bocage" (1936), de José Leitão de Barros, onde encarnou o príncipe regente D. João (futuro rei D. João VI); "O Pai Tirano" (1941), de António Lopes Ribeiro, numa breve aparição como pedinte mudo; "O Violino do João" (1944), de José Braz Alves, no papel do russo Pedro Derminova; "Inês de Castro" (1945), de José Leitão de Barros, onde fez o bobo Martim; "Camões" (1946), também de Leitão de Barros, onde desempenhou o papel de D. João III; "Três Espelhos" (1947), co-produção luso-espanhola realizada por Ladisdao Vadja, como Inspector Moisés; "Frei Luís de Sousa" (1950), de António Lopes Ribeiro, onde encarnou o aio Telmo Pais, talvez o seu desempenho mais sublime no cinema; "A Garça e a Serpente" (1952), de Arthur Duarte, como Cristóvão de Miranda; e "O Primo Basílio" (1959), de António Lopes Ribeiro, no papel do bom Sebastião. No documentário "Mar Português" (1950), de João Mendes, recitou (em voz off) poemas de Luís de Camões, António Nobre, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa e Alberto Rebelo de Almeida.
Com uma sensibilidade invulgar e dotado de uma notável intensidade expressiva aliada a um inexcedível poder de comunicação, reabilitou a difícil arte de recitar poesia, prendendo a atenção do expectador, quer em sessões ao vivo (uma que realizou no Teatro de São Luiz seria editada em disco), quer através da televisão (aí se fazendo acompanhar, ao piano, pelo irmão Carlos Villaret). «Não digo versos; procuro reproduzir o momento de angústia, de alegria, de revolta que o poeta sentiu ao escrever o seu poema. Recitando, encontro a plena libertação, pois dou-me esse infinito gosto de interpretar aquilo que amo e que me tocou profundamente.» E Miguel Torga referiu-se-lhe nestes termos: «Nunca é demais agradecer a Villaret o que ele tem feito pela poesia. Os poetas devem-lhe uma espécie de requintada edição oral de alguns dos seus melhores versos; o público, esse resgata-se a ouvi-lo da preguiça que o afastava tragicamente dum convívio que nenhum oiro da terra pode suprir.»
O falecimento prematuro de João Villaret, no auge da glória, vítima de diabetes, a 21 de Janeiro de 1961, causou imensa consternação no país, de tal forma que, durante alguns anos, os lisboetas assinalavam o dia da sua morte com um recital de poesia no Cinema São Jorge, onde a sua voz se ouvia num palco vazio iluminado apenas por um foco de luz. Em sua homenagem, Raul Solnado deu ao teatro que, em 1965, abriu no n.º 30-A da Avenida Fontes Pereira de Melo (às Picoas) o nome de Teatro Villaret.
Não sendo muita extensa, a discografia que nos legou constitui um precioso testemunho da sua inigualável arte de dar voz (e alma) às palavras. Aqui se apresentam dois magníficos espécimes: o poema "Tabacaria", de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, e a cantiga "Santo António" (letra de Fernando Santos e música de João Nobre).
Antes, e evocando na mesma assentada dois eméritos entrevistadores e homens da rádio – Francisco Igrejas Caeiro e Carlos Pinto Coelho –, resgata-se a memória do programa "Agora... Acontece!" com duas edições exclusivamente consagradas a João Villaret.



"Agora... Acontece!" N.º 217, de 07-Abr-2003



- "Rosa Araújo" (José Galhardo / João Nobre), por João Villaret;
- "Menina Gorda", de Rui Ribeiro Couto, por João Villaret;
- Três poemas de Fernando Pessoa: "Dona Filipa", "Dom Diniz" e "O Mostrengo", por João Villaret;
- Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", 
emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Canção Grata", de Carlos Queiroz, por João Villaret;
- Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Fado Falado" (Aníbal Nazaré, Nelson de Barros e António Ascensão Barbosa / Francisco Paulo Menano), por João Villaret;
- "D. João VI e a Mulata" (Raimundo Calado / Armando da Câmara Rodrigues), por João Villaret;
- "Liberdade", de Fernando Pessoa, por João Villaret;
- "Esta Vida É Um Corridinho" (José Almeida Amaral, Fernando Santos e João Villaret / Frederico Valério), por João Villaret.



"Agora... Acontece!" N.º 466, de 02-Jun-2008



- "O Mostrengo", de Fernando Pessoa, por João Villaret;
- Entrevista com António Carlos Carvalho, autor do livro "João Villaret: Uma Biografia" (Ulisseia, 2008), entremeada com:
- "Essa Nêga Fulô", de Jorge de Lima, por João Villaret;
- Excerto da Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Toada de Portalegre", de José Régio, por João Villaret;
- Excerto da Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Esta Vida É Um Corridinho" (José Almeida Amaral, Fernando Santos e João Villaret / Frederico Valério), por João Villaret;
- Excerto da Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;

- "Fado Falado" (Aníbal Nazaré, Nelson de Barros e António Ascensão Barbosa / Francisco Paulo Menano), por João Villaret.



Capa do livro "João Villaret: Uma Biografia", de António Carlos Carvalho (Ulisseia, 2008)



TABACARIA



Poema de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (in "Presença", n.º 39, Coimbra: Jul. 1933; "Poesias de Álvaro de Campos", Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1944)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério duma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —, 
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno — não concebo bem o quê —,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá, eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono do mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



Santo António


 
Letra: Fernando Santos (para a revista "Não Faças Ondas", 1956, Teatro Variedades)
Música: João Nobre
Intérprete: João Villaret* (in EP "João Villaret na Revista 'Não Faças Ondas'", Parlophone/EMI, 1956; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
 



Nos meus rogos, nos meus votos,
Peço a Deus, no Paraíso,
Que me dê muitos devotos,
De votos é que eu preciso!
 
Quero ver o povo unido
No meu lindo Portugal;
Quero-o junto, e não partido,
Na União Tradicional.
 
Se conserto um tacho,
Protejo um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-me em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[Coro de anjinhos:]
Se conserta um tacho,
Protege um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-lhe em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
Quem me engana ou contradita,
Aponto no meu caderno:
Vai com cartão de visita
P'ra as profundas do Inferno!
 
Dizem rivais meus opostos:
"Milagres são manigâncias!";
Meus milagres são impostos
Pela força das circunstâncias.
 
Se conserto um tacho,
Protejo um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-me em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[Coro de anjinhos:]
Se conserta um tacho,
Protege um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-lhe em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
No Céu vivo sossegado
Entre os meus queridos santinhos,
Constantemente incensado
E em volta só vejo anjinhos.
 
Com meus hábitos de frade,
Sempre a vista no chão posta;
É desta minha humildade
Que a Corte dos Santos gosta.
 
Se conserto um tacho,
Protejo um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-me em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[Coro de anjinhos:]
Se conserta um tacho,
Protege um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-lhe em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[instrumental]
 
Mas o dinheirinho
Não dou nem darei!


* Técnico de gravação – Hugo Ribeiro

Montagem digital (1991) – Miguel Gonçalves
URL: http://www.macua.org/biografias/joaovillaret.html
http://www.infopedia.pt/$joao-villaret
http://pauloborges.bloguepessoal.com/240111/TRIBUTO-A-JOAO-VILLARET/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Villaret
http://www.imdb.com/name/nm0898045/?ref_=tt_cl_t12
http://www.truca.pt/imaginario_material/imaginario300_309.html
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/103286.html
http://www.rtp.pt/play/p692/e116781/ha-conversa
http://jvillaret.com.sapo.pt/index.html
http://www.myspace.com/joaovillaret
http://cotonete.clix.pt/artistas/home.aspx?id=1293
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/jo_o_villaret
http://www.lastfm.pt/music/Jo%C3%A3o+Villaret

 
[reeditado em 22-Mai-2013]

08 maio 2013

Abolição da pena de morte: um imperativo da Humanidade


Maryland: 18.º dos Estados Unidos da América a abolir a pena de morte.

É um daqueles casos que com inteira legitimidade, e aproveitando alguma raridade na distribuição dos feitos meritórios nos séculos mais chegados, nos faz inchar o peito de orgulho. Viaja-se pelas enciclopédias e constata-se que a última aplicação da pena de morte em território português ocorreu em 1846, antecipando-se por largos anos à legislação que começou por extinguir a pena capital para crimes políticos [1852] e depois alargou a medida aos crimes civis [1867]. Isto antes de se chegar ao pleno [1911; 1976]. A última mulher que morreu executada por ordem judicial, em Portugal, despediu-se da vida em 1772 [e o último homem, por sentença de tribunal não militar, em 1846]. Depois disso, foi preciso esperar até 1917, e por um caso de traição no Exército Português, durante a Primeira Guerra Mundial, para que a mais drástica das penas máximas voltasse a ser aplicada. Em 1976, a Constituição Democrática passou a uma forma ainda mais explícita: a erradicação da pena de morte, algo que os anos do Estado Novo, e sobretudo da Guerra Colonial, acabaram por registar de vez em quando, ainda que não houvesse sentença judicial mas apenas a acção da polícia política [PVDE / PIDE]. Diante deste longo processo de demonstração de um estado civilizacional evoluído, misturamos o aplaudo franco com um sorriso meio-desdenhoso ao tomarmos conhecimento que, desde ontem [02 de Maio de 2013], o Maryland passou a ser o 18.º dos estados norte-americanos a transferir para a figura da prisão perpétua a pena máxima. Com cerca de seis milhões de habitantes, tendo Baltimore, Columbia, Germantown, Silver Spring e Rockville como cidades mais representativas, este estado atlântico põe fim ao longo reinado da pena capital, aplicada no território desde 1638, ainda debaixo do estatuto de colónia britânica. Ora na base da alteração está o governador democrata Martin O'Malley, que desta vez conseguiu levar por diante um projecto que há quatro anos tinha fracassado. Mas se a mudança legal merece o devido realce por parte de todos os humanistas, ela não consegue esbater uma nuvem negra: é que segundo uma sondagem do jornal "Washington Post", cerca de 60% dos cidadãos do Maryland acabou por concordar com a pena de morte, ficando os seus opositores na casa dos 38%. Confesso que tratando-se, acima de tudo, de domínio sagrado dos Direitos Humanos, não me faz confusão nenhuma que o legislador marche um passo adiante da consciência popular. Há momentos de ruptura que continuam a justificar estes saltos em frente e, com inteira franqueza, continua a fazer-me muita confusão que possa haver quem defenda que o Estado, representado pelo poder judicial, possa descer ao nível dos criminosos, mesmo dos mais violentos e abjectos. Responder com as mesmas armas é atirar o Estado para um lamaçal de contradições e para um papel que não lhe calha pela superioridade moral que deve representar, pelo equilíbrio de que deve dar garantias a cada passo [nunca descurando a possibilidade de erro judiciário]. Claro está que não deixamos de recordar-nos de todos os outros pecados do Estado: tantas vezes mau pagador, mau investidor, mau gestor, mau trabalhador e mau chefe [não por culpa do Estado em si mesmo, mas dos indivíduos – políticos e funcionários – que não sabem ou não querem servi-lo bem]. Mas sempre me ensinaram que um erro, ou mais, não se corrige errando de novo. E, felizmente, também me ensinaram que com a vida humana não se brinca. Também por isso passei hoje a gostar um pouco mais do Maryland: à letra, quer dizer "terra de Maria" e, neste caso, a Maria não foi com as outras.» (João Gobern, na crónica "A tempo e horas", da rubrica "Pano para Mangas", 03-Mai-2013).






A marcha da Humanidade rumo à abolição total da pena de morte tem sido lenta e não é expectável que termine em breve. Mas uma coisa tenho como certa: o exemplo vindo de terras do Tio Sam não deixará de ter influência nos países do mundo que ainda mantêm o assassinato legal nos seus ordenamentos jurídicos. Nesta ordem de ideias, o passo em frente agora dado por mais um dos Estados Unidos da América é de assinalar, cabendo-me a mim, enquanto humanista e convicto abolicionista, saudar o jornalista João Gobern por se ter debruçado sobre o acontecimento, apesar da pouca atenção que a comunicação social portuguesa lhe dispensou.
Portugal pode orgulhar-se de ter sido pioneiro nesta premente questão humana, pois foi o segundo país europeu (o primeiro foi San Marino, em 1865) e o terceiro de todo o mundo (o primeiro foi a Venezuela, em 1854) a abolir a pena capital para todos os crimes civis. Aconteceu a 1 de Julho de 1867. Era ministro da Justiça Augusto César Barjona de Freitas, chefiava o governo Joaquim António de Aguiar e reinava D. Luís I.
Ao receber a notícia, o grande escritor francês Victor Hugo, o "divino Hugo" (como lhe chamava Guerra Junqueiro), logo enviou ao amigo e jornalista Eduardo Coelho, então redactor do "Diário de Notícias", uma carta com o seguinte teor:

«Está, pois, a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande História! Penhora-me a recordação da honra que me cabe nessa vitória ilustre. Humilde operário do progresso, cada novo passo que ele avança me faz pulsar o coração. Este é sublime. Abolir a morte legal, deixando à morte divina todo o seu direito e todo o seu mistério, é um progresso augusto entre todos. Felicito o vosso parlamento, os vossos pensadores, os vossos escritores e os vossos filósofos! Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfruta, de antemão, dessa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Ódio ao ódio! Vida à vida! A liberdade é uma cidade imensa, da qual todos somos cidadãos. Aperto-vos a mão como meu compatriota na humanidade e saúdo o vosso generoso espírito.» (Victor Hugo, 2 de Julho de 1867).

Em registo similar, o mesmo Victor Hugo escreveu, dias mais tarde, outra missiva ao amigo Pedro de Brito Aranha:

«Votre noble lettre me fait battre le coeur.
Je savais la grande nouvelle; il m'est doux d'en recevoir par vous l'écho sympathique.
Non, il n'y a pas de petits peuples. Il y a de petits hommes, hélas! Et quelque fois ce sont ceux qui mènent les grands peuples. Les peuples qui ont des despotes ressemblent à des lions qui auraient des muselières.
J'aime et je glorifie votre beau et cher Portugal. Il est libre, donc il est grand.
Le Portugal vient d'abolir la peine de mort. Accomplir ce progrès c'est fair le grand part de la civilisation. Dès aujourd'hui le Portugal est à la tête de l'Europe.
Vous n'avez pas cessé d'être, vous portugais, des navigateurs intrépides. Vous allez en avant, autrefois dans l'ócean, aujourd'hui dans la verité. Proclamer des principles c'est plus beau encore que de découvrir des mondes.
Je crie: Gloire au Portugal, et à vous: Bonheur!
Je presse votre cordiale main.» (Victor Hugo, 15 de Julho de 1867).


Pode afirmar-se, sem vanglória ou patrioteirismos pacóvios, que estas palavras de Victor Hugo se contam entre as mais honrosas e edificantes que um estrangeiro (não um qualquer, mas um vulto universal de elevadíssimo carisma ético) dirigiu a Portugal e, nessa conformidade, qualquer cidadão português devia conhecê-las. Acaso constam nos compêndios do ensino básico, designadamente nos das disciplinas de História, Educação Cívica, Português ou Francês?


Victor Hugo (1802-1885): mais conhecido pelos romances "Nossa Senhora de Paris" ("Notre-Dame de Paris", 1831) e "Os Miseráveis" ("Les Misérables", 1862), é autor de "O Último Dia de um Condenado" ("Le Dernier Jour d'un Condamné", 1829), obra de vincado cunho humanista, em que deixa expressa, de forma assaz eloquente, a sua repulsa pela vigência, em pleno século XIX, da pena de morte na sua França, a mesma que, em 1789, iluminara o mundo com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.


Em jeito de remate poético-musical ao presente assunto, aqui se deixa o belo "Manifesto Breve contra a Guerra ou Qualquer Outra Pena de Morte", de João Gigante-Ferreira, na voz da fadista Helena Sarmento.


Manifesto Breve contra a Guerra ou Qualquer Outra Pena de Morte



Letra: João Gigante-Ferreira
Música: Joaquim Campos (Fado Tango)
Intérprete: Helena Sarmento* (in CD "Fado dos Dias Assim", Helena Sarmento, 2013)


[instrumental]

Troca tudo por tão pouco
A Morte que a Vida mata
Pela lei, por qualquer louco
Pela culpa, fero sopro
Que por dentro nos ataca
Qualquer cor de qualquer outro
Qualquer crença, amor sem corpo
Que por dentro nos ataca

Na partida dos que foram
Tudo bem organizado
Olhos mortos nos devoram
Nossos olhos que os choram
O Mistério do outro lado

Já a Morte se habitua
A ter Deus por companhia
De mãos dadas pela rua
Este cego, aquela nua
Só de sombra a luz do dia

Assim marcham lado a lado
Pelas ruínas da Razão
As balas e o assassinado
E o sorriso imaculado
Do Dia da Criação

* Helena Sarmento – voz
Samuel Cabral – guitarra portuguesa
Paulo Faria de Carvalho – viola
Susana Castro Santos – violoncelo
Direcção artística – Samuel Cabral
Supervisão artística – João Gigante-Ferreira e Inês Soares
Produção executiva – Helena Sarmento
Gravado, misturado e masterizado por Mário Pereira, no Happy Road Studio, Porto, de Novembro de 2012 a Janeiro de 2013
URL: http://www.helenasarmento.com/
http://www.facebook.com/helenasarmento
http://helenasarmento-fadoazul.blogspot.com/
http://www.myspace.com/ahelenasarmento
http://www.youtube.com/user/helenasarmentofado/videos
http://www.youtube.com/user/CanalEntrarEmPalco/videos?query=helena+sarmento
http://www.portaldofado.net/content/view/2714/327/
http://www.portaldofado.net/content/view/2336/277/
http://www.portaldofado.net/content/view/3105/277/
http://a-trompa.net/novidades/fado-azul-helena-sarmento
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/238703.html

30 abril 2013

"A Vida Breve": a poesia na voz dos autores

Em face da degradação e desqualificação a que a Antena 2 chegou sob a direcção de Rui Pêgo/João Almeida, e como não sou masoquista, deixei de a ter como opção de escuta continuada, cingindo-me actualmente a três ou quatro programas de autor ao fim-de-semana. Por isso, só há cerca de quinze dias, e por amável alerta de uma tertuliana da comunidade de Amigos do LUGAR AO SUL, grande cultora da palavra dita, é que tomei conhecimento do apontamento de poesia chamado "A Vida Breve" (tal como, aliás, uma ópera do espanhol Manuel de Falla e um romance do uruguaio Juan Carlos Onetti, por sua vez inspirado num poema do belga Leon Louis Moreau Constant Corneille van Montenaeken – vide texto abaixo) e que segundo consta no arquivo online terá tido início a 21 de Março de 2012 (Dia Mundial da Poesia). A realização é assegurada por Luís Caetano, fazendo uso do vasto manancial de registos existentes no arquivo histórico da RDP e, subsidiariamente, de edições discográficas, e vai para o ar por volta das 16:50, de segunda a sexta-feira (com repetição às 12:50 do dia subsequente).
A lacuna de uma rubrica regular de poesia dita/recitada/declamada no canal cultural do serviço público de rádio fazia-se sentir desde que se extinguiram "Os Sons Férteis", de Paulo Rato, a 31 de Dezembro de 2008, e de então para cá, por diversas vezes, eu tive o ensejo de levantar a questão neste blogue e em missivas dirigidas à Provedoria do Ouvinte e à direcção de programas, mas sem lograr ser ouvido. Luís Caetano, distinto a atento realizador da nossa rádio, terá lido um desses textos e tomou a iniciativa de meter mãos à realização d' "A Vida Breve", atitude que faço questão de louvar e de agradecer. Calculo que a dupla Rui Pêgo/João Almeida, insensível como tem sido à questão da poesia, não deve ter encarado com entusiasmo a ideia de Luís Caetano, mas ao menos não se atreveu a vetá-la, o que se acontecesse seria gravíssimo.
Bem, o que realmente interessa é que a boa poesia de língua portuguesa, na voz dos próprios autores, tem finalmente a oportunidade de sair da escuridão das catacumbas do arquivo para a luz do éter, pela mão proficiente de Luís Caetano, que escolheu para indicativo o belíssimo e balsâmico "Andante con moto" (segundo andamento), do trio n.º 2 para piano, violino e violoncelo, em Mi bemol maior, op. 100, D. 929, do genial Franz Schubert, de que aqui deixo, à laia de aperitivo, duas aclamadas interpretações: uma mais antiga, pelo Beaux Arts Trio, e outra mais recente, pelo Trio Fontenay.
O novo apontamento de poesia também pode – e deve – ser um bom pretexto para que poetas vivos que ainda não gravaram poesia da sua lavra (e até alheia) o possam fazer, enquanto é tempo, tornando assim mais rico e completo o arquivo da RDP. Não sei se Luís Caetano tem em mente alargar futuramente o âmbito a registos na voz de actores e de reputados 'diseurs'... Eu veria isso com muito bons olhos (ou ouvidos, melhor dizendo) pois só assim será possível comtemplar os autores que viveram antes da idade do registo fonográfico e mesmo os que tendo sido dela contemporâneos já se foram embora sem nunca terem dito, para um aparelho de gravação sonora, poemas seus, por opção pessoal ou simplesmente porque nunca foram convidados para o efeito. Em minha opinião, seria uma pena que ficassem de fora d' "A Vida Breve" nomes como D. Dinis, Gil Vicente, Garcia de Resende, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, Camões, Diogo Bernardes, D. Francisco Manuel de Mello, Soror Maria do Céu, Francisco Rodrigues Lobo, Filinto Elísio, Nicolau Tolentino, Bocage, Marquesa de Alorna, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Gomes Leal, Cesário Verde, António Nobre, Augusto Gil, Eugénio de Castro, Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, e muitos outros menos canónicos na História da Literatura Portuguesa mas não desprovidos de importância e valia estética, sem esquecer – obviamente – insignes autores não lusos de língua portuguesa, como os brasileiros António de Castro Alves e Machado de Assis.

 

Franz Schubert: "Andante con moto", do trio n.º 2, em Mi bemol maior, D. 929, op. 100, pelo Beaux Arts Trio: Menahem Pressler (piano), Daniel Guilet (violino) e Bernard Greenhouse (violoncelo).



Franz Schubert: "Andante con moto", do trio n.º 2, em Mi bemol maior, D. 929, op. 100, pelo Trio Fontenay: Wolf Harden (piano), Michael Mücke (violino) e Niklas Schmidt (violoncelo).
 
 
"A Vida Breve"
Na Antena 2, de segunda a sexta-feira, às 16:50 (repete às 12:50 do dia subsequente)
http://www.rtp.pt/play/p1109/a-vida-breve (arquivo online)
http://www.rtp.pt/play/podcast/1109 ('podcast')
 

Peu de Chose et Presque Trop
 
La vie est vaine:
Un peu d'amour,
Un peu de haine...
Et puis – bonjour!
 
La vie est brève:
Un peu d’espoir,
Un peu de rêve...
Et puis – bonsoir!
 
(Leon Louis Moreau Constant Corneille van Montenaeken, poeta belga, 1859-?)

 

Capa do romance "A Vida Breve", de Juan Carlos Onetti – edição Relógio d'Água (2008)

21 março 2013

Sebastião da Gama: "Poesia", por Carmen Dolores


Portinho da Arrábida
© Pedro Vidigal (24-Fev-2008)


O que é um poeta? Ser poeta é, em primeiro lugar, encarar de espírito aberto e atento a vida e o mundo, não destruindo, antes apreciando e desfrutando a beleza que uma e outro têm para nos oferecer. Uns possuem o talento de exprimir isso por palavras, outros não. Sebastião da Gama pertence à primeira categoria e é dele que ora se apresenta um belo poema intitulado "Poesia", que Carmen Dolores em boa hora resgatou ao silêncio dos livros e deu voz, de forma admirável, no CD "Poemas da Minha Vida" (2003).

Aproveito o ensejo para voltar a apontar o dedo à direcção da Antena 2 por ainda não se ter dado ao cuidado de colmatar a lacuna de uma rubrica diária de poesia, decorridos mais de quatro anos sobre o fim d' "Os Sons Férteis", de Paulo Rato em colaboração com a actriz Eugénia Bettencourt. Interpelado com este assunto, calculo que Rui Pêgo alegue (hipocritamente) algo do seguinte teor: «Bem gostaríamos de ter na grelha um apontamento de poesia do género d' "Os Férteis", mas não há verba para contratar um 'diseur' e/ou uma 'diseuse' para esse efeito.» Pois eu respondo-lhe: Não é preciso! É perfeitamente possível manter na Antena 2 (vale o mesmo para as Antenas 1 e 3) um apontamento diário de poesia sem gastar um chavo. Basta fazer uso do fabuloso manancial existente (e a apodrecer) no arquivo histórico da RDP e, complementarmente, de edições discográficas, que as há e boas, como é o caso da que contém o presente espécime.
Se Rui Pêgo teimar na sua caturrice obscurantista de ostracismo à poesia, totalmente ao arrepio do que é expectável e razoável que aconteça no serviço público de rádio, ao menos que a administração tenha a clarividência de entregar a direcção de programas a alguém mais competente e ciente da missão cultural que cumpre à RDP prosseguir.


POESIA



Poema de Sebastião da Gama (in "Serra-Mãe", Lisboa: Portugália Editora, 1945; Lisboa: Edições Ática, Colecção Poesia, 6.ª edição, 1991 – p. 132-133)
Recitado por Carmen Dolores* (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003)


Ai deixa, deixa lá que a Poesia
no perfume das flores, no quebrar
das ondas pela praia,
na alegria
das crianças que riem sem porquê
— deixa-a lá que se exprima, a Poesia.

Fica sentado aí onde estás, Poeta,
e não mexas os lábios nem os braços:
deixa-a viver em si;
não tentes segurá-la nos teus braços,
não pretendas vesti-la com palavras...

Se a queres ter,
se a queres sempre ver pairando à flor das coisas, fica aí
no teu cantinho, e nem respires, Poeta, e não te bulas,
p'ra que ela não dê por ti.

Não a faças fugir, toda assustada
com a tua presença...
Deixa-a, nua, pairando à flor das coisas,
que ela não sabe que a viste,
nem sabe que está nua,
nem sequer sabe que existe...


2-2-1945


* Produção – Dito e Feito
Gravado nos Estúdios Goya, Lisboa, em Dezembro de 2002
URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carmen_Dolores
http://www.infopedia.pt/$carmen-dolores
http://www.imdb.com/name/nm0231221/
http://marcadordelivros.blogspot.com/2013/01/sextante-publica-vida-de-carmen-dolores_29.html
http://www.rtp.pt/play/p328/e109884/vidas-que-contam
http://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/search?query=carmen+dolores

15 fevereiro 2013

Anúncio da Linha Rara: mau serviço público



«Sabe o que é uma doença rara? Sabe que pode ter uma sem saber? Não se conforme! Informe-se! O 707 100 200 é uma linha profissional e especializada que o aconselha e esclarece: Quais os médicos a consultar? Que apoios sociais existem? E onde se deve dirigir?
Linha Rara: 707 100 200
Custo de chamada local.»

Nestes exactos termos reza um anúncio que vem sendo emitido pelas Antenas 1 e 2 (desconheço se também pelos demais canais da RDP). Quando o ouvi, pela primeira vez, interroguei-me: «Sabendo-se que as pessoas têm uma tendência quase natural para a hipocondria, anda agora o Ministério da Saúde a levantar fantasmas nas cabecinhas de portadores imaginários de doenças raras? Parece-me muito pouco razoável e bastante questionável, à luz da deontologia médica, o rastreio de eventuais doenças (raras ou não), ou o mero aconselhamento médico que seja, por telefone, independentemente da idoneidade profissional da pessoa que atende as chamadas.» "Quais os médicos a consultar?", diz-se no anúncio. Como assim? Com que fundamento clínico se vai indicar às pessoas que ligam para aquele número médicos especialistas em doenças raras sem se saber se elas sofrem efectivamente de uma dessas enfermidades? As palavras do doente dizendo que lhe dói isto ou aquilo são bastantes para se chegar à conclusão de que se trata de uma doença rara? E qual a doença rara especificamente, se há uma miríade delas? E havendo vários médicos especialistas numa determinada doença, com que base ética se encaminha o doente para Fulano, Sicrano ou Beltrano? E é acaso aceitável que uma "consulta" por telefone substitua o médico de família, esse sim a quem cabe atender o paciente e, caso se confirme ser portador de uma doença não vulgar, depois de feitos os adequados exames de diagnóstico, encaminhá-lo para especialistas? Tudo muito estranho e esquisito...
Mas o que me deixou ainda mais apreensivo foi a indicação de um número de telefone iniciado por 707 que, ao contrário do que é dito no anúncio, corresponde a uma tarifa de valor acrescentado e não a custo de chamada local (se assim fosse o número começaria por 808). «Com que então o Ministério da Saúde a convidar a população a ligar para um número de valor acrescentado para assim obter receitas extraordinárias? Muito pouco ético e deveras censurável vindo da parte do Estado», disse para os meus botões. «Este anúncio cheira-me a negócio privado...»
Tratei de averiguar e fiquei então a saber que a Linha Rara (http://www.linharara.pt/) não pertence ao Ministério da Saúde, mas a uma entidade privada, de nome Raríssimas – Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras (http://www.rarissimas.pt/). Não me custa nada admitir que o dinheiro que aquela associação recebe do Estado e dos seus associados não chegue para desenvolver cabalmente a sua actividade, decerto muito louvável e meritória (isso está fora de questão) e, nessa conformidade, tem toda a legitimidade para angariar fundos junto da população. O que não pode nem deve fazer é recorrer a métodos desonestos e falhos de ética, fazendo cair no logro as pessoas mais sugestionáveis e menos avisadas. Pessoalmente, já não levantaria qualquer objecção a que a associação Raríssimas lançasse, por exemplo, o sorteio de um automóvel, como já fez a ACAPO – Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal. É claro que a associação Raríssimas, a exemplo de quaisquer outras entidades sem fins lucrativos e de reconhecida utilidade pública, tem todo o direito de recorrer à rádio pública para se dar a conhecer aos ouvintes que dela poderão tirar proveito. Mas aí o anúncio teria de ter forçosamente outra redacção. Qualquer coisa como isto:
 
É portador de uma doença rara? Ou tem a seu cargo uma pessoa com deficiência mental ou doença rara? Se sim, sabia que existe uma associação para o informar dos seus direitos. Consulte-nos! Ligue para a Linha Rara: [número começado por 800 ou 808].
 
No meio disto tudo quem também fica muito mal na fotografia é a direcção da RDP, ao abster-se do escrutínio que lhe compete fazer ao teor dos anúncios que lhe são propostos para radiodifusão, no âmbito de publicidade institucional, não salvaguardando assim a posição dos cidadãos/ouvintes. Enfim, mais um caso que serve para exemplificar a desconsideração que António Luís Marinho e Rui Pêgo nutrem por quem lhes enche a barriga.

31 janeiro 2013

Antena 2: uma pobreza de rádio



Após a última edição original do "Questões de Moral", a 29 de Outubro de 2012 (cf. Em defesa do programa "Questões de Moral"), o programa permaneceu no ar em regime de reposições e temia-se que viesse a ser eliminado da grelha a breve prazo. E, de facto, isso veio mesmo a acontecer logo no início do corrente ano, o que não pode deixar de suscitar o vivo e veemente repúdio do seu fiel auditório. Não sendo a solução ideal, a reposição sempre era melhor do que nada, visto não haver interesse de quem manda (ou desmanda) na RDP em que Joel Costa continue a colaborar com a Antena 2, nos termos previstos na lei. Mas não foi só o "Questões de Moral" a ser (criminosamente) expurgado da grelha do canal supostamente cultural do serviço público de rádio. Desapareceram vários outros programas de autor, dos quais destaco "Descobertas", da autoria de Maria Augusta Gonçalves, que no início das tardes dominicais divulgava interessantíssimas novas edições discográficas, não raro de obras nunca antes gravadas em disco, designadamente de música barroca e de períodos anteriores. A justificação apresentada ou a apresentar será, presumo, do seguinte teor: «em face do aperto financeiro imposto pelo Governo à Rádio e Televisão de Portugal, era inevitável cortar nas despesas do sector rádio e a Antena 2 não podia ficar de fora». Em primeiro lugar, tenho de contestar o critério ao abrigo do qual se extingue um programa de inegável interesse como "Descobertas" e se mantém essa autêntica aberração editorial que dá pelo nome de "Fuga da Arte". Isto para já não falar no inefável (de desmedida erudição) Pedro Malaquias e no verborrento/comedor de sílabas Paulo Alves Guerra... Em segundo lugar, e olhando para a programação das três antenas nacionais da RDP (faço questão de não deixar cair esta prestigiada sigla, ademais tendo sido salvaguardada na legislação vigente), é facilmente constatável que a foi a Antena 2 que sofreu os cortes mais significativos, tendo as Antenas 1 e 3 ficado quase intactas. Como se explica tal opção? Foi o Presidente do Conselho de Administração, Alberto da Ponte, que fez questão de direccionar os cortes a fazer no orçamento da RDP para a Antena 2, quiçá por ter menor número de ouvintes do que as outras, ou foram os responsáveis directos pelos conteúdos e programas, António Luís Marinho e Rui Pêgo, dois indivíduos "nados e criados" em rádios de música pop, que resolveram poupar as Antenas 1 e 3, por serem aquelas em que mais se revêem? Bem, independentemente de se saber quem tomou a decisão, não se pode deixar de a questionar, precisamente por ir completamente ao arrepio da missão mais nobre do serviço público de rádio: a promoção/satisfação cultural dos cidadãos. Quando se opta por sacrificar a antena que melhor cumpre essa obrigação (apesar das deficiências, que decorrem sobretudo da inépcia dos locatários da direcção de programas) e se poupa as antenas vocacionadas para o entretenimento, acaba-se inevitavelmente por dar razão a quem questiona o financiamento público, designadamente a contribuição do audiovisual, justamente por não servir para a prestação de um serviço formativo e altamente diferenciado daquele que é oferecido pelas estações privadas.
A drástica redução dos programas de autor na Antena 2 e o consequente alargamento da componente estritamente musical podia ter sido mitigada mediante uma efectiva arrumação e estruturação da grelha. Em vez de espaços alargados de música a esmo, sequenciada aleatoriamente, misturando numa imensa caldeirada os mais variados géneros, estilos e épocas (como acontece em "Boulevard", "Vibrato" e "Baile de Máscaras"), que não dão cabal satisfação aos melómanos mais exigentes nem proporcionam efectivo enriquecimento a quem deseja cultivar-se na vertente erudita, importaria ter espaços temáticos/conceptuais, a exemplo dos que houve durante o consulado de João Pereira Bastos: "Das Origens ao Barroco", "Barroco Vocal", "Barroco Instrumental", "Música Sinfónica e Coral-Sinfónica", "Música de Câmara", "Instrumentos Solistas", "Música de Dança", "Canções", "Árias e Duetos de Ópera", "Música Sacra", "Perfil de um Autor", "Intérprete da Semana", etc... Infelizmente, a dupla Rui Pêgo/João Almeida, fiel ao timbre laxista e preguiçoso que a tem caracterizado, deixou tudo na mesma (como a lesma). Para ajudar à desgraça, continua a praga de 'spots' e 'jingles' disparados sacro-santamente de hora a hora, ou quando dá na real gana dos "locutores" de serviço (ponho a palavra "locutores" entre aspas porque na verdade a alguns falta perfil e competência para o exercício da função), assim como o quase total deserto de matéria não musical, se exceptuarmos alguma coisa de História e Literatura por vezes presente no exíguo "Além-Tempo" e na componente textual do "Musica Aeterna", e um ou outro assunto abordado nos programas de Luís Caetano ("A Força das Coisas" e "Última Edição"). Por que motivo não foi ainda colmata a lacuna de um apontamento diário de poesia recitada, quatro anos decorridos sobre o fim d' "Os Sons Férteis"? É assim tão complicado desenterrar o que de bom existe – e é muito – no arquivo histórico? E onde está o teatro radiofónico tão proficientemente realizado por Eduardo Street?
Pode afirmar-se com toda a propriedade que a Antena 2, longe de ser "uma classe de rádio", como foi há uns dez-quinze anos, é hoje uma triste e comiserativa "pobreza de rádio". Pobreza essa que, como é bom de ver, não resulta apenas de ter menos dinheiro à sua disposição mas, em boa medida, da incapacidade e tacanhez de quem a dirige.
 

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