03 agosto 2012

"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VI)

A edição do programa "A Vida dos Sons" relativa ao ano de 1973 teve, também, o triste condão de pecar por defeito em matéria cultural.
Tivemos:


1. Transmissão de um trecho da canção "Amílcar Cabral", pelo cantor cabo-verdiano Tony Lima [>> YouTube], em jeito de remate à secção em que foi abordado o assassinato de Amílcar Cabral, presidente do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), ocorrido em Conacry, a 20 de Janeiro de 1973 [>> YouTube];
2. Transmissão de um excerto da "Sitting Bull Memorial Song", pelos Lakota Thunder [>> YouTube], antes da referência à ocupação, em Fevereiro de 1973, da pequena cidade de Wounded Knee, no Dakota do Sul, por membros da tribo Lakota ["Lakota Mother Earth Song" >> YouTube] ["Lakota Dream Song" >> YouTube], em protesto contra o Governo Federal por não respeitar os tratados assinados; transmissão de um depoimento de Russell Means [>> YouTube];
3. Transmissão da introdução da "The Godfather Waltz" [>> YouTube], composta por Nino Rota para a banda sonora do filme "O Padrinho" ("The Godfather"), em preâmbulo à notícia da não comparência de Marlon Brando na cerimónia de entrega dos Óscares, sendo um dos nomeados na categoria de Melhor Actor; transmissão do discurso da sua representante, a índia Sacheen Littlefeather, expondo as razões da recusa do Óscar atribuído a Marlon Brando [>> YouTube];
4. Referência ao assassinato do cantautor chileno Victor Jara, a 16 de Setembro de 1973, depois de preso e torturado pelos esbirros do ditador Pinochet, que cinco dias antes ordenara o bombardeamento ao Palácio de La Moneda, de que resultou a morte do presidente democraticamente eleito Salvador Allende; transmissão de um depoimento do cantor e de um excerto da canção "Yo no canto por cantar" [>> YouTube];
5. Referência ao falecimento, a 20 de Setembro, do poeta Pablo Neruda, galardoado dois anos antes com o Prémio Nobel da Literatura; transmissão de palavras de ordem de pessoas presentes no funeral e da secção final do poema "No me lo pidan", de Neruda, dito pelo autor [>> YouTube];
6. Transmissão de um excerto da canção patriótica "Soul of October", do compositor egípcio Omar Khairat [>> YouTube], antes do tratamento da Guerra do Yom Kippur, desencadeada pelo Egipto e pela Síria, no dia 6 de Outubro de 1973, com o objectivo de recuperarem a península do Sinai e os Montes Golan, respectivamente, ocupados por Israel desde a Guerra dos Seis Dias (1967) [>> YouTube] [>> YouTube];
7. Transmissão do segmento inicial da canção "Tourada", por Fernando Tordo, que em 1973 venceu o então Grande Prémio TV da Canção Portuguesa [>> YouTube] [no Festival da Eurovisão, Luxemburgo >> YouTube]; transmissão de breves declarações prestadas a Maria Leonor pelo cantor e pelo autor da letra, José Carlos Ary dos Santos.
 
Foram ignorados:
 
1. Falecimento do poeta e cantor Edmundo de Bettencourt; nascido no Funchal, estudou Direito em Lisboa e, a partir de 1922, em Coimbra, onde integrou o grupo fundador da "Presença" (1927), cujo título sugerira, e em cujas edições publica "O Momento e a Legenda"; vem a afastar-se em 1930, subscrevendo com Miguel Torga e Branquinho da Fonseca uma carta de dissensão, em que denuncia o risco em que a revista incorria ao enquadrar o "artista em fórmulas rígidas", esquecendo o princípio de "ampla liberdade de criação" defendido nos primeiros tempos; antes e concomitantemente, Edmundo de Bettencourt teve relevante papel na renovação da canção de Coimbra ao abordá-la com uma nova postura interpretativa, ajudada pela beleza tímbrica da sua voz e pela extraordinária guitarra de Artur Paredes, bem patente em "Saudades de Coimbra", em "Menina e Moça" e em "Fado da Sugestão" [>> YouTube], e ao incorporar no repertório coimbrão espécimes originários de outras regiões do país, como "Saudadinha" (Açores) [a partir de 11':35" >> YouTube], "Canção do Alentejo" [>> YouTube], "Canção da Beira Baixa" [a partir de 15':05" >> YouTube] e "Senhora do Almortão e Senhora da Póvoa" (Beira Baixa) [>> YouTube]; uma das suas mais imortais criações intitula-se "Samaritana" (letra e música de Álvaro Cabral) [>> YouTube]; a redacção de "Poemas Surdos", entre 1934 e 40, alguns dos quais publicados na revista lisboeta "Momento", permite antedatar o surto do surrealismo em Portugal, enquanto adesão a um «sistema de pensamento, no que ele tem de fuga à chamada realidade, repúdio dos valores duma civilização e esperança de acção num domínio onde por tradição ela é quase sempre negada» (cf. entrevista concedida a João de Brito Câmara), embora não seja possível esclarecer com especificidade qual foi o conhecimento que Bettencourt teve da lição surrealista francesa; a sua produção poética, boa parte da qual dispersa em diversas publicações, seria reunida no livro "Poemas de Edmundo de Bettencourt" (1963), prefaciado por Herberto Hélder, poeta que, pela primeira vez, faz justiça à originalidade do autor de "Poemas Surdos", considerando-o «uma das pouquíssimas vozes modernas entre o milagre do "Orpheu" e o breve momento surrealista português»;
2. Falecimento da escritora norte-americana Pearl S. Buck; filha de um missionário presbiteriano que dedicou muitos anos de vida à tradução da Bíblia do grego para o mandarim, Pearl S. Buck passou, em consequência, a sua infância na China; educada pela mãe e por um perceptor chinês, aprendeu a falar o principal idioma do Império do Meio ainda antes de dominar o inglês; de 1907 a 1909, estudou num colégio interno em Xangai, colaborando em seguida com uma associação de refúgio e apoio a prostitutas e escravas sexuais chinesas; rumou depois aos Estados Unidos da América, com o intuito de prosseguir a sua educação, estudando Psicologia no Randolph-Macon Woman's College, na Virgínia; obtido o diploma em 1914, regressou à China para ocupar o cargo de professora numa missão presbiterana, e para cuidar da mãe que adoecera gravemente; quando esta recuperou, Pearl Buck foi viver com John Lossing Buck, um agrónomo com quem se havia casado pouco tempo antes, passando a viajar pelas zonas rurais como sua intérprete, ao mesmo tempo que exercia o magistério de professora; o seu primeiro romance, "Vento do Oriente, Vento do Ocidente" ("East Wind, West Wind", 1930), teve acolhimento modesto da crítica, mas melhor sorte teria "Terra Bendita" ("The Good Earth", 1931), romance original ao conseguir conciliar uma prosa de tom bíblico com a estrutura das sagas narrativas chinesas, que receberia o Prémio Pulitzer, e seria levado ao cinema, em 1937, pela mão de Sidney Franklin [>> YouTube]; em resultado da invasão da China pelas tropas nipónicas, é deportada, em 1934, para o Japão, após o que ruma aos Estados Unidos; depois da II Guerra Mundial, tentou regressar à China, mas tal intento saiu frustrado, simplesmente porque o regime de Mao Tse Tung sempre lhe negou o visto de entrada por ser considerada "agente imperialista"; em 1938, tornou-se a primeira mulher norte-americana a ser galardoada com o Prémio Nobel da Literatura; depois do romance "O Patriota" ("The Patriot", 1939), obra em que a Pearl S. Buck deixa transparecer a sua desilusão quanto à cooperação entre os povos, a autora empenhou-se na luta pelos direitos das mulheres norte-americanas e pela melhoria das condições de vida e de educação das crianças de origem asiática, muitas delas fruto de relações entre ocidentais e orientais, e, nessa medida, estigmatizadas; nessa preocupação humanitária se inscrevem as obras "The Angry Wife" (1947) e "A Flor Oculta" ("The Hidden Flower", 1952), bem como a criação da Pearl S. Buck Foundation [>> YouTube];
3. Falecimento do escritor britânico J. R. R. Tolkien; concluiu os estudos de Língua e Literatura Inglesas, no Exeter College, da Universidade de Oxford, em 1915, e foi mobilizado no ano seguinte para a I Guerra Mundial, integrando os Lancashire Fusiliers, recebendo o baptismo de fogo na batalha do Somme (França); retirado da frente de combate, depois de haver contraído a febre das trincheiras, terá sido durante a convalescença que deu início ao estudo de formas arcaicas de linguagem, que viria a estender ao domínio do seu trabalho de ficção, designadamente à escrita da obra "Silmarillion", publicada postumamente (1977); nos anos 30, demonstrou interesse pela epopeia nacional finlandesa, o Kalevala, de onde recolheu ideias, não só para a criação de uma das línguas imaginárias, o Quenya, como também para a trama de algumas das suas histórias, se bem que grande parte das personagens derivem do folclore e da mitologia inglesas, ou de um passado anglo-saxão idealizado; a sua primeira obra de ficção, "The Hobbit" (1937), foi uma adaptação de histórias contadas aos próprios filhos, acabando as respectivas personagens por reaparecer em "O Senhor dos Anéis" ("The Lord of the Rings", 1954-55), uma trilogia em que Tolkien descreve a cosmogonia e a história da mitológica Terra Média, um mundo de fantasia habitado por seres fabulosos, e para o qual inventou vários idiomas, entre os quais os élficos Quenya e Sindarin; em meados dos anos 60, as edições de bolso piratas norte-americanas de "O Senhor do Anéis" transformaram a trilogia numa obra de culto, atingindo vastíssima popularidade depois da transposição para cinema pelo neozelandês Peter Jackson: "A Irmandade do Anel" ("The Fellowship of the Ring", 2001) [>> YouTube], "As Duas Torres" ("The Two Towers", 2002) [>> YouTube] e "O Regresso do Rei" ("The Return of the King", 2003) [>> YouTube];
4. Falecimento do artista plástico espanhol Pablo Picasso; nascido em Málaga, no ano de 1881, Pablo Ruiz y Picasso tornar-se-ia o artista plástico mais famoso do século XX; demonstrou uma prodigiosa precocidade artística, produzindo delicados desenhos clássicos aos 10 anos de idade; entre 1901 e 1904, radicado em Barcelona, desenvolve uma atitude social, evocando os mendigos e os deserdados, reflectindo a influência de Toulouse-Lautrec, que corresponde ao "período azul", uma fase sensível e melancólica, em que os tons azuis predominam; segue-se, já em Paris, o "período rosa", mais vigoroso: tematicamente, interessa-se pelo circo, pelos saltimbancos; de 1906 a 1908, preocupa-se menos com os sentimentos e mais com a estrutura; com Georges Braque, desenvolve uma nova concepção de pintura que dará origem ao cubismo; vários eventos estão na base dessa mudança: a revelação da escultura tribal africana, a retrospectiva de Seurat no Salão dos Independentes em 1905, a homenagem a Paul Cézanne, no Salão de Outono de 1907, e o conhecimento da ancestral escultura ibérica; surge então a obra que é considerada a fundadora do cubismo, "Les Demoiselles d'Avignon" (1907): as cores ainda estão sob a influência do "período rosa", mas tornaram-se mais duras, e as personagens apresentam formas semigeométricas expressas enquanto volumes num espaço abstracto (a atenção foi dirigida para as qualidades puramente formais); numa primeira fase, o cubismo tem como referência o real, embora adoptando relativamente ao objecto vários pontos de vista e os problemas de profundidade e perspectiva deixam de se impor; Picasso e Braque colam nas telas pedaços de jornais, papeis, tecidos, embalagens de cigarros; começarão depois a surgir imagens conceptuais do real, como em "Natureza-Morta" (1911), o que corresponde a uma nova fase do cubismo e que dará origem a uma viragem ainda mais radical na História da arte; as formas já não são directamente inspiradas pelo real, a sugestão do volume é definitivamente abandonada, os planos são segmentados em planos de cor viva, por vezes texturada; nos anos vinte, inicia o seu período "greco-romano", com temas clássicos como em "Mãe e Filho" (1921) e nas figuras de centauros e faunos; este período teve a sua origem na descoberta da arte italiana e na colaboração estreita com Diaghilev, desenhando os cenários e o guarda-roupa dos bailados "Parade" (1917), "Pulcinella", (1920) e "Mercure" (1924); "Minotauromaquia" ("Minotauromachie", 1935) é um dos principais trabalhos dos anos trinta e fundamental para a compreensão de "Guernica", obra que representa a destruição da cidade basca por bombardeiros alemães, a 26 de Abril 1937, um dos tristes episódios da Guerra Civil de Espanha; os elementos principais da obra são o touro, simbolizando "a brutalidade e a escuridão", o cavalo, como símbolo do "povo sofredor", e a rapariga com uma luz (este painel foi proibido pelo regime franquista e tornou-se emblemático de um período de comprometimento político); nesta época as deformações das imagens são acentuadas, a expressão é trágica; o fim da guerra traz mais serenidade e alegria à sua pintura; na Provença, multiplica as experiências e as matérias, cria esculturas, trabalha com cerâmica; no último ciclo da sua pintura, o artista questiona as obras de Delacroix, de Velázquez e do contemporâneo Matisse, sob pretexto de concretizar o tema da criação, do pintor e do modelo; Picasso foi sempre um criador muito pessoal, nunca se prendendo a fórmulas – criava estéticas, combinava-as, renovava esquemas mais tradicionais; embora marcada pelo cubismo, a sua arte evocará sempre múltiplas metamorfoses: segundo o próprio Picasso, os seus sucessivos estilos «não devem ser considerados como evolução, mas como variação» [>> YouTube] [>> YouTube] [>> YouTube] [>> YouTube];
5. Falecimento do violoncelista catalão Pablo Casals; nascido no ano de 1876, em Vendrell, Catalunha, foi desde tenra idade iniciado no canto e no piano pelo seu pai, um organista de igreja; com cinco anos de idade já cantava no coro da igreja, ao mesmo tempo que aprendia a tocar instrumentos, como a flauta e o violino, que passou a ser a sua grande paixão; sendo alvo de chacota por parte dos colegas de escola por tocar violino com os olhos fechados, sentiu-se impelido a mudar de instrumento e abraça o violoncelo; tinha treze anos quando encontrou, numa loja de antiguidades em Barcelona, uma edição das "Seis suites para violoncelo solo", de Johann Sebastian Bach, então praticamente desconhecidas; dedica-se ao seu estudo até que, em 1901, se atreve a interpretar em público uma delas; e não mais parou de tocar aquele maravilhoso conjunto de peças, a ele se devendo o seu resgate para o grande repertório violoncelístico [Suite n.º 1, grav. Londres, 1938 >> YouTube] [Suite n.º 2, grav. Londres, 1936 >> YouTube] [Suite n.º 3, grav. Londres, 1936 >> YouTube] [Suite n.º 4, grav. Paris, 1939 >> YouTube] [Suite n.º 5, grav. Paris, 1939 >> YouTube] [Suite n.º 4, grav. Paris, 1938 >> YouTube]; antes, em 1905, formara com o violinista Jacques Thibaud e o pianista Alfred Cortot aquele que se tornaria um dos mais conceituados trios de câmara do mundo; data da mesma altura o início de uma relação sentimental com a também violoncelista Guilhermina Suggia que conhecera em Espinho, no ano de 1898, e a quem daria lições de violoncelo a pedido do pai dela; virá a separar-se em 1913, casando-se um ano mais tarde com a soprano norte-americana Susan Metcalfe; em 1938, pressentindo a vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola, exilou-se no sul de França, recusando-se a tocar para os nazis, atitude que lhe custou a prisão domiciliária, durante vários anos; após a II Guerra Mundial, Casals interrompeu uma já iniciada série de concertos, de forma a mostrar a sua indignação com a ditadura do general Franco; regressa aos palcos, em 1950, mas por uma única razão: a celebração dos 200 anos da morte de Johann Sebastian Bach; reuniu, na pequena cidade francesa de Prades, músicos de todo o mundo, e aí fundou um festival que ficaria com o seu nome; passou os últimos anos de vida, na terra natal da mãe, a ilha de Porto Rico, na companhia da sua segunda esposa, Marta Montañez (59 anos mais nova); aí também deixou um enorme legado: um outro festival com o seu nome, um conservatório e uma orquestra que ele próprio dirigiu várias vezes; faleceu, a 22 de Outubro de 1973, aos 96 anos de idade, sendo sepultado no Puerto Rico Memorial Cemetery, uma vez que sempre se recusara a regressar a Espanha enquanto Franco estivesse no poder; anos mais tarde, em 1979, os restos mortais de Casals seriam transladados para a sua Vendrell;
6. Falecimento do regente de orquestra alemão Otto Klemperer; nascido em 1885 na cidade de Breslau (actual Wrocław, na Polónia), fez os estudos musicais em Frankfurt e depois em Berlim; em 1905, encontra-se com Gustav Mahler, cuja Sinfonia n.º 2 vem a dirigir [Allegro maestoso >> YouTube]; é tal o agrado do compositor com a prestação do jovem Klemperer que o recomenda para a direcção da Ópera Alemã de Praga, cargo que assume em 1907; passa depois por importantes teatros de ópera da Alemanha até que em 1933, com a chegada dos nazis ao poder, e sendo judeu, se vê impelido a emigrar; vai para os Estados Unidos da América, onde lhe é confiada a direcção da Los Angeles Philharmonic, dando primazia ao repertório germânico, particularmente Beethoven, Brahms e Mahler; após a II Guerra Mundial, regressa à Europa e trabalha na Ópera de Budapeste (1947-50), regendo depois outras reputadas orquestras europeias, entre as quais a Concertgebouw Orchestra, de Amesterdão [Sinfonia n.º 2 "Ressureição", de Mahler, com a contralto Kathleen Ferrier, 1951 >> YouTube];
7. Falecimento do músico brasileiro Pixinguinha; o seu nome verdadeiro era Alfredo da Rocha Vianna Filho (ou Júnior); a alcunha "Pixinguinha" é uma mistura de "Pizindim" (pequeno bom), nome posto por uma prima, e "Bexinguinha", que surgiu depois de ter tido bexigas (varicela); nascido em 1897, no Rio de Janeiro, a sua ligação ao mundo da música foi precoce; logo aos doze anos de idade, começou a tocar cavaquinho, acompanhando o pai em bailes; aos treze, já tocava bombardino e flauta; depois de iniciar os estudos de música, compôs "Lata de Leite", a sua primeira peça no estilo musical "choro", inspirado nos boémios ("os chorões", como eram chamados), que bebiam o leite deixado nas portas das casas, quando voltavam dos locais de diversão nocturna; em 1911, entrou, como flautista, para a orquestra da Sociedade Dançante e Carnavalesca Filhas da Jardineira e integrou grupo Choro Carioca com o qual gravou os seus primeiros discos: "São João Debaixo D'Água", "Nhonhô em Sarilho" e "Salve (A Princesa de Cristal)"; a actividade musical do jovem flautista estendeu-se por vários grupos, casinos e teatros, a ponto de, em 1915, Pixinguinha se afirmar já como uma das principais figuras da música popular brasileira; nesse mesmo ano, gravou duas das maiores composições do seu repertório: "Rosa" [>> YouTube] e "Sofres Porque Queres" [>> YouTube]; é um dos elementos do grupo "Os Oito Batutas", formado em 1919, que atinge grande sucesso em todo o Brasil; composto por flauta, violões, piano, bandolim, cavaquinho e percussão, "Os Oito Batutas" foi o primeiro conjunto regional a actuar fora do país, nomeadamente em França, no ano de 1922; esta experiência transformou significativamente a música de Pixinguinha, pois o músico contactou pela primeira vez com o jazz americano, então moda em Paris; em 1923, compôs "Carinhoso", um dos seus maiores sucessos [>> YouTube]; a década de 30, participou em gravações históricas nomeadamente nos êxitos de Carmen Miranda, "Taí (pra você gostar de mim)" [>> YouTube] e "O Teu Cabelo Não Nega"; nos anos 40, deparou-se com várias adversidades, entre as quais a doença da sua mulher, Bety (Albertina Nunes Pereira), os seus próprios problemas cardíacos, e um decréscimo do seu sucesso, motivado pela entrada em força da música norte-americana nas rádios; em meados da década, trocou definitivamente a flauta pelo saxofone, formando uma dupla com o flautista Benedito Lacerda; na década de 50, gravou seis discos, destacando-se "Os Cinco Companheiros", "Pixinguinha e a Sua Banda" e "Carnaval dos Bons Tempos"; em 1962, juntou-se a Vinicius de Moraes, para a composição da banda sonora do filme "Sol Sobre a Lama" (1963), de Alex Viany; dessa parceria surgiram os sucessos "Lamentos" [>> YouTube] e "Mundo Melhor"; depois de alguns anos sem actividade musical devido a problemas de saúde, tocou, em 1966, na Noite de Pixinguinha, espectáculo em sua homenagem; após a morte de sua mulher, ocorrida em 1972, compôs ainda "Eduardinho no Choro", dedicada ao seu segundo neto; no seu espólio, foram encontradas inúmeras obras inéditas, que ao longo dos anos vem sendo gravadas por diversos músicos e grupos; em Portugal, o músico José Peixoto gravou um álbum exclusivamente constituído por composições suas, intitulado "Carinhoso: a Música de Pixinguinha" (2002), contando com a participação especial dos cantores Luís Represas, Maria João e Manuela Azevedo [tema "Carinhoso" >> YouTube];
8. Falecimento do sociólogo brasileiro Josué de Castro; licenciado em Medicina e em Filosofia, estudou os problemas da alimentação e da nutrição, tornando-se um pioneiro nesta matéria no Brasil e no mundo; exerceu o cargo de presidente da FAO (Food and Agriculture Organization), entre 1952 e 1956, deparando-se com fortes entraves dos países desenvolvidos à execução de projectos voltados para o desenvolvimento do Terceiro Mundo; perseguido pela ditadura militar instaurada em 1964, viveu os últimos anos de vida no exílio, vindo a falecer em Paris; as suas obras "Geografia da Fome: A Fome no Brasil" (1946), "Geopolítica da Fome" (1951) e "A Explosão Demográfica e a Fome no Mundo" (1968) são de referência obrigatória sempre que se pretende reflectir sobre as condições de vida no mundo subdesenvolvido (ou em vias de desenvolvimento, como é politicamente correcto dizer-se) [>> YouTube]; 
9. Falecimento do cineasta norte-americano John Ford; de ascendência irlandesa, chamava-se Sean Aloysius O'Fearna; estreou-se como actor, com o nome de Jack Ford, em "The Mysterious Hand" (1914), realizando o seu primeiro filme "The Tornado", em 1917; dedicou-se a múltiplos géneros, mas foi no western que alcançou maior reconhecimento e projecção mundial com uma miríade de filmes, quase todos com John Wayne a encabeçar o elenco, entre os quais se contam: "O Cavalo de Ferro" ("The Iron Horse", 1924) [>> YouTube], "A Patrulha Perdida" ("The Lost Patrol", 1934), "Cavalgada Heróica" ("Stagecoach", 1939) [>> YouTube], "A Paixão dos Fortes" ("My Darling Clementine", 1946) [>> YouTube], "O Fugitivo" ("The Fugitive", 1947) [>> YouTube], "Os Três Padrinhos" ("Three Godfathers", 1948) [>> YouTube], "Forte Apache" ("Fort Apache", 1948) [>> YouTube], "Os Dominadores" ("She Wore a Yellow Ribbon", 1949) [>> YouTube], "Caravana Perdida" ("Wagonmaster", 1950) [>> YouTube], "Rio Grande" (1950) [>> YouTube], "A Desaparecida" ("The Searchers", 1956) [>> YouTube], "O Homem que Matou Liberty Valance" ("The Man Who Shot Liberty Valance", 1962) [>> YouTube], "A Conquista do Oeste" ("How the West Was Won", 1962) [>> YouTube] e "O Grande Combate" ("Cheyenne Autumn", 1964) [>> YouTube]; recebeu quatro Óscares na categoria de melhor realizador, pelos filmes "O Denunciante" ("The Informer", 1935) [>> YouTube], "As Vinhas da Ira" ("The Grapes of Wrath", 1940) [>> YouTube], "O Vale Era Verde" ("How Green Was my Valley", 1941) [>> YouTube] e "O Homem Tranquilo" ("The Quiet Man", 1952) [>> YouTube], feito ainda não igualado por outro realizador; John Ford é incontestavelmente um dos nomes maiores da Sétima Arte, dele tendo recebido influência, entre outros, David Lean, Orson Welles, Sergio Leone, Ingmar Bergman, Akira Kurosawa, Stanley Kubrick, George Lucas e Martin Scorsese;
10. Falecimento do dramaturgo e actor britânico Noël Coward; filho de um vendedor de pianos, foi muito cedo encorajado pela mãe, de natureza ambiciosa, nas suas aspirações teatrais; a sua primeira peça completa levada à cena, no Verão de 1920, seria "I'll Leave It To You", que contava a história de um tio que prometeu deixar a sua choruda herança ao sobrinho que conseguisse ganhar mais dinheiro; o sucesso obtido foi modesto e grandemente ultrapassado pela espectacularidade de "The Vortex", estreada no Hampstead's Everyman Theatre, em 1924, por ocasião do vigésimo quinto aniversário de Noël Coward; tratando abertamente os temas da droga e do sexo, e contando com a sua participação no elenco, encarnando Nicky Lancaster, a peça estabeleceu Coward como actor e dramaturgo; por volta de 1930, é o dramaturgo mais bem pago de todo o mundo; para além da comédia excêntrica – sendo "Fallen Angels" (1925) e "Hay Fever" (1925), "Private Lives" (1930) e "Design For Living" (1933) exemplo da sofisticação inteligente e da provocação às convenções sociais –, Coward dedicou-se também a outros géneros; assim, em 1933 estreou "Cavalcade", obra de cariz patriótico, e, já em plena Segunda Guerra Mundial, foi a vez de "This Happy Breed" (1942); no pós-guerra, Noël Coward continuou a escrever prolificamente mas já sem obter mesmo sucesso junto do público; só em 1963, uma onda de revivalismo fez ressurgir o interesse pela sua obra, quando "Private Lives" foi reposta em cena no Hampstead Theatre Club, originando uma sucessão de representações, incluindo algumas produções de prestígio no National Theatre; várias das suas peças tiveram versão cinematográfica, destacando-se "Vidas Íntimas" ("Private Lives", 1931, de Sidney Franklin) [>> YouTube], "Cavalgada" ("Cavalcade", 1933, de Frank Lloyd) [>> YouTube] e três filmes realizados por David Lean: "Esta Nobre Raça" ("This Happy Breed", 1944) [>> YouTube], "Uma Mulher do Outro Mundo" ("Blithe Spirit", 1945) [>> YouTube] e "Breve Encontro" ("Brief Encounter", 1945) [>> YouTube];
11. Falecimento da actriz italiana Anna Magnani; filha de pai egípcio e de mãe italiana, nasceu em Alexandria e foi educada pela avó materna em Roma; estudou interpretação e, aos 20 anos, iniciou a sua carreira artística como cantora em "night-clubs" e bares; em 1928, fez uma pequena figuração no filme "A Migalha" ("Scampolo", 1928), mas a falta de oportunidades cinematográficas levaram-na a optar, nos anos seguintes, pelo trabalho no teatro musicado; em San Remo, conheceu o produtor Goffredo Alessandri com quem veio a contrair matrimónio em 1933, e por influência dele conseguiu importantes papéis em "A Cega de Sorrento" ("La Cieca di Sorrento", 1934) [>> YouTube], "Regresso à Vida" ("Tempo Massimo", 1934) [>> YouTube] e "Uma Rapariga às Direitas" ("Teresa Venerdi", 1941, de Vittorio De Sica) [>> YouTube]; a celebridade interna seria conquistada ao encarnar Pina, uma viúva grávida numa Roma dominada pelos nazis, em "Roma, Cidade Aberta" ("Roma, Città Aperta", 1945), de Roberto Rossellini [>> YouTube], por quem por quem se apaixonaria e viveria um tumultuada história de amor, só terminada quando ele se virou para Ingrid Bergman; o impacto do filme foi tal que a catapultou para uma carreira internacional, trabalhando com realizadores de nomeada, como Luchino Visconti, em "Belíssima" ("Bellissima", 1951) [>> YouTube], e Jean Renoir, em "A Comédia e a Vida" ("Le Carrose d'Or, 1952) [>> YouTube]; impressionado pela sua vivacidade e presença, Tennesse Williams dedicou-lhe uma peça, "A Rosa Tatuada" ("The Rose Tattoo", 1955), e exigiu que a sua adaptação cinematográfica fosse protagonizada pela actriz, o que veio a acontecer nesse mesmo ano sob a direcção de Daniel Mann [>> YouTube]; nesse seu primeiro filme falado em inglês, Magnani teve uma poderosa e enérgica interpretação na pele de Serafina Delle Rose, uma viúva siciliana cortejada por um camionista (Burt Lancaster); na noite dos Óscares, suplantou as favoritas Katharine Hepburn e Susan Hayward, arrecadando a estatueta de Melhor Actriz [>> YouTube], no que foi a primeira mulher estrangeira a consegui-lo; repetiu a nomeação dois anos depois com "Selvagem É o Vento" ("Wild is the Wind", 1957, de George Cukor), em que contracenou com Anthony Quinn [>> YouTube]; após o fracasso de "O Homem na Pele de Serpente" ("The Fugitive Kind", 1959, de Sidney Lumet) [>> YouTube], onde fez par romântico com Marlon Brando, regressou a Itália, onde procurou concentrar as suas energias no teatro; intercalou as peças com aparições em filmes emblemáticos, como "Mamma Roma" (1962), de Pier Paolo Pasolini [>> YouTube], e "Fellini Roma" (1972), de Federico Fellini, que foi o seu último filme [>> YouTube]; a sua morte, aos 65 anos de idade, provocou uma enorme onda de comoção na capital italiana e dezenas de milhares de pessoas compareceram ao funeral da mulher que, em tantas ocasiões, simbolizara a cidade e o país;
12. Estreia do filme "A Grande Farra" ("La Grande Bouffe"), de Marco Ferreri; vencedor do Grande Prémio Especial do Júri, no Festival de Cannes de 1973, foi o filme que deu ao realizador italiano reconhecimento internacional; com um sólido elenco encabeçado por Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Philippe Noiret e Ugo Tognazzi, "A Grande Farra" conta a história de quatro amigos ricos de meia-idade que se encerram numa mansão e juntos fazem um pacto de suicídio, envolvendo-se numa desenfreada bacanal de comida e sexo; apesar da crítica explícita à sociedade de consumo que põe em primeiro plano os prazeres carnais, o filme obteve um assinalável sucesso internacional (em Portugal, só seria estreado depois do 25 de Abril de 1974) [>> YouTube];
13. Edição do álbum "Pré-Histórias", de Sérgio Godinho; «Um ano volvido sobre a falada e reconhecida estreia em "Os Sobreviventes" (1972), o segundo álbum de Sérgio Godinho evidencia claros sinais de evolução e sintomas de desejo de constante mudança que o tempo tornaria característica regular em toda a sua obra posterior. O disco não é verbal nem tematicamente tão "denso" quanto o primeiro. Mantém-se viva uma natural, não amordaçada e incontornável consciência política ansiosa de urgentes transformações. "Barnabé" [>> YouTube] mostra nas entrelinhas mais um novo retrato de realidades lusas em tempos de agonia do regime. Mais que em "Os Sobreviventes", o disco reflecte uma atenção maior a elementos da música tradicional portuguesa. Um fascínio pelo trabalho de Michel Giacometti, uma admiração continuada pela obra de José Afonso e uma confessa adesão ao lado "pícaro" de algumas canções de António Mafra sugeriram caminhos, que a personalidade de Sérgio Godinho talhou de um modo muito particular, num todo onde as influências folk também foram marcantes. Em "O'Neill (alguns poemas com endereço)" [>> YouTube] revela-se a admiração por uma obra poética: a de Alexandre O'Neill, de quem Sérgio Godinho canta palavras para as quais compôs música sua. Um dos clássicos maiores de toda a obra de Sérgio Godinho surge no alinhamento deste seu segundo álbum. Trata-se de "A Noite Passada" [>> YouTube] [>> YouTube], uma das suas mais belas canções de amor que, de certa forma, serviu de mote ao baptismo do seu primeiro álbum ao vivo ("Noites Passadas"), em 1995. Incrivelmente belo é ainda "Pode Alguém Ser Quem Não É" [>> YouTube], a única canção de toda a sua discografia que mais tarde mereceu nova versão de estúdio, registada com arranjo diferente em "Na Vida Real" (1986). Tal coma acontecera no álbum de estreia, "Pré-Histórias" foi um disco premiado, uma vez mais pela Casa da Imprensa, que o aponta como "Disco do Ano". De comum, ambos os discos tiveram igual sorte junto ao mercado português, isto é, foram retirados pela censura pouco depois das respectivas edições» (Nuno Galopim); além das citadas, figuram no alinhamento: "Aprendi a Amar" [>> YouTube], "Eh! Meu irmão (ou mais uma canção de medo)" [>> YouTube], "Porto, Porto" [>> YouTube], "Até Domingo Que Vem" [>> YouTube], "Já a Vista me Fraqueja" [>> YouTube], "O Homem dos Sete Instrumentos" [>> YouTube];
14. Edição do álbum "Venham Mais Cinco", de José Afonso; «"Venham Mais Cinco" é o segundo álbum "francês" com arranjos e direcção musical de José Mário Branco e é um dos pontos mais altos da carreira discográfica de José Afonso. É inútil discutir se é melhor que "Cantigas do Maio", tanto mais que é evidente a sua complementaridade. Partindo das mesmas premissas de extrapolação da balada para outras paisagens musicais, o disco de 1973 triplicou o número de músicos empregues dois anos antes, dezoito no total. José Niza recorda a razão de tão grande número de participantes: "É o disco com mais músicos porque cada canção foi encenada de acordo com determinado tipo de sonoridades e de instrumentos." José Mário Branco imprimiu a "Venham Mais Cinco" o seu estilo, tal como o fizera em "Cantigas do Maio". Recorreu de novo a Michel Delaporte e ao seu arsenal de percussões, mas num contexto de diversificação de horizontes sonoros, acrescentou instrumentos como o violino, o violoncelo, a harpa e o saxofone, até então ausentes na discografia de Zeca Afonso, enquanto este, por seu turno, introduziu um elemento estranho na paleta do seu director musical, sob a figura do guitarrista brasileiro Yório Gonçalves. A unidade musical que formava o reportório de "Cantigas do Maio" deu lugar a uma diversidade em "Venham Mais Cinco", onde as suas intuições foram exploradas numa multiplicidade de direcções. E à maior variação sonora correspondeu logicamente uma mais declarada liberdade poética. "Venham Mais Cinco" [>> YouTube] é um típico hino dos anos de resistência, "Adeus, ó Serra da Lapa" [>> YouTube] será uma forma mais lírica de dizer o mesmo, mas já "A Formiga no Carreiro" [>> YouTube] cruza a evidente metáfora de insurreição no refrão com a fábula surrealista dos versos. Antes, José Afonso já cortejara o paradoxo, mas este é o álbum em que mais se afastou do discurso inteligível. Temas como "Gastão era Perfeito" [>> YouTube] e "Nefretite Não Tinha Papeira" [>> YouTube] revelam um humor corrosivo, mas também desconcertante, enquanto "Paz, Poeta e Pombas" [>> YouTube] é quase um poema fonético. Foi aqui que José Afonso celebrou por excelência a desordem do discurso verbal e musical, porventura a forma superlativa de sagrar a revolução. E por isso mesmo, se "Cantigas do Maio" é o seu álbum mais aclamado, "Venham Mais Cinco" é uma das suas obras mais enigmáticas e perenes, ontem resistente a um regime político, hoje a uma cultural boçal.» (Luís Maio, in "Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa", Público/FNAC, 1998). Refira-se que alguns temas deste álbum, entre os quais "Era Um Redondo Vocábulo" (que muitos consideram a mais sublime composição de José Afonso) [>> YouTube], foram concebidos durante o período em que esteve detido na prisão de Caxias, em Abril e Maio de 1973; para o alinhamento ficar completo, há que referir "Rio Largo de Profundis" [>> YouTube], a sublime "Que Amor Não Me Engana" [>> YouTube] e " Se Voaras Mais ao Perto" [>> YouTube];
15. Edição do álbum "Mestre", de Petrus Castrus; «O projecto musical de Pedro Castro surgiu logo no princípio da década de 70, numa recusa do rock quadrado que se vinha praticando na década anterior e que ele próprio protagonizara, na adolescência. Antigo guitarrista dos Sheiks e dos Chinchilas, Pedro Castro criou os Petrus Castrus com o seu irmão, José Castro. A intenção era produzir uma música mais reflectida, que atribuísse um suplemento de sentido à palavra, fugindo instrumentalmente aos 'clichés' do que se vinha praticando, ainda muito arreigado ao rock'n'rol (dos anos 50 e ao som dos Beatles de contornos imberbes, ou seja, anteriores a "Revolver" e mesmo a "Rubber Soul"). Os irmãos Castro convidaram João Seixas e Júlio Pereira, dois jovens músicos dos Play-Boys (grupo que praticava uma música mais violenta do que então se usava, podendo aqui encontrar-se a génese do 'heavy' português). O quinto elemento, Rui Reis, era um pianista de formação clássica. Esta união de naturezas, formações e intenções divergentes foi o fermento para a criação da primeira banda de rock progressivo em Portugal (rock sinfónico dos Tantra ou de José Cid seria a consequência desta primeira abordagem). O recurso ao surrealismo, ao absurdo e até a um inesperado calão era uma estratégia de choque solidificada pela intencionalidade da construção musical, em que o esmero da execução e das estruturas de composição era pensado, e não amanhado ao som do que era usual fazer. Proposto à Sassetti, o álbum será gravado, em Novembro de 1972, nos estúdios Strawberry do Castelo de Hérouville, em França, onde José Afonso, José Mário Branco e Sérgio Godinho também gravaram. Com letras e músicas de José Castro e Pedro Castro, excepto onde indicado, o alinhamento é assim constituído: "Mestre" [>> YouTube], "Pátria Amada" [>> YouTube], "Porque" (Sophia de Mello Breyner Andresen / Rui Reis) [>> YouTube], "País Relativo" (poema de Alexandre O'Neill) [>> YouTube], "Macaco" (poema de Alexandre O'Neill) [>> YouTube], "S.A.R.L." (poema de Ary dos Santos) [>> YouTube], "Pasárgada / Saudades do Rio Antigo" (poema de Manuel Bandeira) [>> YouTube], "Velho Avarento" (poema de Bocage) [>> YouTube], "Tiahuanaco" [>> YouTube], "História do Azul do Mar" (letra de António Cena) [>> YouTube] e "Só Mais Nada" (poema de Fernando Pessoa) [>> YouTube];
16. Edição do álbum "Encontro", de Amália Rodrigues & Don Byas; «"Don Byas passou por Lisboa várias vezes. Eu e ele éramos muito amigos, e ele chegou mesmo a participar no meu casamento. O disco do Don com a Amália foi uma ideia que eu tive com a intenção de ter um músico de jazz ligado ao fado." É assim que Luiz Villas-Boas recorda o "Encontro" por ele promovido em 1968 entre o sax-tenor norte-americano e a cantora de fado portuguesa. O disco saiu acompanhado de um texto de Villas Boas em que o seu projecto era assim esclarecido: "Pensámos numa hipótese: a de juntarmos ao grupo normal de acompanhamento de fado (guitarras portuguesas e violas) um elemento improvisador que conferisse aos temas uma certa espontaneidade, bem como uma valorização melódica e harmónica, e que por sua vez agisse como um estímulo à capacidade interpretativa de Amália." Gravado em 1968, o disco só sairia em 1973, já depois da morte de Don Byas. Fossem quais fossem as razões objectivas que motivaram o adiamento da edição por cinco anos, haverá uma razão psicológica subjacente: "Encontro" seria, em 1968, uma ideia demasiado ousada para Portugal. Juntar a maior cantora de fado e um músico de jazz sob um conceito de improviso era pôr em causa as convenções do género e correr o risco de o público fiel à cantora não entender o seu gesto — embora antes, Amália já tivesse forçado com êxito a estreiteza de vistas dos meios fadistas tradicionais. Seria talvez um escândalo, mesmo em 1973, quando "Encontro" acabou por ser lançado, se o cruzamento entre o fado e o jazz tivesse sido levado ao limite, ou se a osmose idealizada por Villas Boas sob a forma de improviso a dois tivesse realmente ocorrido. Em vez disso, porém, o que aconteceu foi um disco de fados clássicos cantados por Amália no seu estilo peculiar, onde Don Byas é introduzido quase marginalmente. Uma vez ou outra, o sax-tenor esboça curtos solos, mas mais frequentemente secunda e decalca com inegável elegância e não inferior discrição as melodias desempenhadas pelas guitarras. Não é um desencontro, antes um encontro em que um dos interlocutores tem a seu cargo a maior parte das despesas da conversa e o outro se limita a pontuar-lhe o discurso, prolongando-lhe as ideias ou dando-lhe as deixas para continuar a falar. Fosse pelo desafio da presença de Byas, fosse tão-só pela inspiração do momento — e é preciso lembrar que os doze fados foram gravados de uma assentada —, Amália registou neste álbum versões definitivas de alguns dos fados que a imortalizaram. "Encontro" vale sobretudo por isso, ou como inefável encontro da fadista consigo própria.» (Luís Maio); os doze pontos deste "Encontro" surgem por esta ordem: "Povo Que Lavas no Rio" [>> YouTube], "Solidão" [>> YouTube], "Estranha Forma de Vida" [>> YouTube], "Libertação" [>> YouTube], "Cansaço" [>> YouTube], "Rua do Capelão" [>> YouTube], "Ai Mouraria" [>> YouTube], "Não É Desgraça Ser Pobre" [>> YouTube], "Coimbra" [>> YouTube], "Lisboa Antiga" [>> YouTube], "Há Festa na Mouraria" e "Maldição" [>> YouTube].

Todos (ou quase todos) estes itens podiam ser devidamente ilustrados, ora com registos do arquivo da RDP (entrevistas, adaptações de peças de teatro e de obras romanescas, recitações de poemas, etc.) ora, no caso de repertório musical, com gravações discográficas.
Não cabia tudo em 50 minutos? Problema nada difícil de resolver: em vez de uma única edição (lacunar, espartilhada e cinzenta), façam duas – mais completas, desafogadas e variegadas.
Renova-se o pedido: deseja-se que "A Vida dos Sons" seja menos cinzenta e mais multicolor.
 

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"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (II)
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (III)
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (IV)
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (V)

27 julho 2012

"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (V)

A edição do programa "A Vida dos Sons" relativa ao ano de 1972 teve, também, o triste condão de pecar por defeito em matéria cultural.
Tivemos:

1. Notícia do surgimento de um novo jornal, o semanário "Expresso", que começará a sair para as bancas a 6 de Janeiro de 1973; transmissão de um excerto da entrevista concedida pelo seu fundador e proprietário, Francisco Pinto Balsemão, a Maria Leonor;
2. Transmissão, em jeito de ilustração sonora do ponto anterior, e sem qualquer outra referência, de um excerto do tema "Maré Alta", de Sérgio Godinho [>> YouTube];
3. Transmissão de trechos do tema "Sunday Bloody Sunday" (1983), dos U2 [>>
YouTube] [ao vivo >> YouTube] a pontuar o texto no qual se tratou do massacre de catorze manifestantes irlandeses desarmados, por tropas paraquedistas britânicas, em Derry, no dia 30 de Janeiro de 1972, que ficará conhecido como Domingo Sangrento;
4. Transmissão de um excerto do tema "The End", dos Doors [>> YouTube], antecedendo a menção aos bombardeamentos norte-americanos sobre as cidades de Hanói e Haiphong, no Vietname do Norte;
5. Transmissão, sem identificação, do tema "Watergate Bugs", de e por Les Waldroop [>> YouTube], após a abordagem das operações de espionagem mandadas fazer por Richard Nixon na sede do Partido Democrático, conhecido como edifício Watergate, e que depois de publicamente denunciadas pelo jornal "The Washington Post" levarão à renúncia de Nixon da presidência dos E.U.A., a 8 de Agosto de 1974 [>> YouTube];
6. Transmissão do tema "Lágrima de Preta", por Manuel Freire [>> YouTube], depois de referida a aprovação pela Assembleia-Geral da ONU (com os votos contra, além de Portugal, dos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e África do Sul) de uma resolução incentivando os estados membros a prestarem auxílio aos movimentos de libertação das colónias portuguesas em África;
7. Transmissão de um excerto da entrevista concedida pelo escritor Jorge de Sena ao jornalista e poeta Leite de Vasconcelos, da Rádio Moçambique, que era para ser emitida no programa "A Noite e o Ouvinte", mas que foi proibida de ir para o ar;
8. Referência ao processo movido pelo regime de Marcello Caetano às autoras do livro "Novas Cartas Portuguesas" (1972), Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, por alegadamente ser «insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública» (
http://www.novascartasnovas.com/historia.html); transmissão de um excerto da entrevista concedida por Maria Teresa Horta a João Almeida, em 2007, para o programa "Quinta Essência" (Antena 2); ficou a faltar o depoimento, caso exista, de Natália Correia, na qualidade de directora literária da editora Estúdios Cor, que tendo sido pressionada para censurar o texto insistiu em publicá-lo na íntegra [programa "Ler Mais Ler Melhor", 2011 >> YouTube]; faltou também a leitura de uma passagem do livro; é de todo o interesse que sejam citados os títulos e respectivos autores, mas mais importante ainda é os ouvintes terem a noção dos conteúdos, quanto mais não seja para lhes aguçar o apetite para a leitura integral (http://issuu.com/novas_cartas_novas/docs/novas_cartas_portuguesas); não quero acreditar que as Sras. Ana Aranha e Iolanda Ferreira, quais zeladoras neo-salazaristas da moral pública, achem o texto impróprio para ser ouvido pelo público que em 2012 constitui o auditório da Antena 1 [um excerto lido em voz alta >> YouTube];
9. Referência à publicação em França do livro de Mário Soares "Le Portugal Bailloné" ("Portugal Amordaçado"), sob chancela da editora Calmann-Lévy; ficaram a faltar as palavras do autor e a menção do nome de Alain Oulman, pois foi graças a ele que a obra veio primeiramente a lume em terras gaulesas (
http://www.fmsoares.pt/mario_soares/textos_ms/005/8.pdf);
10. Referência ao falecimento da cantora norte-americana Mahalia Jackson e subsequente passagem de um depoimento da rainha dos espirituais negros; transmissão, a fechar, de um breve trecho do tema "Amazing Grace" [>> YouTube] [ao vivo >> YouTube].

Foram ignorados:

1. Falecimento do poeta, crítico literário e ensaísta Adolfo Casais Monteiro; formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na antiga Faculdade de Letras do Porto, onde teve como mestre Leonardo Coimbra, a quem viria a associar-se, no final dos anos 20, com Sant'Ana Dionísio, na direcção de "A Águia"; o seu nome encontra-se vinculado, porém, à história da revista "Presença", cuja direcção integrou, ao lado de José Régio e João Gaspar Simões, a partir de 1931, e em cujas edições publicou as suas primeiras colectâneas poéticas ("Confusão", 1929; "Poemas do Tempo Incerto", 1934; "Sempre e Sem Fim", 1937); forçado a abandonar o ensino em 1937, por motivos políticos, foi colaborador de inúmeras publicações periódicas; dirigiu, com António Pedro, o "Mundo Literário" (1946-47) e desenvolveu, até 1954, data do seu exílio no Brasil, uma intensa actividade como editor e como tradutor (Baudelaire, Charlotte Brontë, Erskine Caldwell, Alexis Carrel, George Eliot, Hemingway, Philippe Hériat, Kierkegaard, Jules Lachelier, Robert Margerit, Stendhal, Tolstoi, Henri Troyat); no Brasil, como professor universitário, continuou uma importante carreira como ensaísta, de que se destacam: por um lado, a divulgação e atento estudo da estética de Fernando Pessoa, cuja primeira edição da obra poética organizara com José Régio e João Gaspar Simões; e, por outro, a reflexão e teorização sobre o alcance do movimento da "Presença"; segundo Fernando J. B. Martinho, Adolfo Casais Monteiro foi, enquanto poeta, «não só dos mais tocados pela sombra de Pessoa, como também um dos poucos que soube, na sua geração, assimilar e ampliar o vector vanguardista do primeiro modernismo»; dois anos depois do seu falecimento, ocorrido na cidade brasileira de São Paulo, foi instituído, com o patrocínio da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Literário de Poesia Adolfo Casais Monteiro;
2. Falecimento do poeta e ensaísta norte-americano Ezra Pound; formado pela Universidade de Pensilvânia, em 1906, leccionou Românicas durante um breve período em Crawfordsville, Indiana, após o que viajou por Espanha, Itália e França; o seu primeiro livro de poemas, "A Lume Spento", foi publicado em Veneza em 1908; nesse ano fixou-se em Londres, onde travou conhecimento com alguns dos mais importantes poetas e escritores da época: Ford Madox Ford, James Joyce, Wyndham Lewis, W. B. Yeats e T. S. Eliot, entre outros; em 1909 publicou "Personae e Exultations", a que se seguiu um volume de ensaios críticos intitulado "The Spirit of Romance" (1910); conhecedor das literaturas europeia e oriental, Pound associou-se desde muito cedo à escola dos imagistas, que liderou de forma particularmente enérgica, até a abandonar em 1914; nos seus "Cantos", publicados numa longa série, entre 1917 e 1949, Pound procurou elaborar uma versão moderna da "Divina Comédia", de Dante; no ano de 1920, fixa-se em Paris, onde exerce grande influência em escritores compatriotas que aí viviam, como Hemingway, Gertrude Stein e F. Scott Fitzgerald; em 1924, radica-se em Itália, já com Mussolini no poder, de onde só sairá em 1939 para uma breve visita aos Estados Unidos a fim de ser doutorado honoris causa pelo Hamilton College, e depois, em 1945, quando é levado preso para os Estados Unidos a fim de ser julgado por alegada traição; a acusação de traição à pátria, formulada pelo Tribunal de Columbia, em 1943, baseou-se nas emissões que regularmente mantivera na rádio de Roma, em 1941-42, de apoio ao regime de Mussolini; a sua grande luta fora, porém, travada contra o materialismo e aquilo que designou por "usurocracia", que dominava o mundo (designadamente a América rooseveltiana) tendo encontrado no fascismo mussoliniano um antídoto que poderia ser eficaz; declarado louco, é internado no Hospital de Saint-Elizabeth, em Washington, não cessando de crescer ao longo dos anos um vasto movimento mundial a favor da sua libertação, o que vem a acontecer em 1958, com a justificação médica de «louco incurável mas inofensivo»; regressa então a Veneza, trabalhando, até à morte, nos "Cantos", a sua obra maior [>> YouTube]; a influência de Ezra Pound na produção poética de língua inglesa do século XX foi imensa, particularmente em T. S. Eliot, que submeteu o manuscrito da sua obra "The Waste Land" ("A Terra Devastada") à sua apreciação antes de o publicar (1922); as correcções feitas por Pound mereceram-lhe a dedicatória de Eliot: "For Ezra Pound, il miglior fabbro" ("A Ezra Pound, o melhor artífice");
3. Falecimento do poeta e escritor francês Jules Romains; é o criador do unanimismo, com a obra poética "La Vie Unanime", editada em 1908; a sua produção ficcional inclui os romances "Mort de Quelqu'un" (1911), "Les Copains" (1913), a trilogia romanesca "Psyché" ("Lucienne"; "Le Dieu des Corps"; "Quand le Navire...") (1922-1929) e o ciclo em 27 volumes "Hommes de Bonne Volonté" (1932-1946) no qual não há um herói preciso, mas a narração da vida de numerosas pessoas que ora se cruzam ora se afastam; dedicou-se também ao teatro, sendo de destacar a peça "Knock ou le Triomphe de la Médecine" (1923), que o consagrou como autor cómico e satírico;
4. Falecimento do antropólogo e paleoantropólogo britânico Louis Leakey; nascido em Kabete, no Quénia, cresceu entre os Kikuyu, tribo junto da qual os seus pais exerciam a missionação; depois de concluir os estudos em Inglaterra, voltou à África oriental para uma série de expedições arqueológicas, entre 1926 e 1935, com o propósito de estudar a sequência das culturas pré-históricas do Quénia; em 1937, inicia trabalhos de campo com a tribo Kikuyu, de que resulta a obra "Mau-Mau and the Kikuyu" (1952), pela qual obtém grande reconhecimento; as suas mais importantes descobertas arqueológicas e antropológicas viriam a ter lugar na Tanzânia, na garganta do Olduvai, a partir de 1951, onde trabalhou incessantemente, acompanhado de sua mulher, Mary Douglas Leakey, e dos filhos; de entre as suas mais reputadas descobertas, destacam-se os fósseis de um Australopitecus robustus (1,7 ou 1,6 milhões de anos), em 1959, e de um Homo habilis (entre 2 e 1,6 milhões de anos), em 1964, sendo este último considerado como um dos mais antigos ancestrais directos conhecidos do Homem; tais achados permitiram, entre outras ilações, confirmar África como o berço da Humanidade, comprovando a teoria darwiniana e corroborando as descobertas de Raymond Dart;
5. Falecimento do actor e cantor francês Maurice Chevalier; benjamim de nove irmãos, deixou de estudar aos onze anos de idade para trabalhar como operário; o seu primeiro contacto com o meio artístico foi como acrobata num circo, mas um acidente que lhe causou a fractura de um braço levou-o a abandonar as artes circenses; dedicou-se então às canções e rapidamente se tornou famoso no circuito dos cabarés parisienses e, em 1908, chegaria ao cinema, participando na curta-metragem "Trop Crédules"; quando eclodiu a I Guerra Mundial, era uma estrela das Folies-Bergère; é mobilizado, mas a sua recusa em combater acarreta-lhe o aprisionamento durante dois anos num campo militar na Alemanha; em 1917, começa a cantar no Casino de Paris e, em 1929, depois de numerosos convites, ruma a Hollywood, onde encanta os americanos com o seu timbre melodioso; recebe uma nomeação para o Óscar de Melhor Actor pela sua participação nos filmes de Ernest Lubitsch "O Grande Charco" ("The Big Pond", 1930) e "A Parada do Amor" ("The Love Parade", 1930) [>>
YouTube]; ficou célebre o seu dueto com Jeanette MacDonald, "We Will Always Be Sweethearts", no filme "Uma Hora Contigo" ("One Hour With You", 1932, de Ernest Lubitsch) [>> YouTube]; depois da II Guerra Mundial, o seu prestígio ficou algo beliscado devido a alegado colaboracionismo com os ocupantes nazis; continuou a filmar regularmente no país natal e nos E.U.A. sendo de destacar "Gigi" (1958, de Vincente Minnelli) [>> YouTube] [>> YouTube], "Can-Can" (1960, de Walter Lang) [>> YouTube] e "Fanny" (1961, de Joshua Logan) [>> YouTube]; em 1958, foi-lhe atribuído um Óscar Honorário pelo seu meio século de contribuição para o mundo do espectáculo; do seu repertório musical, ficaram famosas as canções "Valentine" (1925) [>> YouTube], "Louise" (1929) [>> YouTube] e "Mimi" (1932) [>> YouTube];
6. Estreia do filme "O Padrinho" ("The Godfather"), de Francis Ford Coppola; é o filme que afirma Francis Ford Coppola como grande realizador de cinema e continua, ainda hoje, a ser o que melhor retrata a Máfia em terras do Tio Sam; o argumento, baseado no romance homónimo de Mario Puzo, publicado em 1969, gira em torno da família Corleone, de origem siciliana, que, entre 1945 e 1955, domina o submundo nova-iorquino: Don Vito Corleone (Marlon Brando) é o patriarca, o "padrinho" que se rege por um código de honra e de conduta muito próprio, em que os interesses da família são colocados ao mais alto nível [>>
YouTube]; com um elenco de luxo compreendendo, além do citado Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall e Diane Keaton, "O Padrinho" foi premiado com três Óscares – Melhor Filme, Melhor Actor (Marlon Brando) e Melhor Argumento Adaptado –, e alcançou um êxito enorme à escala mundial;
7. Estreia do filme "Cabaret", de Bob Fosse; baseado no musical estreado em 1966 na Broadway, por sua vez adaptado da novela "Goodbye to Berlin" (1939, de Christopher Isherwood) e da peça de teatro "I am a Camera" (1951, de John Van Druten), "Cabaret" (em Portugal, "Cabaret – Adeus Berlim") é o filme em que Liza Minnelli teve o melhor desempenho da sua carreira ao encarnar, de forma magistral, a dançarina e cantora Sally Bowles na Berlim do início dos anos 1930 (que lhe valeu o Óscar de Melhor Actriz) [>>
YouTube] [>> YouTube]; o filme arrebatou oito estatuetas douradas na cerimónia de entrega dos Óscares, tendo a curiosa particularidade de ser o filme mais oscarizado que não venceu na categoria de Melhor Filme (a estatueta foi para "O Padrinho", de Francis Ford Coppola);
8. Estreia do filme "Último Tango em Paris" ("Ultimo tango a Parigi" / "Le Dernier Tango à Paris"), de Bernardo Bertolucci; com Marlon Brando e Maria Schneider nos principais papéis, Bertolucci colocou em cena a sexualidade com uma crueza e intimidade inéditas para a época [>>
YouTube] [>> YouTube], o que o transformou "Último Tango em Paris" num filme-escândalo, a ponto de ser proibida a sua exibição em vários países (em Portugal, só seria estreado a 30 de Abril de 1974); destaque para a magnífica fotografia de Vittorio Storaro, na densificação do conteúdo emocional e na beleza de composição dos planos, e para a banda sonora de Gato Barbieri [>> YouTube];
9. Estreia do filme "Uma Abelha na Chuva", de Fernando Lopes; baseado no romance homónimo de Carlos de Oliveira, é um dos títulos de referência do novo cinema português, de que o próprio Fernando Lopes foi um dos iniciadores com "Belarmino" (1964) [>>
YouTube]; focado numa família da região da Gândara, "Uma Abelha na Chuva" retrata de forma assaz impressiva a difícil convivência entre duas classes sociais num mundo em transformação – a fidalguia empobrecida e os comerciantes abastados; digno de realce é o desempenho de Laura Soveral encarnando uma decadente mas orgulhosa fidalga naquele que foi um dos seus primeiros papéis no cinema [>> YouTube];
10. Estreia do filme "O Passado e o Presente", de Manoel de Oliveira; tendo como ponto de partida uma peça de Vicente Sanches (publicada em 1964), é a primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira desde "Aniki Bobó" (1942) [>> YouTube] (de permeio apenas conseguira filmar curtas e médias metragens, como "As Pinturas do Meu Irmão Júlio" [>> YouTube] e "Acto da Primavera" [>> YouTube]) e inicia, nas palavras do realizador, a "tetralogia dos amores frustrados", continuada com "Benilde ou a Virgem-Mãe", "Amor de Perdição" e "Francisca"; foi também o primeiro filme produzido pelo Centro Português de Cinema, apoiado e financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, onde, desde 1969 e durante 22 anos, trabalhou João Bénard da Costa, como responsável pelo Sector de Cinema, departamento inserido no Serviço de Belas-Artes; Bénard da Costa, cinéfilo e futuro director da Cinemateca Portuguesa (sucedendo a Luís de Pina), marca a sua primeira presença nos filmes de Oliveira, num pequeno papel (Honório); sinopse: os ridículos, a incoerência, o parasitismo da alta burguesia; tudo gira em torno do desprezo de Vanda, uma jovem mulher, pelos vários maridos em vida, e a mórbida veneração que lhes dedica, uma vez viúva; resultado desta perpetuação do luto é, entre outros, que Vanda não tem vida sexual (a ameaça fálica é assim evitada de cada vez) [>>
YouTube] [>> YouTube] [>> YouTube];
11. Edição do álbum "Os Sobreviventes", de Sérgio Godinho; é o primeiro álbum de Sérgio Godinho (no ano anterior saíra o EP "Romance de um Dia na Estrada") que o afirma desde logo como um dos grandes escritores/intérpretes de canções em português; a gravação do disco fora feita em Abril de 1971 em Chateau d’Hérouville, arredores de Paris, no Stawberry Studio, o mesmo onde também foram gravados "Cantigas do Maio", de José Afonso, e "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", de José Mário Branco; aliás, Sérgio Godinho e José Mário Branco, ambos exilados em França, colaboraram mutuamente na gravação dos respectivos primeiros álbuns: Sérgio Godinho participou como segunda viola e nos coros, além de assinar quatro letras, no de José Branco e este, por sua vez, fez coros e tocou diversos instrumentos (piano, xilofone, órgão e viola) em "Os Sobreviventes"; no alinhamento figuram os seguintes temas: "Que Força é Essa?" [>>
YouTube], " A-A-E-I-O" [>> YouTube], "Descansa a Cabeça (Estalajadeira)", "Paula", "Que Bom Que É" [>> YouTube], "O Charlatão" [ao vivo no Coliseu dos Recreios, 28 Fev. 2004 >> YouTube], "Farto de Voar" [>> YouTube], "Senhor Marquês", "Cantiga da Velha Mãe e dos seus Dois Filhos", "A Linda Joana", "Romance de um Dia na Estrada" [>> YouTube] e "Maré Alta" [>> YouTube];
12. Edição do álbum "Margem de Certa Maneira", de José Mário Branco; é o segundo álbum de José Mário Branco, que sai em Dezembro de 1972, com selo da Guilda da Música/Sassetti; tal como sucedera com "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", o laboratório sonoro foi o Strawberry Studio, de Michel Magne (Chateau d’Hérouville, Paris), por onde tinham passado grupos como The Beatles, The Rolling Stones e Pink Floyd; em "Margem de Certa Maneira" podem ouvir-se de novo o baixo eléctrico de Christian Padovan e as percussões de Michel Delaporte, dois músicos franceses que, em 1971, sob a batuta de José Mário Branco, tinham contribuído para a inesquecível sonoridade do álbum "Cantigas do Maio", de José Afonso; no elenco de participações figuram também Denis Lable (guitarra acústica), Adriano Correia de Oliveira (coros), Mário Jorge (coros e palmas), Manuel Jorge Veloso (órgão, coros e palmas) e Isabel, então mulher do cantor (coros); os arranjos e direcção musical estiveram a cargo do próprio José Mário Branco, igualmente autor de todas as letras e músicas, excepto quando indicado: "Por Terras de França" [>>
YouTube], "Engrenagem" [>> YouTube], "Aqui Dentro de Casa" [>> YouTube], "Margem de Certa Maneira" [>> YouTube], "Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos (Mãe Coragem)" (letra de Sérgio Godinho) [>> YouTube], "Sant'Antoninho" (música de Jean Sommer) [>> YouTube], "A Morte Nunca Existiu" (letra de António Joaquim Lança) [>> YouTube] e "Eh! Companheiro" (letra de Sérgio Godinho) [>> YouTube];
13. Edição do álbum "Eu Vou Ser como a Toupeira", de José Afonso; «Continuação lógica de "Cantigas do Maio", este disco surge numa fase de grande empenhamento político de Zeca – que pouco tempo depois o levará novamente à prisão de Caxias. Apresentado como um trabalho de grupo, com colaborações de Benedicto García, Carlos Alberto Moniz, Carlos Medrano, Carlos Villa, Ernesto Duarte, José Dominguez, José Jorge Letria, José Niza, Maite, Maria do Amparo, Pedro Vicedo, Pepe Ébano e Teresa Silva Carvalho. Pratica­mente impedido de cantar em Portugal, Zeca apresenta-se ao vivo em Espanha e em França e tenta dar conta, em disco, do que por cá se passa. Prenúncios da mudança que se avizinhava são temas como "Ó Ti Alves" [>>
YouTube] ou "É para Urga" [>> YouTube]. Mas, enquanto o dia novo não chega, Zeca continua a cantar a cólera e o desespero colectivos, através de momentos musicais inesquecíveis como "A Morte Saiu à Rua" (dedicado a José Dias Coelho, assassinado pela Pide em 1961) [>> YouTube] [videoclip >> YouTube] e "Por Trás Daquela Janela" (escrito para Alfredo Matos, antifascista do Barreiro que se encontrava preso) [>> YouTube], ao mesmo tempo que ironiza com a cadavérica memória salazarista ("O Avô Cavernoso") [>> YouTube], faz novos apelos à luta ("Fui à Beira do Mar" [>> YouTube], "Eu Vou Ser Como a Toupeira" [>> YouTube]) e se diverte com o aparente "non sense" de Fernando Pessoa ("No Comboio Descendente") [>> YouTube], afinal a imagem perfeita de um certo "laissez faire" tão tipicamente lusitano.» (Viriato Teles); para perfazer os 10 temas do alinhamento falta referir "Sete Fadas me Fadaram (com texto do pintor António Quadros) [>> YouTube] e a tradicional "Ó Minha Amora Madura" [>> YouTube], um dos mais extraordinários e cativantes exercícios de minimalismo em círculo melódico da música portuguesa: partindo de apenas quatro versos, José Afonso consegue dar-nos 2 minutos e 18 segundos de música sem que sintamos a mais pequena sensação de cansaço ou aborrecimento;
14. Edição do álbum "Canções de Amor e de Esperança", de Luiz Goes; dando sequência lógica a "Canções do Mar e da Vida" (1969), Luiz Goes publica, no início de 1972, o LP "Canções de Amor e de Esperança"; a gravação decorreu em Dezembro de 1971, nos estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço d'Arcos, pelo conceituado técnico de som Hugo Ribeiro; o disco inclui doze temas: oito com letra de Leonel Neves – "Cantiga Para Quem Sonha" (música de João Figueiredo Gomes) [>>
YouTube], "Chamo-te Niña" (música de Luiz Goes) [>> YouTube], "Trova de Vila da Feira" (música de António Toscano) [>> YouTube], "É Preciso Acreditar" (música de Luiz Goes) [>> YouTube], "Canção Pagã" (música de Luiz Goes) [>> YouTube], "Anda o Mar Dizendo (Mensagem do Mar)" (música de Durval Moreirinhas), "Balada do Rei Vadio" (música de Luiz Goes) [>> YouTube] e "Uma Lenda do Levante" (música de António Andias) [>> YouTube]; e quatro com letra de Luiz Goes – "Poema Para Um Menino" (música de Luiz Goes) [>> YouTube], "Canção Para Quem Vier" (música de António Toscano), "Sangue Novo" (música de Luiz Goes) [>> YouTube] e "Canção Quasi de Embalar" (música de António Andias e Durval Moreirinhas) [>> YouTube]; se há discos que foram tocados pela varinha de condão, "Canções de Amor e de Esperança" é, sem sombra de dúvida, um deles: por um lado, a bela e portentosa voz de Luiz Goes capaz de nos fazer vibrar até ao âmago e, por outro, os primorosos poemas sobretudo os que saíram do punho de Leonel Neves, hoje um ilustre desconhecido para muita gente, mas a quem se devem alguns dos mais belos textos escritos e cantados em português; tudo isso, sem esquecer, obviamente, os autores das composições que são, além do próprio Luiz Goes, os músicos que o acompanharam: António Andias (na guitarra de Coimbra), Durval Moreirinhas, António Toscano e João Figueiredo Gomes (nas violas); dizer que "Canções de Amor e de Esperança" é o mais superlativo trabalho até hoje realizado no campo da balada de Coimbra é de toda a justiça mas soa a pouco – na verdade, estamos em presença de um dos discos mais encantadores e fascinantes de toda a História da Música Portuguesa;
15. Edição do álbum "Fala do Homem Nascido", com poemas de António Gedeão musicados por José Niza e cantados por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha; tendo como ponto de partida a poesia de António Gedeão, autor que Manuel Freire popularizara com a balada "Pedra Filosofal", estreada no Outono de 1969, no programa "Zip-Zip", José Niza musicou 11 textos que são cantados – ora colectivamente, ora em dueto, ora a solo –, por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha. São eles: "Estrela da Manhã" (por todos), "Fala do Homem Nascido" (por Samuel) [ao vivo em Montemor-o-Novo, em 2007 >>
YouTube], "Desencontro" (por Samuel e Tonicha) [>> YouTube], "Tempo de Poesia" (por Duarte Mendes), "Vidro Côncavo" (por todos), "Poema da Malta das Naus" (por Samuel) [>> YouTube], "Lágrima de Preta" (por Duarte Mendes) [a partir de 2':00'' >> YouTube], "Poema do Fecho Éclair" (por Carlos Mendes) [>> YouTube], "Calçada de Carriche" (por Carlos Mendes) [>> YouTube], "Poema da Auto-Estrada" (por Tonicha) [>> YouTube]  e "Poema da Pedra Lioz" (por Samuel) [>> YouTube]; os arranjos e direcção de orquestra são da responsabilidade do então jovem maestro José Calvário, que com «o seu bom gosto, inteligência e sensibilidade, deu um excelente tratamento instrumental e orquestral às canções», como o próprio José Niza reconheceu muitos anos depois (1998), aquando da reedição em CD; refira-se, a título de curiosidade, que dois dos temas do disco – "Fala do Homem Nascido" e "Lágrima de Preta" – não são propriamente inéditos na forma cantada com música de José Niza, pois Adriano Correia de Oliveira gravara-os dois anos antes, no álbum "Cantaremos";
16. Edição do álbum "Palavras Ditas", de Mário Viegas; a estreia discográfica do grande recitador (como ele próprio gostava de ser chamado) dera-se em 1969 com o EP "Mário Viegas Diz Poemas" (selo Orfeu); "Palavras Ditas" é o seu primeiro registo de longa duração e a plena afirmação da sua arte de dar voz, com notável eloquência, às palavras saídas do punho de autores portugueses e estrangeiros, e não só eruditos, como a seguir se verá; na maioria dos poemas, a voz de Mário Viegas surge enquadrada numa "encenação musical" especialmente composta para o efeito, o que representa um conceito inovador e pioneiro em Portugal; com produção, direcção musical e concepção sonoplástica de José Niza e captação de som de Moreno Pinto (nos Estúdios Polysom, em Campolide, Lisboa), são doze os espécimes deste "Palavras Ditas": "Anedota" (popular), "Amátia" (Jorge de Sena), "Boletim Meteorológico" (retirado de um jornal), "Epígrafe" (José Carlos Ary dos Santos), "Mãezinha" (António Gedeão), "Hino à Minha Terra" (Amélia Vilar), "O Ladrão do Pão" (Alexandre O'Neill) [>>
YouTube], "Palavras" (Gastão Cruz), "Uma Lisboa Remanchada" (Alexandre O'Neill), "Correio" (Manuel Alegre), "O Viajante Clandestino/X" (Daniel Filipe), "Sob o Trópico de Câncer" (Vinicius de Moraes) [>> YouTube]; a execução instrumental foi assegurada pelos próprios compositores: José Calvário (piano e órgão), José Niza (viola acústica), João Ramos Jorge (Rão Kyao) (saxofone barítono) e Paulo Gil (percussão).

Todos (ou quase todos) estes itens podiam ser devidamente ilustrados, ora com registos do arquivo da RDP (entrevistas, adaptações de peças de teatro e de obras romanescas, recitações de poemas, etc.) ora, no caso de repertório musical, com gravações discográficas.
Não cabia tudo em 50 minutos? Problema nada difícil de resolver: em vez de uma única edição (lacunar, espartilhada e cinzenta), façam duas – mais completas, desafogadas e variegadas.
Renova-se o pedido: deseja-se que "A Vida dos Sons" seja menos cinzenta e mais multicolor.



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