João Eduardo Salomé Vieira nasceu na vila alentejana de Redondo, a 17 de Maio de 1947. Filho de José Vieira, ourives, relojoeiro e marceneiro, e de Sofia Salomé, doméstica, Janita, como ficará afectuosamente conhecido, é o mais novo de cinco irmãos todos eles herdeiros de uma forte tradição musical familiar. A mãe, excelente cantora, e o pai, que tocava bandolim e cantava o fado de Coimbra, incutiram nos filhos o gosto pela música, a tal ponto que todos eles passariam, amadora ou profissionalmente, por carreiras musicais (Vitorino será o que alcançará maior notoriedade).
Apesar de cantar desde os 9 anos de idade, a veia artística de Janita só é verdadeiramente assumida aos 16 anos ao ingressar, como baterista e vocalista, no conjunto Planície, um grupo de baile constituído pelos seus dois irmãos mais velhos Zezinho e Baíco (Manuel), e ainda Evaristo Carrajeta, Abílio Delca, Magalhães e Manuel Monarca.
Em 1965, aos 18 anos de idade, Janita ruma a Lisboa para trabalhar como funcionário judicial no Tribunal da Boa Hora e, passados dois anos, é recrutado para o serviço militar sendo mobilizado para a guerra colonial em Moçambique. «Na cidade de Tete havia serviços recreativos do exército que promoviam espectáculos e procuravam entre os militares quem mostrasse as suas artes, e eu participei num espectáculo desses. Cantei um poema de Manuel Alegre, "As Mãos", e logo a seguir mandaram-me prender». Mas acabou por não ficar detido: «Quem me safou foi um cabo enfermeiro que conhecia bem o comandante da região operacional...».
No regresso de África, em 1972, fixa-se no Redondo, para trabalhar como ajudante de notário e passa a integrar os Vagabundos do Ritmo, um grupo de baile que se dedica a tocar versões de êxitos românticos da altura e de nomes estrangeiros como Bee Gees e Beatles. Ainda sem um caminho musical definido, será depois do 25 de Abril de 1974 que Janita encontrará o seu rumo ao encontrar-se José Afonso que o inspira a investigar e a trabalhar a tradição musical popular. Durante dois anos participa como acompanhante do autor de "Grândola, Vila Morena" em numerosos espectáculos, comícios e sessões de esclarecimento. Em 1976, participa como cantador e alto em "Semear Salsa ao Reguinho", o primeiro álbum do irmão Vitorino com quem continuará sempre a colaborar quer em discos quer em actuações ao vivo.
Em 1977, funda com Vitorino e os outros irmãos um grupo que se dedica a perpetuar a tradição do cante alentejano, os Cantadores de Redondo, cuja actividade se mantém até aos dias de hoje. Gravam o disco etnográfico "O Cante da Terra", editado em 1978. Em 1980, dá-se nova revolução na vida de Janita: abandona o emprego na função pública e profissionaliza-se como músico. Motivo: um convite de José Afonso para integrar o grupo que o acompanhava em palco, substituindo Henri Tabot nas guitarras (Júlio Pereira e Guilherme Inês são os outros músicos de Zeca). No mesmo ano, grava o seu primeiro disco em nome próprio, "Melro", para a Orfeu, com a supervisão técnica de Moreno Pinto e Jorge Barata. Incluindo um tema da sua autoria ("Alvorada em Abril") e outro de Vitorino ("Homens do Largo"), o disco é composto de duas partes distintas: uma dedicada à música de matriz alentejana e outra, numa inesperada opção, a fados de Coimbra (de António Menano, Francisco Menano e António de Sousa), cujo gosto lhe fora incutido pelo pai na juventude. Realce também para o tema "Poema para Florbela", em que Janita musica e canta um poema de Manuel da Fonseca, também ele um alentejano de gema. Com direcção musical de José Afonso, Vitorino e Janita Salomé, o álbum tem a participação instrumental de Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa, campaniça e viola), Sílvio Pleno (clarinetes), Luís Caldeira Cabral (flautas), Vitorino, Carlos e Janita Salomé (adufes e trancanholas). Nos fados de Coimbra, os acompanhadores foram Octávio Sérgio (guitarra), Durval Moreirinhas e Fernando Alvim (violas). Lançado em plena explosão do rock português, o álbum passa relativamente despercebido: Janita ainda é olhado como «o irmão do Vitorino».
Faz digressões no estrangeiro com José Afonso, Pedro Caldeira Cabral e Vitorino, e participa, em 1981, nos álbuns "Cavaquinho" e "Fados de Coimbra e Outras Canções", respectivamente de Júlio Pereira e José Afonso. E será justamente nesse ano, em Paris, quando acompanhava José Afonso, que tudo se torna claro. Janita assiste, deslumbrado, a um concerto de um grupo de Marrocos e aí nasce a sua paixão pela música árabe. Encontra finalmente a estrela que norteará a sua música: a procura dos laços que unem a tradição popular alentejana com a música tradicional magrebina, numa meritória tentativa de trazer à tona os vestígios deixados na nossa música pelos Árabes durante os séculos em que permaneceram na Península Ibérica, mais concretamente no território que hoje constitui o sul de Portugal. Em Fevereiro de 1982, faz a primeira viagem ao Norte de Africa, a que se seguirão outras. Janita conta: «Em Marrocos descobri o ancestral do Alentejo, de alguma forma, na fisionomia daquela gente, na maneira de estar, na gastronomia e deixei-me envolver e trouxe comigo tudo isso, toda essa experiência – aprendi inclusive a tocar todos aqueles instrumentos, aprendi muitas técnicas com músicos, camponeses magrebinos». E assim nasce o LP "A Cantar ao Sol", gravado por António Pinheiro da Silva para a Valentim de Carvalho, nos Estúdios de Paço d’Arcos. Lançado em Dezembro de 1983, este segundo álbum de Janita tem uma repercussão bem superior à do disco de 1980. Com produção de João Gil (na altura, músico do grupo Trovante) e composições do próprio Janita Salomé, nos temas de autor, o trabalho conta com a participação instrumental de Júlio Pereira (violas acústicas, braguesas, ovation), Pedro Caldeira Cabral (alaúde, ghaita), Sérgio Mestre (flauta), José Manuel Marreiros (piano), Carlos Zíngaro (violino) e Janita Salomé (percussões). Era desejo de Janita associar ao trabalho músicos de Casablanca, que conhecera nas suas viagens, mas devido a questões orçamentais isso acabou por não se concretizar. Além dos temas tradicionais ("Extravagante", "Pavão", "S. João" e "Saias") fazem parte do alinhamento: "Tardes de Casablanca" (poema de Hipólito Clemente), "Cantar ao Sol" (poema de João Manuel Pinheiro), "Não É Fácil o Amor" (poema de Luís Andrade Pignatelli à vide em baixo), "Quando Chegou a Lua Cheia" (poema de Janita Salomé), e "Na Palestina" (instrumental com vocalizos). A apresentação do trabalho dá-se num espectáculo realizado na Aula Magna que esgota a lotação. O álbum é considerado um dos melhores trabalhos da música popular portuguesa do ano e vale a Janita Salomé três prémios: Se7e de Ouro (atribuído pelo Jornal Se7e) na categoria de música popular/tradicional e Prémio Revelação das revistas "Música & Som" e "Nova Gente".
Em 1985, e dando continuidade à exploração das raízes árabes, Janita grava o álbum "Lavrar em Teu Peito", para EMI-Valentim de Carvalho, sob a supervisão técnica de António Pinheiro da Silva. Novamente com produção de João Gil e composições de Janita Salomé, o disco conta ainda com as participações de José Peixoto (arranjos, viola, alaúde, caixa de arroz), Júlio Pereira (violas), Paulo Curado (flauta), Pedro Caldeira Cabral (charamela, lira e flauta indiana, viola campaniça), Rui Júnior (maraca e prato), Fernando Júdice (contrabaixo), José Manuel Marreiros (piano), e ainda os irmãos Vitorino e Carlos Salomé. Janita, por seu lado, toca diversos instrumentos árabes de percussão – bendir, taarija e darabuka. Os poemas são de Luís Andrade Pignatelli ("Como se fosses de linho doce...", "O que ficou no ar parado..."), Hipólito Clemente ("Árvores no Deserto"), José Bebiano ("O Poder"), António José Forte ("Poema") e Al-Mu’tamid ("A uma escrava que lhe ocultou o Sol"), insigne poeta do séc. XI, nascido em Beja, e considerado um dos maiores vultos culturais do Al-Andaluz. O poema de Al-Mu’tamid foi retirado do livro "Portugal na Espanha Árabe", do historiador António Borges Coelho, uma importante fonte de inspiração do cantor. O álbum integra também uma versão do tema "Mulher da Erva", de José Afonso, e ainda de "E Alegre se Fez Triste" (com poema de Manuel Alegre), primeiramente cantado por Adriano Correia de oliveira, prematuramente desaparecido em 1982. Do alinhamento fazem ainda parte dois temas populares alentejanos ("Moda da Lavoura" e "Saias") e "Conta-me contos, ama…", um belíssimo tema a capella sobre poema de Fernando Pessoa, composto para a peça "O Esfinge Gorda", de Mário Viegas. Curiosamente, o grande actor também participa no álbum recitando o poema "O Poder", de José Bebiano. Em entrevista a Fernando Sobral (Diário de Notícias, 15.10.1985), Janita chama a atenção para a importância do legado árabe na nossa tradição oral: «Há toda uma cultura de transmissão oral que vai ficando e que chega até nós. Na fúria da reconquista cristã tudo o que pertencesse aos Mouros era destruído e queimado. Eram os Infiéis. Mas alguma coisa ficou. Para além da cultura registada, fabricada, havia uma cultura anónima, popular, que foi ficando. E os árabes legaram-nos uma cultura muito rica que não tem sido reconhecida, mesmo ao nível do ensino. Espero que este meu álbum, "Lavrar em Teu Peito", contribua um pouco para que esta situação se inverta.»
Em 1985, Janita é um dos principais colaboradores, como cantor e instrumentista (darbuka e adufe), na gravação do álbum "Galinhas do Mato", de José Afonso, que devido à doença já não conseguiu cantar todos os temas. "Moda do Entrudo", "Tarkovsky" e "Alegria da Criação" são os temas a que Janita empresta a sua inconfundível voz.
Em 1987, grava "Olho de Fogo", o seu quarto álbum a solo, editado pela Transmédia. Com produção e direcção musical de José Mário Branco e a colaboração de José Peixoto e João Lucas nos arranjos, Janita canta poemas da sua autoria ("Azul Branco", "Quando a luz fechou os olhos"), de Luís Andrade Pignatelli ("Os Amantes", "Cantata"), José Bebiano ("Poema") e continua a resgatar a poesia do Al-Andaluz: Ibn Sara ("Estrela Cadente", "O Zéfiro e a Chuva") e Al-Mu’tamid ("Ao Passar Junto da Vide"). Integram também o alinhamento duas versões de temas tradicionais ("Senhora do Almortão" e "Saias do Freixo em Gibraltar"). Entre os instrumentistas, além de Janita Salomé (bendir, darbuka, adufe) e José Mário Branco (harpa sequenciada, sintetizador, timbalão) contam-se João Lucas (piano, sintetizadores), José Peixoto (guitarra acústica, baixo, harpa sequenciada, piano-marimba), Irene Lima (violoncelo), Carlos Zíngaro (violino), Fernando Flores (contrabaixo), António Serafim (oboé), Paulo Curado (flauta, sax soprano e tenor), Tomás Pimentel (trompete, flugelhorn), José Martins (percussões), entre outros. Nas vozes colaboraram os irmãos Vitorino e Carlos Salomé e as filhas de Janita, Marta e Catarina Salomé. De assinalar também o arranjo da compositora Constança Capdeville em "Senhora do Almortão", tema tradicional da Beira Baixa, a região de Portugal que, segundo os etnomusicólogos, melhor conseguiu conservar a influência árabe (adufes, por exemplo). A apresentação pública do disco terá lugar na Aula Magna (Lisboa) e no Teatro Carlos Alberto (Porto). O álbum vale ao cantor o Troféu Nova Gente para o melhor intérprete masculino de música ligeira. No tocante a actuações no estrangeiro, realce para a participação no Printemps de Bourges (França), numa noite ibérica, e ainda quatro concertos em Madrid.
A ruptura com a Valentim de Carvalho, por iniciativa do artista, tem como consequência um interregno de quatro anos na edição de discos. Durante esse período, de 1987 a 91, e embora continue a dar concertos a solo ou ao lado de Vitorino, Janita explorará uma nova modalidade artística, o teatro, quer compondo música para algumas produções, quer surgindo inclusive como actor do grupo A Barraca, desempenhando o papel do cigano Miguel, na peça "Margarida do Monte", de Marcelino Mesquita. Para esta encenação de Hélder da Costa, Janita musica também dois temas, "Cante Cigano" e "Margarida no Convento" (posteriormente incluídos no álbum "Lua Extravagante"). Uma experiência que, em boa verdade, revisitou depois de ter deixado a sua marca na banda sonora do filme "A Moura Encantada" (1985), com realização de Manuel Costa e Silva e argumento de António Borges Coelho, bem como no documentário "O Pão e o Vinho" (1981), realizado por Ricardo Costa, em que participou como actor.
Em 1991, Janita regressa aos estúdios para gravar "A Cantar à Lua", para a Edisom, um álbum exclusivamente dedicado ao fado de Coimbra. Após a exploração das pontes com a cultura árabe, um mergulho na memória pessoal através da canção coimbrã dos anos 20 e 30, que aprendera com o pai. Acompanhado nas guitarras por António Brojo e António Portugal, dois guitarristas históricos de Coimbra, e nas violas por Luís Filipe Ferreira e Humberto Matias, Janita Salomé interpreta clássicos como "Crucificado" (Fortunato Roma da Fonseca / Edmundo de Bettencourt), "Canção do Alentejo" (Popular / Edmundo de Bettencourt), "Fado dos Passarinhos" (Francisco Menano / António Menano), "Fado de Anto" (António Nobre / Francisco Menano), "Samaritana" (Álvaro Leal / Edmundo de Bettencourt) e "Fado das Fogueiras" (Augusto Gil / Francisco Menano).
No mesmo ano, sai o álbum "Lua Extravagante", onde Janita surge ao lado de Vitorino, Carlos Salomé e Filipa Pais, num projecto vocacionado para o cruzamento da música tradicional portuguesa com a urbana. Além dos temas "Cante Cigano" e "Margarida no Convento", inicialmente compostos para a peça "Margarida do Monte", Janita contribui para o disco com um inédito, "A Bela do Castelo Sem Portas", escrevendo a letra e a música. O grupo dará um concerto em Lovaina, Bélgica, que será transmitido pela rádio pública daquele país. Sobre este belo disco escreveu Fernando Magalhães (Público, 11.12.1991): «Música lunar. Da noite e das marés da voz, Vitorino, Janita e Carlos Salomé, e Filipa Pais cantam o lado nostálgico do ser português. É um disco de canto sofrido, de doridas harmonias. É também a prova de que é possível, em Portugal, fazer discos que voltam as costas à moda e ao efémero. Em "Lua Extravagante" não há canções que pisquem o olho à salada radiofónica. Há somente, e não é pouco, a dignidade do canto e da música vivida por dentro. A transmissão de experiências que dizem da maneira como costumávamos ser. Cruzam-se vivências da cidade (Lisboa, sempre presente, até nos antigos azulejos da cervejaria Trindade, que a capa, belíssima retrata) e do campo. As palavras do povo encontram-se com as do poeta Pessoa, no fado e na distância. Em frente, o escuro da noite e a ilusão do mar.»
Em 1992, Janita participa num espectáculo na exposição mundial de Sevilha, a convite da comissão portuguesa, mas na sequência de sugestão dos organizadores espanhóis.
Em 1994, com o álbum "Raiano" (Farol Música), agora sob a produção de Fernando Júdice (viola baixo dos Trovante), Janita Salomé retoma o percurso de cruzamento das tradições populares portuguesas e andaluzas, tendo como pano de fundo a marcada influência árabe no sul peninsular. «As nossas raízes passam muito pela presença dos povos na Península Ibérica. Eles deixaram muitas marcas da sua cultura e eu, neste percurso, deixei-me fascinar pela história e tenho continuado a procurar as nossas origens através da cultura árabe». Exceptuando o tema tradicional "Extravagante", todas as músicas foram compostas por Janita Salomé que também assina a letra do tema "Do Outro Lado da Fronteira", nome que faz inteiramente jus ao título do disco. Nos restantes temas do alinhamento, Janita canta a poesia de Natália Correia ("Credo"), Carlos Mota de Oliveira ("Poema oferecido a meus amigos"), Herberto Hélder ("Ninguém tem mais peso que o seu canto"), Manuel Alegre ("Tão Pouco e Tanto", "Ciganos", "Utopia") e Manuel da Fonseca ("Poente"). Com a colaboração de Mário Delgado nos arranjos, no elenco de instrumentistas contam-se o próprio Janita Salomé (bendir, darabuka, taarija), Dudas (guitarra de 12 cordas, guitarra clássica, alaúde), Mário Delgado (guitarra de 12 cordas, guitarra clássica, guitarra eléctrica), José Peixoto (guitarra clássica), Paulo Jorge Santos (guitarra portuguesa), João Falcato (piano, sintetizador), Luís Branco (violino), Carlos Barreto (contrabaixo), Filipe Valentim (teclados), Paulo Jorge Ferreira (baixo eléctrico), Vasco Gil (acordeão, sintetizador), Filipa Pais (voz), Paulo Curado (flautas, saxofone soprano), Alexandre Frazão (bateria), José Salgueiro (percussões) e Carlos Guerreiro (ponteiras). Este disco valerá a Janita Salomé o Prémio Blitz 94 para Melhor Voz Masculina.
Em 1996, Janita junta a sua voz às de Pedro Barroso e Manuel Freire no tema "Cantos de Oxalá", incluído no álbum "Cantos d’Oxalá", de Pedro Barroso.
Em 1997, participa no duplo álbum "Voz & Guitarra" (Farol Música), com os temas "Os Homens do Largo" e "Não É Fácil o Amor", acompanhado à guitarra clássica, respectivamente por Pedro Jóia e Mário Delgado. Participa também no álbum de Miguel Medina, "Três Estórias à Lareira" (Farol Música, 1997), cantando dois temas: "Tema do Marinheiro" e "Tema de Fernão de Magalhães".
No ano seguinte, Janita é um dos convidados especiais do grupo Frei Fado d’El Rei, na gravação do álbum "Encanto da Lua": toca bendir e faz os vocalizos do tema "Perdido em Miragem".
Janita Salomé que cumpriu o serviço militar em Moçambique, é um dos participantes no disco "Canções Proibidas: o Cancioneiro do Niassa" (EMI-VC, 1999), com as canções de campo da guerra colonial, projecto idealizado por João Maria Pinto e onde pontificam também Rui Veloso, Carlos do Carmo e Paulo de Carvalho, entre outros. Janita dá voz a dois temas: "O Fado do Miliciano" e "Erva lá na Picada", este último em parceria com João Maria Pinto. Integra também o projecto colectivo "Músicas de Sol e Lua", ao lado de Sérgio Godinho, Vitorino, Filipa Pais e Rão Kyao, cuja apresentado pública tem lugar em Bona, no Festival da Lusofonia, a 11 de Julho de 1999. Também na Alemanha, Janita integra, juntamente com Vitorino, o espectáculo de coros alentejanos que inaugura a Exposição Mundial de Hanôver, em 2000.
No mesmo ano, e ao fim de seis anos sem lançar discos, Janita regressa com o álbum colectivo "Vozes do Sul", um trabalho de celebração do cante alentejano, nas suas diferentes formas, inteiramente composto por modas tradicionais tais como "Ao Romper da Bela Aurora", "Na Rama do Alecrim", "Menina Florentina", "Cavaleiro Real", "Eu Hei-de Amar uma Pedra" e "Meu Alentejo Querido". Concebido e produzido por Janita Salomé, o disco conta com as colaborações de grupos corais e etnográficos como Grupo da Casa do Povo de Serpa, Cantadores de Redondo, Os Camponeses de Pias e As Camponesas de Castro Verde. Participam também o tocador de viola campaniça Manuel Bento, Bárbara Lagido, Catarina e Marta Salomé (filhas de Janita), Patrícia Salomé (sobrinha), Filipa Pais e Vitorino, e ainda Carlos Guerreiro (sanfona), Jens Thomas (piano), Mário Delgado (guitarra acústica, viola), Carlos Bica (contrabaixo) e músicos dos Corvos, entre outros. O disco estava pronto desde 1998 mas só saiu em 2000 porque não foi fácil arranjar editora. A edição foi da Capella, uma etiqueta ligada aos estúdios Audiopro. O álbum é distinguido, no ano seguinte, com o Prémio José Afonso, atribuído ao melhor álbum de música de inspiração popular portuguesa, o que também serve para mostrar que a maioria das editoras em Portugal estão interessadas em tudo, menos em apostar na música de qualidade.
Em 2001, Janita participa no disco "Canções de Embalar" (MVM Records), organizado por Nuno Rodrigues, onde interpreta o tema "Matita" em parceria com Sara Tavares; e faz os vocalizos do tema "Mouro Amor", para o álbum "Feito à Mão", do brasileiro Rodrigo Lessa. Dois anos depois, e a convite de Sebastião Antunes, do grupo Quadrilha, participará também no tema "Mértola", incluído no CD "A Cor da Vontade" (Vachier & Associados, 2003).
Em Maio de 2003, Janita regressa finalmente aos discos em nome próprio, com um álbum soberbo intitulado "Tão Pouco e Tanto", editado pela Capella, onde inclui seis regravações ("Tardes de Casablanca", "A uma escrava que lhe ocultou o Sol", "Senhora do Almortão", "Cante Cigano", "O Zéfiro e a Chuva" e "Não É Fácil o Amor") e cinco temas inéditos. São eles: "Paisagem com Homem" (poema de Manuel Alegre), "União Europeia (Adeus cal)" (poema de Carlos Mota de Oliveira), "Cerejeira das Cerejas Pretas Miúdas" (poema de Carlos Mota de Oliveira), "Fala do Amor Alentejano" (poema de Hélia Correia) e "Sinal de Ti" (poema de Sophia de Mello Breyner Andresen). Todas as composições são da autoria de Janita Salomé e na prestação instrumental contam-se o próprio Janita Salomé (bendir, daadô, taarija), Pedro Jóia (guitarra acústica, alaúde), José Peixoto (guitarra acústica, guitarra clássica portuguesa), Mário Delgado (guitarra acústica), Ricardo Rocha (guitarra portuguesa), Paulo Jorge Ferreira (baixo eléctrico), Paulo Curado (flautas, saxofone soprano), Denys Stetsenko (violino), Lúcio Studer Ferreira (viola d’arco), Nelson Ferreira (violoncelo), João Luís Lobo e Vicky (percussões), entre outros. Nota ainda para a participação especial de José Mário Branco, no arranjo do tema "O Zéfiro e a Chuva", e de Dulce Pontes que faz dueto com Janita no tema "Senhora do Almortão". Das muitas versões que já se fizeram deste conhecido tema tradicional, incluindo as de José Afonso, esta é provavelmente a mais bem conseguida. Aliás, o disco é, no seu conjunto, uma verdadeira obra-prima, uma referência obrigatória da música portuguesa. Efectivamente, trata-se de um trabalho que, com maior depuração e aprimoramento, retoma o cruzamento das linguagens meridionais presentes nos seus discos mais emblemáticos e que estava suspenso desde o álbum "Raiano". «Fascina-me a história e a cultura mediterrânica, o cruzar e o sobrepor de civilizações, a riqueza cultural que se acumulou neste espaço singular, a maneira de ser e de estar dos povos mediterrânicos, que se expressa desde a música à gastronomia e ao vinho. Mantenho uma forte ligação ao cantar cigano, ao cante alentejano, ao flamenco, de certa forma também ao fado. Acredito que há um fio condutor que une todas essas formas de cantar e de sentir a música. É esse universo que me fascina e que julgo estar reproduzido neste trabalho.» (Diário de Notícias, 21.06.2003).
O CD é altamente elogiado pela crítica especializada e entra na lista dos melhores discos do ano. Em Março de 2004, Janita Salomé apresenta-o no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém: uma noite inesquecível com convidados especiais como Jorge Palma, Vitorino e Pedro Jóia.
No âmbito das comemorações dos 30 anos da Revolução dos Cravos, em Abril de 2004, a EMI-VC lança o álbum "Utopia", integrando canções de José Afonso, cantadas por Janita Salomé e Vitorino, em dois concertos no Centro Cultural de Belém, dados seis anos antes, em Fevereiro de 1998. Neste tributo a Zeca Afonso, a par de temas mais conhecidos como "Canção de Embalar", "A Morte saiu à Rua" ou "Canto Moço" foram também incluídos, e propositadamente, temas menos divulgados como "Os Eunucos", "Carta a Miguel Djéjé" ou "Rio Largo de Profundis".
Em 2006, Janita Salomé é um dos convidados especiais da Brigada Victor Jara para participar no álbum "Ceia Louca": canta o "Romance de Dona Mariana", um dos mais belos romances tradicionais do Algarve.
Em Março de 2007, sai o CD "Vinho dos Amantes" (ed. Som Livre), novo trabalho de originais que concretiza uma ideia conceptual: celebrar o néctar dos deuses tendo como ponto de partida a grande poesia portuguesa e mundial. Janita explica esta sua opção temática: «A ode ao vinho tem sentido num país vinícola como Portugal, tendo nós o vinho com uma presença tão forte na nossa cultura. Não sou pioneiro, provavelmente outros músicos e outros compositores já o fizeram. Mas de outra maneira, porque as formas podem ser tão variadas como diversa é a poesia e a literatura sobre o vinho». Mas adverte: «A embriaguez que se exalta é a da amizade, do amor e dos prazeres da vida, mas com conhecimento e inteligência».
O universo musical de "Vinho dos amantes" extravasa os ambientes alentejanos e arábico-andaluzes: «Afastei-me, um pouco, da matriz mediterrânea. Mas resolvi percorrer outros caminhos, outras experimentações. Considero que é uma sonoridade mais explicitamente portuguesa. Por outro lado, procurei fazer melodias mais acessíveis, com uma estrutura de canção. Há algumas sonoridades que até a mim me surpreenderam, como o tema de abertura, "Maçãs de Zagora", com um ambiente de blues [arranjo de Mário Delgado]. Gosto imenso de blues e até considero que é do melhor que a América tem...». E acrescenta: «Experimentei também uma sonoridade pop, mas não rock, que está bem patente na parte final do último tema ["Caminho III"]. Foram muitos anos a ouvir os discos dos Pink Floyd.» (Jornal de Notícias, 13.03.2007).
Além de um poema da sua autoria ("Escadinhas do Alto"), Janita canta a poesia de Carlos Mota de Oliveira ("Maçãs de Zagora"), do chinês Li Bai ("A Estrela do Vinho"), de Charles Baudelaire ("Embriagai-vos", "O Vinho dos Amantes"), Anacreonte ("Fragmentos"), Hélia Correia ("No Banquete", "Ode ao Vinho"), António Aleixo, Francisco Hélder Pimenta e populares anónimos ("Quadras"), José Jorge Letria ("O Mapa Errante") e Camilo Pessanha ("Caminho III"). Todas as composições são da autoria de Janita Salomé que também toca guitarra clássica e percussões. No elenco de instrumentistas contam-se Mário Delgado (guitarra de 12 cordas, guitarra eléctrica, kalimba), Ni Ferreirinhas (guitarra clássica), Ruben Alves (piano, acordeão), João Paulo Esteves da Silva (piano), Ricardo Dias (guitarra portuguesa), Fernando Abreu (guitarra clássica), Amadeu Magalhães (viola braguesa), Luís Cunha (violino), Daniel Salomé (clarinete), Yuri Daniel (contrabaixo, baixo eléctrico), Jacinto Santos (tuba), Vicki (bateria, percussões), Vitorino (acordeão) e músicos da Brigada Victor Jara. Carlos Mota de Oliveira, um dos poetas que Janita mais tem cantado, também colabora activamente no disco recitando o poema de Baudelaire "Embriagai-vos". Referência ainda às participações especiais de Jorge Palma, Rui Veloso e José Carvalho que ao lado de Vitorino e Janita Salomé formam o coro dos amantes do vinho, que canta "No Banquete". Trata-se de um belo trabalho discográfico, mas infelizmente muito pouco divulgado na rádio, a qual sonega a nossa melhor música, aquela que se pode sorver como um bom vinho, e insiste em promover massivamente as zurrapas musicais, seja as vindas de fora seja as produzidas cá dentro. A este propósito diz-nos o próprio Janita: «Ouve-se muito mais a tendência anglo-americana, o pop-rock, ou então músicas cantadas em português, mas com essas mesmas raízes. Esta situação é profundamente injusta porque a música portuguesa tem qualidade e tem diversidade tal que lhe permite ser mais divulgada e dada a conhecer aos jovens.»
Compositor e intérprete de excepção, Janita Salomé é detentor de uma voz ímpar (potente, vibrante, melismática), que muitos consideram a melhor voz masculina portuguesa. Sem cedências à facilidade e a modas efémeras, a sua obra revela uma inegável coerência artística e, embora não sendo vasta, constitui um dos mais ricos e originais contributos para o património discográfico português. Diz o músico: «a minha obra não é extensa mas é intensa». E a somar a isso, a ele se deve igualmente o contributo pioneiro na exploração das raízes árabes da música portuguesa, que abriu caminho a outros, de que Eduardo Ramos talvez seja o melhor exemplo. Estas razões deviam ser mais do que suficientes para que o músico/cantor se encontrasse entre as figuras da nossa música mais estimadas e acarinhadas no seu próprio país. Todavia, e apesar de aclamado pela crítica avalizada, o artista conta-se entre os nomes que mais têm sofrido às mãos dos fazedores de playlists das principais rádios portuguesas, incluindo a estação pública. No caso concreto da Antena 1, a sua deliberada exclusão dos alinhamentos de continuidade e espaços musicais (já só passa no programa "Lugar ao Sul"), além de injusta e inadequada para um artista de mérito reconhecido e inquestionável, constitui acima de tudo um acto de incultura, que assume particular gravidade porque praticado numa entidade que vive de dinheiros públicos.
Discografia:
- O Cante da Terra (LP, Orfeu, 1978) (com o Grupo de Cantadores do Redondo)
- Melro (LP, Orfeu, 1980; CD, Movieplay, 1993)
- A Cantar ao Sol (LP, EMI-VC, 1983; CD, EMI-VC, 1995)
- Lavrar em Teu Peito (LP, EMI-VC, 1985; CD, EMI-VC, 2001)
- Olho de Fogo (LP, Transmédia, 1987)
- A Cantar à Lua (CD, Edisom, 1991)
- Lua Extravagante (CD, EMI-VC, 1991) (com Vitorino, Carlos Salomé e Filipa Pais)
- Raiano (CD, Farol, 1994)
- Vozes do Sul (CD, Capella, 2000)
- Tão Pouco e Tanto (CD, Capella, 2003)
- Utopia (CD, EMI-VC, 2004) (com Vitorino, gravado ao vivo no CCB em Fevereiro de 1998)
- Vinho dos Amantes (CD, Som Livre, 2007)
Fontes:
- Site oficial de Janita Salomé (http://janita.salome.googlepages.com/)
- Blogue de Janita Salomé (http://janitasalome.blogspot.com/)
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
- Literatura inclusa na discografia de Janita Salomé
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- A Estrela do Vinho (in "Vinho dos Amantes")
- A uma escrava que lhe ocultou o Sol (in "Lavrar em Teu Peito"; Tão Pouco e Tanto)
- Alegria da Criação (in "Galinhas do Mato", de José Afonso)
- Ao Romper da Bela Aurora (in "Vozes do Sul")
- Árvores no Deserto (in "Lavrar em Teu Peito")
- Caminho III (in "Vinho dos Amantes")
- Cantar ao Sol (in "A Cantar ao Sol")
- Cante Cigano (in "Tão Pouco e Tanto")
- Cantiga dos camponeses (in "Vozes do Sul")
- Cerejeira das Cerejas Pretas Miúdas (in "Tão Pouco e Tanto")
- Ciganos (in "Raiano")
- Como se fosses de linho doce... (in "Lavrar em Teu Peito")
- Conta-me contos, ama… (in "Lavrar em Teu Peito")
- Credo (in "Raiano")
- E Alegre se Fez Triste (in "Lavrar em Teu Peito")
- Extravagante (in "A Cantar ao Sol"; "Raiano")
- Fala do Amor Alentejano (in "Tão Pouco e Tanto")
- Fragmentos (in "Vinho dos Amantes")
- Homens do Largo (in "Melro"; "Voz & Guitarra")
- Maçãs de Zagora (in "Vinho dos Amantes")
- Moda do Entrudo (in "Galinhas do Mato", de José Afonso)
- Mouro Amor (in "Feito à Mão", de Rodrigo Lessa)
- Mulher da Erva (in "Lavrar em Teu Peito")
- Não É Fácil o Amor (in "A Cantar ao Sol"; "Voz & Guitarra"; Tão Pouco e Tanto)
- Ninguém tem mais peso que o seu canto (in "Raiano")
- No Banquete (in "Vinho dos Amantes")
- O Poder (in "Lavrar em Teu Peito")
- O Zéfiro e a Chuva (in "Tão Pouco e Tanto")
- Pavão (in "A Cantar ao Sol")
- Perdido em Miragem (in "Encanto da Lua", de Frei Fado d’El Rei)
- Poema oferecido a meus amigos (in "Raiano")
- Poema para Florbela (in "Melro")
- Poente (in "Raiano")
- Quadras (in "Vinho dos Amantes")
- Saias (Alto Alentejo) (in "Lavrar em Teu Peito")
- Saias (Beira Baixa) (in "A Cantar ao Sol")
- Saias do Freixo (in "Melro")
- Senhora do Almortão (in "Tão Pouco e Tanto")
- Tardes de Casablanca (in "A Cantar ao Sol"; "Tão Pouco e Tanto")
- Tarkovsky (in "Galinhas do Mato", de José Afonso)
- União Europeia (Adeus cal) (in "Tão Pouco e Tanto")
- Utopia (in "Raiano")
Não É Fácil o Amor
Letra: Luís de Andrade (Pignatelli)
Música e voz: Janita Salomé
Não é fácil o amor, melhor seria
Arrancar um braço, fazê-lo voar,
Dar a volta ao mundo, abraçar
Todo o mundo, fazer da alegria
O pão nosso de cada dia, não copiar
Os gestos do amor, matar a melancolia
Que há no amor, querer a vontade fria
Ser cego, surdo, mudo, não sujeitar
O amor, o destino de cada um não ter
Destino nenhum, ser a própria imagem
Do amor, pôr o coração ao largo, não sofrer
Os males do amor, não vacilar, ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste, não é fácil o amor
A sua obra é um monumento humano. É obra moça. Não exibe velhices precoces, é fruto de uma personalidade riquíssima, de uma sensibilidade invulgar e de uma visão plural da vida. – É através de ti, da tua voz, das tuas interpretações, dos teus poemas, que Coimbra ultrapassa os limites da cidade, vai mais longe. Vai ao encontro de quem sonha, do homem só, adquire sangue novo. Os labirintos da nossa alma profunda percorrem as suas canções. São pedaços de nós, de Portugal, de uma paisagem física e humana que visceralmente somos.
CARLOS CARRANCA, 4 de Julho de 1998
Luiz Goes, de seu nome completo Luiz Fernando de Sousa Pires de Goes, nasceu em Coimbra a 5 de Janeiro de 1933. Em Coimbra porque seu pai, chefe da Caixa Geral de Depósitos no Porto, foi um dia em trabalho de inspecção à delegação local daquele banco e a mãe, que tinha aí família, convenceu-o a mudarem-se. Luiz nasce numa espécie de berço musical, crescendo a ouvir o seu tio Armando Goes (uma das vozes mais distintivas da Coimbra dos anos 20), frequentemente acompanhado pelo pai à guitarra e a mãe ao piano. Não admira então que cedo se tenha iniciado nas cantorias, conhecendo uma auspiciosa estreia pública aos 14 anos de idade, numa festa do Liceu D. João III (actual Escola Secundaria José Falcão). Aí canta "Feiticeira", fado-serenata da autoria de Ângelo de Araújo, celebrizado por Alberto Ribeiro no filme "Capas Negras" (1947), repudiado pela Academia e interdito no país durante anos. Luiz é então considerado uma espécie de "menino prodígio" e tem a honra de ser acompanhado em festas e reuniões de convívio de antigos estudantes, por Artur Paredes, Afonso de Sousa e até Francisco Menano, irmão mais velho de António Menano. Entre os seus colegas de liceu e cúmplices das cantigas estão o guitarrista António Portugal e José Afonso que, como ele, virão a integrar o grupo liderado pelo guitarrista António Brojo. Em 1952, o grupo é convidado para gravação de oito discos de 78 rotações. Dois deles têm a voz de Luiz Goes, que ingressara no curso de Medicina dois anos antes. São registos históricos, na medida em que desde os anos 20 com a chamada geração de ouro da música coimbrã – a que integrou nomes tão marcantes como Edmundo de Bettencourt, António Menano, Lucas Junot, José Paradela de Oliveira, Almeida D’Eça e Artur Paredes – não houvera mais edições discográficas de canção de Coimbra. No início dos anos 50, regista-se em Coimbra uma renovação da cultura e da praxe académica, enquanto o círculo musical que gravita em torno de António Brojo retoma a tradição de fazer serenatas semanais aos microfones da Emissora Nacional. Daí decorre o convite da Alvorada, editora sediada no Porto, para gravar as novas revelações da música de Coimbra (Luiz Goes, José Afonso, Fernando Rolim, António Portugal), cujas sessões de gravação decorrem nos próprios estúdios da delegação local da Emissora Nacional. Luiz Goes canta quatro fados – "Dobadoira", "Rezas à Noite (Ave Maria)", "Minha Barca" e "Soneto" –, sendo os dois últimos da sua autoria (letra e música). O acompanhamento instrumental é de António Brojo, António Portugal (guitarras), Aurélio Reis e Mário de Castro (violas).
Luiz Goes fala assim do seu início de vida artística: «Cantores clássicos tinha eu na família. O Armando Goes, meu tio, um grande cantor e através dele conheci todos os outros da sua geração. O Artur Paredes, por exemplo, acompanhou-me tinha eu nove anos de idade. Tinha o conhecimento directo dessas individualidades, era essa a minha vantagem. Enquanto que para os meus colegas os cantores dos anos 20 eram figuras míticas, para mim eram figuras íntimas. Senti o peso dessas referências, claro, quando gravei pela primeira vez. Mas também me sentia livre porque a minha vocação, segundo se dizia na altura, era para a música erudita. Estive, aliás, no Instituto de Música de Coimbra, onde fui ensinado pela professora Arminda Correia, que depois veio para o Conservatório de Lisboa. Andei a aprender solfejo, porque os fados de Coimbra conhecia eu de cor e salteado. Mas sentia necessidade de fazer algo inovador, porque repetir o passado não valia a pena. Durante muito tempo para se cantar o fado de Coimbra tinha se ser à maneira do Menano com voz fininha e por aí adiante. Eu quis aproveitar o que estava feito para introduzir uma forma mais livre da canção coimbrã».
Luiz Goes nos seus tempos de estudante, integra o Orfeão Académico, onde é solista do naipe de barítonos, e o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), dirigido pelo Professor Paulo Quintela. Colabora também com outros organismos académicos, em especial com a Tuna Académica. Em Coimbra, e para além do grupo de António Brojo, é acompanhado (ainda no liceu) por Manuel Mora à guitarra e por Manuel Costa Brás (futuro militar de Abril e ministro da Administração Interna), à viola. Depois, e até 1958, será ainda acompanhado pelas guitarras de Fernando Xavier, Jorge Godinho, Dário Cruz, David Leandro Ribeiro e José Niza, e pelas violas de Aurélio Reis, Mário de Castro, Manuel Pepe e Levi Baptista.
Em 1954, Luiz Goes estreia-se na televisão, no Canal 7 da TV Paulista, quando o Orfeão Académico é convidado a participar nas comemorações do 4.º Centenário da Cidade de São Paulo. Luiz Goes será também um dos cantores a actuar na primeira serenata de Coimbra transmitida em directo pela RTP, em 1957, de um olival junto dos Estúdios do Lumiar e com realização de Ruy Ferrão (filho de Raul Ferrão, compositor da celebérrima "Coimbra"). Futuramente, Luiz Goes será um dos artistas portugueses mais requisitados para actuações em televisões estrangeiras (Espanha, França, Suécia, Áustria, Estados Unidos da América, Brasil, África do Sul, etc.), e para participação em espectáculos de grande dimensão cultural (Universidade de Georgetown - Washington; Congresso de Cultura da Língua Portuguesa; aniversário das Nações Unidas - Genebra; homenagem a Beethoven - Viena; etc.).
Em 1956, Luiz Goes grava mais três temas – "Graça de Deus", "Carta (Soneto) " e "Fado da Despedida" – incluídos em tantos EP de "Fados e Guitarradas de Coimbra" (editados pela Alvorada), tendo como acompanhadores António Portugal, Jorge Godinho (guitarras), Manuel Pepe e Levi Batista (violas).
Em Março de 1957, Luiz Goes dá voz ao histórico registo do Coimbra Quintet, primeiramente editado com o título "Serenata de Coimbra" e, posteriormente, "Fados de Coimbra". A iniciativa parte do professor Mário Silva, anos antes excluído do corpo docente da universidade pela sua conhecida oposição ao regime de Salazar e que fora convidado para assumir o cargo de administrador da divisão portuguesa da editora Philips. Mário Silva propõe a gravação de um álbum de música de matriz coimbrã e a escolha recai sobre o grupo de António Portugal que, além do próprio, era composto por Jorge Godinho (guitarras), Manuel Pepe e Levi Batista (violas). A voz solista inicialmente escolhida é a de Fernando Machado Soares, mas uma indisponibilidades deste leva que seja Luiz Goes, que vinha acompanhando a preparação do disco e contribuído com alguns arranjos, a escolha natural para ocupar o lugar. O registo é efectuado em Madrid, nos Teatro do Príncipe Real, e vem a ser escolhido para representar Portugal numa colecção de músicas do mundo que a Philips então comercializa. O álbum conhece inúmeras edições e uma multiplicidade de capas diferentes, consagrando-se como um êxito internacional (é, ainda hoje, o disco de música de Coimbra mais vendido em todo o mundo). Curiosamente, só dois anos depois de gravado é que o disco chega a Portugal, onde se torna um clássico instantâneo. Do álbum fazem parte fados tão conhecidos como "Fado Hilário" (Augusto Hilário), "Fado do Estudante" (Vicente Arnoso / Fernando Machado Soares) e "Serra d’Arga" (popular). A propósito deste álbum lendário, Luiz Goes diz-nos: «Não é um trabalho só meu. Mas é um disco em que tenho a parte principal, porque sou o homem que dá a voz a todos os temas, tirando quatro guitarradas necessárias para compor o ramalhete. Mais tarde aparece a Philips a dizer que queria que o disco ficasse só em meu nome. Mas eu disse-lhes: "Ao menos ponham lá o nome do António Portugal, que é o homem da guitarra". E assim foi feito. Foi um disco que causou um grande impacto. Tecnicamente é muito mais evoluído que aqueles que foram gravados nos anos 20. Depois houve uma colheita de temas populares feita com muito critério e com uma tendência muito marcada para trazer canções populares para o meio urbano. É um disco em que a voz é posta ao serviço da cultura e não da pieguice. Para mim foi o primeiro disco moderno que se gravou de música coimbrã».
Em 1958, Luiz Goes termina a licenciatura em Medicina, e muda-se para Lisboa onde passa a exercer a especialidade de estomatologia. Casa-se e nasce o primeiro filho mas esse primeiro casamento, no entanto, não será muito duradouro. Em 1963, o cantor é chamado para o serviço militar, sendo mobilizado para a Guiné-Bissau onde, até 1965, desempenha as funções de alferes-médico numa das frentes da guerra colonial. Quando regressa a Lisboa já não é forçosamente o mesmo homem. Luiz Goes explica: «A experiência militar foi enriquecedora ao máximo – o conhecimento do ser humano tem muitas vezes de se fazer na frente de combate. Depois, quando voltei, estava preocupado com outros assuntos que não os da música. Não tinha casa própria, estava a viver com familiares e, embora não fosse pobre, não tinha tranquilidade para fazer a vida artística.»
Em 1967, e pondo fim a uma pausa de dez anos, Luiz Goes grava o seu primeiro álbum em nome próprio, intitulado "Coimbra de Ontem e de Hoje" para a Valentim de Carvalho e editado com o selo Columbia. A gravação decorre em Março de 1967 nos Estúdios de Paço d’Arcos pelo técnico Hugo Ribeiro e as condições são extraordinárias, uma vez que nos ensaios é possível contar com a presença e as opiniões autorizadas de Armando Goes, Edmundo de Bettencourt, Artur e Carlos Paredes, Fernando Alvim... Em suma, a nata dos veteranos do fado de Coimbra. Luiz Goes canta poemas seus, de Armando Goes, Edmundo de Bettencourt, António Botto, Carlos Figueiredo, Leonel Neves e Fausto José, sendo as composições assinadas por João Bagão, Luiz Goes, Armando Goes, Carlos Figueiredo e D. José Paes de Almeida e Silva. No acompanhamento instrumental participam João Bagão, Aires Máximo de Aguilar (guitarras), António Toscano e Fernando Neto Mateus da Silva (violas), em todos os temas, excepto "Balada da Distância", "No Calvário", "Canção da Infância" e "Balada do Mar", cujo acompanhamento é de João Figueiredo Gomes (viola), que nos três últimos temas faz parceria com Carlos Paredes (guitarra). Note-se que Carlos Paredes não se limita a ser um mero acompanhador, ao estilo clássico, e faz a sua guitarra entrar em diálogo, quase de igual para igual, com a voz de Luiz Goes.
A origem do trabalho esteve em João Bagão, exímio executante da guitarra de Coimbra, que havia composto uma colecção de músicas especialmente idealizadas para a voz abaritonada de Luiz Goes e o encontro entre ambos dar-se-ia por intermédio de António Toscano. Este, no preâmbulo ao livro "Luiz Goes de Ontem e de Hoje" (Edição Universitária, 1998), confessa: «Guardo um secreto orgulho de ter sido eu a aproximar o Goes do Bagão (...). Colega na Faculdade de Ciências de meu irmão, que mo apresentou (...), sabedor que o Goes voltava da Guiné, onde serviu como médico, falou-me em nos encontrarmos com ele.» E é assim que Luiz Goes, nos ensaios, se começa a aperceber que nesse círculo liderado por João Bagão, onde também pontificava Leonel Neves (autor de letras interpretadas por vozes tão ilustres como Amália Rodrigues e Maria Teresa de Noronha), se respira o clima criativo que sempre procurara em Coimbra. Luiz Goes lembra: «O álbum de 1967 é um disco de maturidade, de alguém que tem outra experiência de vida. Um disco de um tipo magoado por dentro e por fora. Para mais com a percepção que muita coisa tinha de mudar em Portugal e com a necessidade de o transmitir. É também um disco onde metade dos temas se chamam baladas, uma designação que emprego quando tenho a certeza de que não estou a cantar fado. São temas que correspondem a uma maior liberdade de expressão, porque o fado é muito limitativo. As baladas são, afinal, apenas canções. Poderá perguntar-se: mas o que há aí de coimbrão? É a mesma coisa que apanhar um comboio em França, ver um tipo ao fim da carruagem, e mesmo sem falar com ele ter a certeza que é português.»
A "Balada do Mar" (letra e música de Luiz Goes) que remata o alinhamento do disco, prenuncia um das temáticas dominantes no álbum seguinte, precisamente intitulado "Canções do Mar e da Vida", gravado em Julho de 1969, também por Hugo Ribeiro, nos Estúdios de Paço d’Arcos.
Fruto da colaboração com João Bagão e o seu grupo, este não é contudo um disco sobre a Natureza, pelo menos no sentido estrito, mas antes um grito de alma contra a situação do país. Um álbum anoitecido que transpira agonia e desilusão, ao mesmo que implícita, mas decididamente, questiona o regime então vigente. Exemplo disso é "Canção do Regresso", de feição autobiográfica, em que é denunciada a guerra colonial e ao mesmo tempo a situação que os ex-combatentes vinham encontrar no rectângulo europeu: «Volto, de mãos vazias, / sem ter nada do que quis. / P’ra morrer bastam dois palmos / de terra no meu país! / Pobre de quem regressa / ao jardim e acha um deserto; / já perdeu o que está longe, / já não tem o que está perto!». Luiz Goes contextualiza assim a génese do disco: «Enquanto que o mar em Lisboa é concreto, está ali aos nossos pés, o mar coimbrão é uma ausência – uma divagação esotérica. É um mar imaginário, que para mim funciona como libertação. Essa obsessão com o mar articula-se, por outro lado, com o protesto político. Conheci pessoas como o José Manuel Tengarrinha ou o Rogério Paulo, pessoas que militavam no mesmo campo de ideias que nós. Todo esse convívio produzia em mim a necessidade objectiva de dizer certas coisas, embora eu não quisesse propriamente dizer o mais explícito. Sentia-me suficientemente livre para não estar veiculado a coisíssima nenhuma em termos de forças políticas. De resto, "Canções do Mar e da Vida" inclui também canções de amor. Porque o lirismo é outra forma de libertação. O lirismo é uma faceta que nunca reneguei – somos portugueses, ainda por cima.» As letras saíram do punho de Luiz Goes, Afonso de Sousa, Edmundo de Bettencourt e Leonel Neves, que se tornará o autor fundamental do repertório do cantor. As composições são autoria de Luiz Goes, João Bagão, Afonso de Sousa, António Toscano e Armando Goes e no acompanhamento instrumental mantém-se o elenco do disco anterior, com excepção de Carlos Paredes. Fazem parte do álbum temas tão belos como "Balada Para Ninguém", "Canção do Regresso", "Dia Perdido", "Asas Brancas", "Cântico de Um Pescador", "Boneca de Trapo", "Cantiga de Vagabundo", "Alegria" e "Homem Só, Meu Irmão", que se tornará a sua balada mais emblemática (Tu, que andas em busca da verdade / e só encontras falsidade em cada sentimento / inventa, inventa amigo uma canção / que dure para além deste momento).
Dando sequência lógica ao álbum anterior, segue-se o LP "Canções de Amor e de Esperança", gravado em Dezembro de 1971, mais uma vez por Hugo Ribeiro, nos Estúdios de Paço d’Arcos. As letras são todas da autoria de Leonel Neves (oito) e de Luiz Goes (quatro) e as composições são assinadas por Luiz Goes, João Figueiredo Gomes, António Toscano, António Andias e Durval Moreirinhas. O acompanhamento instrumental é de António Andias (guitarra), Durval Moreirinhas, António Toscano e João Figueiredo Gomes (violas). No alinhamento deste magnífico álbum, quiçá o melhor da sua discografia, figuram baladas tão sublimes e intemporais como "Cantiga Para Quem Sonha" (vide letra abaixo), "Poema Para Um Menino", "Canção Para Quem Vier", "Sangue Novo", "É Preciso Acreditar", "Canção Quase de Embalar", "Mensagem do Mar", "Balada do Rei Vadio" e "Uma Lenda do Levante". Como não é raro suceder com discos de êxito, o maior sucesso da carreira de Luiz Goes é gravado em estado de graça, sem muitos preparativos nem muitas horas de estúdio. Na verdade, o material do disco ficou pronto em duas sessões nocturnas de três horas cada. Todos os temas ao primeiro ‘take’, só repetidos por uma questão de precaução. O disco marca também o início da colaboração com António Andias, na sequência de uma zanga havida com João Bagão. O trabalho de Luiz Goes com João Bagão implicava, muitas vezes, cedências do cantor face ao guitarrista. Com António Andias, a sintonia é perfeita e Luiz Goes torna-se mais dono da sua música. Aliás, o cantor não se limita a substituir um guitarrista por outro já que decide dispensar a guitarra portuguesa em toda a face A do LP. O cantor fala dessa opção: «Era preciso demonstrar que a guitarra portuguesa não é imperativa numa canção de matriz coimbrã. A viola é só por si um suporte perfeitamente válido. No fundo sou um fiel infiel. A minha infidelidade à música coimbrã respeita apenas à ortodoxia. Mas nunca quis destruir a música de Coimbra. Quis fazer uma revolução por dentro. Dar o meu contributo para que ela atingisse uma determinada dimensão, sem infringir a sua essência.»
Esta revolução estilística acaba por ser o resultado natural do aprofundamento do idealismo já manifestado no álbum precedente. Luiz Goes mantém-se a uma prudente distância da militância política que se radicalizara entre os seus antigos companheiros de Coimbra. É o próprio cantor quem nos esclarece sobre o seu posicionamento: «Tivemos trajectos de vida completamente diferentes. Enquanto o Zeca Afonso e o Adriano Correia de Oliveira se mantiveram em Coimbra alguns anos e ainda viveram a época dos motins académicos, eu em 1958 já estava em Lisboa. O Almeida Santos dizia-me, no outro dia, que se eu tivesse vivido essa época em Coimbra não teria acabado o curso. É bem provável que tenha razão. Depois a minha maturação em Lisboa foi diferente e sempre foi muito difícil arregimentarem-me! Por isso, depois do 25 de Abril, já em plena democracia ou a caminho dela, quando não se sabia qual a modalidade de democracia para a qual o país se encaminhava, cantava-se o Luiz Goes. Isto é significativo. Quer dizer que eu não era agarrado a este ou àquele partido, embora no fundo sempre acreditasse no socialismo democrático.»
Em 1973, a Valentim de Carvalho edita uma compilação temática (reeditada em CD pela EMI-VC, em 1992) reunindo temas de Carlos Paredes, José Afonso e Luiz Goes. Os quatro temas de Luiz Goes foram retirados do álbum "Canções do Mar e da Vida", e são: "Alegria", "Homem Só, Meu Irmão ", "Boneca de Trapo" e "Canção do Regresso".
Depois de um interregno de doze anos sem registos discográficos, em 1983 Luiz Goes grava o LP "Canções Para Quase Todos", a partir de poemas seus, de Leonel Neves, Miguel Torga e Edmundo de Bettencourt. As composições são da autoria de Luiz Goes, João Bagão, João Figueiredo Gomes, António Toscano e Durval Moreirinhas e o acompanhamento é feito por João Bagão, Aires Máximo de Aguilar (guitarras), João Figueiredo Gomes, António Toscano e Durval Moreirinhas (violas). O álbum tem a produção de Mário Martins e é gravado nos Estúdios de Paço d’Arcos, de novo pelo reputado Hugo Ribeiro. Outro trabalho com a marca magistral de Luiz Goes onde pontificam temas tão belos como "Canção para Quase Todos", "Viagem de Acaso", "Balada dos Meus Amores", "Teu Corpo", "Canção de Todos os Dias", "Requiem pelos Meus Irmãos", "Última Canção de Amor", "Desencontro" e "Regresso da Pesca".
O cantor dá as suas razões para tão longo hiato na sua discografia, sobretudo depois da Revolução de 1974: «Nessa altura já não se sentia tanta urgência em dizer coisas. Eu gravei sempre muito pouco. Depois fui sempre arrastado por outros na parte prática e o grupo que me motivava desfez-se. Comecei a não encontrar aquilo que eu precisava que fosse feito. Depois nunca vivi só da música – quem me dera a mim! Se estivesse em Coimbra talvez tivesse sido mais fácil, porque entretanto surgiu uma plêiade de instrumentistas notabilíssimos». Embora Luiz Goes não o diga, houve outros razões mais dramáticas para um tão longo período sem discos: na verdade, o cantor teve graves problemas de saúde, mais concretamente crises de asma que, por mais de uma vez, o deixam à beira da morte. Até que no início dos anos 80 recupera, reconcilia-se com João Bagão e reconstitui o grupo de instrumentistas que o acompanharam no final da década de 60. "Canções Para Quase Todos" é o retrato desse período de sofrimento e da sua superação. É o próprio cantor que confessa: «Houve ali uma necessidade íntima de fazer coisas outra vez. A vida foi andando e eu não pude deixar de traduzir as minhas próprias decepções. No fundo considero-me um humanista. Sempre tive uma grande preocupação com a vida dos outros. Estou sempre com medo de prejudicar, de pisar alguém. Aí está outro motivo porque não gravei mais. Comecei a pensar: "Se vou gravar com este, então não gravo com aquele" e arrependia-me. Ainda hoje sinto o mesmo.»
Talvez sejam estas as razões que ajudem a explicar que depois do álbum "Canções Para Quase Todos", e durante mais de duas décadas, Luiz Goes não tenha editado nenhum trabalho em nome próprio e apenas gravado temas avulsos para diversas edições discográficas: "Dobadoira" e "Fado da Despedida" para o LP "Tempo(s) de Coimbra" (Movimagens/EMI-VC, 1984); "O Meu Menino" (Popular / Fernando Machado Soares) para o LP "De Coimbra Para a UNICEF" (Videofono, 1985); "Toada Para Uma Cidade" (letra e música de Jorge Cravo) para o CD "Folha a Folha" (Numérica, 1999), de Jorge Cravo e o Grupo Presença de Coimbra.
Nos anos 90, Luiz Goes declara: «Gostava de gravar mais uma coisa ou outra. Agora que estou prestes a reformar-me da carreira médica, vou ter mais tempo para a música. Mas também é verdade que tenho sido tratado de forma tão fraterna e elogiosa que me pergunto o que posso mais fazer. Não quero estragar o está feito».
Em 2002, assinalando os 50 anos da primeira gravação de Luiz Goes, a EMI-Valentim de Carvalho, reúne a obra integral numa cuidada edição intitulada "Canções Para Quem Vier", constituída por quatro CD e um livro com diversos textos e as letras do seu magnífico repertório. De um desses textos respigo as palavras sábias e justas do professor Carlos Carranca: «A sua obra é um monumento humano. É obra moça. Não exibe velhices precoces, é fruto de uma personalidade riquíssima, de uma sensibilidade invulgar e de uma visão plural da vida. – É através de ti, da tua voz, das tuas interpretações, dos teus poemas, que Coimbra ultrapassa os limites da cidade, vai mais longe. Vai ao encontro de quem sonha, do homem só, adquire sangue novo. Chega mais longe porque tu lhe insuflaste a tua própria vida, lhe deste a tua inteligência e a tua criatividade inacessíveis aos que de Coimbra se contentam em imitar o estilo, a exibir erudição, a contabilizar louvores. Luiz Goes não só canta, como escreve sobre nós, e fá-lo apaixonadamente. Os labirintos da nossa alma profunda percorrem as suas canções. São pedaços de nós, de Portugal, de uma paisagem física e humana que visceralmente somos. Em Luiz Goes habitam as múltiplas influências do trovador inquieto e intemporal, do poeta, do respeitador da tradição, no que ela possui de essencial, rejeitando exibicionismos vocais, poéticos saudosíssimos serôdios e intransigências reaccionárias. Luiz Goes é um cantor da Saudade. Mas de uma saudade que nos faz compreender que todos nós comparticipamos num ser universal.» (excerto da comunicação "Luiz Goes: de ontem, de hoje e de sempre", proferida pelo professor universitário e poeta Carlos Carranca, a 4 de Julho de 1998, aquando da cerimónia de entrega da Medalha de Ouro de Coimbra a Luiz Goes).
E será, finalmente, em 2005 que Luiz Goes virá a gravar um novo álbum, regressando à sua Coimbra de sempre, concretizando um projecto do compositor e guitarrista João Moura («A voz de Goes estava no meu subconsciente desde o início deste projecto»). Com o título "Coimbra: Espírito e Raiz", a edição é composta por CD e DVD, e ainda um livrinho intitulado "Coimbra do Meu Tempo" que, além de um texto do próprio Luiz Goes e dos poemas cantados, inclui também um conjunto de fotografias (a preto e branco) da autoria de Mário Afonso, o primeiro presidente da secção de fado da Associação Académica de Coimbra. O CD integra 13 temas: sete da autoria de João Moura (música) e Carlos Carranca (letras), três de Luiz Goes, Edmundo de Bettencourt e José Santos; e mais três composições para guitarra e flauta, da autoria de João Moura e Abel Gonçalves, sendo uma delas um tributo a Carlos Paredes. Sobre este trabalho escreveu José Henriques Dias (Professor da Univ. Nova de Lisboa e do Instituto Superior Miguel Torga): «Uma guitarra e uma voz. A guitarra de João Moura, a voz de Luiz Goes. A música de matriz coimbrã, na mais alta expressão, está de volta na raiz e no espírito, profundamente renovada, tocada pelo sopro do génio. Rei Midas que aurifica onde a sua voz ressoa, sentida de um sentir que é irrepetível, onde os anos suportam pela sensibilidade a memória do seu esplendor de outros tempos, Luiz Goes surge a cantar versos de Carlos Carranca e também versos seus e de José Santos num novo objecto de culto que deve ser ouvido, lido e visto para se voltar a sentir a música coimbrã no que pode ter de universalidade. Se os versos de Carlos Carranca, escritos sobre a música, têm a simplicidade que os torna cantáveis sem perda de substância poética, as composições de João Moura acordam em nós ecos da intemporalidade só possível onde a inovação acrescenta e restaura a harmonia apelativa de uma Coimbra que, mais que um lugar, é algo que anda por dentro de nós, nos habita para nos fazer em cada instante reviver, não o passado morto, mas uma espécie de magia que não se explica por palavras, que só entende quem a viveu nos verdes anos e que assalta os afectos de quem nela não viveu.»
Em 18 de Outubro de 2005, Luiz Goes é distinguido com o Prémio Fado de Coimbra, atribuído pela Fundação Amália Rodrigues. A maior fadista portuguesa, lá no assento etéreo onde repousa, terá certamente esboçado um sorriso de contentamento, conhecida que era a profunda admiração e estima que devotava a Luiz Goes, certamente consciente de que ele era o seu equivalente na canção de matriz coimbrã.
No dia 25 de Novembro de 2006, no Casino do Estoril, é prestada uma Homenagem Nacional a Luiz Goes, num espectáculo apresentado por Sansão Coelho. No evento, promovido pela Associação de Antigos Estudantes de Coimbra em Lisboa, estiveram presentes Carlos Encarnação (Presidente da Câmara Municipal de Coimbra), António de Almeida Santos (Sócio Honorário n.º 1 da Associação de Antigos Orfeonistas e Presidente da Assembleia Geral da Associação anfitriã), e ainda os representantes de várias Associações de Antigos Estudantes do país e até da Guiné-Bissau, onde o cantor prestou serviço militar.
A discografia de Luiz Goes não é vasta, mas a rara qualidade e beleza da sua voz aliada a poemas que se contam entre os mais belos da língua portuguesa, fazem dele uma das figuras cimeiras da música portuguesa de todos os tempos. António Toscano, amigo e acompanhador do cantor nos álbuns gravados para a Valentim de Carvalho, define assim a voz e a arte de Luiz Goes: «O que um leigo em música mas com alguma sensibilidade pode dizer é que se trata de uma voz portentosa: cheia, poderosa, de forte acento abaritonado mas de enorme amplitude, com plasticidade e timbre raros, que permite ao Goes alcançar com a maior naturalidade, interpretações de qualidade e brilho inimitáveis, a que também não são estranhas a inteligência dos poemas e das circunstâncias e a emotividade que lhe é própria.» Citando o professor José Henriques Dias: «Com Amália e Carlos Paredes, Luiz Goes está na galeria dos grandes intérpretes do século XX, expressões maiores do ser português.»
Contudo, e apesar desta evidência, o cantor tem sido vítima de um generalizado "esquecimento" na rádio portuguesa, a que não escapa a estatal RDP. Efectivamente, a aparição de Luiz Goes na Antena 1 tem-se restringido, e mesmo assim muito esporadicamente, à rubrica "Alma Lusa" e aos programas "Vozes da Lusofonia" e "Lugar ao Sul". O álbum de 2005, por exemplo, foi completamente ignorado. Por que motivo um intérprete desta envergadura está ausente dos alinhamentos de continuidade e espaços musicais da rádio do Estado? Tal dever-se-á à estreita mundividência cultural dos novos responsáveis pela selecção musical ou haverá um propósito premeditado na sua ocultação? Independentemente da razão, trata-se de uma lacuna imperdoável na rádio pública que urge colmatar, porque não é aceitável que numa lista 878 de canções (cifra apontada por Rui Pêgo) não haja, pelo menos, uma das belíssimas baladas de Luiz Goes, e em contrapartida outros nomes de menor valia sejam contemplados com vários temas. Com este texto, de que enviarei cópia à direcção de programas e ao Provedor do Ouvinte, deixará de poder ser invocada uma alegada desatenção ou um suposto esquecimento para o criminoso silenciamento de que Luiz Goes vem sendo vítima na rádio de todos nós.
Discografia:
- Fados de Coimbra - 2 vols. (78 rpm, Melodia/Alvorada, 1952, ed. 1953)
- Fados e Guitarradas de Coimbra (3EP, Alvorada, 1956) (colectivos)
- Serenata de Coimbra (LP, Philips, 1957); Fados de Coimbra (CD, Polygram, 199?)
- Coimbra de Ontem e de Hoje (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1967; CD, EMI-VC, 1995)
- Canções do Mar e da Vida (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1969; CD, EMI-VC, 1995)
- Canções de Amor e de Esperança (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972; CD, EMI-VC, 1995)
- Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1973; CD, EMI-VC, 1992) (compilação colectiva)
- Canções Para Quase Todos (LP, EMI-VC, 1983; CD, EMI-VC, 2001)
- O Melhor de Luiz Goes (CD, EMI-VC, 1989) (compilação)
- Homem Só, Meu Irmão (CD, EMI-VC, 1996) (compilação)
- Canções Para Quem Vier: Integral 1952-2002 (4CD, EMI-VC, 2002)
- Coimbra: Espírito e Raiz (CD/DVD, Coimbra XXI, 2005)
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- Asas Brancas (in "Canções do Mar e da Vida")
- Balada da Distância (in "Coimbra de Ontem e de Hoje")
- Balada do Mar (in "Coimbra de Ontem e de Hoje")
- Balada do Rei Vadio (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Balada dos Meus Amores (in "Canções Para Quase Todos")
- Balada para Ninguém (in "Canções do Mar e da Vida")
- Boneca de Trapo (in "Canções do Mar e da Vida")
- Canção da Infância (in "Coimbra de Ontem e de Hoje")
- Canção de Todos os Dias (in "Canções Para Quase Todos")
- Canção do Regresso (in "Canções do Mar e da Vida")
- Canção Pagã (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Canção para Quase Todos (in "Canções Para Quase Todos")
- Canção para Quem Vier (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Canção Quase de Embalar (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Cântico de Um Pescador (in "Canções do Mar e da Vida")
- Cantiga de Vagabundo (in "Canções do Mar e da Vida")
- Cantiga para Quem Sonha (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Chamo-te Niña (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Desencontro (in "Canções Para Quase Todos")
- Dia Perdido (in "Canções do Mar e da Vida")
- É Preciso Acreditar (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Homem Só, Meu Irmão (in "Canções do Mar e da Vida")
- Mensagem do Mar (in "Canções de Amor e de Esperança")
- No Calvário (in "Coimbra de Ontem e de Hoje")
- Poema para Um Menino (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Regresso da Pesca (in "Canções Para Quase Todos")
- Requiem pelos Meus Irmãos (in "Canções Para Quase Todos")
- Sangue Novo (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Teu Corpo (in "Canções Para Quase Todos")
- Trova da Vila da Feira (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Última Canção de Amor (in "Canções Para Quase Todos")
- Uma Lenda do Levante (in "Canções de Amor e de Esperança")
- Viagem de Acaso (in "Canções Para Quase Todos")
Cantiga para Quem Sonha
Letra: Leonel Neves
Música: João Figueiredo Gomes
Voz: Luiz Goes
Violas: António Toscano e João Figueiredo Gomes
Tu, que tens dez réis de esperança e de amor,
Grita bem alto que queres viver!
Compra pão e vinho, mas rouba uma flor!
Tudo o que é belo não é de vender.
Não vendem ondas do mar,
Nem brisa ou estrelas,
Sol ou lua cheia.
Não vendem moças de amar,
Nem certas janelas
Em dunas de areia.
Canta, canta como uma ave ou um rio!
Dá o teu braço aos que querem sonhar!
Quem trouxer mãos livres ou um assobio,
Nem é preciso que saiba cantar.
Tu, que crês num mundo maior e melhor,
Grita bem alto que o céu está aqui!
Tu, que vês irmãos, só irmãos, em redor,
Crê que esse mundo começa por ti!
Traz uma viola, um poema,
Um passo de dança,
Um sonho maduro.
Canta glosando este tema:
Em cada criança
Há um homem puro.
Canta, canta como uma ave ou um rio!
Dá o teu braço aos que querem sonhar!
Quem trouxer mãos livres ou um assobio,
Nem é preciso que saiba cantar.
Canta, canta como uma ave ou um rio!
Dá o teu braço aos que querem sonhar!
Quem trouxer mãos livres ou um assobio,
Nem é preciso que saiba cantar.
A palavra por dentro da guitarra
a guitarra por dentro da palavra.
Ou talvez esta mão que se desgarra
(com garra com garra)
esta mão que nos busca e nos agarra
e nos rasga e nos lavra
com seu fio de mágoa e cimitarra.
Asa e navalha. E campo de Batalha.
E nau charrua e praça e rua.
(E também lua e também lua).
Pode ser fogo pode ser vento
(ou só lamento ou só lamento).
Esta mão de meseta
voltada para o mar
esta garra por dentro da tristeza.
Ei-la a voar, ei-la a subir
ei-la a voltar de Alcácer Quibir.
Ó mão cigarra
mão cigana
guitarra guitarra
lusitana.
(Manuel Alegre – voz de Carmen Dolores)
Carlos Paredes nasceu em Coimbra, a 16 de Fevereiro de 1925. Filho de Artur Paredes, empregado bancário e guitarrista, por sua vez também descendente de exímios guitarristas de Coimbra, e de Alice Candeias Duarte Rosas, professora liceal, Carlos aprende a tocar guitarra portuguesa com o pai, com apenas 4 anos, embora a mãe preferisse que se dedicasse ao piano.
Em 1934, a família muda-se para Lisboa e Carlos conclui a instrução primária no Jardim-Escola João de Deus, começando também a ter aulas de violino e piano, mas não se adapta aos instrumentos. Carlos Paredes recorda: «Em pequeno, a minha mãe arranjou-me duas professoras de violino e piano. Eram senhoras muito cultas a quem devo a cultura musical que tenho. Passávamos horas a conversar e uma delas murmurava: "Não sei o que hei-de dizer aos seus pais". Mas aprendi muito com elas». (Jornal de Letras, 17.3.1992). Então, abandona o violino e o piano para se dedicar por inteiro, sob a orientação do pai, à guitarra. Carlos Paredes fala com saudades desses tempos: «Foi com o meu pai que eu aprendi a tirar da guitarra sons mais violentos, como reacção ao pieguismo langoroso a que geralmente a guitarra portuguesa estava ligada». E acrescenta: «Nesses anos, creio que inventei muita coisa. Criei uma forma de tocar muito própria que é diferente da do meu pai, do meu avô, bisavô e tetravô».
Em 1939, inicia colaboração regular no programa que o pai fazia na Emissora Nacional. Às vezes tinham desentendimentos musicais. Carlos Paredes recorda: «O meu pai chamava-me péssimo acompanhador, porque o fazia andar atrás de mim». Em 1943, termina os estudos secundários num colégio particular, depois de ter frequentado o Liceu Passos Manuel, e faz exame de admissão ao Curso Industrial do Instituto Superior Técnico, que não chega a concluir. Em 1949, torna-se funcionário administrativo do Hospital de S. José, com a categoria profissional de fiel de lavandaria (será promovido a escriturário de 1.ª classe, em 1953). Casa-se e nascem os filhos (terá seis), mas não pára de tocar guitarra, a sua grande paixão.
Se excluirmos as gravações de 1957 em que acompanha o seu pai – mas ainda sem as marcas expressivas que hoje lhe conhecemos – a primeira aparição conhecida em disco de Carlos Paredes acontece em 1958 como acompanhador à guitarra do cantor de Coimbra, Augusto Camacho Vieira, num EP intitulado "Fado de Coimbra", editado pela Valentim de Carvalho. Contando ainda com a participação de António Leão Ferreira à viola, esse EP inclui os seguintes temas: "A Água da Fonte" (Popular / Paulo de Sá), "Adeus a Coimbra" (Edmundo Bettencourt), "Quando os Sinos Dobram" (Eduardo Manuel Tavares de Melo) e "A Luz do Teu Olhar (Súplica)" (Augusto Camacho Vieira).
Em 1958, é preso pela PIDE, acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, de que era de facto militante, e expulso da função pública. Durante os 18 meses em que esteve detido, primeiro no Aljube e depois na prisão de Caxias, andava de um lado para o outro na cela fazendo os gestos de quem toca guitarra, o que levou os companheiros de cárcere a pensar que estaria louco. De facto, o que ele estava a fazer, era a compor músicas mentalmente, como lembra Severiano Falcão, que também se encontrava preso na altura. É libertado no final de 1959, e passa a exercer a profissão de delegado de propaganda médica.
Em 1960, música sua é utilizada na curta-metragem de Cândido da Costa Pinto "Rendas de Metais Preciosos". Com algum nome e carreira atrás de si, Carlos Paredes, edita finalmente, em 1962, o seu primeiro disco a solo, um EP intitulado "Carlos Paredes", com chancela da Alvorada. Com acompanhamento à viola de Fernando Alvim, o disco inclui os seguintes temas: "Variações em Si Menor", "Serenata", "Variações em Lá Menor" e "Danças Portuguesas n.º 1". Nesse mesmo ano, é convidado pelo realizador Paulo Rocha (por recomendação do produtor António da Cunha Telles), para compor a banda sonora do filme "Os Verdes Anos" (estreado comercialmente em Novembro de 1963), cujos temas – "Despertar", "Raiz", "Acção" e "Frustração" – serão publicados em EP, pela Alvorada, no início de 1964. Paulo Rocha lembra: «Ele [Carlos Paredes] leu a história e compôs a música antes de eu filmar, uma música impressionante, e quando eu estava a rodar já tinha a música na minha cabeça. Fiquei com suores frios quando a ouvi». Carlos Paredes fala assim desse trabalho: «Muitos jovens vinham de outras terras para tentarem a sorte em Lisboa. Isso tinha para mim um grande interesse humano e serviu de inspiração a muitas das minhas músicas. Eram jovens completamente marginalizados, empregadas domésticas, de lojas. Eram precisamente essas pessoas com quem eu simpatizava profundamente, pela sua simplicidade».
Nos anos seguintes, continuará a sua colaboração musical no cinema, quer cedendo músicas já gravadas quer compondo de raiz as bandas sonoras: "P.X.O." (1962, curta-metragem de Pierre Kast e Jacques Doniol-Valcroze), "Fado Corrido" (1964, filme de Jorge Brun do Canto), "As Pinturas do Meu Irmão Júlio" (1965, curta-metragem de Manoel de Oliveira), "Mudar de Vida" (1966, filme de Paulo Rocha), "Crónica do Esforço Perdido" (1966, curta-metragem de António de Macedo), "A Cidade" (1968, curta-metragem de José Fonseca e Costa), "Tráfego e Estiva" (1968, curta-metragem de Manuel Guimarães), "The Columbus Route" (1969, curta-metragem de José Fonseca e Costa), "Na Corrente" (1969, documentário televisivo de Augusto Cabrita), "Hello Jim!" (1970, curta-metragem de Augusto Cabrita). Carlos Paredes, com a sua música visceralmente portuguesa, fica assim indelevelmente ligado ao cinema novo português. Diga-se, a título de curiosidade, que o próprio Pier Paolo Pasolini, depois de assistir a um concerto de Carlos Paredes em Bolonha, em Setembro de 1974, virá a fazer-lhe um convite para compor a música de um filme, projecto que não se viria a concretizar devido à morte do realizador, no ano seguinte.
Em Outubro de 1966, Carlos Paredes grava para a Valentim de Carvalho o seu primeiro LP, intitulado "Guitarra Portuguesa", nos estúdios de Paço d'Arcos, com acompanhamento à viola de Fernando Alvim. O disco marca igualmente a primeira colaboração com Hugo Ribeiro, o engenheiro de som que, anos mais tarde, Carlos Paredes diria ter sido o único a saber captar o som da sua guitarra. Hugo Ribeiro fala assim dessa experiência: «Eu ouvia-o e pensava: mas como é que é possível? Eu não percebia como é que ele tirava da guitarra aquele som todo... era a força com que ele tocava, e nem lhe saía uma nota desafinada. Era extraordinário!». Dos 11 temas do álbum merecem destaque: "Melodia n.º 2", "Dança" e "Canção Verdes Anos", talvez o tema mais emblemático de toda a sua produção. O álbum, lançado em 1967, contém um texto do francês Alain Oulman, célebre compositor de Amália Rodrigues, de que transcrevo as seguintes palavras: «A música de Carlos Paredes exprime, a meu ver, mais do que nenhuma outra, a terra e as gentes de Portugal. É intemporal, como a de Theodorakis quando canta a Grécia, como, aliás, deve ser a verdadeira música. Não se pode catalogar a música de Carlos Paredes, nem determinar as suas origens – uma possível influência de música barroca que não esconde a voz pessoal de um homem que ama o seu país profundamente, que se não envergonha de o confessar e que o faz com delicadeza e força viril. A primeira vez que o ouvi tocar foi em casa de Amália Rodrigues que também nunca o ouvira anteriormente. Ficámos todos desfeitos. Amália chorava e dizia que só lhe apetecia bater-lhe – reacção muito frequente nela quando se sente comovida pelo virtuosismo de alguém; nenhum de nós compreendia porque não era ele mais conhecido, pelo menos em Portugal. (...) Com este primeiro LP, possa a "voz" de Carlos Paredes ir longe, bem longe, pois ele canta Portugal com sinceridade absoluta, sem peias, com amor e compreensão que dele fazem um grande e raro artista onde a mediocridade não encontra abrigo».
Do álbum serão retirados, no ano seguinte, três EP: "Romance n.º 2", "Fantasia" e "Porto Santo". Ainda em 1967, ao lado de João Figueiredo Gomes (viola), acompanha à guitarra o cantor Luiz Goes, em três temas do LP "Coimbra de Ontem e de Hoje": "No Calvário" (Fausto José / José Paes de Almeida e Silva), "Canção da Infância" (Armando Goes) e "Balada do Mar" (Luiz Goes). Em 1969, participa como acompanhador à guitarra e à viola num álbum que em Ary dos Santos diz poemas dele próprio, de D. Dinis, de Camões, entre outros.
Em Outubro de 1970, Carlos Paredes participa como produtor, director musical e acompanhador no LP "Meu País", da cantora Cecília de Melo, sua companheira durante alguns anos, e de quem é o único registo conhecido. O álbum, gravado nos Estúdios de Paço d'Arcos por Hugo Ribeiro e editado pela Decca, é constituído por seis peças tradicionais arranjadas por Paredes e seis melodias originais do guitarrista sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. Uma delas, "O Render dos Heróis", fora escrita para a encenação da peça homónima de José Cardoso Pires.
Em 1971, compõe a música para a peça de Augustin Cuzzani, "O Avançado Centro Morreu ao Amanhecer", levada à cena pelo Grupo de Teatro de Campolide, e fica igualmente responsável pela escolha da música para as produções do grupo, até 1977.
Em Agosto de 1971, Carlos Paredes grava o seu segundo LP, "Movimento Perpétuo", para a Valentim de Carvalho, com o técnico de som Hugo Ribeiro. Conta com as participações musicais de Fernando Alvim no acompanhamento à viola e de Tiago Velez em flauta (nas duas composições do filme "Mudar de Vida" – tema e música de fundo). Deste magnífico álbum, lançado em Novembro de 1971, fazem ainda parte peças tão sublimes como "Danças Portuguesas n.º 2", "Variações Sob Uma Dança Popular", "António Marinheiro", "Canção" e "Valsa", esta da autoria do seu avô Gonçalo. Diz o próprio Carlos Paredes: «Meu avô, Gonçalo Paredes, é, pode dizer-se, um representante dessa tradição (iniciada por António da Silva Leite, nos fins do século XVIII). A segunda parte da sua valsa, incluída neste disco, foi-lhe acrescentada por meu pai, Artur Paredes, o original renovador da chamada guitarra de Coimbra. São, aliás, influências de ambos, de mistura com propensão pessoal para o virtuosismo e o melodismo de sugestão violinística, que marcam as minhas mais antigas realizações: "Movimento Perpétuo", "Variações em Mi Menor", "Variações em Ré Menor" e "Danças Portuguesas"».
Em Dezembro de 1971, será também editado o single "Balada de Coimbra", com os temas "Balada de Coimbra" (José Eliseu, arr. de Artur Paredes) e "O Fantoche" (Carlos Paredes) gravados nas sessões de "Movimento Perpétuo", mas não incluídos no álbum. Deste, no ano seguinte, são retirados três EP: "Movimento Perpétuo", "Mudar de Vida" e "António Marinheiro".
Em Abril de 1973, Carlos Paredes entra novamente em estúdio para gravar o seu terceiro LP para a Valentim de Carvalho, mas as gravações são interrompidas devido à lendária relutância do músico em estar fechado num estúdio e à sua conhecida auto-exigência de perfeccionista, ficando no entanto terminadas algumas músicas. É o próprio músico que confessa: «A dar espectáculos nunca me tenho recusado, mas gravar... Tenho tendência para pensar que daqui a 3 meses toco melhor do que hoje.» Hugo Ribeiro conta: «Quando entrávamos para estúdio, o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar! "Vamos ver, se calhar, talvez…", dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora, e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: "Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!" Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal».
Após o 25 de Abril de 1974, quando se dá a libertação dos presos políticos, muitos deles são tratados como heróis nacionais. No entanto, Carlos Paredes recusa esse estatuto. Sobre o tempo em que esteve preso nunca gostou muito de falar. Dizia: «há pessoas que sofreram mais do que eu!». É reintegrado no quadro do Hospital de São José (onde permanecerá até à aposentação, em Novembro de 1986), com as funções de arquivista de radiografias, vindo depois a ser promovido a chefe de secção. Uma das colegas de trabalho, Rosa Semião, recorda-se da mágoa que o guitarrista sentia devido à denúncia de que fora alvo: «Para ele foi uma traição, ter sido denunciado por um colega de trabalho do hospital. E contudo, mais tarde, ao cruzar-se com o homem que o denunciou, não deixou de o cumprimentar, revelando uma enorme capacidade de perdoar!». Percorre o país, actuando em sessões culturais, musicais e políticas em simultâneo, mantendo sempre uma postura de grande simplicidade e humildade. Comenta Octávio Fonseca Silva: «Por estranho que pareça, até 1984 não realizou um único concerto em Portugal sob a sua exclusiva responsabilidade. Parece algo anedótico mas, para ser devidamente reconhecido no seu país teve de dar provas do seu talento no Olympia de Paris, na Ópera de Sydney, na Exposição Mundial de Osaka e em tantas outras grandes salas do mundo». Carlos Paredes, mais tarde, dirá: «Para se fazer música com prazer tem muita importância a amizade entre as pessoas. Não se pode fazer música friamente e com cálculo, profissionalmente, no mau sentido da palavra, a receber xis à hora. Não pode ser assim». (Se7e, 16.03.1988). Quando o criticavam, por ir para o emprego de autocarro e de Metro, dizia: «Não percebem que se eu não andasse em contacto com as pessoas não fazia as músicas que faço.» Em 1990, acrescentará: «As pessoas gostam de me ouvir tocar guitarra, a coisa agrada-lhes e elas aderem. Não há mais nada.» E confessa: «Já me tem sucedido fazer as pessoas chorar enquanto eu toco... E eu não compreendia isto, mas depois percebi que é a sonoridade da guitarra, mais do que a música que se toca ou como se toca, que emociona as pessoas.» (Público, 20.3.1990).
Em Julho de 1974, Carlos Paredes participa, como acompanhador (guitarra portuguesa, viola de fabrico popular e citolão - uma guitarra portuguesa modificada para abranger simultaneamente as escalas da guitarra portuguesa e da guitarra clássica), no álbum "É Preciso Um País", onde o poeta Manuel Alegre diz poemas de sua autoria. Em 1975, Carlos Paredes colabora também com Adriano Correia de Oliveira no álbum "Que Nunca Mais": a marca inconfundível da sua guitarra está bem patente nos temas "Tejo Que Levas as Águas" e "Recado a Helena".
No mesmo ano, retoma as sessões de gravação para a Valentim de Carvalho interrompidas dois anos antes, mas durante o pouco tempo que está em estúdio apenas regrava algum do material já terminado. O disco ficará de novo por acabar.
Em 1977, uma compilação de Carlos Paredes, intitulada "Meister der Portugiesischen Gitarre", é publicada na então na Alemanha de Leste, pela editora Amiga.
Em 7 de Maio de 1980, estreia-se no Bobino em Paris, acompanhado por Fernando Alvim, na primeira parte de Paco Ibañez, actuação que se prolongará por três semanas. Nesse ano, Carlos Paredes regrava na RDA, com acompanhamento de Carlos Alberto Moniz à viola, o material já gravado em 1973 para a Valentim de Carvalho num álbum intitulado "O Oiro e o Trigo". A edição é feita sem o conhecimento da Valentim de Carvalho, o que leva à ruptura da editora com o artista.
Em 1982, o bailarino Vasco Wellenkamp coreografa música de Carlos Paredes no bailado "Danças para Uma Guitarra". O guitarrista toca ao vivo no palco do Ballet Gulbenkian e parte com ele em digressões pelo mundo. Apaixona-se pela dança: «Já não vou conseguir pensar na música da mesma maneira; a música não está apenas na pauta e nos nossos dedos», diz Paredes a Alice Vieira. «Os bailarinos respiram a música que se toca. Às vezes penso neles como instrumentos de alta precisão.»
Em 1983, é publicado o álbum "Concerto em Frankfurt", gravado ao vivo na Ópera daquela cidade alemã, constituído por bastante material nunca editado em disco (incluindo os seis temas completos nas gravações de estúdio de 1973, se bem que renomeados e com algumas alterações na estrutura). Trata-se de um dos raros registos em palco da carreira do guitarrista e foi gravado sem o conhecimento do músico. Em entrevistas posteriores, o próprio Paredes confessaria que tal decisão acabou por ser pelo melhor – o nervosismo de saber que estava a ser gravado poderia ter afectado a sua performance. É o primeiro disco de Carlos Paredes para a PolyGram, editora com a qual assinou contrato depois da sua saída da Valentim de Carvalho. A edição de "Concerto em Frankfurt" acaba por inviabilizar a edição projectada, pela EMI-Valentim de Carvalho, de "A Montanha e a Planície", um álbum que deveria disponibilizar alguns dos temas que Carlos Paredes gravara em 1973, mas que surgem entretanto registados ao vivo. Em substituição, são reeditados, em duplo-álbum, "Guitarra Portuguesa" e "Movimento Perpétuo", pouco antes do Natal. Ainda em 1983, Carlos Paredes participa no álbum de Carlos do Carmo, "Um Homem no País", compondo e acompanhando à guitarra o "Fado Moliceiro" (poema de Ary dos Santos).
Em Outubro de 1986, é editado pela Polygram, o LP "Invenções Livres", um álbum de improvisações em duo com o pianista António Victorino d'Almeida, gravado por José Manuel Fortes. O encontro entre a guitarra de Paredes e o piano de Victorino d'Almeida resulta num trabalho brilhante e surpreendente, que obtém a aclamação da crítica. O pianista explica: «Carlos Paredes e eu não nos sujeitámos a qualquer espécie de esquema harmónico, rítmico ou formal previamente estabelecido, mas a ideia condutora das "invenções" que – em total liberdade – produzimos, consubstancia-se no diálogo, na atenção, na busca conjunta de uma verdade musical capaz de sobrepor à mera exploração das vozes dos instrumentos ou à originalidade da sua fusão. Pretendemos fazer música, encarando-a como linguagem transmissora de ideias e não como álibi para malabarismos de viciado individualismo».
Em Fevereiro de 1988, sai, pela PolyGram, o álbum "Espelho de Sons", gravado no ano anterior por José Manuel Fortes, e com produção de Tozé Brito, tendo o acompanhamento sido repartido entre Luísa Maria Amaro (viola de cordas de nylon) e Fernando Alvim (viola de cordas de metal). Agrupando as músicas por séries temáticas (Coimbra e o Mondego / Os Amadores / A Canção / O Teatro / Lisboa e o Tejo / A Dança / A Mãe e o Lar / Contrates), Carlos Paredes reutiliza muito do material gravado no "Concerto de Frankfurt" e mesmo composições mais antigas. É o caso de: "Serenata" surgida no primeiro EP a solo (1962), “Verdes Anos” (1963 e 1966), “O Fantoche” (1971) e "Canção de Alcipe", tema alusivo à Marquesa de Alorna criado por Afonso Correia Leite e Armando Rodrigues para a banda sonora do filme "Bocage" (1936), de Leitão de Barros, que fora originalmente gravado em 1971 mas só editado em 1996 (no CD “Na Corrente”). O álbum entra directamente para o 3.º lugar do top oficial de vendas e virá a ser premiado com um Se7e de Ouro (atribuído pelo Jornal Se7e), na categoria de música popular/tradicional. Em Setembro, uma nova compilação de material inédito de Carlos Paredes é cancelada pela EMI-Valentim de Carvalho. O álbum deveria chamar-se "Salvados", título sugerido pelo próprio Carlos Paredes para reflectir o facto de as gravações serem 'restos' de sessões de estúdio, e também jogando com a sua condição de 'sobreviventes' do incêndio do Chiado que, em 25 de Agosto, destruíra parte dos arquivos da Valentim de Carvalho na Rua Nova do Almada.
Em 1989, o tema "Dança" (do álbum "Guitarra Portuguesa") é escolhido por Paul McCartney para música ambiente da sua digressão mundial.
Ainda em 1989, sai um novo disco de Carlos Paredes, com o título "Asas Sobre o Mundo", em edição especialmente concebida para a TAP Air Portugal (terá lançamento comercial em 1991). O disco é constituído com o material de "Espelho de Sons" e inclui ainda dois temas inéditos, dedicados pelo autor à transportadora aérea portuguesa – "Asas Sobre o Mundo" e "Nas Asas da Saudade".
Em Janeiro de 1990, retomando o conceito de improvisações em dueto, Carlos Paredes grava com o contrabaixista de jazz Charlie Haden, o álbum "Dialogues", para a Polydor. O disco, gravado em Paris, tem a marca de génio de dois grandes músicos mas o diálogo entre os instrumentos é algo desanimador, sobretudo quando comparado com o resultado alcançado em "Invenções Livres". Em 26 de Maio, os músicos voltam a encontrar-se, em concerto no Coliseu de Lisboa, pretexto que a RTP aproveita para a realização de um documentário.
No mês de Dezembro seguinte, Carlos Paredes assina contrato com a EMI-Valentim de Carvalho, regressando à casa onde gravara os seus momentos mais emblemáticos. Inicia, pouco depois, as gravações de material original para um novo álbum, mas as sessões serão suspensas devido à doença, do foro neurológico, que acometerá o guitarrista. Em 30 de Abril de 1991, Carlos Paredes e Luísa Amaro, sua acompanhadora à viola e companheira na vida (desde 1984), participam como convidados especiais no concerto dos Madredeus no Coliseu de Lisboa, de que resultará o duplo CD "Lisboa", editado em 1992. Para a ocasião, Pedro Ayres Magalhães escreveu uma letra inédita para a música de Paredes "Canto de Embalar". Em palco, Carlos Paredes interpretou "Mudar de Vida" e acompanhou o grupo, primeiro, na sua versão de "Canto de Embalar" e, depois, no original dos Madredeus "O Navio".
Em 20 e 21 de Março de 1992, Carlos Paredes regressa aos palcos, em dois concertos no Teatro de São Luiz filmados pela RTP em alta definição. Nos espectáculos, nos quais são estreados quatro novos temas compostos para o novo álbum, Paredes é acompanhado à viola por Luísa Amaro e Fernando Alvim, e participam como convidados Manuel Paulo, Natália Casanova e Nuno Guerreiro em "Cantiga do Maio" (de José Afonso), Mário Laginha em "Porto Santo", Rui Veloso em "Porto Sentido" e o flautista Paulo Curado em "Mudar de Vida". Os concertos serão repetidos a 25 no Teatro Rivoli, no Porto.
A EMI-Valentim de Carvalho reedita em CD uma compilação temática (originalmente editada em 1973) reunindo temas de Carlos Paredes, José Afonso e Luiz Goes. Os temas de Carlos Paredes foram extraídos do seu primeiro álbum, "Guitarra Portuguesa", e são: "Variações em Ré Maior", "Divertimento", "Canção Verdes Anos", "Melodia nº2" e "Fantasia".
Em Dezembro de 1993, é diagnosticada a Carlos Paredes uma mielopatia (hérnias na medula) que lhe prende os movimentos, impossibilitando-o de manejar a guitarra. Fica internado no Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, em Campo de Ourique, Lisboa. Tinha agendado encontros com o Kronos Concert, com Ravi Shankar e até com Astor Piazzola. «Acho que adoeceu na altura errada», lamenta Luísa Amaro.
Em 1994, Carlos Paredes é distinguido com o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.
Em Dezembro de 1996, a EMI-VC publica "Na Corrente", compilação que reúne todo o material inédito que Carlos Paredes gravara para a Valentim de Carvalho até 1980, ano em que saiu da editora: os seis temas que haviam ficado completos nas sessões de gravação de 1973 ("A Montanha e a Planície", "Dança dos Montanheses", "Dança dos Camponeses", "Os Senhores da Terra", "Em Memória de Uma Camponesa Assassinada" e "Sede e Morte"), os dois temas do single "Balada de Coimbra / O Fantoche", publicado em 1971 e nunca incluídos em LP, e duas gravações inéditas, "Canção de Alcipe" e "Na Corrente", esta última o único registo em que Carlos Paredes tocou viola a solo. O álbum atinge rapidamente o top-20 oficial de vendas de álbuns, da Associação Fonográfica Portuguesa. Ao ouvir os belos temas que constituem este disco, uma interrogação me interpela: quantas composições geniais se terão perdido (ou que não chegaram a nascer, para ser mais preciso), quando Carlos Paredes, no auge das suas faculdades criativas, ocupava muito do seu tempo a desempenhar banais funções administrativas num hospital e a fazer inúmeras actuações no país e no estrangeiro? É caso para dizer que ganharam aqueles que tiveram o privilégio de o ouvir ao vivo, mas ficou a perder a posteridade que só pode fruir da sua arte graças às gravações.
Em Março de 2000, é editada pela Mundo da Canção, uma biografia intitulada "Carlos Paredes: A Guitarra de um Povo", da autoria do crítico musical Octávio Fonseca Silva, com a colaboração fotográfica de Luís Paulo Moura. O livro inclui ainda textos de vários especialistas, o pensamento musical de Paredes, além de um dossier documental com artigos sobre o músico e partituras manuscritas.
Em Dezembro de 2000, é lançado o seu derradeiro trabalho de inéditos, de título genérico "Canção Para Titi", com nove composições, entre as quais figuram "Uma Canção Para Minha Mãe", "Canção Para Titi", "Mar Goês", "Arcos de Jardim" e "Arco de Almedina". O material fora gravado em 1993, quando o músico já se sentia afectado pela doença. Diz o musicólogo Rui Vieira Nery, consultor da edição: «Da experiência da audição concentrada e seguida de todo o material disponível, dos takes interrompidos às sucessivas versões integrais de cada peça, depressa me ficou, contudo, uma sensação de enorme felicidade. Apesar da luta desesperada evidente que Carlos Paredes travava consigo próprio naquelas sessões de 1993 e das limitações técnicas incontornáveis a que a doença já então o submetia, a sua Música impunha-se com uma força verdadeiramente mágica logo a partir dos primeiros compassos – pujante de inspiração e de rasgo, deslumbrante no seu lirismo inconfundível. Lá estava aquele impulso rítmico único, partindo das anacrusas iniciais suspensas no tempo para depois se despenharem no seu tempo forte de resolução e lançarem a partir daí frases longas e ondulantes, sempre ao sabor de uma dicção musical perfeita. Lá estavam aquelas tonalidades menores carregadas de melancolia, salpicadas aqui e além de traços modais e de passagens cromáticas que tornavam o desenrolar da melodia num mistério sempre imprevisível. Lá estava, mesmo que agora por vezes transformado num grito de pássaro ferido, aquele som intenso, vibrado, plangente, e lá estava até, aqui e além, ainda que dramatizado pelo esforço transparecente, um virtuosismo ocasional ainda surpreendente na sua musicalidade inteligente. (...) É de sublinhar muito em particular a maneira como esta Música, privada de um virtuosismo que pudesse valer por si para lá de qualquer outra lógica de construção musical, se depura de tudo o que não é essencial para assentar apenas numa inspiração concentrada onde nada é acessório. E chama-nos também a atenção o modo como Paredes parece regressar aqui a um universo que é o das suas reminiscências de infância, evocando as figuras tutelares da Mãe e da Tia, os espaços familiares da Coimbra da sua meninice, e mesmo, de alguma forma, os sons tradicionais das baladas de Artur e Gonçalo Paredes, seu Pai e seu Avô, tudo isto com um olhar melancólico mas cheio de serenidade que nem a tensão dolorosa que marca alguns momentos da sua execução consegue perturbar. Por tudo isto seria imperdoável que o que constitui verdadeiramente o testamento musical de Carlos Paredes não saísse a público, como documento artístico e humano de uma força emocional rara, para nos dar esta visão final que fecha o círculo de um meio século de carreira. Uma carreira que nos ajudou como poucas neste século a reencontrarmo-nos connosco próprios e com a nossa identidade de portugueses.»
Em Fevereiro de 2003, assinalando os 10 anos sobre o retiro forçado de Carlos Paredes, a EMI-VC lança a sua obra completa sob o título "O Mundo Segundo Carlos Paredes", numa caixa com 8 CD, acompanhada de uma biografia. Além dos temas a solo e das improvisações em dueto, a edição contém também o repertório de outros intérpretes em que Carlos Paredes participou como instrumentista – Augusto Camacho Vieira, Luiz Goes, Ary dos Santos, Cecília de Melo, Manuel Alegre, Adriano Correia de Oliveira, Carlos do Carmo e Madredeus.
Em Junho de 2003, é lançado pela Universal um disco de homenagem intitulado "Movimentos Perpétuos: Música para Carlos Paredes", projecto que conta com a participação de nomes tão diferentes como António Pinho Vargas, Gabriel Gomes, Rodrigo Leão, Ricardo Rocha, Mísia, Ana Sofia Varela, José Eduardo Rocha, Carlos Bica, Mário Laginha, Maria João, Gaiteiros de Lisboa, Dead Combo, Sam The Kid, entre outros. A guitarra portuguesa chega assim, e de uma só vez, aos universos do jazz, do fado, da música tradicional, da electrónica e do 'hip hop', dando continuidade a uma preocupação que Carlos Paredes sempre teve presente enquanto músico – a transposição de barreiras invisíveis. Ainda em matéria de tributos, merecem referência o músico Pedro Jóia que em Fevereiro de 2001 gravou, para a Farol Música, o CD "Variações Sobre Carlos Paredes" com versões em guitarra clássica de nove temas do compositor de "Verdes Anos", e a fadista Mísia com o álbum "Canto" (Warner Jazz France, 2003) composto por canções expressamente escritas para músicas de Carlos Paredes, quase todas pelo poeta Vasco Graça Moura.
Carlos Paredes vem a falecer em Lisboa, a 23 de Julho de 2004, aos 79 anos de idade. O Governo decreta um dia de luto nacional. «Portugal teve no Carlos Paredes a genialidade, sensibilidade, poder de composição, uma belíssima técnica, e interpretação. Ele cumpriu os pontos que tinha a cumprir nesta passagem pela Terra», disse Luísa Amaro. E acrescentou: «Era um homem muito bom e muito simples, que deu uma contribuição muito grande para a cultura portuguesa». O cantor Luís Cília, que acompanhou Carlos Paredes como amigo e como profissional em vários recitais, faz votos de que «a guitarra do Paredes fique e seja para sempre lembrada». «Conheci o Paredes quando cheguei de Paris e uma das coisas que me chocou foi que um homem com o seu génio não vivesse da sua arte», acrescentou Luís Cília à agência Lusa, lamentado que, em Portugal, artistas como Carlos Paredes «não vivam no paraíso que os merece».
Em 2006, o cineasta Edgar Pêra realiza o documentário "Movimentos Perpétuos: Tributo a Carlos Paredes", editado em DVD.
«A música que faço é um produto das circunstâncias imediatas do tempo em que eu vivo, e passará a ser encarada de outra forma quando essas circunstâncias desaparecerem. É uma coisa que, se perdurar graças aos discos, ficará apenas com o valor de documento, como acontece com toda a pequena música, desde os Beatles ao Manuel Freire. E já ficarei muito orgulhoso se, daqui a muitos anos, puder ser entendido como um compositor que se integrava bem nos acontecimentos desta época...» (Se7e, 5.10.1983). Na verdade, a música de Carlos Paredes, como acontece com toda a grande arte, tem na sua essência a marca da intemporalidade (como disse Alain Oulman) e ficará como um dos mais autênticos testemunhos musicais da portugalidade, a par dos mais sublimes fados de Amália Rodrigues.
Discografia:
- Fado de Coimbra (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1958) (com Augusto Camacho Vieira)
- Carlos Paredes (EP, Alvorada, 1962)
- Guitarradas Sob o Tema do Filme Verdes Anos (EP, Alvorada, 1964)
- Guitarra Portuguesa (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1967, 1983; CD, EMI-VC, 1987, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- Romance n.º 2 (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Fantasia (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Porto Santo (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Espiral Op. 70 (LP, Espiral/Decca, 1969) (com Ary dos Santos)
- Meu País (LP, Decca, 1970) (com Cecília de Melo)
- Movimento Perpétuo (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1971, 1983; CD, EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- Balada de Coimbra / O Fantoche (single, Columbia/Valentim de Carvalho, 1971)
- Movimento Perpétuo (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- Mudar de Vida (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- António Marinheiro (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- Carlos Paredes / Artur Paredes (LP, Alvorada, 1972) (seis temas de Carlos Paredes, na face A + seis temas de Artur Paredes, na face B)
- Carlos Paredes / José Afonso / Luiz Goes (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1973; CD, EMI-VC, 1992, "Encontros Em Coimbra", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) (compilação colectiva)
- É Preciso Um País (LP, col. A Voz e o Texto, Decca/Valentim de Carvalho, 1974; CD, EMI-VC, 1994) (com Manuel Alegre)
- Meister der Portugiesischen Gitarre (LP, Amiga/RDA, 1977) (compilação)
- O Oiro e o Trigo (LP, Amiga/RDA, 1980)
- Concerto em Frankfurt (LP, Philips/PolyGram, 1983; CD, Philips/PolyGram, 1990)
- Invenções Livres (LP, Philips/PolyGram, 1986; CD, Philips/PolyGram, 1994) (com António Victorino d'Almeida)
- Espelho de Sons (LP/CD, Philips/PolyGram, 1988)
- Asas Sobre o Mundo (CD, Philips/PolyGram, 1989; LP, Philips/PolyGram, 1990)
- Dialogues (LP/CD, Polydor, 1990) (com Charlie Haden)
- Carlos Paredes [e] Artur Paredes, col. O Melhor dos Melhores, vol. 36 (CD, Movieplay, 1994) (reúne o repertório dos dois primeiros EPs a solo de Carlos Paredes e de um EP de Artur Paredes, editado em 1957)
- Na Corrente (CD, EMI-VC, 1996, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra (CD, EMI-VC, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) (compilação)
- Carlos Paredes [e] Artur Paredes, col. Clássicos da Renascença, vol. 72 (CD, Movieplay, 2000) (mesmo conteúdo do CD da col. O Melhor dos Melhores)
- Canção Para Titi - Os Inéditos de 1993 (CD, EMI-VC, 2000)
- Uma Guitarra com Gente Dentro: Antologia (CD, Universal, 2002) (compilação)
- Os Verdes Anos de Carlos Paredes: As Primeiras Gravações a Solo 1962-1963 (CD, Movieplay, 2003) (reúne o repertório dos dois primeiros EPs em nome próprio, editados pela Alvorada)
- O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993 (Livro/8CD, EMI-VC, 2003)
1. Despertar
2. Na Corrente
3. Danças
4. As Mãos
5. Improvisos
6. Asas
7. Diálogos
8. Memórias
- Uma Guitarra Portuguesa (DVD, RTP/Immortal, 2006) (gravado no São Luiz, em 1992)
- Antologia 62/89 (2CD, Universal, 2007)
- A Voz da Guitarra (2CD, Universal, 2010) (compilação)
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- A Montanha e a Planície (in "Concerto em Frankfurt" / "Na Corrente")
- Acção (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- António Marinheiro (in "Movimento Perpétuo")
- Balada de Coimbra (in "Na Corrente")
- Canção de Alcipe (in "Na Corrente")
- Canção Verdes Anos (in "Guitarra Portuguesa")
- Canto de Embalar (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto de Rua (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto do Amanhecer (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto do Rio (in "Concerto em Frankfurt")
- Dança (in "Guitarra Portuguesa")
- Dança dos Camponeses (in "Concerto em Frankfurt" / "Na Corrente" / "Asas Sobre o Mundo")
- Dança dos Montanheses (in "Na Corrente")
- Dança Palaciana (in "Concerto em Frankfurt")
- Danças Portuguesas n.º 1 (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- Danças Portuguesas n.º 2 (in "Movimento Perpétuo")
- Em Memória de Uma Camponesa Assassinada (in "Na Corrente")
- Fado Moliceiro (in "Asas Sobre o Mundo")
- In Memoriam (in "Concerto em Frankfurt")
- Melodia n.º 2 (in "Guitarra Portuguesa")
- Mudar de Vida - tema (in "Movimento Perpétuo")
- Mudar de Vida - música de fundo (in "Movimento Perpétuo")
- Nas Asas da Saudade (in "Asas Sobre o Mundo")
- O Fantoche (in "Na Corrente")
- Os Senhores da Terra (in "Na Corrente")
- Sede (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Sede e Morte (in "Na Corrente")
- Serenata (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- Serenata no Tejo (in "Asas Sobre o Mundo")
- Valsa (in "Movimento Perpétuo")
- Variações Sob Uma Dança Popular (in "Movimento Perpétuo")
- Variações Sobre o Mondego (in "Asas Sobre o Mundo")
- Variações sobre o Mondego n.º 1 (in "Asas Sobre o Mundo")
- Verdes Anos (in "Asas Sobre o Mundo")
Canção Verdes Anos
Música e guitarra portuguesa: Carlos Paredes
Viola: Fernando Alvim
Como já tive oportunidade de dizer noutras ocasiões, defendo que a Antena 2 não deve ser um canal exclusivamente musical, qual mera 'playlist' de obras (ou trechos de obras) de música clássica (embora sem os padrões de repetição comuns nas rádios generalistas), mas antes uma rádio com uma forte componente de programas de autor. Neste contexto, o Sr. João Almeida, tem o meu total apoio quando, no programa "Em Nome do Ouvinte" (13-04-2007), diz que a Antena 2 tem de ter programas culturais e de palavra. Caso contrário – acrescento eu –, não haveria poesia, nem teatro, nem sequer espaços dedicados a outras áreas da cultura e do conhecimento que se não fosse a Antena 2 a dar-lhes atenção, ficariam ausentes do panorama radiofónico português. E se os contribuintes são obrigados a contribuir para rádio estatal, então o mínimo que eles exigem é que ela lhes preste um serviço que mais ninguém lhe faculta. Neste contexto, o Sr. João Almeida também tem inteira razão quando defende a música étnica e o jazz (se bem que horários se possam questionar), mas perde-a por completo, quando nos deparamos com a penúria e a ausência de programas dedicados às várias temáticas culturais, para além dos apontamentos da actualidade cultural ou do desfiar, por vezes fastidioso, dos eventos que decorrem extra-muros. Onde está um programa sobre História? Onde está a literatura (além da poesia)? Onde está o teatro radiofónico, feito com profissionalismo e sem experimentalismos entediantes? Será que para o director-adjunto da Antena 2, a função cultural da rádio pública (fora do âmbito musical) fica cumprida com o acto de noticiar o que vai acontecendo no país? Digo mais: o Sr. João Almeida foi arrogante e insultuoso quando rotula de ignorantes os ouvintes da Antena 2 que não gostam de ser massacrados com torrentes incessantes de notícias, como se esses ouvintes fossem uns trogloditas que não tivessem acesso a outros meios para tomarem conhecimento do que se passa no mundo. E como se isso não bastasse, tem ainda a petulância de vir dizer que as notícias (e digo notícias e não informação porque boa parte das notícias não representam verdadeira informação) são um factor de humanização. Humanização? Com que então, os ouvintes da Antena 2 ficam mais humanizados (quer dizer, mais civilizados e mais cultos) por saberem que houve um tiroteio na Cisjordânia ou que explodiu uma bomba no Iraque? Devo dizer que não me sinto nem mais humano nem mais civilizado, bem pelo contrário, quando me enchem a cabeça com as desgraças e os morticínios que vão acontecendo no mundo, sabendo eu, de antemão, que os responsáveis primeiros por tudo isso se encontram comodamente instalados em Washington e em Londres. Portanto, pela parte que me toca, dispenso o tipo humanismo com que o Sr. João Almeida me quer presentear mas já não estou disposto a prescindir de uma rádio genuinamente humanista, ou seja, uma rádio que acarinhe a verdadeira cultura humanística que foi produzida pelo género humano ao longo dos séculos, em vez de me inundarem com a espuma dos dias que se esvai sem deixar rasto e que mais não é do que poluição para os ouvidos. A quem gosta de se nutrir com o trivial quotidiano, não tem já à sua disposição uma miríade de fontes noticiosas, incluindo a própria Antena 1 com os seus blocos de notícias de meia em meia hora? Longe se ser um factor de humanização como o Sr. Almeida nos quer fazer crer, o caudal ininterrupto de notícias de que os media são veículo, e que ultrapassa em muito a capacidade de digestão dos receptores, acaba, afinal de contas, por constituir mais uma componente de entretenimento, para não dizer de alienação. As notícias foram transformadas em produtos de consumo que é preciso descartar porque logo a seguir surgem outras novas e frescas prontas a consumir. Enfim, consomem-se notícias e factos mediáticos do mesmo modo que se consomem telenovelas ou 'reality shows'. E depois, o Sr. João Almeida, enquanto jornalista, deverá certamente saber que uma grande percentagem das notícias postas a circular, longe de apresentarem um inegável interesse público, se prestam antes a outras finalidades – políticas, económicas ou outras. E convém também não esquecer que as empresas jornalísticas precisam de vender jornais e que as televisões e as rádios precisam de ter audiências. Ora como é sobejamente sabido o que, na maioria das vezes, se vende melhor ou garante maiores audiências não são os factos mais relevantes e de indiscutível valor informativo, mas coisas de uma importância muito relativa e que o tempo rapidamente se encarrega de colocar no rol das nulidades históricas. Portanto, a invasão da Antena 2 pela praga das notícias dever-se-á, creio bem, a razões corporativas que talvez o Sr. João Almeida não goste de assumir explicitamente. E já que falei de poluição sonora, aproveito para deixar aqui o meu protesto por outras fontes de ruído que passaram a pulular na rádio pública, surgidas primeiro na Antena 1 e que depois de estenderam à Antena 2. Com efeito, assiste-se a uma panóplia de 'jingles', sons de fundo, indicativos e 'spots' sem uma visível mais-valia auditiva para o ouvinte e que dadas as recorrentes repetições acabam por se tornar um importante factor de saturação (e consequente repulsa) para os ouvintes mais fidelizados. O horror ao vazio, e a necessidade imperiosa de preencher tudo o que represente silêncio, tem vindo a tornar a rádio pública num produto impróprio para consumo. Em vez de tantos ruídos perfeitamente supérfluos e desnecessários, não seria muito mais razoável e de bom gosto preencher os chamados tempos mortos com pequenas peças instrumentais que geralmente não são incluídas nos alinhamentos musicais? Enquanto radiófilo, devo dizer que a proliferação de ruídos das mais variadas espécies, me aflige na rádio em geral, mas no caso da estação pública, a situação atingiu um ponto crítico e, por isso, urge que quem de direito lhe preste a devida atenção. Por exemplo, quando me atiram pela enésima vez com o 'spot' do programa "Fuga da Arte", a reacção imediata que me surge é a de destruir o aparelho, tal é a aversão que já me provoca tal anúncio. Além de se tratar de um 'spot' esteticamente repelente ainda nos prima por achados deste jaez: «Woody Allen acabou de vez com a cultura e a Antena 2 entretém-se agora a brincar com os pedaços». Quem foi o autor de tamanha patacoada? É verdade que Woody Allen escreveu um livro intitulado «Para Acabar de Vez com a Cultura», mas em tom de ironia, pelo que concluir de forma literal que ele próprio acabou com a cultura, parece-me uma extrapolação errada e reveladora de superficialidade intelectual. Porque se Woody Allen tivesse acabado com a cultura, nem ele continuaria a fazer filmes nem tocaria clarinete. Ou será que essas formas de expressão artística, no caso de Woody Allen, não se podem considerar cultura? Enquanto apreciador de Woody Allen, mais do realizador que do músico, devo dizer que me recuso a aceitar tal asserção e estou em crer que ele próprio também não se revê sinceramente nela. Aliás, quando o cineasta Woody Allen vai beber a um Ingmar Bergman ou a um Fellini, não está a fazer outra coisa do que assumir a herança cultural dos grandes mestres da sétima arte em vez de a rejeitar. Refiro também os anúncios à Rádio Mozart e à 'powerbox' da TV Cabo, que de tanto serem repetidos também já me criaram anticorpos de rejeição. Não sei se quem assegura a continuidade da emissão dispara tais 'spots' por puro divertimento sadomasoquista ou se se trata de um tique mecânico e subconsciente resultante da assimilação subliminar e acrítica das técnicas repetitivas da publicidade. Ou será que os 'spots' e 'jingles' já fazem parte de uma 'playlist' que é preciso pôr no ar quando aparece uma qualquer luz a piscar no monitor do computador? Qualquer que seja o caso, gostaria sinceramente que esses ruídos fossem abolidos ou, pelo menos, emitidos com muito mais parcimónia. É que os nossos ouvidos são tolerantes mas só até a um certo ponto. A rádio deve ser uma fonte de prazer, nunca uma tortura e uma fonte de stress e mal-estar. Eu sou um grande amante de rádio, mas infelizmente a própria rádio dá-me cada vez mais motivos para a não ouvir, impelindo-me para outras alternativas de fruição auditiva, tais como a música do meu próprio acervo ou o 'podcasting'. Indo agora à Antena 1, o fenómeno dos ruídos de tão intenso e generalizado já se tornou uma verdadeira epidemia, potencialmente ameaçadora da saúde mental dos ouvintes mais fiéis. São os 'jingles', são as cortinas de péssimo gosto estético, são os 'spots' promocionais repetidos até à exaustão, são as notícias do trânsito perfeitamente redundantes e sem qualquer novidade, e são as temperaturas papagueadas a todo o momento (antes, no meio e depois das notícias). Qual o interesse em se estar constantemente a massacrar os ouvintes com as temperaturas ou a dizer se está a chover ou se faz sol? De manhã, antes das pessoas saírem de casa, é inegável que faz todo o sentido falar do tempo previsto para o dia, para se saber se vale a pena levar o guarda-chuva ou ir mais ou menos agasalhado. Mas depois disso, quando as pessoas já estão na estrada ou já se encontram no emprego, que utilidade tem para elas vir o locutor de serviço, qual papagaio, debitar periódica e recorrentemente as temperaturas e a lembrar que lá fora está a chover, ou que o céu está cinzento ou que está um dia de sol radioso? E qual o interesse para a generalidade dos ouvintes da Antena 1 saber a temperatura que se regista em Helsínquia ou Estocolmo? Será que os eventuais ouvintes que pensam viajar até à Finlândia ou à Suécia estão à espera da preciosa informação meteorológica veiculada pela Antena 1 quando essa informação, ainda por cima muito mais detalhada, está disponível na internet e mesmo nos teletextos? Ainda no tocante à Antena 1, cumpre-me contestar a repetição exagerada e exasperante de alguns 'spots' promocionais, quase sempre dos mesmos programas. Por exemplo, por que motivo os programas "Novos Artistas da Bola" e "Cinemax" são muito mais promovidos do que todos os outros? Será pelo facto do seu autor, Tiago Alves, ser também subdirector de programas da Antena 1? A ser assim, devo dizer que acho a atitude bastante condenável, sobretudo do ponto de vista ético e deontológico. E depois essa atitude egotista tem ainda a agravante de representar uma secundarização implícita do trabalho de outros realizadores da casa, o que é de todo inaceitável. Por outro lado, pôr no ar 'spots' genéricos, de pouco vai adiantar, pois os ouvintes fiéis de determinado programa não precisam do 'spot' para nada. E no caso dos ouvintes não habituais de determinado programa (que presumo sejam os principais alvos dos 'spots'), também não creio que seja um 'spot' genérico que lhes vá despertar o desejo de ouvir um programa que, à partida, não lhes suscita especial interesse. Ao invés, com 'spots' específicos sobre o conteúdo de cada emissão, acredito sinceramente que alguns programas, como o "Viva a Música" ou o "Vozes da Lusofonia", teriam muito a ganhar em termos de captação de ouvintes. Contudo, e apesar desta evidência, constata-se que nem sempre são emitidos 'spots' desses programas mencionando os artistas convidados. E se isto acontece na emissão radiofónica, também não deixa de ser verdade no caso da informação disponibilizada na internet, não raras vezes ausente, mormente no tocante ao programa "Vozes da Lusofonia". Acontecerão estas coisas por desleixo, por falta de profissionalismo ou, pura e simplesmente, por um propósito obscuro de desinvestimento nesses programas? Já alguém dizia: é preciso abater as árvores para que não façam sombra aos arbustos! A ausência de publicidade seria à partida uma vantagem da Antena 1 relativamente às estações congéneres de música e informação. Todavia, e lamentavelmente, quem tem passado pela direcção, nos últimos anos, não só não tem sabido aproveitar esse trunfo como, ao invés, tem criado um conjunto de factores e circunstâncias que tornaram a Antena 1 numa coisa insuportável e indigesta para muita gente que se habituara a tê-la como a sua rádio, por ser diferente e alternativa. Em conclusão: a Antena 1 precisa de uma urgente operação de limpeza e de redefinição do serviço, que lhe devolva a capacidade de sedução de que foi criminosamente espoliada porque só assim muitos dos ouvintes que dela se afastaram (por razões compreensíveis) a ela poderão voltar. E escusado será dizer que os critérios de escolha musical também precisam de ser reformulados, porque muita da música que tem passado (quer portuguesa quer anglo-americana) é autêntico lixo. Isto para já não falar na situação de marginalização e boicote de nomes de referência da música portuguesa que se continua a verificar.