É de murta e de mar a tua voz
Com algas de canção estrangulada.
Aberta a concha da trova malsofrida
Saíste como sai a madrugada
Da noite, virginal e humedecida.
É de vinho e de pinho a tua voz
Com pranto de insofríveis flores banidas.
Mas é pela tua garganta que soltamos
As eriçadas aves proibidas
Que no muro do medo desenhamos.
(Natália Correia – voz de Afonso Dias)
José Afonso, de nome completo José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, nasceu em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, filho de José Nepomuceno Afonso dos Santos, magistrado, e de Maria das Dores Dantas Cerqueira, professora primária. Em 1930 os pais vão para Novo Redondo (actual Sumbe), Angola, onde o pai havia sido colocado como Delegado do Ministério Público. Por razões de saúde, José Afonso permanece em Aveiro, na casa do Largo das Cinco Bicas, confiado à tia Gigé e ao tio Chico, um "republicano anticlerical e anti-sidonista". Por insistência da mãe, em 1932, e já com três anos e meio de idade, segue para Angola, no vapor Mouzinho, acompanhado por um tio advogado que ia em lua-de-mel, e que o deixa ao abandono vindo a agarrar-se a um sacerdote, a única pessoa que lhe presta atenção. Permanece três anos na antiga colónia portuguesa, e aí inicia a instrução primária. José Afonso diz que esta permanência em África deixou uma marca profunda na sua vida: «a África era uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim, contactos com fenómenos da natureza extremamente prepotentes como eram as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças, etc., etc. (...) A África como entidade física é uma coisa que pesou muito na minha vida e nas minhas recordações». Em 1936 regressa a Aveiro, passando a viver na casa de uma tia materna. No ano seguinte, com 8 anos de idade, vai de novo ao encontro dos pais e dos irmãos, agora em Moçambique, mais concretamente na cidade de Lourenço Marques (actual Maputo). Os irmãos serão uma presença forte na vida de José Afonso: João, mais velho, é uma figura próxima da estrutura do clã, que o apoiará em ocasiões difíceis um pouco ao longo de toda a sua vida; Mariazinha, mais nova, concitará os seus afectos, bem patentes nas cartas que lhe escreve. Regressa a Portugal, passados dois anos, desta vez para casa do tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de Belmonte. É nesta vila da Beira Baixa que Zeca conclui a quarta classe e prepara o exame de admissão ao liceu. O tio, salazarista convicto e comandante da Legião Portuguesa, fá-lo envergar a farda da Mocidade Portuguesa. «Foi o ano mais desgraçado da minha vida», confessaria Zeca mais tarde. Não obstante, é neste período que José Afonso toma contacto com as canções tradicionais que virão a ter uma grande importância na sua obra.Em 1940, com 11 anos de idade, vai para Coimbra para prosseguir os estudos ficando instalado em casa da tia Avrilete. É matriculado no Liceu D. João III (hoje Escola Secundária José Falcão) e aí conhece António Portugal e Luiz Goes, ambos mais novos do que ele. A família deixa Moçambique e parte para Timor, onde o pai vai exercer as funções de juiz. A irmã Mariazinha vai com os pais, enquanto seu irmão João vem para Portugal. Com a ocupação de Timor pelos Japoneses, no âmbito da Segunda Guerra Mundial, José Afonso fica sem notícias dos pais durante três anos, até ao final da guerra, em 1945.Nesse mesmo ano (andava no 6.º ano do liceu) começa a cantar serenatas, o que lhe dá não só estatuto mas também privilégios praxistas. José Afonso, a quem chamavam "bicho-cantor" ("bicho" era a designação praxística para os estudantes liceais), gozava, por exemplo, do privilégio de não ser "rapado" pelas trupes que, depois do pôr-do-sol, saíam para as ruas da cidade à procura de "bichos" e caloiros. Em acumulação, Zeca beneficiava também desse tratamento especial, por jogar futebol nos juniores da Académica. O cantor recorda essa fase da sua vida: «As minhas primeiras veleidades de cantor surgiram quando andava no 6º ano do liceu. As noites passava-as em deambulações secretas pela cidade, acompanhado de meia-dúzia de meliantes da minha idade, amantes inconsequentes da noite. Com uma guitarra e uma viola fazíamos a festa. Estávamos ainda longe do hieratismo triunfal das serenatas na Sé Velha diante de multidões atentas e respeitosas.» (Autobiografia, 1967)
Em 1948, após dois chumbos, completa o curso dos liceus. Conhece Maria Amália de Oliveira, uma costureira de origem humilde, com quem vem a casar em segredo, por oposição dos pais, e para grande escândalo das tias. Faz viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica. Em 1949 inscreve-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, da Faculdade de Letras. Viaja até Angola e Moçambique integrado numa comitiva do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra. Em Janeiro de 1953 nasce-lhe o primeiro filho, José Manuel. Dá explicações e trabalha como revisor no Diário de Coimbra. A condição de estudante e de trabalhador fá-lo tomar consciência dos problemas sociais que o marcariam de forma decisiva: «Havia uma sociedade de indivíduos que viviam na Alta ou na Baixa economicamente depauperados: barbeiros, merceeiros, profissões dependentes do estudante. Recordo-me que as criadas viviam num estado de fome permanente nas férias grandes e começavam a comer quando os estudantes regressavam. (...) Lembro-me do estatuto de estudante que era, apesar de tudo, compatível com uma certa compreensão humana da situação dessa gente. Esta visão sentimental do que eram as desigualdades sociais motivou uma certa transformação em mim. A visão poético-estudantil em que eu me considerava um herói de capa e batina, um cavaleiro andante, desapareceu ou foi desaparecendo com o tempo e à medida que fui vivendo numa situação económica extremamente difícil com os meus dois filhos no Beco da Carqueja». Em 1953 são editados os seus primeiros trabalhos discográficos – dois discos de 78 rotações com fados de Coimbra, com chancela da Alvorada, gravados na delegação regional de Coimbra da Emissora Nacional, no ano anterior. Cada disco inclui dois fados, sendo "Fado das Águias", com letra e música de José Afonso, a sua primeira composição gravada.Também em 1953, é mobilizado para o serviço militar obrigatório sendo colocado em Mafra. E desde logo o jovem José Afonso revela a sua postura antimilitarista, em carta dirigida ao pai: «A espingarda que me foi confiada e que tenho de tratar como se tratam os cavalos de corrida é, para mim, um mistério intrincado, com culatra, cursores, percutores, cavilhas de segurança e o diabo a sete. E isto que tanto repugna à minha natureza pacífica e contemplativa!» Depois da recruta recebe guia de marcha para Macau, mas não chega a ser mobilizado por motivos de saúde, vindo a ser colocado num quartel de Coimbra. Da sua vida militar, recordará: «Eu fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar». No ano lectivo 1955/56, e para assegurar o sustento da família, e embora não tendo ainda concluído o curso, começa a dar aulas num colégio privado em Mangualde. Inicia-se o processo de separação e posterior divórcio de Amália (formalizado a 1 de Junho de 1963). José Afonso manterá uma névoa de silêncio em redor desta sua experiência conjugal.Em 1956 é editado, pela Alvorada, o seu primeiro EP intitulado "Fados de Coimbra", em que tem como acompanhadores António Portugal e Jorge Godinho (guitarras) e Manuel Pepe e Levy Baptista (violas). José Afonso canta "Incerteza" (Tavares de Melo), "Mar Largo" (Paulo de Sá), "Aquela Moça da Aldeia" (António Menano) e "Balada" (Popular açoriana/José Afonso).
Em 1956/57 é professor em Aljustrel, seguindo-se nos anos subsequentes Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro. José Afonso fala assim da sua experiência enquanto docente: «A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais». Por dificuldades económicas, em 1958 envia os dois filhos (José Manuel e Helena) para Moçambique, para junto dos avós. Nesse ano fica impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado. Durante um mês integra a digressão da Tuna Académica em Angola, mas não canta apenas fados de Coimbra. «O Zeca era um dos vocalistas do Conjunto Ligeiro da Tuna e cantava canções como "Adeus Mouraria", o seu maior sucesso, acompanhado ao piano, baixo, bateria, acordeão e guitarra eléctrica. Actuávamos vestidos com umas largas blusas de cetim, cada uma de sua cor, imitando a orquestra de mambos de Perez Prado, o máximo da altura. Acabada esta cena de 'show-biz', vestíamos rapidamente a capa e batina e íamos para a serenata, mutantes do sol para a lua» conta José Niza. Na viagem de regresso, no Paquete Pátria, convive com a poetisa Natália Correia, que mais tarde lhe dedicará um poema (transcrito em epígrafe). «Sob o luar quente dos trópicos, íamos à noite para a ré do navio, com violas, vinho e poesia: o Zeca cantava; e a Natália – cabelos ao vento, deusa grega, nessa altura e sem exagero, uma das mulheres mais belas do planeta – dizia poemas», recorda José Niza.Em 1959 começa a frequentar colectividades e a cantar regularmente em meios populares. Em 1960, e depois de quatro anos sem gravar, lança o EP "Balada do Outono", com chancela da Rapsódia, tendo sido acompanhado pelas guitarras de António Portugal e Eduardo Melo e as violas de Manuel Pepe e Paulo Alão. Além da balada que dá título ao disco, com letra e música de José Afonso, o EP inclui os temas populares "Vira de Coimbra" e "Amor de Estudante" e ainda um instrumental, "Morena".
O disco inaugura o movimento da balada coimbrã e é um marco na História da música portuguesa. A propósito da "Balada do Outono" (Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar) escreve Manuel Alegre: «A canção de Coimbra não voltaria a ser a mesma, a música ligeira portuguesa também não. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo muito antiga. Tudo estava nela: a tradição trovadoresca, os cantares de amigo, os romances populares. E também o espírito de um tempo de mudança». Faz nova digressão a Angola, com o Orfeão Académico, durante a qual toma verdadeira consciência da realidade colonial. José Niza recorda: «Fomos encontrar uma Angola diferente. Tinha-se dado a independência do Congo Belga e todo o território estava cheio de retornados belgas. A PIDE tinha-se instalado em Luanda e noutras cidades. E sentiam-se no ar, nas entrelinhas das conversas, nos olhares, os sinais de que alguma coisa iria acontecer». No ano seguinte rebentava a Guerra Colonial.José Afonso segue atentamente a crise estudantil de 1962. Em Faro convive com Luiza Neto Jorge, António Barahona, António Ramos Rosa e Manuel Pité, e namora com Zélia, natural da Fuzeta, que será a sua segunda mulher e com quem terá mais dois filhos, Joana e Pedro. É José Afonso quem nos diz: «O conhecimento da Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores». Para o álbum colectivo "Coimbra Orfeon of Portugal", editado pela Monitor (dos Estados Unidos), José Afonso grava dois temas – "Minha Mãe" e "Balada Aleixo" – em que rompe definitivamente com o acompanhamento das guitarras. Nestas duas baladas é acompanhado exclusivamente à viola por José Niza e Durval Moreirinhas.
Realiza digressões pela Suíça, Alemanha e Suécia, integrado num grupo de fados e guitarras, na companhia de Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Jorge Godinho, Durval Moreirinhas e ainda da fadista lisboeta Esmeralda Amoedo. Em 1963, conclui a licenciatura na Faculdade de Letras de Coimbra com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: "Implicações Substancialistas na Filosofia Sartriana". Em 1962 e 1963 são editados dois EP intitulados "Baladas de Coimbra", com Rui Pato à viola, dos quais fazem parte as belíssimas "Menino d'Oiro", "No Lago do Breu", "Canção do Vai... e Vem" e "Menino do Bairro Negro", esta última inspirada nos meios sociais miseráveis do Bairro do Barredo, no Porto. A balada "Os Vampiros", incluída no EP de 1963, tornar-se-á, juntamente com a "Trova do Vento que Passa" (gravada no mesmo ano por Adriano Correia de Oliveira), um dos símbolos maiores da resistência antifascista até ao advento da liberdade. Em Maio de 1964, José Afonso actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção "Grândola, Vila Morena", que viria a ser no dia 25 de Abril de 1974 a segunda senha do Movimento das Forças Armadas (MFA) para o arranque da operação militar que derrubaria o regime ditatorial. É editado o EP "Cantares de José Afonso", o único para a Valentim de Carvalho, que inclui "Coro dos Caídos", "Canção do Mar", "Maria" (dedicada a Zélia) e "Ó Vila de Olhão", sempre com Rui Pato à viola. A acutilância da letra de "Ó Vila de Olhão" faz com que o disco seja proibido pela Censura. Na reedição desse EP, a faixa em causa é substituída por uma versão instrumental executada pelo Conjunto de Guitarras de Jorge Fontes. As três primeiras baladas viriam a ser também incluídas numa compilação colectiva com Carlos Paredes e Luiz Goes (editada em 1973 e reeditada em CD pela EMI-VC, em 1992). A Discoteca Santo António, através da etiqueta Ofir, publica o LP "Baladas e Canções", gravado nos Estúdios da RTP em Vila Nova de Gaia (reeditado em CD pela EMI-VC em 1997). É o primeiro álbum a sério de José Afonso, com 12 temas, entre os quais "Canção Longe", "Os Bravos", "Balada Aleixo", "Balada do Outono" (em versão instrumental), "Na Fonte Está Lianor" (com poema de Luís de Camões), "Minha Mãe", "Altos Castelos", "O Pastor de Bensafrim" e "A Ronda dos Paisanos". No final do Verão de 1964, muda-se com Zélia para Lourenço Marques, onde reencontra os seus filhos e os pais. Durante dois anos dá aulas na cidade da Beira. Em Moçambique desenvolve intensa actividade anticolonialista e relaciona-se, entre outros, com os pintores Malangatana e António Quadros (poeta João Pedro Grabato Dias), vindo este a contribuir com algumas letras para o repertório do cantor. Aí compõe a música para a peça de Bertolt Brecht "A Excepção e a Regra", traduzida e encenada por Luiz Francisco Rebello, cujas canções virá posteriormente a gravar. Em 1966, é publicado pela Nova Realidade, de Tomar, o livro "José Afonso: Cantares", organizado por Manuel Simões, reunindo as letras das baladas de José Afonso, com notas do próprio autor sobre a génese de cada uma delas. Em 1967, esgotado pelo sistema colonial, regressa a Lisboa, deixando o filho mais velho, José Manuel, confiado aos avós. José Afonso recorda assim a sua última fase africana: «Se houve alguma coisa em África que me marcou definitivamente foi a realidade colonial. Quando eu parti ia preparado para enfrentá-la: sabia quais os seus contornos e o papel que me cabia como professor, quais os alunos que ia ensinar. Sabia também que ia ser um veículo de transmissão ideológica de uma classe dominante. [...] Fiquei terrivelmente ligado àquela realidade física que é a África, aquilo tem de facto qualquer coisa de estranho, uma força muito grande que nos seduz. O meu baptismo político começa em África. Estava a dois passos do oprimido». É colocado como professor em Setúbal, e a par das funções lectivas começa a aceitar convites para cantar em colectividades da Margem Sul. Fica sob a mira da PIDE que o passa a chamar com relativa assiduidade para prestar declarações no posto de Setúbal. Entretanto, sofre uma grave depressão que o leva a ser internado durante 20 dias na Casa de Saúde de Belas. Quando sai da clínica, recebe a notícia de que tinha sido demitido do ensino oficial. O PCP convida-o a aderir ao partido, mas José Afonso recusa invocando a sua condição de classe. «Nunca fui um indivíduo com certezas dogmáticas acerca de grupos ou partidos preferenciais. Comecei por me relacionar, sobretudo na Margem Sul, a associações de estudantes fortemente politizadas, por um lado, e a determinadas organizações políticas, como por exemplo os Católicos Progressistas, por outro. Achava que todos aqueles grupos eram necessários para formar um movimento que conduzisse ao derrube do poder. Qual seria depois o partido ou organização que surgiria após o derrube do poder, não sabia.» Mais uma vez confrontado com necessidades de subsistência, é obrigado a dar explicações e a encarar mais seriamente a carreira musical, designadamente através da gravação de discos. Cientes da situação, Rui Pato e António Portugal contactam várias editoras, incluindo aquelas para as quais Zeca já gravara antes, mas todas lhes fecham as portas, com medo da PIDE. Então, em desespero de causa, vão ao Porto falar com Arnaldo Trindade, da etiqueta Orfeu, para a qual Adriano Correia de Oliveira, já gravava há anos. A proposta era nem mais nem menos que a gravação de "Cantares do Andarilho". Arnaldo Trindade aceita a ideia, assume os riscos e propõe um contrato sui generis: José Afonso comprometia-se a gravar um álbum por ano e em troca passaria a receber, mensalmente, 15 mil escudos (uma quantia nada desprezível, na altura). E foi através deste vínculo à Orfeu, para a qual gravou mais de 70 por cento da sua obra, que Zeca alcançou a estabilidade económica que nunca tivera, e de que tanto precisava em face dos seus encargos familiares. No Natal de 1968, é lançado o sugestivamente intitulado "Cantares do Andarilho", com Rui Pato à viola, sem dúvida alguma, um dos melhores álbuns da sua discografia. Deste disco fazem parte, entre outros, temas como "Natal dos Simples", "Balada do Sino", "Canção de Embalar", "Endechas a Bárbara Escrava (com poema de Luís de Camões), "Chamaram-me Cigano" e "Vejam Bem". Em 1969, a Primavera marcelista abre perspectivas de organização ao movimento sindical. José Afonso participa activamente neste movimento, assim como nas acções dos estudantes em Coimbra. Em 1969, participa no 1.º Encontro da "Chanson Portugaise de Combat", em Paris. Publica o álbum "Contos Velhos, Rumos Novos" e o single "Menina dos Olhos Tristes" que contém a canção popular "Canta Camarada". Em "Contos Velhos, Rumos Novos", e fazendo jus ao título, José Afonso continua e aprofunda a exploração do repertório da tradição popular ("Oh! Que Calma Vai Caindo", "S. Macaio", "Deus Te Salve, Rosa", "Lá Vai Jeremias"), ao mesmo tempo que põe em música uma plêiade de escritores eruditos: Airas Nunes ("Bailia"), Fernando Miguel Bernardes ("Qualquer Dia"), Lope de Vega ("No Vale de Fuenteovejuna"), Luís Andrade Pignatelli ("Era de Noite e Levaram") e Ary dos Santos ("A Cidade"). Além de Rui Pato (viola, marimbas, harmónica), o álbum tem as participações de Sousa Colaço (2.ª viola), José Fortunato (cavaquinho), Adácio Pestana (trompa) e Teresa Paula Brito (voz). Pela primeira vez num disco de José Afonso, aparecem outros instrumentos que não a viola ou a guitarra. O cantor recebe o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco, distinção que repete em 1970 e 1971.Em 1970 é editado o LP "Traz Outro Amigo Também", gravado em Londres, nos estúdios da Pye Records, o primeiro sem Rui Pato, impedido pela PIDE de viajar, por causa do seu envolvimento na crise académica de 1969. Será substituído por Carlos Correia (Bóris), antigo músico de rock, dos Álamos e do Conjunto Universitário Hi-Fi. No acompanhamento, participa também Filipe Colaço, na 2.ª viola. Além do tema-título, o alinhamento inclui temas como "Maria Faia", "Canto Moço", "Epígrafe para a Arte de Furtar" (com poema de Jorge de Sena), "Moda do Entrudo", "Canção do Desterro" e "Verdes São os Campos" (com poema de Luís de Camões). Num texto apenso ao álbum, o dramaturgo Bernardo Santareno escreve: «A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula. Realmente é a "pureza" a nota maior desta arte: pureza de voz, pureza de poema, pureza de música. Neste disco, um dos mais ricos quanto a valores poéticos, é ela que domina: trova antiga purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a justiça vai de bandeira. [...] Ele [José Afonso] é hoje o mais autêntico trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça, de verdade.»
Na capital britânica, José Afonso conhece os brasileiros Gilberto Gil e Caetano Veloso, que aí se encontravam exilados por motivos políticos. Em Março de 1970, a Casa de Imprensa atribui a José Afonso, por unanimidade, o Prémio de Honra pela «alta qualidade da sua obra artística como autor e intérprete e pela decisiva influência que exerce em todo o movimento de renovação da música ligeira portuguesa». Participa em Cuba num Festival Internacional de Música Popular. No Natal de 1971, é lançado o LP "Cantigas do Maio", gravado em Herouville (perto de Paris), no Strawberry Studio, um dos mais caros e afamados da Europa. Com arranjos e direcção musical de José Mário Branco, o álbum conta com a participação de Carlos Correia (Bóris) (viola, coros e passos), Michel Delaporte (darbuka, bongo berbere, tumbas, tamborim brasileiro e adufe), Christian Padovan (baixo eléctrico), Tony Branis (trompete), Jacques Granier (flauta), Francisco Fanhais (coros, passos, apitos de fole e guimbarda (tipo de berimbau)) e José Mário Branco (coros, passos, acordeão, órgão Hammond, piano Ferder). Além de "Grândola, Vila Morena", o disco inclui temas tão emblemáticos como "Cantigas do Maio", "Cantar Alentejano" (em homenagem a Catarina Eufémia, assassinada pela GNR), "Maio, Maduro Maio" e "Mulher da Erva". É geralmente considerado o melhor álbum de José Afonso e representa o momento de viragem para formas de acompanhamento instrumental mais enriquecidas e elaboradas. A editora Nova Realidade publica o livro "Cantar de Novo". No final de 1972, sai o LP "Eu Vou Ser Como a Toupeira", gravado em Madrid, nos Estúdios Cellada, sob a direcção musical de José Niza e com a participação de Carlos Alberto Moniz, Maria do Amparo, José Jorge Letria, Teresa Silva Carvalho, Benedicto, um cantor galego amigo de Zeca, e do grupo Aguaviva, de Manolo Diaz. Deste álbum fazem parte, entre outros, os temas "A Morte Saiu à Rua" (em homenagem ao escultor e pintor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE numa rua de Alcântara), "Ó Minha Amora Madura", "No Comboio Descendente" (com poema de Fernando Pessoa) e o belíssimo "Fui à Beira do Mar" (vide letra abaixo). Em 1973, José Afonso continua a sua "peregrinação", cantando um pouco por todo o lado. Muitas sessões foram proibidas pela PIDE/DGS. Em Abril é preso e fica 20 dias em Caxias até finais de Maio. Na prisão política, escreve o poema "Era Um Redondo Vocábulo", um dos temas mais belos do álbum seguinte, "Venham Mais Cinco". Gravado em Paris, no Studio Aquarium, em Outubro de 1973, o disco é constituído integralmente por temas da autoria de José Afonso (letra e música) e conta de novo com arranjos e direcção musical de José Mário Branco e na participação musical figuram o próprio José Mário Branco (fole do João, percussões, piano, voz do alto, coros, pandeireta, órgão Hammond, piano Pipper, efeitos de sopro), Yório Gonçalves (viola) e ainda uma miríade de músicos estrangeiros, sendo de destacar Michel Delaporte nas percussões. O tema-título tem a participação vocal de Janine de Waleyne, solista dos Swingle Singers, o melhor grupo vocal de jazz cantado da altura, na opinião de José Niza. Além do conhecido tema que dá nome ao álbum, merecem destaque três outros temas, autênticas pérolas do repertório de José Afonso: o citado "Era Um Redondo Vocábulo", "Adeus ó Serra da Lapa" e "Que Amor Não me Engana".
A 29 de Março de 1974, o Coliseu de Lisboa enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com "Grândola, Vila Morena". Militares do MFA estão entre a assistência e escolhem "Grândola" para senha do golpe militar que está em congeminação e que se concretizará, daí a menos de um mês, na madrugada de 25 de Abril. No dia do espectáculo, a censura avisara a Casa de Imprensa, organizadora do evento, de que eram proibidas as representações dos temas "Venham Mais Cinco", "Menina dos Olhos Tristes", "A Morte Saiu à Rua" e "Gastão Era Perfeito". Curiosamente, a "Grândola, Vila Morena" era autorizada.
No final de 1974, é editado o álbum "Coro dos Tribunais", gravado em Londres, novamente na Pye Records, com arranjos e direcção musical, pela primeira vez, de Fausto Bordalo Dias e com a participação musical do próprio Fausto (guitarra acústica, coros) e ainda de Michel Delaporte (percussões), Vitorino (teclados, 2.ª voz solo, coros), Carlos Alberto Moniz (2.ª viola, coros), Yório Gonçalves (2.ª viola), Adriano Correia de Oliveira (coros) e José Niza (coros). São incluídas no disco duas canções brechtianas (da peça "A Excepção e a Regra") que José Afonso musicou em Moçambique no período entre 1964 e 1967: "Coro dos Tribunais" e "Eu Marchava de Dia e de Noite (Canta o Comerciante)".
Em 1974/75, Zeca Afonso envolve-se directamente nos movimentos populares e no PREC (Processo Revolucionário Em Curso), mas faz questão de não se filiar em qualquer dos sectarismos partidários existentes. Canta no dia 11 de Março de 1975 no RALIS para os soldados e estabelece uma colaboração estreita com a LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária), através do seu amigo Camilo Mortágua, dirigente da organização. A LUAR edita o single "Viva o Poder Popular", com "Foi na Cidade do Sado" no lado B. Em Itália, as organizações revolucionárias Lotta Continua, Il Manifesto e Vanguardia Operaria editam o álbum "República", gravado em Roma nos dias 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos estúdios das Santini Edizioni. As receitas do disco destinavam-se a apoiar a Comissão de Trabalhadores do jornal "República" ou, caso o jornal fosse extinto, como foi, o Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre. Desconhecido em Portugal, este álbum inclui "Para Não Dizer Que Não Falei de Flores" (versão de Francisco Fanhais da célebre canção de Geraldo Vandré), "Se os Teus Olhos se Vendessem", "Foi no Sábado Passado", "Canta Camarada", "Eu Hei-de Ir Colher Macela", "O Pão Que Sobra à Riqueza", "Os Vampiros", "Senhora do Almortão", "Letra para Um Hino" e "Ladainha do Arcebispo". Além de Francisco Fanhais, este disco teve o contributo de diversos músicos italianos. Em 1976, Zeca apoia a candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, estratega do 25 de Abril e ex-comandante do COPCON (Comando Operacional do Continente), apoio que reedita em 1980. Ainda em 1976, grava o álbum "Com as Minhas Tamanquinhas", sendo as letras e as composições todas da sua autoria. Conta com a colaboração de Cecília Barreira, Fausto Bordalo Dias, Fernando Gonzalez, José Luís Iglésias, José Niza, Júlio Pereira, Luís Duarte, Michel Delaporte, Ramon Galarza, Vitorino e ainda de Quim Barreiros, nos temas de inspiração folclórica. Este álbum é, na opinião de José Niza, «um disco de combate e de denúncia, um grito de alma, um murro na mesa, sincero e exaltado, talvez exagerado se ouvido e lido ao fim de 30 anos, isto é, hoje». É a "ressaca" do PREC. O próprio José Afonso dirá mais tarde: «Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão é um homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta». E acrescenta: «Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia-a-dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for».
O álbum "Enquanto Há Força", gravado em 1978, com o apoio de Fausto Bordalo Dias nos arranjos e direcção musical, representa mais um exemplo da fase cronista e panfletária do cantor, ligada às suas preocupações anti-colonialistas e anti-imperialistas, a que não escapa uma crítica mordaz à Igreja Católica (no tema "Arcebispíada"). Participam no disco excelentes músicos e cantores: Michel Delaporte (percussões), Fausto (guitarra eléctrica, guitarra acústica, coros), José Luís Iglésias (guitarra acústica), Carlos Zíngaro (violino), Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa, sistre, viola e alaúde), Rão Kyao (flautas), Luís Duarte (baixo), Dimas Pereira (acordeão), Yório Gonçalves (coros), Adriano Correia de Oliveira (coros) e Sérgio Godinho (coros), entre outros; e ainda o Grupo de Cantigas do Centro Cultural da Anadia.
Em 1979 é lançado o álbum "Fura Fura", gravado em Setembro e Outubro do ano anterior, em que José Afonso contou com a colaboração de Júlio Pereira nos arranjos e direcção musical e dos Trovante nos arranjos de três temas ("As Sete Mulheres do Minho", "O Cabral Fugiu para Espanha" e "De Quem Foi a Traição"). A execução instrumental é de Júlio Pereira (cavaquinho, guitarras acústicas, violas, baixo, reco-reco, chocalho, timbalões) e de elementos do grupo Trovante – Luís Represas (bandolim, cavaquinho, 2.ª voz, coros), João Gil (viola, viola braguesa), Artur Costa (baixo, palheta, adufe, flautas de bisel) e Manuel Faria (acordeão). Nota ainda para a participação de António Chaínho (guitarra portuguesa), José Maria Nóbrega (viola), Naomi Anner e Carlos Zíngaro (violinos), Guilherme Vicente (flauta de amolador), Tomás Pimentel (trompete), Rui Cardoso (flauta transversal), Guilherme Inês (tumbadoras, ferrinhos) e Celso de Carvalho (violoncelo). Dos doze temas do alinhamento, oito são de música para teatro, compostos para as peças "Zé do Telhado" e "Guerras de Alecrim e Manjerona", levadas à cena na Barraca e na Comuna, respectivamente. José Afonso actua em Bruxelas no Festival da Contra-Eurovisão.
Em 1981, e após dois anos sem discos, reconcilia-se com a canção de Coimbra e com a guitarra ao gravar "Fados de Coimbra e Outras Canções", álbum composto maioritariamente por clássicos de Edmundo Bettencourt e no qual reinterpreta também três temas já anteriormente gravados: "Senhora do Almortão", "Balada do Outono" e "Vira de Coimbra". Com acompanhamento de Octávio Sérgio (guitarra) e Durval Moreirinhas (viola) em todos os temas, no "Vira de Coimbra" participam também Júlio Pereira (cavaquinho) e Janita Salomé (viola). Trata-se da mais bela versão do fado de Coimbra, interpretada por Zeca Afonso em homenagem a seu pai e a Edmundo Bettencourt, dedicatários do álbum. Actua em Paris, no Théatre de la Ville. Em 1982 começam a conhecer-se os primeiros sintomas de esclerose lateral amiotrófica, doença que se caracteriza por uma progressiva atrofia muscular de que resulta geralmente a morte, por asfixia. Actua em Bourges, França, no Festival de Printemps. Em 29 de Janeiro de 1983 realiza-se o espectáculo no Coliseu dos Recreios, com José Afonso já em dificuldades. Participam Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto Bordalo Dias, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé. É publicado o duplo álbum "Ao Vivo no Coliseu".No Natal desse ano, sai "Como Se Fora Seu Filho", álbum que constitui o seu testemunho estético-político e revela em definitivo o rosto humano da Utopia ("Cidade sem muros nem ameias / gente igual por dentro / gente igual por fora"). Com arranjos e direcção musical de Júlio Pereira, José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias e de José Afonso, no trabalho colaboram Júlio Pereira (guitarra eléctrica, guitarra acústica, polymoog, baixo, reco-reco, tamborete, viola braguesa), Fausto (guitarra eléctrica, guitarra acústica, percussões, 2.ª voz), Sérgio Mestre (guitarra acústica, flauta), Carlos Zíngaro (violino), Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa), Janita Salomé (polymoog, 2.ª voz, coros), José Mário Branco (flauta vietnamita, pífaro, flautas de bisel, piano, percussões), Rui Cardoso (saxofones, clarinete baixo), Rui Júnior (percussões), Francisco Fanhais (coros), entre outros. Algumas das canções do alinhamento haviam sido escritas para a peça "Fernão Mentes?" do grupo de teatro A Barraca. No mesmo ano, é publicado o livro "Textos e Canções", com a chancela da Assírio e Alvim, que inclui muitos poemas que José Afonso não chegou a musicar. Contra a sua vontade, é publicado pela Foto Sonoro um maxi-single, "Zeca em Coimbra", com material de um espectáculo dado pelo cantor no Parque de Santa Cruz, na Lusa Atenas, a 27 de Maio, em que também participaram António Bernardino ("Tenho Barcos, Tenho Remos"), Luís Marinho ("Traz Outro Amigo Também") e ainda António Portugal e António Brojo (guitarras) e Aurélio Reis, Luís Filipe e Rui Pato (violas). A cidade de Coimbra atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade. «Obrigado Zeca, volta sempre, a casa é tua», disse-lhe o presidente da Câmara, Fernando Mendes Silva. «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem», respondeu José Afonso.
O Presidente da República, general Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário. Mário Soares tentará de novo condecorá-lo, a título póstumo, em 1994, com a Ordem da Liberdade, mas a mulher, Zélia, recusa, alegando que se José Afonso não desejou a distinção em vida, também não seria após a sua morte que seria condecorado.Em 1983 José Afonso é reintegrado no ensino oficial (fora expulso em 1968), tendo sido destacado para dar aulas de História e de Português na Escola Preparatória de Azeitão. Em 1985 é gravado aquele que viria a ser seu último álbum, "Galinhas do Mato", com arranjos, direcção musical e produção de Júlio Pereira e José Mário Branco. Zeca já não consegue cantar todos os temas, sendo substituído por Luís Represas ("Agora"), Helena Vieira ("Tu Gitana"), Janita Salomé ("Moda do Entrudo", "Tarkovsky" e "Alegria da Criação"), José Mário Branco ("Década de Salomé", em dueto com Zeca), Né Ladeiras ("Benditos") e Catarina e Marta Salomé ("Galinhas do Mato"). No elenco instrumental contam-se: Júlio Pereira (violas acústicas e eléctricas, banjo, baixo, adufe, sintetizador, computador de ritmo), José Mário Branco (adufe, guizos almofadados, latas), Janita Salomé (darbuka, adufe), Carlos Zíngaro (violino), Fernando Ribeiro (acordeão), António Emiliano (piano), Sérgio Mestre (flauta transversal), Paulo Curado (flauta transversal), José Pedro Caiado (flautas doces), Adácio Pestana (trompa), Tomás Pimentel (trompete), José Oliveira (trombone), Carlos Martins (saxofone alto), Rui Cardoso (saxofone tenor), Sílvio Pleno (clarinete), David Gausden (baixo), João Nuno Represas (tumbadoras, darbuka, latas) João Seixas (adufe) e Guilherme Inês (bateria). Nos coros, participam ainda Cramol (Coro da Biblioteca Operária Oeirense) e Tóinas. Apesar de ser o derradeiro, "Galinhas do Mato" revela-se um dos discos mais efusivos e extrovertidos de José Afonso, o que para tal muito contribui o protagonismo que é dado às percussões e aos sopros.
Em 1986, apoia a candidatura presidencial de Maria de Lurdes Pintassilgo, católica progressista. José Afonso vem a falecer no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, com 57 anos de idade. O funeral realiza-se no dia seguinte, com mais de 30 mil pessoas, da Escola Secundária de S. Julião para o Cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal. O funeral demorou duas horas a percorrer 1300 metros. Envolvida por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna foi transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Luís Cília e Francisco Fanhais.A 18 de Novembro é criada, por iniciativa de Alípio de Freitas (homenageado no tema homónimo do álbum "Com as Minhas Tamanquinhas"), a Associação José Afonso com o objectivo de ajudar a realizar as ideias do compositor e intérprete no campo das Artes. No ano seguinte a Câmara Municipal da Amadora institui o Prémio José Afonso destinado a galardoar um álbum inédito de música portuguesa, cujos temas tenham como referência a cultura e História portuguesas, tal como a obra do patrono. Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Né ladeiras, Amélia Muge, João Afonso, Vai de Roda, Gaiteiros de Lisboa, Dulce Pontes, Vozes do Sul/Janita Salomé, Jorge Palma, Carlos do Carmo, Filipa Pais, José Medeiros e Brigada Victor Jara, contam-se entre os já contemplados.Duas semanas depois da morte do cantor, a Transmédia edita "Agora e Sempre", o primeiro triplo álbum da história discográfica portuguesa. A edição é constituída pelos álbuns "Como Se Fora Seu Filho" (1983), "Galinhas do Mato" (1985) e "Ao Vivo no Coliseu" (1983), este com um alinhamento diferente. Nesse mesmo ano, a Movieplay lança em CD os 11 álbuns gravados para a Orfeu (até 1981), tendo também sido editado pela Edisco o CD "Os Vampiros", com as baladas dos três EP da Rapsódia (1960-63), tais como "Os Vampiros", "Menino d'Oiro", "Canção do Vai... e Vem", "Senhor Poeta", "Tenho Barcos, Tenho Remos", "Menino do Bairro Negro", "No Largo do Breu" e "Balada do Outono". Em 1996, a Movieplay reúne finalmente em CD sob o título "De Capa e Batina", os fados de Coimbra dos três primeiros discos (1953-56) e ainda os temas "Menina dos Olhos Tristes" e "Canta Camarada", do single editado pela Orfeu em 1969. Em 1997, assinalando os dez anos sobre a morte de José Afonso, a EMI-VC lança em CD o álbum "Baladas e Canções", originalmente editado pela Ofir em 1967.José Afonso, como pioneiro de uma estética musical alternativa ao "nacional cançonetismo" (como lhe chamou João Paulo Guerra) e pelo contributo inovador que deu na redescoberta e valorização da música de raiz tradicional, será sempre recordado como um dos nomes maiores da História da música portuguesa. Testemunham-no as homenagens e tributos de quem sido alvo ao longo dos anos, com novas versões de temas seus, sendo de referir os seguintes álbuns: "Ó Rama, Ó Que Linda Rama" (1977 – Teresa Silva Carvalho), "Ousadias" (1986 – Naná Sousa Dias), "Filhos da Madrugada Cantam José Afonso" (1994 – Madredeus, Frei Fado d’El Rei, Brigada Victor Jara, Opus Ensemble, Diva, Delfins, Sétima Legião, Resistência, UHF, Tubarões, etc.), "Maio Maduro Maio" (1995 – José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso, gravado no S. Luiz em 1994), "Utopia" (2004 – Vitorino e Janita Salomé, gravado no CCB em 1998), "A Jazzar no Zeca" (2004 – Zé Eduardo Unit), "Que Viva o Zeca" (2007 – Erva de Cheiro), "A Terra do Zeca" (2007 – Terra d’Água / Davide Zaccaria, com Maria Anadon, Lúcia Moniz, Filipa Pais, Dulce Pontes e Uxía), "Co’as Tamanquinhas do Zeca" (2007 – Couple Coffee), "Senhor Poeta" (2007 – Frei Fado d’El Rei), "Com Zeca no Coração" (2007 - Banda Futrica), "Convexo" (2007 – Jacinta) e "Abril" (2007 – Cristina Branco).
Discografia:
- Fados de Coimbra - 2 vols. (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de Coimbra (EP-45 rpm, Alvorada, 1956)
- Balada do Outono (EP-45 rpm, Rapsódia, 1960)
- Coimbra Orfeon of Portugal (LP-33 rpm, Monitor, 1962) (colectivo)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1962)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1963)
- Cantares de José Afonso (EP-45 rpm, Columbia/Valentim de Carvalho, 1964)
- Baladas e Canções (LP-33 rpm, Ofir, 1967; CD, EMI-VC, 1997)
- Cantares de Andarilho (LP-33 rpm, Orfeu, 1968; CD, Movieplay, 1987)
- Contos Velhos, Rumos Novos (LP-33 rpm, Orfeu, 1969; CD, Movieplay, 1987)
- Menina dos Olhos Tristes (Single-45-rpm, Orfeu, 1969)
- Traz Outro Amigo Também (LP-33 rpm, Orfeu, 1970; CD, Movieplay, 1987)
- Cantigas do Maio (LP-33 rpm, Orfeu, 1971; CD, Movieplay, 1987)
- Eu Vou Ser Como a Toupeira (LP-33 rpm, Orfeu, 1972; CD, Movieplay, 1987)
- Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1973; CD, EMI-VC, 1992 (compilação colectiva)
- Venham Mais Cinco (LP-33 rpm, Orfeu, 1973; CD, Movieplay, 1987)
- Coro dos Tribunais (LP-33 rpm, Orfeu, 1974; CD, Movieplay, 1987)
- Viva o Poder Popular (Single-45 rpm, LUAR, 1975)
- República (LP-33 rpm, Lotta Continua/Il Manifesto/Vanguardia Operaria (Itália), 1975) (não editado em Portugal)
- Com as Minhas Tamanquinhas (LP-33 rpm, Orfeu, 1976; CD, Movieplay, 1987)
- José Afonso in Hamburg (LP-33 rpm, Portugal Solidaritat (Alemanha), 1976 (gravado ao vivo)
- Enquanto Há Força (LP-33 rpm, Orfeu, 1978; CD, Movieplay, 1987)
- Fura Fura (LP-33 rpm, Orfeu, 1979; CD, Movieplay, 1987)
- Fados de Coimbra e Outras Canções (LP-33 rpm, Orfeu, 1981; CD, Movieplay, 1987)
- Baladas e Fados de Coimbra (LP-33 rpm, Edisco, 1982); Os Vampiros (CD, Edisco, 1987)
- José Afonso (2LP, Orfeu, 1983; 2CD, Movieplay, 2001; Farol, 2007) (colectânea)
- Ao Vivo no Coliseu (2LP-33 rpm, Sasseti, 1983) (gravado a 29 de Janeiro de 1983)
- Como Se Fora Seu Filho (LP-33 rpm, Sasseti, 1983; CD, Strauss, 1994)
- Zeca em Coimbra (EP-45-rpm, Foto Sonoro, 1983)
- Galinhas do Mato (LP-33 rpm, Transmédia, 1985; CD, CNM, 1994)
- Agora e Sempre (3LP-33 rpm, Transmédia, 1985 (inclui os álbuns: Como Se Fora Seu Filho / Galinhas do Mato / Ao Vivo no Coliseu)
- Zeca Afonso no Coliseu (2CD, Strauss, 1993) (concerto quase integral)
- De Capa e Batina (CD, Movieplay, 1996)
Fontes:
- Site da Associação José Afonso (http://www.aja.pt/)
- Literatura inclusa na discografia de José Afonso
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- A Cidade (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- A Formiga no Carreiro (in "Venham Mais Cinco")
- Adeus ó Serra da Lapa (in "Venham Mais Cinco")
- Bailia (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- Balada do Outono (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
- Balada do Sino (in "Cantares do Andarilho")
- Canção de Embalar (in "Cantares do Andarilho")
- Canção do Mar (in "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes")
- Canção do Vai... e Vem (in "Os Vampiros")
- Canção Longe (in "Baladas e Canções")
- Cantigas do Maio (in "Cantigas do Maio")
- Canto Moço (in "Traz Outro Amigo Também")
- Chamaram-me Cigano (in "Cantares do Andarilho")
- Endechas a Bárbara Escrava (in "Cantares do Andarilho")
- Era um Redondo Vocábulo (in "Venham Mais Cinco")
- Escandinávia Bar-Fuzeta (in "Galinhas do Mato")
- Fui à Beira do Mar (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- Fura Fura (in "Fura Fura")
- Já o Tempo se Habitua (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- Maio, Maduro Maio (in "Cantigas do Maio")
- Maria (in "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes")
- Menino d'Oiro (in "Os Vampiros")
- Menino do Bairro Negro (in "Os Vampiros")
- Mulher da Erva (in "Cantigas do Maio")
- No Comboio Descendente (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- No Largo do Breu (in "Os Vampiros")
- Ó Minha Amora Madura (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- O Pastor de Bensafrim (in "Baladas e Canções")
- Os Bravos (in "Baladas e Canções")
- Os Vampiros (in "Os Vampiros")
- Quanto é Doce (in "Fura Fura")
- Que Amor Não me Engana (in "Venham Mais Cinco")
- Saudades de Coimbra (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
- Traz Outro Amigo Também (in "Traz Outro Amigo Também")
- Tu Gitana (in "Galinhas do Mato")
- Vejam Bem (in "Cantares do Andarilho")
- Venham Mais Cinco (in "Venham Mais Cinco")
- Verdes São os Campos (in "Traz Outro Amigo Também")
- Vira de Coimbra (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
Fui à Beira do Mar
Letra, música e voz: José Afonso
Fui à beira do mar
Ver o que lá havia;
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia:
"Ó cantador alegre,
Que é da tua alegria?
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria!"
Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"
Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia;
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia.
Desde então a bater
No meu peito, em segredo,
Sinto uma voz dizer:
"Teima, teima sem medo!"
Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"
Antes de mais, devo confessar que nem tudo o que tenho ouvido da boca do Sr. Rui Pêgo em resposta às questões formuladas pelo Sr. Provedor me têm agradado, mas registo com satisfação o anúncio de uma maior atenção na Antena 2 para o teatro radiofónico e para outros conteúdos no campo das artes e do conhecimento. Estaremos cá para ver! Agora fico bastante apreensivo quando Rui Pêgo vem falar em "radio art", a propósito de teatro e de arte, porque não vejo qualquer relação entre a arte em geral e as colagens caóticas e assaz enfadonhas de excertos de programas em várias línguas, que passaram a pontuar as madrugadas de fim-de-semana da rádio clássica. Não sei de quem partiu a ideia de chamar "radio art" a esses produtos intragáveis, mas quem quer que seja devia ter uma noção bastante bizarra do conceito de arte. Indo agora ao assunto que me impeliu a escrever, e dado que o Sr. Rui Pêgo não se tem dignado responder às cartas que lhe tenho endereçado, peço ao Sr. Provedor o especial favor de o questionar sobre os pequenos e grandes formatos musicais da Antena 1. Gostava que o director de programas do principal canal generalista da rádio pública portuguesa me desse uma razão plausível e admissível para o facto da música anglo-americana, além de um pequeno formato – "Outras Histórias da Música" (Pop/Rock) –, ter também um grande formato – "Ondas Luisianas" – de duas horas semanais e em dose dupla (depois da meia-noite de sexta-feira e sábado à tarde) e isso não acontecer relativamente às músicas da portugalidade (fado e música de matriz tradicional) e da latinidade, sintomaticamente restringidas a mini-formatos, quais ilhotas perdidas no largo oceano. Sendo a Antena 1 uma rádio portuguesa, e ainda por cima pública, não consigo entender esta estranha situação. Será que na britânica BBC Radio e na americana National Public Radio as músicas matriciais anglo-saxónicas estão também reduzidas a formatos de cinco minutos de duração diária e os grandes formatos são reservados à música portuguesa e lusófona? Quero que fique bem claro que não estou a pôr em causa o programa "Ondas Luisianas" e o seu autor, Luís Filipe Barros. Digo isto perfeitamente à vontade porque até gosto do programa, sobretudo da segunda hora. Só não consigo entender, nem aceitar, que não haja programas similares na Antena 1 dedicados às músicas mais autênticas do mundo lusófono e latino que, como todos sabemos, são deliberadamente excluídas da 'playlist'. Os mini-formatos "Cantos da Casa" (música tradicional), "Alma Lusa" (fado) e "Júlio Isidro" (música latina) têm mostrado que não é por falta de material que não existem grandes formatos nessas áreas musicais. E também não é certamente por questões orçamentais porque nas antenas internacionais da RDP há bons programas que podiam ser aproveitados para a grelha da Antena 1, e para grande proveito dos ouvintes residentes em Portugal continental e insular. Então, qual será a razão? Com os melhores cumprimentos,
No início do ano, a grelha da Antena 2 voltou a ter novas mexidas que me merecem alguns comentários. Em primeiro lugar, começo por me congratular com a mudança de "Questões de Moral" e de outros programas de autor para as 23:05 horas (em vez da meia-noite como acontecia até agora) sendo repetidos às 12:00 no dia homónimo da semana seguinte. Positivo é também os programas que tinham periodicidade quinzenal passarem a ter periodicidade semanal e alguns programas do fim-de-semana como "Em Sintonia com António Cartaxo" ou "Um Certo Olhar" que, até agora, eram emitidos uma única vez, passarem a ter outra transmissão (às 16 horas, durante a semana), o que dá mais possibilidades de audição a ouvintes com hábitos de escuta e disponibilidades de tempo diferentes. Outra alteração que considero positiva, foi a criação de mais um espaço para a transmissão de concertos – "Salão Nobre" (de segunda a sexta-feira, 14:00) – que conjuntamente com o "Grande Auditório" (de segunda a sexta-feira, 21:00), dá aos melómanos uma oferta muito razoável da música que se vai tocando nos principais festivais e recitais, quer estrangeiros quer nacionais. Saúdo também o regresso de um programa de ciência – "Laboratório" (domingo, 13:30) – e também de uma nova rubrica de poesia – "Voz Alta" (de segunda a sexta-feira, 23:00) – na qual os nossos poetas dizem poemas da sua lavra. Já tinha chamado a atenção para o facto da única rubrica de poesia até agora existente na rádio pública – "Os Sons Férteis" – passar apenas uma vez por dia (às 11:00) e não ser repetida (sobretudo a pensar nos ouvintes não informatizados) e, nessa medida, é de saudar que a poesia recitada tenha agora mais um cantinho na Antena 2 (na Antena 1 é que continua a faltar!). Ainda em maré de coisas positivas, devo confessar a minha satisfação pelo surgimento de um novo programa de evocações – "Além Tempo", de Luís Ramos (sábados, 12:30) –, que vem colmatar a lacuna que se fazia sentir desde meados de 2005, quando foi inexplicavelmente extinto o programa "Evocações". E pelo que me foi dado ouvir até agora, também me agradaram os novos programas de autor de temática musical: "Caleidoscópio", de Luís Ribeiro (sábados, 21:00; segundas, 16:00); "Memória do Som", de Piñeiro Nagy (domingos, 21:00; quartas, 16:00); "Cosmorama", de Alexandre Branco e Ana Telles (terças, 12:00, 23:05). Já não posso dizer o mesmo de "Fuga da Arte" (sábados, 24:00) e de "Vias de Facto" (domingos, 24:00), dois programas que, pelos tipos de música neles contemplados, estão totalmente deslocados na Antena 2 constituindo autênticas aberrações na grelha. Aliás, existe uma clara dualidade de critérios quando se extingue o "Café Plaza", por alegadamente passar música não adequada à Antena 2 e se mantém programas com músicas que, além de destoarem na rádio clássica, ferem a sensibilidade e o gosto de boa parte dos ouvintes. Também não gostei que o programa "Páginas de Português" que era transmitida à hora de almoço de domingo (13:30) tenha sido catapultado para as 17:00, um horário muito mais ingrato. E lamento também – e profundamente – a não continuação de "Páginas Esquecidas", de Ana Paula Ferreira, que para mim era a rubrica mais interessante da Antena 2, logo a seguir ao apontamento de poesia e música de Paulo Rato. A este propósito, não posso deixar de manifestar o meu descontentamento pela desvalorização / marginalização que a cultura humanística fora do universo musical vem sofrendo na Antena 2. Vejamos: além das duas rubricas de poesia e dos programas "Questões de Moral" (reflexão), "Páginas de Português" (língua portuguesa) e "Lugar ao Sul" (cultura tradicional) e, em parte, "A Força das Coisas" (magazine de Luís Caetano), tudo o mais são espaços de entrevista (ou de comentário) e pequenos formatos sobre a actualidade cultural (novidades discográficas, novidades literárias, filmes em estreia, peças em cena, exposições, concertos). É importante que haja entrevistas e espaços sobre os eventos culturais que vão acontecendo no país, mas o serviço público de rádio pressupõe algo mais: aproveitar as potencialidades e peculiaridades da rádio para a produção / divulgação de conteúdos nos vários campos do Saber e das Artes. Neste contexto, é pertinente referir a História, a Literatura e o Teatro, áreas em que rádio podia desempenhar um importante papel e nalgumas situações até insubstituível. E tudo isso podia ser feito a custo zero pois bastaria fazer uso do riquíssimo arquivo histórico, um acervo imenso mas quase totalmente inexplorado. Convém lembrar que nesse arquivo, quer a História, quer a Literatura, quer o Teatro, têm uma larga e profusa representatividade. Começando pela História, faço uma referência muito especial a uma extraordinária série de programas da autoria de Maria João Martins intitulada "Na Máquina do Tempo" que, de uma forma muito aliciante, nos mostrava o lado menos institucional e escolástico de vários temas da História de Portugal. Ainda guardo uma gratíssima memória, pelo encantamento que me causou e pelo muito que aprendi, de um programa dedicado à evolução histórica daquele que é talvez o maior mito português – o sebastianismo. Ainda neste âmbito, tenho também de referir os ciclos temáticos que se fizeram sobre acontecimentos marcantes e figuras de relevo da História da Humanidade – escritores, poetas, dramaturgos, artistas, pensadores, cientistas, exploradores, estadistas, filantropos. Depois do ciclo que em 2005 foi dedicado a Bocage, a propósito dos 200 anos da morte do poeta, e com excepção de um programa sobre Rembrandt em meados de 2006, nada mais existiu, o que constitui uma grave omissão do serviço público. Por que motivo não se resgatam do arquivo esses conteúdos, a exemplo do que tem sido feito com as gravações musicais? E isto aplica-se, com igual propriedade, ao teatro radiofónico e a programas de divulgação / fruição literária. Já tratei do teatro no texto em que prestei o meu modesto tributo a Eduardo Street e, por isso, cumpre-me mencionar agora a leitura de livros. Por que razão não se dá a ouvir o que de melhor se fez neste campo? Por exemplo: "A Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach" lida por Carmen Dolores; as "Viagens na Minha Terra", lida por Carlos Acheman; a "Peregrinação" (de Fernão Mendes Pinto), esta com uma soberba leitura de José Mário Branco numa magnífica realização de Margarida Lisboa). Eu iria até mais longe: a RDP prestaria um relevante serviço cultural ao país se procedesse à edição de audiolivros, que até poderia ser feita em parceria com um jornal de circulação nacional e/ou em protocolo com o Instituto do Livro e das Bibliotecas e com o Ministério da Educação, com vista à sua distribuição pela rede de bibliotecas públicas e pelas escolas do ensino básico. E se isto é verdade para a ficção, não deixa de o ser também para a poesia recitada e para o teatro radiofónico, um património de uma extraordinária riqueza no arquivo histórico e de uma valia inestimável mas escandalosamente desaproveitado. Numa altura em que se fala tanto de conteúdos áudio e vídeo, de que é que a rádio pública está à espera quando tem à sua disposição o maior e mais rico acervo fonográfico existente em Portugal? É altura do arquivo da RDP deixar de ser encarado como um cemitério – como apropriadamente lhe chamou Adelino Gomes – e que as preciosidades que lá existem sejam resgatadas para a luz do dia, quer através de edições discográficas, quer com a colocação na internet. No tocante a edições discográficas, já se começou a fazer alguma coisa (a caixa com obras de Fernando Lopes Graça é uma iniciativa muito louvável), mas na área dos registos não musicais ainda nada foi feito. Para mim, constitui um crime contra a memória e contra a cultura deixar o valiosíssimo arquivo histórico da RDP a apodrecer sob o pó do esquecimento, sem que ninguém dele possa tirar proveito. Porque só se ama o que se conhece e um arquivo fonográfico que não é dado a conhecer e não é fruído é como um livro que permanece fechado e não é lido. É como se não existisse, só que no caso do arquivo sonoro houve um investimento de dinheiros públicos em suportes de gravação e respectiva conservação que importaria fazer render (em todos os sentidos). E depois há a questão dos cidadãos cegos ou com deficiência visual de quem a rádio pública se parece ter esquecido. Volto a lembrar que tanto o teatro radiofónico como a leitura de livros são duas modalidades especialmente úteis aos invisuais que não podendo usufruir dos meios visuais (livros, televisão, artes cénicas, etc.) e ou não tendo acesso a literatura em Braille ou audiolivros (ainda há muitas bibliotecas públicas que os não disponibilizam) é legítimo que possam encontrar na rádio resposta às suas necessidades culturais.
Antes de mais, começo por me solidarizar com Jorge Rodrigues, o autor e apresentador do programa "Ritornello" pois tenho o grande prazer e proveito de pertencer ao vasto auditório que costuma ouvi-lo ao fim da tarde, na Antena 2. Além de ser um profissional de alto gabarito e um grande conhecedor do repertório erudito e respectivos intérpretes, Jorge Rodrigues possui também uma das melhores vozes da Antena 2, coisa nada despicienda numa rádio onde o serviço de locução sofreu nos últimos tempos uma acentuada degradação. A somar a isso, os convidados que criteriosamente escolhe para levar ao estúdio representam um motivo de acrescido interesse para o ouvinte por lhe permitir desvendar o lado menos institucional e menos cinzento das figuras públicas, designadamente através das suas escolhas musicais. Foi através do "Ritornello" que fiquei a conhecer os gostos musicais de figuras tão importantes como Eugénio de Andrade, Mário Cláudio ou José Saramago, entre outras. E jamais esquecerei a emissão em que participou, via telefone, de D. Mécia de Sena, viúva de Jorge de Sena, emissão essa especialmente dedicada aos magníficos poemas alusivos a obras-primas da música erudita ("Variações Goldberg" de Bach, "Requiem" de Mozart, etc.) que o grande poeta escreveu no livro "Arte de Música". Por tudo isto, não posso compreender, e ainda menos aceitar, a proibição imposta a Jorge Rodrigues de fazer entrevistas no seu programa, restringindo-o à função de tocador de CDs. Em primeiro lugar, e sem pôr em causa a autoridade da direcção na definição das linhas orientadoras da programação, compete à mesma direcção respeitar a liberdade e a autonomia dos realizadores no exercício do seu métier. Ora o "Ritornello" é um programa de autor e ainda por cima em directo e, como tal, faz todo o sentido que o realizador tenha a liberdade de poder contar com a participação, presencial ou à distância, de pessoas que, a seu ver, possam dar um contributo válido para a valorização do serviço público. Neste sentido, a limitação imposta pela direcção, além de descabida, parece-me abusiva e, indubitavelmente, lesiva da dignidade e do brio profissional do autor do programa. Em segundo lugar, estamos a falar, nem mais nem menos, do programa de maior audiência da Antena 2, facto que deve ser salientado e enaltecido porque conseguido por mérito do autor e sem descer na fasquia de qualidade e sem cedências à mediocridade. E se o programa regista tão altas audiências é porque os exigentes ouvintes da Antena 2, a par da música, também apreciam as conversas que Jorge Rodrigues entabula com os seus convidados, pormenor que a direcção devia ter em conta. A menos que Rui Pêgo queira ter a pretensão paternalista e arrogante de achar que os ouvintes estão errados e que ele, na sua superior infalibilidade, é que sabe o que é bom para eles. Em terceiro lugar, não consigo entender a razão para, de um momento para o outro, não poder haver entrevistas no "Ritornello" quando elas existem no programa congénere do período da manhã, o "Império dos Sentidos". Com que critério e fundamento é que Rui Pêgo quer banir as entrevistas na viagem de regresso do emprego e as mantém na viagem de ida para o mesmo? A meu ver, a audição de uma entrevista faz muito mais sentido na viagem de regresso porque, em princípio, o ouvinte já não tem a pressa e a azáfama de chegar a tempo ao emprego e, como tal, pode dispensar outro tempo e atenção à audição de uma conversa. Como tal, o argumento apresentado por Rui Pêgo ao Correio da Manhã de um alegado servilismo não tem a mínima consistência e razoabilidade porque se Jorge Rodrigues dá voz a pessoas que criticam o Governo e as suas opções para a Cultura não seria eticamente aceitável que não desse oportunidade a representantes do Governo para exporem também as suas razões. É assim que as coisas funcionam em democracia, mas Rui Pêgo (e a administração que o mandatou) parece não perceberem essa coisa elementar. Ou será que a direcção da RDP para não ser acusada de alinhamento com o Governo (a exemplo do que tem acontecido com a televisão pública), se apressou a aproveitar este caso para fazer um frete encapotado ao Governo, calando na rádio pública as vozes incómodas? Em qualquer dos casos, estamos em presença de uma atitude claramente censória, que jamais se poderá aceitar num regime em que a liberdade de expressão está constitucionalmente consagrada e, ainda por cima, tratando-se de um órgão de comunicação social público. Não obstante, não descarto a hipótese deste caso ser um pretexto com outros fins pérfidos que publicamente não se quer assumir. Quer me parecer que o condicionamento imposto a Jorge Rodrigues e o ataque à sua dignidade profissional, tenha o propósito velado e não assumido de o irradiar de antena, o que aliás não seria caso inédito (veja-se o que aconteceu a Rui Dias José, Graça Vasconcelos, António Cardoso Pinto e Francisco Sena Santos). E não digo isto por mera especulação, já que a amputação da segunda hora do "Ritornello", em Setembro passado, representa por si só um desinvestimento no programa por parte da direcção e uma clara afronta ao seu autor, o qual já fora desconsiderado – é bom não esquecer – quando extinguiram o seu "Operamania" e não lhe entregaram o programa substituto, o "Cantabile". Estou em crer que o que se está a passar com o "Ritornello" se insere na estratégia da terra queimada, que passou a vigorar na Antena 2, com a extinção de programas modelares e a irradiação dos melhores profissionais para dar lugar aos tais mancebos 'imberbes' e a alguns colaboradores externos perfeitamente dispensáveis e supérfluos. Por tudo isto, enquanto cidadão e ouvinte da Antena 2, não posso deixar de repudiar o ataque ao grande profissional que é Jorge Rodrigues e ao seu (e nosso) "Ritornello".
É hábito as televisões portuguesas, na quadra natalícia, melhorarem a grelha sobretudo com a exibição de filmes e a transmissão concertos de música. A RTP-1 também cumpriu a tradição, mas no caso da música portuguesa fê-lo da pior maneira. Começo pelos horários: Marco Paulo, Tony Carreira e Anjos passaram em horário nobre enquanto que José Mário Branco, João Braga e Camané foram atirados para a madrugada. Por exemplo, o concerto de José Mário Branco que teve como convidados nomes tão importantes como Fausto Bordalo Dias, Júlio Pereira, Filipa Pais e José Peixoto passou – pasme-se! – depois das 2:30 da madrugada. Desconheço qual o critério usado pela direcção de programas da RTP-1 para a desigualdade de tratamento dada aos vários artistas da nossa praça, mas partindo do pressuposto que pesou uma suposta maior popularidade de uns em relação a outros, então a televisão pública prestou um péssimo serviço público. A televisão pública não pode nem deve andar atrás de audiências mas tão-somente procurar apresentar o melhor serviço que está ao seu alcance. Nem vou ao ponto de dizer que nomes como Marco Paulo, Tony Carreira e Anjos (incluindo todos os 'Pimbas' que costumam marcar presença nos programas da manhã e da tarde) não devem ter lugar na televisão pública mas já não posso aceitar, de forma alguma, a marginalização de que cantores / intérpretes de créditos firmados e de qualidade incontestada vêm sendo alvo. E digo isto não tanto pela consideração de que tais artistas são credores, mas apenas pelo respeito que a direcção de programas da RTP-1 devia ter pelos telespectadores seus apreciadores. Assim fica-se com a ideia que de que para a televisão estatal só interessam os apreciadores de Marco Paulo, Tony Carreira, Anjos e afins enquanto que os demais telespectadores não contam para nada. Ou servirão apenas para pagar a taxa do audiovisual? E como se isto não bastasse, constata-se ainda que muitos artistas de qualidade reconhecida (entre os quais algumas figuras de referência da música portuguesa) nem sequer têm acesso à televisão do Estado, mesmo em horários esconsos, o que me parece muito grave. Por que motivo os telespectadores da televisão pública não podem ver / ouvir uma Mísia, uma Aldina Duarte, uma Ana Laíns, uma Amélia Muge, um Pedro Barroso, um Vitorino, um Janita Salomé, um Eduardo Ramos, um Rão Kyao, um Júlio Pereira, um Pedro Caldeira Cabral, um José Peixoto, um Pedro Jóia, uns Frei Fado d'El Rei, isto para já não falar em tantos e bons agrupamentos de música folk / tradicional – Aqua d'Iris, At-Tambur, Belaurora, Brigada Victor Jara, Canto da Terra, Charanga, Chuchurumel, Contrabando, Danças Ocultas, Dar de Vaia, Dazkarieh, Gaiteiros de Lisboa, Galandum Galundaina, Lúmen, Maio Moço, Mandrágora, Marenostrum, Melodias do Vento, Moçoilas, Modas ao Luar, Mu, José Barros e Navegante, Nem Truz Nem Muz, Ódagaita, Pedra d'Hera, Popularis, Quadrilha, Real Companhia, Realejo, Roda Pé, Roldana Folk, Ronda dos Quatro Caminhos, Rosa Negra, Segue-me à Capela, Som Ibérico, Terrakota, Trovas à Toa, Vá-de-Viró, Vai de Roda. Não competiria à televisão que todos financiamos dar a conhecer ao grande público o que de melhor se faz em Portugal em matéria de música popular? Será razoável que o dinheiro dos contribuintes seja desbaratado com os produtos de mais baixo nível, e se sonegue o que tem mais qualidade e autenticidade? Uma das atribuições do serviço público de televisão não é a promoção da língua e cultura portuguesas? Ou será que o Sr. Nuno Santos entende que a música pimba e a música de cassete pirata são o que melhor representa a cultura portuguesa?
Nesta hora de tristeza para todos quantos amam o teatro, e especialmente o teatro via rádio, não podia deixar de prestar a minha singela homenagem a Eduardo Street, pelo muito que fez enquanto viveu pela arte de Talma. Além das dezenas e dezenas de peças e folhetins que realizou para a antiga Emissora Nacional e, depois do 25 de Abril de 1974, para a RDP, Eduardo Street deixou-nos ainda o livro "O Teatro Invisível" [>> artigo no blogue "Indústrias Culturais"], um documento precioso para quem desejar conhecer a História do Teatro Radiofónico em Portugal e as figuras – actores, autores e realizadores – que a protagonizaram. Escusado será dizer que Eduardo Street será um nome incontornável sempre que se falar do teatro radiofónico português. Mas agora o melhor que se pode fazer pela sua memória é não deixar morrer o teatro na rádio. É importante não esquecer que o teatro radiofónico (e televisivo) é a única forma de quem vive onde não há teatro de a ele ter acesso. Todavia, quer a televisão quer a rádio portuguesas estão a pecar – e muito – nesta área da prestação de serviço público. No caso da rádio, a situação é verdadeiramente confrangedora, pois depois de algumas experiências mal conseguidas e de mau gosto nos primeiros meses deste ano, passou a reinar o vazio. Ora a rádio, enquanto veículo da oralidade, é o meio privilegiado para a divulgação dos grandes textos dramáticos. A atenção do ouvinte não está dispersa por vários sentidos estando toda concentrada num único – a audição – podendo deste modo potenciar a fruição das palavras em toda a sua profundidade e pluralidade de sentidos. No palco e na televisão, o teatro é, em certa medida, um produto acabado que não deixa grande espaço à imaginação do espectador. Já o teatro radiofónico – e aqui assemelha-se à leitura – deixa total liberdade ao ouvinte para construir o seu próprio imaginário. Não existindo a componente da comunicação visual, os actores só podem contar com as suas vozes para transmitirem, com as cambiantes que lhes souberem imprimir, as emoções, os estados de alma e, enfim, o carácter e o perfil psicológico das personagens que incarnam. Por outro lado, o teatro, enquanto arte por excelência da oralidade, tem ainda a enorme relevância de nos mostrar a correcta pronúncia da língua portuguesa padrão. E atendendo ao mau português que se vai ouvindo, maior é a importância de haver teatro radiofónico. Aliás, no caso dos invisuais, essa é a única modalidade que se lhes apresenta de fruírem da arte teatral. Não estará a rádio pública a negar-lhes esse legítimo direito, sendo também eles contribuintes do serviço público?
Urge pois que a rádio pública portuguesa, seguindo o bom exemplo da BBC, colmate a grave lacuna no tocante ao teatro, já não digo com a produção de peças novas mas, pelo menos, com a transmissão do que de melhor existe – e é muito – no arquivo histórico da RDP, designadamente as obras-primas dos grandes autores dramáticos desde os gregos (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes) até ao teatro do absurdo (Beckett, Ionesco) passando por Shakespeare, Lope de Vega, Calderón de la Barca, Corneille, Molière, Racine, Marivaux, Goldoni, Beaumarchais, Schiller, Ibsen, Strindberg, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Tchekov, Pirandello, Federico García Lorca, Brecht, Eugene O’Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Jean Anouilh, sem esquecer os nossos Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, António Ribeiro Chiado, António Ferreira, Luís de Camões, António José da Silva, Almeida Garrett, Raul Brandão, António Patrício, Alfredo Cortez, Luís de Sttau Monteiro e Bernardo Santareno.
Remato com um eloquente texto da autoria do dramaturgo mexicano Victor Hugo Rascón Banda que a grande Eunice Muñoz leu no Teatro Maria Matos, no último Dia Mundial do Teatro:
«O teatro comove, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. É uma conversa partilhada com a sociedade.
O teatro é a primeira das artes que se confronta com o nada, as sombras e o silêncio para que surjam a palavra, o movimento, as luzes e a vida.
O teatro é um facto vivo que se consome a si mesmo enquanto se produz, mas que renasce sempre das cinzas. É uma comunicação mágica em que cada pessoa dá e recebe algo que a transforma.
O teatro reflecte a angústia existencial do homem e desvenda a condição humana. Não são os seus criadores quem fala através do teatro: é a sociedade do seu próprio tempo.
O teatro tem inimigos visíveis: a ausência de educação artística na infância, que impede de descobri-lo e gozá-lo; a pobreza que invade o mundo, afastando os espectadores das salas; e a indiferença e o desprezo dos governos que devem promovê-lo.
No teatro já falaram os deuses e os homens, mas agora é o homem que fala aos outros homens. Por isso, o teatro tem de ser maior e melhor do que a própria vida. O teatro é um acto de fé no valor da palavra sensata num mundo demente. É um acto de fé nos seres humanos que são responsáveis pelo seu destino.
É preciso viver o teatro para entender o que nos está a acontecer, para transmitir a dor que está no ar, mas também para vislumbrar um raio de esperança no caos e no pesadelo do quotidiano.» (Victor Hugo Rascón Banda)
Adenda (em 28-12-2006):
Recomenda-se também a leitura do texto de Carlos Pinto Coelho no blogue "Sorumbático".
O blogue "A Nossa Rádio" orgulha-se igualmente de disponibilizar a edição do programa "Agora... Acontece!" em que Carlos Pinto Coelho entrevistou Eduardo Street, por ocasião do lançamento do livro "O Teatro Invisível: História do Teatro Radiofónico".
"Agora... Acontece!" N.º 379, de 26-Jun-2006
Eduardo Street entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 27':30'']
Capa do livro "O Teatro Invisível: História do Teatro Radiofónico" (Página 4, 2006)
Giotto di Bondone, "Natividade", 1306, fresco, Cappella dell'Arena (Cappella degli Scrovegni), Pádua
NATAL
Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.
Poema de Miguel Torga (in "Diário X", Coimbra: Edição do autor, 1968; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2002) Recitado pelo autor (in LP "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", EMI-VC, 1986, reed. EMI-VC, 2000)
Quem acompanha com alguma atenção a emissão da Antena 1, certamente já se deu conta da fraca presença de programas de autor, designadamente de temática musical. E quando falo de programas musicais de autor estou a referir-me a espaços alargados em que os temas / músicas seleccionadas fujam à lógica da 'playlist' e em que haja uma contextualização dos intérpretes, compositores e autores. A Antena 2 faz isso nas áreas da música clássica, do jazz e da música étnica. Esperar-se-ia que na Antena 1 acontecesse algo de semelhante para a música de qualidade de cariz mais popular, mas constata-se um flagrante défice do principal canal generalista da rádio estatal nesse domínio. Actualmente, temos "A Menina Dança?", de José Duarte (jazz e swing), "Ondas Luisianas", de Luís Filipe Barros (pop/rock dos anos 60, 70 e 80), "Vozes da Lusofonia", de Edgar Canelas (apresentação de novos discos), "Viva a Música", de Armando Carvalhêda (música portuguesa ao vivo), e "Lugar ao Sul", de Rafael Correia (cultura tradicional). Todos eles são bons programas, isso está fora de questão. Mas temos de admitir que é muito pouco, ademais tratando-se de programas de periodicidade semanal. Atendendo à prevalência imperial da 'playlist' que o próprio José Nuno Martins reconheceu quando se pronunciou sobre a programação musical da Antena 1, é inquestionável que devia haver mais espaços de autor que contemplassem de forma cabal e razoável os diversos estilos e géneros musicais a que um canal de serviço público deve prestar uma atenção muito particular. E neste âmbito tem de se referir obrigatoriamente a música popular portuguesa (tradicional e de autor), o fado, a música latina e também as músicas do mundo de cariz não estritamente étnico. Volto a lembrar que as pequenas rubricas dedicadas a algumas destas áreas, que existem na actual grelha da Antena 1, em razão da sua diminuta duração, são claramente insuficientes para corresponder às legítimas expectativas dos segmentos do auditório apreciadores dos géneros musicais nelas tratados. Como tal, urge que surjam espaços de outro fôlego que possam constituir pontos de referência para todos os cultores de boa música popular em cada uma das diversas linguagens estéticas. E para tal nem seria necessário recorrer à colaboração externa (como acontece na Antena 2) pois bastaria aproveitar o capital humano da RDP, quer da Antena 1 quer das demais antenas. Sem prejuízo da criação de novos programas, não vejo nenhuma razão plausível para que a Antena 1 não inclua na sua grelha alguns dos melhores programas dos canais internacionais – RDP-Internacional e RDP-África –, aliás como estes fazem com alguns programas originalmente emitidos na Antena 1. Tratando-se de canais financiados com o dinheiro dos contribuintes há todo o interesse em que os recursos sejam potenciados ao máximo e, nessa medida, ao cidadão português que resida em território nacional (continental ou insular) deve ser dada a possibilidade de ouvir por via hertziana os programas das antenas internacionais que são referências de qualidade e de indiscutível interesse geral. "A Guitarra Portuguesa e o Fado" (RDPi) e "A Hora das Cigarras" (RDP-África) são dois bons exemplos de programas desse tipo que enriqueceriam de forma significativa a grelha da Antena 1 e, ainda por cima, a custo zero. E já agora aproveito para fazer referência a outro excelente programa de autor patrocinado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia: o "Agora... Acontece!", da autoria de Carlos Pinto Coelho. Este notável programa cultural é cedido gratuitamente a todas as emissoras de rádio que o solicitem mas mesmo assim ainda há muitas estações locais e regionais que o não transmitem (vá-se lá saber porquê?), pelo que muitos cidadãos deste país ficam impossibilitados de o ouvir. Nessa medida, a inclusão do "Agora... Acontece!" na grelha da Antena 1, além de enriquecer a sua programação, constituiria ainda o relevante serviço público de fazer chegar um bom programa a muitos ouvintes que a ele não tem acesso por via hertziana.
Atendendo a que é responsável pela gestão dos arquivos da RDP e também pela manutenção do site, tomei a liberdade de lhe apresentar algumas questões que julgo pertinentes. Começando pela rubrica "Os Sons Férteis", de que sou um grande apreciador, gostaria imenso que o arquivo online integrasse todo o histórico e não apenas desde 15 de Maio de 2006, altura em que foi criado o serviço. A poesia de qualidade não é algo que se desactualize ou que passe de moda e, por isso, a disponibilização online do acervo integral do excelente apontamento de Paulo Rato passaria a constituir uma página de referência e de visita obrigatória a todos os cultores de poesia recitada. Porque se a poesia ficar oculta e silenciosa lá no arquivo sonoro da RDP ninguém dela poderá tirar proveito, seja aqueles que gostariam de voltar a ouvir determinados poetas / poemas, seja os mais jovens que assim teriam a oportunidade de fruir, pela primeira vez, de um importante manancial de poesia dita. Aliás, "Os Sons Férteis" é apenas um exemplo de excelentes rubricas e programas (actuais e do passado) cujos acervos integrais importaria colocar na internet. Dos programas actualmente em antena, e para não ser fastidioso, cito apenas "Questões de Moral", "Lugar ao Sul" ou o seu "Rua do Capelão". No blogue A Nossa Rádio já tive oportunidade de inventariar uma série de programas de indiscutível interesse, quer para a fruição pelo vulgar ouvinte quer como material pedagógico e didáctico para docentes e estudantes do ensino básico e secundário. Numa altura em que a internet e as ferramentas multimédia são um recurso cada vez mais utilizado no ensino, penso que a RDP não se devia alhear desse processo, atendendo à extraordinária riqueza do seu acervo fonográfico. Também seria muito interessante que nesse arquivo online completo de "Os Sons Férteis" houvesse junto de cada fonograma um link para o respectivo poema sob a forma escrita, de modo a que o ouvinte pudesse acompanhar a audição com a leitura (a exemplo do guião do programa "Em Nome do Ouvinte"). Presumo que a grande maioria dos programas não sejam disponibilizados para download avulso ou podcasting devido ao facto de incluírem obras musicais sujeitas a direitos de autor. No entanto, constato que algumas rubricas e programas são disponibilizados para podcasting e não o são para download manual, coisa que não consigo compreender. É o caso, por exemplo, de "Figura de Estilo", de Luís Caetano e Ana Paula Ferreira, "Escrita em Dia", de Francisco José Viegas, e "O Amor é", de Júlio Machado Vaz. Penso que a par do download por assinatura deve ser proporcionada a possibilidade de download avulso, porque, por um lado, vai ao encontro das pessoas que embora tenham computador em casa não têm ligação à internet, podendo assim descarregar manualmente os seus programas preferidos num qualquer posto de internet e, por outro lado, não obriga a assinar o podcasting aos ouvintes que só ocasionalmente estão interessados em descarregar determinado programa. Também não vejo nenhuma razão para que certas rubricas e programas falados (por exemplo, "Lugar ao Sul", "1001 Escolhas", "À Volta dos Livros", "Vidas Que Contam", "Reportagem Antena 1") ou essencialmente de palavra com pequenos excertos musicais (por exemplo, "Questões de Moral") não sejam facultados para download manual e podcasting. No caso concreto do "Lugar ao Sul", bastaria retirar a música de disco e, desse modo, as gravações de campo já podiam perfeitamente serem disponibilizadas para descarregamento, o que agradaria de sobremaneira aos seus muitos fiéis ouvintes (eu incluído) que gostam de voltar a ouvir emissões mais antigas, sem terem obrigatoriamente de estar ligados à internet. Como os leitores de CD dos auto-rádios mais recentes já são compatíveis com MP3, as conversas de Rafael Correia pontuadas com as músicas e as poesias dos seus interlocutores passariam a ser mais uma excelente opção de escuta enquanto se conduz (ou mesmo em transportes públicos, por meio de um vulgar iPod). Relativamente à disponibilização de conteúdos da RDP, eu iria até mais longe: independentemente da oferta gratuita de rubricas e programas que não incluem obras musicais protegidas por copyright, nada obstaria que a Rádio e Televisão de Portugal facultasse tudo o resto mediante o pagamento de uma determinada quantia por cada fonograma, tal como acontece no download legal de ficheiros de música. Mas como a concretização das ideias apresentadas não dependerá inteiramente de si mas de instâncias superiores, achei por bem dar conhecimento desta carta ao Provedor do Ouvinte, na esperança de que ele se digne submeter o seu teor à sua apreciação. Com os melhores cumprimentos,
[Excerto de LUGAR AO SUL - Rafael Correia / Pastor José Lança]
Alberto Ramos – O moural do gado observa, devagar, o longe. Como sempre fez... Tudo é sossego: ovelhas e cães e terra. O pastor gosta assim da Natureza, a amanhecer, sem sobressalto. (Já lhe basta a noite, em que a zorra espreita o rebanho e não o deixa dormir a sono solto…) Mas ele que aprecia a Natureza plena! - O cantar do alcaravão e da perdiz e da raposa. Ah, a inteligência da raposa!... Então, imita-lhes as vozes, na perfeição.
[Excerto de LUGAR AO SUL - Rafael Correia / Pastor José Lança]
Isabel Bernardo – Este é um som que faz parte do mágico património dos sons da Radiodifusão Portuguesa. O som de uma simples conversa entre duas pessoas, conversas de que são normalmente feitos alguns dos mais notáveis Programas transmitidos na Antena 1, na Antena 2 e na RDP Internacional. José Nuno Martins – Os Ouvintes do Serviço Público habituaram-se há muito tempo a reconhecer o estilo especial de Rafael Correia. E de cada vez que surgem inovações na Programação, um grupo de fiéis seguidores das caminhadas e das paragens do "andarilho da Rádio" faz chegar sinais de inquietação quanto ao destino do Programa, que – ao longo de 25 anos – em diversas ocasiões, já foi alongado e reduzido na sua dimensão, já por várias vezes deslizou no horário de transmissão... IB – Agora "Lugar ao Sul" dispõe de uma diversificada grelha de emissão: além de uma hora semanal na Antena 1, aos Sábados às 9 da manhã – que é repetida no mesmo dia na RDP Internacional às 16:07, este mesmo Programa é novamente apresentado na Um, à meia-noite e 12 de Terça-feira. AR – Uma segunda hora de emissão é também emitida na Antena 2, às 13:07 de Sábado (ou seja, precisamente à mesma hora em que é estreado o Programa do Provedor do Ouvinte na Antena 1), sendo repetida às 17.00 na RDP Internacional. JNM – Ainda bem que assim é. Um Programa destes não pode terminar nunca e, pelo contrário, deve ser celebrado por quem o transmite e por quem o ouve. Uma Estação que – no século XXI – disponha de um Profissional que apenas gosta de fazer a Rádio "a pé" é certamente, uma Estação privilegiada, escreveu um Ouvinte. E tem razão: "Lugar Ao Sul" é um dos mais evidentes Sinais de Excelência do Serviço Público de Radiodifusão. AR – Um homem, vestido simplesmente e hoje com um pequeno gravador digital no bolso – um Homem da Rádio – sai da auto-estrada. Toma vias secundárias, apanha estradões municipais e, às vezes deixando o carro debaixo de uma árvore, aventura-se a pé pela serra abaixo ou ao longo de um ribeiro. Por caminhos sem alcatrão nem sinais, sobre lama e debaixo de chuva, ou ao sol abrasador de Alentejos e Algarves, aos ventos do Nordeste, ou à mansidão das Beiras. IB – Hoje mais concentrado no Sul, em 25 anos o Mestre da Rádio a pé já andou por esses montes e vales do país inteiro. Já meteu conversa nas ilhas dos Açores e da Madeira e até já foi atrás de bordados à moda de Viana em terras do Magreb. AR – Sabe sempre quem procura, este Homem do Gravador: procura gente simples, isolada no seu mundo isolado. Um pastor. Uma bordadeira. Um salineiro... IB – Nunca os viu antes. Nem os conhece. Mas alguém lhe terá dito que eram gente especial. E, sempre alheio a dificuldades e lonjuras, sempre arisco a honrarias ou protagonismos mediáticos, o Homem do Gravador avança persistentemente no seu próprio caminho. JNM – Mais nenhum Programa é como este, na Rádio em Portugal. É um Programa único, em que há 25 anos ficamos presos ao Homem do Gravador a conversar com pessoas que não conhece.
[Excerto de LUGAR AO SUL - Rafael Correia / Dona Inês, bordadeira de Peroguarda, concelho de Ferreira do Alentejo]
«Um dia te visitou sem rodeios sem enganos amou os alentejanos e foi aqui que ficou depois de ter percorrido tanta beleza que existe foi aqui que se prendeu amou até que morreu e quem ama não desiste escondeu-se na terra fria deste chão alentejano sepultado muito a sós mas permanece entre nós o seu nome soberano por isso, no teu cantar Peroguarda, sim, promete recordar com saudade e honrar com dignidade Michel Giacometti»
(Dona Inês, bordadeira de Peroguarda, onde está sepultado Michel Giacometti)
JNM – Rafael Correia tem a arte de ouvir porque sabe falar com quem fala. Ajusta-se a cada registo. Compreende cada silêncio. Respeita cada diferença. E sobretudo, ajuda-nos a imaginar onde estamos, com quem estamos e como estamos ali,... em cada um daqueles cenários de Rádio, feitos de sons da natureza ou da família,... em qualquer conversa nas quais nos transporta – com a fartura de simples advérbios de tempo, de lugar, de modo e de quantidade (tão significativos como os silêncios), como se todos os que o ouvem à conversa, estivessem também a ver aquele filme de Rádio…
[Excerto de LUGAR AO SUL - Rafael Correia / Salineiro, Castro Marim] JNM – Se ele quisesse, se ele deixasse, a sua vida dava um filme. Mas hoje não é ainda o momento de contar a sua incrível história. Quero apenas reflectir como Provedor, a intensa admiração que os Ouvintes sentem por este devotado Homem da Rádio e, sobretudo pelos exemplos que resultam dessa sua devoção. Repito por isso, o que já disse: "Lugar Ao Sul" de Rafael Correia é um Sinal de Excelência do Serviço Público de Radiodifusão. (José Nuno Martins, in "Em Nome do Ouvinte", 25-11-2006) Aplaudo efusivamente José Nuno Martins pelo destaque alargado que achou por bem dedicar ao programa "Lugar ao Sul" e ao seu autor, o carismático Rafael Correia, passados que já são 25 anos de emissões. Em rádio, um programa durar um quarto de século é uma raridade e neste caso a proeza deve-se inteiramente ao cunho magistral e inimitável de Rafael Correia, e que os seus ouvintes apreciam, admiram – e não dispensam. Na verdade, para muitos ouvintes (eu incluído) tornou-se um ritual litúrgico, aos sábados de manhã, ficar com o ouvido colado ao rádio a sorver as histórias, as músicas, as poesias, os adágios, os romances, os cantos e cantilenas, as lengalengas... com que Rafael Correia constrói retratos sonoros de uma beleza inaudita do Portugal profundo na sua vertente mais genuína mas esquecida e menosprezada pelos media e pelos poderes instituídos. Citando Manuel Pinto, professor do Departamento de Comunicação da Universidade do Minho, «Rafael Correia é daqueles que, de forma discreta e persistente, acham que mais vale acender uma luz do que maldizer a escuridão.» Lamentavelmente, nem todas as pessoas que têm passado pela direcção de programas da RDP-Antena 1 têm tido a clarividência de reconhecer isso mesmo e de tratar o programa como ele efectivamente merece. Desde a colocação em horários esconsos a amputações no tempo de emissão, vários têm sido os atropelos de que o "Lugar ao Sul" foi alvo durante o seu percurso na Antena 1, isto para já não falar numa real ameaça do cutelo que há uma série de anos pendeu sobre o programa e que só não se concretizou devido à forte contestação dos ouvintes. Por tudo isto, o enaltecimento que, em boa hora, o Provedor do Ouvinte faz do "Lugar ao Sul" e de Rafael Correia (aliás, já distinguido com um Prémio Gazeta de Mérito) vem completamente ao encontro do sentir do seu vasto e fiel auditório, auditório esse que desde meados de 2004 se tem dirigido insistentemente aos responsáveis da RDP (direcção e administração), mas que tem recebido como resposta a indiferença e o autismo. Embora a situação actual não seja a ideal, há que reconhecer que ultimamente o programa tem merecido uma maior consideração. Agora espero que o actual director de programas, Rui Pêgo, e os que se seguirem não voltem a cometer os erros e arbitrariedades usuais e que deixem o "Lugar ao Sul" prosseguir o seu caminho sem obstáculos porque é isso, afinal de contas, o que os seus ouvintes desejam. À parte os horários e os tempos de emissão, existem outros aspectos aos quais é importante prestar atenção, e de que, aliás, já tive o cuidado de repetidamente e enfaticamente dar conta às cúpulas da RDP em diversas cartas e exposições. Refiro-me à área geográfica em que Rafael Correia incide as suas recolhas e à importante questão do espólio sonoro e da sua acessibilidade e fruição. Quanto ao primeiro ponto, constata-se que nos últimos anos, Rafael Correia se tem confinado ao Algarve e ao Baixo Alentejo, ao contrário do que era habitual pois o Alto Alentejo, o Ribatejo e a Península de Setúbal eram regularmente visitados pelo andarilho da rádio. E, como muito bem referiu José Nuno Martins, as regiões a norte do Tejo e, inclusive, os arquipélagos atlânticos já foram calcorreados por Rafael Correia, creio que com o maior prazer e agrado da sua parte e não apenas em cumprimento de ordens vindas de cima. Assim sendo, presumo que não foi por sua vontade que deixou de fazer incursões fora do extremo sul de país, mas muito provavelmente por falta de meios financeiros postos à sua disposição (designadamente para combustível e outras despesas inerentes à deslocação). Sei que muitos ouvintes aceitariam de bom grado o alargamento da incidência geográfica das recolhas e, nessa medida, volto a formular este pedido à direcção e à administração da RDP no sentido de podermos voltar a contar com emissões de um Lugar ao Sul (do rio Minho). Acresce ainda que se reveste de relevante importância que o espólio do "Lugar ao Sul" fique com uma melhor representatividade de outras áreas geográficas, além do Algarve e do Baixo Alentejo, porque dentro de poucas décadas todo esse material vai revelar-se precioso para se conhecer boa parte da cultura popular portuguesa que irremediavelmente irá desaparecer. Portugal, ainda tem uma tradição oral muito rica e diversa que importa divulgar para que seja conhecida. Porque só se ama o que se conhece! E o património que assenta na transmissão oral só sobreviverá se as novas gerações lhe prestarem atenção e o valorizarem. A rádio pode dar um importante contributo nesse sentido. Quem melhor que Rafael Correia para o fazer? Além do mais, o "Lugar ao Sul" é, de entre os programas com apontamentos captados no exterior, um dos mais baratos porque feito do início ao fim por uma única pessoa, quer dizer, bem diferente dos programas feitos com uma equipa de produção e com um certo aparato de meios técnicos e logísticos. E como a rádio é por natureza efémera, o orçamento disponível para a produção de programas deve ser preferencialmente direccionado para aqueles que sendo formativos e agradáveis de ouvir no momento em que são emitidos também tenham a peculiaridade de serem documentos com interesse cultural e histórico, para memória futura. Ora o "Lugar ao Sul" insere-se indiscutivelmente nessa categoria de programas e embora seja feito propositadamente para a rádio, e sem as preocupações científicas da recolha etnomusicológica, nem por isso deixa de ter um importante valor cultural e científico. E isto remete imediatamente para a relevante questão do acervo fonográfico, pelo que se torna imperioso proceder à sua adequada preservação e – não menos importante – torná-lo acessível a todos os interessados, seja para trabalhos académicos nas áreas da etnologia e antropologia, seja para a pura e simples fruição auditiva. Segundo informações que me foram facultadas informalmente por fonte segura obtive a confirmação de um facto verdadeiramente inconcebível e imperdoável: o acervo do "Lugar ao Sul", no arquivo histórico da RDP, está desfalcado de boa parte dos registos dos anos 80, porque alguém teve a insana ideia de utilizar as bobinas dos programas já emitidos para efectuar outras gravações por cima, como se as recolhas de Rafael Correia não tivessem qualquer interesse para a posteridade. Sem prejuízo de se apurar e responsabilizar quem mandou executar tamanho crime de vandalismo cultural, importa agora salvaguardar o que existe e, se possível, colmatar as falhas. Sei que Rafael Correia tem o especial cuidado de guardar as gravações originais das suas recolhas, mas desconheço se ele já fez a cópia dos perecíveis registos em fita magnética para os novos suportes mais duradoiros. Em qualquer dos casos, urge que todo esse material seja digitalizado e colocado numa página da internet, e não como acontece actualmente em que, no arquivo online da RDP, apenas são disponibilizados os programas desde 28 de Abril de 2006. Se a Rádio e Televisão de Portugal não quiser alojar no seu site todo o histórico do "Lugar ao Sul", seria importante que, pelo menos, concedesse a necessária autorização a instituições científicas e académicas especialmente interessadas na matéria como, por exemplo, o IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (Universidade Nova de Lisboa). Adicionalmente, também seria muito importante que se fizesse o lançamento de uma colecção de CDs com as recolhas mais interessantes mormente de música, poesia e romances tradicionais. Tal iniciativa teria toda a vantagem em ser levada a cabo em parceria com um jornal de circulação nacional pois assim as tiragens poderiam ser maiores, logo o preço de venda ao público mais reduzido e, consequentemente, maior o número de adquirentes. Estou certo de que as propostas que acabo de apresentar são partilhadas por muitas pessoas desde conhecidas a anónimas. Como tal, fico na expectativa de que as mesmas sejam tomadas em consideração e não caiam, uma vez mais, em saco roto.
Lugar ao Sul: as nossas coisas, a nossa gente... e o melhor da música e da poesia de Portugal! RDP-Antena 1 – sábados, às 09 horas e segundas-feiras à meia-noite (reposição). Também no arquivo online. RDP-Antena 2 – sábados, às 13 horas. Também no arquivo online. RDP-Internacional – sábados, horário variável (reposição das emissões das Antenas 1 e 2).
«Chega hoje ao fim o primeiro grande dossier publicamente aberto pelo Provedor do Ouvinte acerca das ESCOLHAS MUSICAIS da principal Estação do Serviço Público de Radiodifusão, em face de generalizadas críticas dos Ouvintes que, a este respeito, nos chegam. Ao longo dos derradeiros seis Programas dei a conhecer o essencial das reclamações dos Ouvintes, divulguei a completa defesa escrita do Senhor Director de Programas à minha Indagação, pedi os pareceres de Peritos [Nuno Galopim, Pedro Pyrrait, David Ferreira, Alain Vachier] e Músicos [Pedro Osório, Manuel Freire, Vitorino Salomé], ouvi o testemunho de um Pensador e Professor Universitário [Eduardo Prado Coelho] e, por intermédio dos Provedores das Rádios Públicas do Brasil e de Espanha, conhecemos as estratégias seguidas pelos Profissionais dos Serviços Públicos naqueles países. Hoje o Provedor apresenta as suas próprias reflexões sobre a matéria. As mensagens que se relacionam com o tema das ESCOLHAS MUSICAIS representam mais de 11% de todas as que o Provedor recebeu nos últimos 102 dias e constituem mais do que um terço das que se referem expressamente à Programação da Antena 1. A questão das escolhas musicais propostas pela principal Estação de Rádio do Serviço Público nos espaços entre Programas, não é um assunto que possa ser menorizado. E os Ouvintes queixam-se quanto ao uso do sistema da Play List; quanto a critérios alegadamente redutores e excludentes que a Estação estará a utilizar no estabelecimento dessa Lista de Difusão; quanto à reduzida quantidade de Música de Autores portugueses; e quanto a uma invocada predominância de Música anglo-americana.
O Provedor vai analisar primeiro o uso do dispositivo da Lista. Até agora a Direcção de Programas da Antena 1 não dispunha de nenhum estudo sobre as percentagens realmente ocupadas pelas diferentes naturezas de conteúdos da sua Programação. Ou seja, não se conhece de modo seguro, qual é exactamente o grau de relevância atingido pelo conjunto das Canções da 'playlist' da Estação, no contexto global da Programação da Antena 1. Na verdade, é completamente diferente programar 13 ou 14 Canções para um espaço de uma hora e depois verificar que, dependendo dos tempos ocupados com Noticiário, pequenos Programas e Continuidade (horas, trânsito, meteorologia, jogos de antena, promoções e anúncios de discos, etc.), apenas se emitem 6, 7 ou 8 das Canções previstas. Era pois importante avaliar qual é realmente, do ponto de vista do Programador, o papel desempenhado pela Lista de Difusão, através da análise do peso percentual das Canções, relativamente aos restantes conteúdos da Antena 1. E, para a completa observação da matéria em causa, esta não é, seguramente, uma questão de somenos. Também por isso solicitei recentemente ao Senhor Director de Programas que procedesse a um cuidadoso levantamento destes tempos de emissão. Uma coisa seria estarmos a falar de um tempo residual (com meia dúzia de minutos por hora) no qual Canções dispersas constituem meros elementos de acerto horário entre as nuvens de pequenas unidades de Programação; e outra coisa será olhar para a Música como uma matéria de natureza intrinsecamente cultural, ocupando possivelmente, pelo menos 40% do tempo de transmissão de uma Emissora Pública. Julgo consensual que, para respeitar e servir o gosto dos Públicos, a escolha das Canções que são apresentadas na Rádio Pública deva reflectir equilibradamente, todas as tendências de gosto, todos os períodos, todas as paisagens, todas as intensidades e perfumes, enfim, se possível todos os modelos musicais de que se compõe o vasto mosaico virtual do imaginário dos Ouvintes, no que respeita à Música. Pensam os Ouvintes que me escrevem que – além das Canções que entram na Lista – a própria selecção de Autores e Intérpretes não possa ser negligenciada, neste processo, como parecia defender no seu texto o Senhor Director de Programas. A Música que uma Rádio passa – o exercício dos Autores e Cantores consagrados e dos novos Intérpretes – define o espírito com que ou a Estação se entrega universalmente, ou se preserva, em modelos próprios. Pode reflectir como um espelho, todo o País que a ouve. Como pode permanecer alheia às volições de quem a escuta. É sobre isso que alguns Ouvintes da Rádio de Serviço Público questionam o seu Provedor. Acerca da matéria, pedi opinião a gente também muito qualificada. A maioria dos Especialistas que ouvimos não recusa a utilização do dispositivo da Play List como ferramenta adequada, reconhecendo nele as virtualidades da racionalização de custos e da coerência que pode introduzir como elemento identitário da Estação e da Audiência. E sem qualquer dúvida, essa é também a minha opinião: a Lista de Difusão previamente estabelecida é – no Séc. XXI – um modelo apropriado para ajudar a definir a identidade musical de uma Estação de Rádio. Mas, nas abalizadas opiniões que recolhi, houve quem defendesse também o dispositivo complementar dos Programas de Autor, nos quais, segundo áreas de especialidade bem definidas, cabe ao Realizador assumir as suas próprias escolhas musicais, com modelos de apresentação personalizados, contextualizando informação adequada em torno da Música. É verdade que Direcção de Programas da Antena 1 também está a usar este procedimento. Usá-lo-á porventura, de modo demasiadamente mitigado, na forma e nos conteúdos. E talvez numa proporção reduzida, em relação à prevalência imperial da Lista de Difusão, previamente determinada por um órgão central de decisão. Mas, sem conhecer os dados quantitativos que estão a ser levantados nesta altura, não quero desenvolver este raciocínio. O que, sim, me cumpre acentuar é que, tanto nas reclamações dos Ouvintes, como na apreciação dos Expertos, se detecta algum desconforto relativamente à linearidade, digamos assim, com que a Música é tratada no sistema da Lista Difusão. Fora dos raros e breves Programas nos quais determinados géneros musicais são "autonomizados" e tratados com alguns cuidados, com o dispositivo da Play List é muito raro encontrar, nas 24 horas de emissão da Antena 1, algum texto de enquadramento acerca das condições de criação e de produção das Canções, que ajude desvendar aos Ouvintes as novas tendências ou os velhos standards. A uma canção de um estilo, sucede outra de género diferente, a que se justapõe outra, de outra época e uma outra ainda que nada tem a ver com a anterior. E uma Lista, é, afinal, não mais do que uma enfiada pouco coerente de Canções não contextualizadas e muitas vezes contraditórias, até. Onde, por exemplo, espantosamente se juntam For Me Formidable de Aznavour, com Para Sempre dos Xutos, e Father & Son dos Boyzone... Prevalece o sentido do mix, do mosaico... Perde-se a unidade e esvai-se, afinal, a identidade pretendida. Estes são alguns dos riscos do uso de uma Lista de Difusão, aos quais é sensato contrapor a economia de escala, a economia de processos e a economia do custo por minuto de emissão que o dispositivo assegura. Não admira assim que possa ser interpretada como redutora a utilização que a Estação Pública está a fazer da Música que apresenta, com o método dominante da Play List. Manifestação de Cultura viva, os Especialistas consideram que a Música deve ser entendida numa Rádio nacional como um corpo maleável e expressivo que religa, mais do que justapõe, as significativas manifestações do presente aos perduráveis actos da memória. Um agregado construído sem complexos, correspondendo menos, aos sinais das modas e, menos ainda, à imagem dos Músicos da moda. Depois de ouvir esses testemunhos concluo ainda que a Música mais adequada para uma Rádio nacional, será prioritariamente toda a Música desse país e não apenas primordialmente, a sua Música mais recente ou, sequer apenas, a sua Música mais tradicional. A Música que uma Rádio Pública transmite constitui uma matéria heterogénea. Mas a sua essência plástica será de tal maneira forte e significativa que, se for entendida no seu conjunto, só pode assumir a carga simbólica de "reflectir, como um espelho, o País que a ouve". A verdade é que é possível (como em Espanha) realizar uma emissão de Rádio Publica e generalista, dispensando-se o uso da Play List e não determinando sequer, quotas de Música nacional ou estrangeira. Lá, os Ouvintes não se queixam. Da mesma forma que, como no Brasil, se recorre ao dispositivo de uma Lista Musical pré-estabelecida por 5 Especialistas, com a esmagadora e descomplexada utilização de Música nacional. E também lá, os Ouvintes não reclamam, nem consideram a exclusividade brasileira, como um posicionamento chauvinista da Rádio. E para intervir quanto à questão (levantada pelo Ouvinte Álvaro José Ferreira) de nomes alegadamente banidos, sinceramente, creio não haver qualquer pré-disposição da Estação nesse sentido. E muito menos, desde que aqui comecei a tratar desta matéria, "Em Nome do Ouvinte"... O que haverá talvez, é uma certa ligeireza, no modo de escolher adequadamente o material esteticamente relevante. Critérios de arquitectura da Lista, ficou para mim claro que existem. Mas preencher as diversas áreas consagradas na Grelha arquitectural da Lista de Difusão, é um verdadeiro exercício de minúcia que exige muita sensatez, capacidade intelectual, vasta preparação cultural, específica e genérica, além de um sentido estético muitíssimo apurado. Não será – seguramente – uma tarefa de um homem só, nem mesmo é – certamente – um desafio simples para quatro excelentes Profissionais a meio tempo.
A terceira e mais generalizada questão trazida pelos Ouvintes refere-se à alegada rarefacção de Música Portuguesa nas emissões da Antena 1. Quanto a este assunto duas teses. Podemos considerar que a Antena 1 deva apresentar Músicas de todas as origens, ou (ligando-se com a quarta questão levantada por muitos Ouvintes, que reclamam do excesso de Música anglófona), no limite, consideramos que a Antena 1 apenas deva apresentar Música Portuguesa. No primeiro contexto, que é a prática actual, com 60% da Música que a Estação transmite, constituídos por "novidades, sucessos quentes e recentes ou memórias" de Música "produzida por Músicos portugueses ou residentes em Portugal", julgo que não haverá razão de queixa. O limite mínimo de 25% estabelecido na Lei está largamente ultrapassado e nenhuma outra Estação de dimensão nacional – com dispositivos muito idênticos – dedica tanto tempo aos Autores e Intérpretes portugueses. Mas vejamos o que se pode aduzir quanto à 2ª tese: Ponto 1: A Antena 1 é apenas a primeira de diversas Estações nacionais do Serviço Público de Rádio, com a missão de se dirigir às mais vastas camadas da população portuguesa, nos seus diversos estratos culturais; Ponto 2: As outras Estações de dimensão nacional, de natureza privada e comercial, acentuam cada vez mais o carácter de "mix de géneros" praticado na Play List da Antena 1. Sobrepõem-se as estéticas propostas, confundem-se as estratégias, repartem-se os Públicos indecisos e dificilmente se distingue o auditório da Rádio Pública; Ponto 3: para além da Antena 2, a RDP dispõe ainda de uma terceira Estação – a Antena 3 – com Programação destinada aos Públicos mais jovens e com grau de literacia mais apetente para o consumo intensivo das Músicas modernas, dominadas pelos padrões de expressão em língua inglesa; Ponto 4: no plano musical, a Antena 1 tem historicamente promovido a divulgação de paisagens musicais de diversas origens, também através de Produções específicas, nas quais podem ser devidamente contextualizadas as expressões musicais estrangeiras, com recurso aos chamados Programas de Autor destinados a Públicos dedicados. A não ser por razões de natureza económica, nada obstaria a que se pudesse acentuar na Estação Pública esta complementaridade em Programas fechados. No plano da Continuidade de emissão, razões de coerência estética recomendá-lo-iam; e razões de unidade conceptual justificá-lo-iam, ao nível das grandes unidades de Programação. Ponto 5: Deste modo, poderia expandir-se a disponibilidade de entradas na Lista de Difusão, senão para a Programação exclusiva de Música Portuguesa, pelo menos para a Programação exclusiva de Música em Língua Portuguesa. O caso brasileiro que foi aqui apresentado é absolutamente paradigmático: ao gostarem de ouvir a sua formidável Música popular em exclusivo, os Ouvintes da Rádio Nacional de Brasília não se consideram extremistas ou chauvinistas – celebram apenas a vitalidade criativa dos seus Autores e dos seus Músicos, beneficiando dela na sua Rádio Pública.
Em conclusão: Considero que, caso decidisse assumir a exclusividade da Música Portuguesa no quadro da sua Play List – criando complementarmente, alguns sólidos formatos de Autor dedicados a outras Músicas – a Antena 1 asseguraria, no campo musical, um modelo original, eficaz e identitário, mais consensual junto dos seus Públicos e completamente diferenciado no contexto das Estações nacionais de Rádio, como Rádio portuguesa e sobretudo, como Rádio de Serviço Público.» (José Nuno Martins, in "Em Nome do Ouvinte", 11-11-2006)
Concordo genericamente com as ideias expressas pelo Provedor do Ouvinte, José Nuno Martins, mas gostaria de comentar dois ou três pontos abordados. Antes de mais, a coerência de oferta musical, que é um dos argumentos (para além da economia de custos) para o uso de 'playlists', é coisa que não existe na Antena 1. Veja-se a sequência: Jorge Palma – Robin Williams – Chico Buarque – Santos e Pecadores – Rodrigo Leão – Ricky Martin – Rio Grande – Céline Dion – Sérgio Godinho – George Michael – Dulce Pontes – Xutos e Pontapés – Adriana Calcanhotto – Lenny Kravitz. Sem pôr em causa a qualidade de alguns destes nomes, onde está a coerência estética e a unidade conceptual num alinhamento desta natureza? Pois é! É que na 'playlist' da Antena 1 este tipo de sequências é a regra e não a excepção. Nessa medida, concordo totalmente com a ideia exposta pelo Provedor do Ouvinte para uma 'playlist' exclusivamente portuguesa (ou em língua portuguesa) pois atenuaria de forma significativa as aberrantes disparidades estéticas no encadeamento de canções e daria uma maior harmonia aos alinhamentos. Não obstante, há três requisitos que se deve ter em conta na adopção desse modelo para não suceder que o André Sardet e o Paulo Gonzo, por exemplo, em vez de aparecerem duas vezes por dia passem a aparecer quatro vezes ou mais. Primeiro ponto: integração na 'playlist' de todos os intérpretes portugueses de qualidade reconhecida (e de todos os géneros, com ênfase nas obras esteticamente mais relevantes), havendo a preocupação de os ordenar por afinidades estilísticas, e sem esquecer a renovação periódica dos respectivos temas. Segundo ponto: tratamento mais equilibrado dos diferentes artistas, evitando o favorecimento de uns e a marginalização de outros. Terceiro ponto: abolição da 'playlist' aos fins-de-semana (com excepção da madrugada) e também no intervalo 19-24 horas (de segunda a sexta-feira), períodos que devem ser preenchidos com programas de autor e com espaços musicais temáticos reservados aos géneros não contemplados (ou deficientemente representados) na 'playlist', tais como as músicas latinas (não lusófonas) e mesmo a música de outras espaços culturais e linguísticos, nem que nesse caso se tivesse de privilegiar a música instrumental. Embora José Nuno Martins não queira admitir, eu continuo a pensar que há exclusão/marginalização deliberada e ostensiva de alguns nomes de referência da música portuguesa (não acredito que um Adriano Correia de Oliveira, uma Amélia Muge, um Manuel Freire, um Pedro Barroso, um Janita Salomé, um Luiz Goes ou um Rão Kyao estejam fora da 'playlist' por esquecimento fortuito e involuntário). Aliás, tanto o director de programas, Rui Pêgo, como o editor da 'playlist', Rui Santos, têm conhecimento da lista de banidos/excluídos há mais de um ano (fui eu que tive o cuidado de a enviar a cada um deles) e, como nada fizeram, é legítimo que se infira da existência de um propósito pré-definido nesse sentido. Acresce ainda que foi o próprio Rui Pêgo que assumiu a exclusão do fado e da música tradicional da 'playlist', coisa para mim completamente absurda e bizarra na rádio estatal portuguesa por se tratar precisamente dos géneros musicais mais idiossincraticamente nacionais. Será que a rádio pública espanhola não passa flamenco e coplas? A rádio cabo-verdiana não passa morna e funaná? A rádio angolana não passa quizomba? A rádio brasileira não passa samba e choro? A rádio argentina não passa tango e música gaúcha? A rádio cubana não passa rumba e mambo? E a National Public Radio, dos Estados Unidos da América, também não passa música country e blues? Em suma: se não for a rádio pública portuguesa a passar a música de que melhor define a nossa identidade quem é que o vai fazer? Jamais poderei aceitar que uma cantora como Amália Rodrigues não tenha lugar na emissão de continuidade da Antena 1 e, ao invés, se prefira passar alguns dos seus temas cantados por outros (Dulce Pontes, Adriana Calcanhotto, etc.) em versões que nem se comparam às originais. Além disso, Amália Rodrigues não tem apenas fado no seu vastíssimo repertório, pelo que é ainda mais inconcebível a sua exclusão da 'playlist'. Em contraponto ao "esquecimento" de Amália (e de outras figuras de referência), regista-se um favorecimento descarado de uma plêiade de nomes mais mainstream, não só quanto a padrões de repetição como também no número de canções presentes na 'playlist'. Exemplos: André Sardet, Paulo Gonzo, GNR, Mesa, Clã, Pedro Abrunhosa, Delfins, Pólo Norte, Xutos e Pontapés, Heróis do Mar, António Variações, Humanos, Luís Represas, Paulo de Carvalho, Sérgio Godinho, Rui Veloso, Jorge Palma. Deste modo, e com o prejuízo de tantos outros artistas (e dos ouvintes que gostariam de os ouvir), se cumpre na Antena 1 a taxa de difusão de música portuguesa (alegadamente 60%) mesmo que, em boa verdade, tal não signifique uma cabal e razoável representação do universo de música de qualidade produzida em Portugal. Dado que, segundo Rui Pêgo, o que conta são as canções e não os intérpretes, torna-se fácil elaborar uma 'playlist' tendo como base o repertório de duas dezenas de favoritos, e sem que se vislumbre um critério claro e plausível para tais preferências. Então, se um cantor/grupo mediano passar duas ou três vezes por dia e outro de qualidade superior não passar nenhuma, isso não é motivo de preocupação para a direcção da Antena 1? Pode não ser para Rui Pêgo (que talvez nem ouça habitualmente a Antena 1) mas é sobejamente para mim e creio que também para muitos outros ouvintes. E cumpre-me dizer que, além de preocupante, será sempre inaceitável – insisto – que na rádio estatal portuguesa, a nossa música mais autêntica (passada e actual) não tenha uma presença digna na grelha e seja enfiada em guetos de cinco minutos de duração diária. Sem prejuízo da necessária reformulação da 'playlist', não me calarei enquanto não existir, pelo menos, um programa de autor reservado ao fado e à música popular portuguesa (tradicional e de autor), tal como acontece para o pop/rock dos anos 60, 70 e 80 (em "Ondas Luisianas").
«Na semana passada, o Director de Programas explicitou a definição global estabelecida para a política musical da Antena 1 e caracterizou os módulos da Arquitectura que sustenta a Lista de Difusão. Apresentou também alguns Gráficos, no primeiro dos quais se observa que 60% da Música que a Estação transmite é constituída por "novidades, sucessos quentes e recentes ou memórias" de Música "produzida por Músicos portugueses ou residentes em Portugal". Também se demonstra que 12 pontos percentuais são preenchidos com Música Anglófona (no texto, designada como Anglo-saxónica). E que entre Novidades e Apostas, a Antena 1 dispensa 18% da sua Lista de Difusão à Música mais recente. O Director Rui Pêgo apresentou ainda na sua resposta, apenas escrita, outros Gráficos em que se desenham 3 tipologias de preenchimento musical de uma hora – aplicáveis segundo as diferentes horas do dia. Caracterizou o trabalho do Editor Musical – o 1º responsável pelas Escolhas Musicais – assim como apresentou o currículo desse profissional e os dos restantes 3 elementos da Direcção de Antena que trabalham nesta área. O Director de Programas informa que o Público-alvo ao qual se pretende dirigir a selecção musical que constitui a Lista "é o mesmo a que se dirige a Estação", ou seja, Publico na faixa etária dos 35 aos 54 anos. Mas não deixa de anotar que "o actual perfil etário (da Antena 1) é um pouco mais alto", sem explicitar directamente qual seja. Mas da análise do Gráfico evolutivo que apresenta pode inferir-se que – ao contrário do que parece ser a tendência mais jovial da Música proposta pela Estação – se tem acentuado no último ano e meio a propensão para o "envelhecimento" da Audiência. Esta constatação, apenas impressivamente analisada pode, só por si, fazer entender melhor todo o volume e toda a densidade das queixas que continuo a receber dos Ouvintes, acerca das escolhas musicais propostas na Play List da Antena 1, que parecerão estar, assim, desajustadas do gosto dominante daqueles que se deixam cativar (crescentemente, afinal) pela restante Programação generalista da Estação. Mas não quero para já, extrair conclusões precipitadas. Continuemos a citar Rui Pêgo. O Director informa que "a Lista de Difusão acomoda todos os géneros musicais portugueses com excepção para o fado… e para a Música Tradicional… que têm difusão autonomizada em conteúdos específicos que, na sua opinião, lhes conferem muito maior notoriedade e exposição em antena. 59% da Música Portuguesa que passa na Antena 1, tem 10 anos ou menos, de acordo com outro Gráfico recebido, cruzado com a definição geral do arco temporal pré-estabelecido para o conjunto da Lista que referimos no Programa anterior. Ora, esta parece ser outra medida não consensual para os Ouvintes reclamantes. Sobretudo quando este dado é cruzado com um outro Gráfico anterior, explicitado em exemplificações apresentadas por Rui Pêgo. Diz o Director das Antenas 1, 2 e 3, que o universo definido para a Música Portuguesa que é normalmente incluída na Lista de Difusão da Antena 1 contempla três géneros distintos: Talvez que um dos problemas consista, precisamente, no estabelecimento da distinção entre estes géneros e no grau de incidência percentual que cada um atinge na Lista… Vejamos os exemplos que me chegam e as percentagens definidas:
Música Portuguesa Popular – 77% Produzida por Músicos com origem no movimento dos Baladeiros, no Pop e no Rock dos anos 80 e todos os seus herdeiros – por exemplo: Rui Veloso, Sérgio Godinho, Jorge Palma, Fausto, Clã.
Música Portuguesa Moderna – 14% Produzida por Músicos das gerações mais novas – por exemplo: Toranja, Mesa, Mercado Negro, David Fonseca.
Música Portuguesa Ligeira – 9% Produzida por Músicos da escola das Orquestras e dos Festivais e pelos "miúdos das Avenidas Novas". Cançonetistas e Cantores. Por exemplo: Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Dina e Lara Li. (...)
O Provedor colocava outra questão essencial a Rui Pêgo: "Acentuar os critérios de pluralidade de géneros e as exigências de nível estético que primordialmente devem caracterizar a função de Serviço Público, conduz inevitavelmente ao prejuízo do posicionamento da Antena 1 no mercado da Comunicação?" Rui Pêgo afirma que não. "Pelo contrário." E reiterando a política musical que está em prática na Play List, refere os Programas de abordagem directa a determinados géneros, como "Alma Lusa" – fado; "Cantos da Casa" – tradicional; "Cinco minutos de jazz"; "Banda sonora" – filmes; Júlio Isidro – latinos; Luís Filipe Barros – pop-rock nos quais a Música, tomada como um conteúdo, é um exemplo indiscutível de um "valor único" e de clara afirmação de personalidade. E o Director ainda informa: "Tomando como referência as estações generalistas… verificamos que a Antena 1 transmite quase o dobro da música portuguesa difundida pela Rádio Renascença e quatro vezes mais do que a TSF. Em contrapartida, o primeiro canal da Rádio Pública difunde um quinto da produção em língua inglesa executado pela Renascença e quase a sétima parte da que é transmitida pela TSF. Em resposta a outras questões técnicas do Provedor, o Senhor Director de Programas da Antena 1 – dizendo que é 878 o número total das Canções que integram a Lista – informa ser permanente o seu refrescamento e apresenta um Quadro completo dos patamares de repetição aplicados. Os valores apresentados nesse Quadro surpreendem-me. Por exemplo, nenhuma Canção é actualmente repetida na Play List da Antena 1 menos de 15 horas depois de ser passada pela última vez... E mesmo assim, tem de se tratar, de uma daquelas Canções em que a Estação aposta para vir a tornar-se num sucesso público a breve trecho. Ainda por exemplo, e repito, segundo os dados fornecidos pelo Director da Antena 1, nenhuma Canção portuguesa – que não seja uma das Novidades Correntes – já explicitadas no Programa anterior – é actualmente reemitida antes de terem passado 3 dias e 14 horas sobre a sua anterior difusão... E, como exemplo final, nenhuma Canção Anglo-Americana é repetida antes de terem passado, 12 dias, 4 horas e 48 minutos sobre a passagem anterior. Vantagens dos sistemas informáticos que permitem definir estas coisas com tanto preciosismo. Este é sem dúvida, o lado bom das coisas. Onde as dúvidas voltam a acentuar-se – de acordo com as mensagens fortemente críticas dos Ouvintes – é quando leio na resposta escrita de Rui Pêgo, que a Canção portuguesa mais vezes difundida na Play List da Antena 1, nos meses de Junho, Julho e Agosto deste ano, tenha sido – com o devido respeito pelo seu Autor – a canção "Quando eu Te Falei Em Amor" cantada pelo jovem André Sardet. Um Ouvinte médio pode efectivamente questionar – e vários Ouvintes reclamaram a este respeito – por que razão uma Canção desta natureza tenha constituído uma Aposta,… um Sucesso Quente,… em suma, a Canção mais repetidamente apresentada na principal Estação do Serviço Público de Rádio. Será esta Canção, sequer, a melhor Canção jamais escrita por André Sardet – um jovem Autor português ? Repito (com todo o devido respeito pela Obra do Autor e pelo indesmentível Talento do Intérprete) acerca deste exemplo que me foi expressamente indicado, como tendo sido a Canção mais repetidamente apresentada na Antena 1 ao longo de 3 meses: - O próprio Autor, André Sardet, considerá-la-á como a sua melhor Canção de todos os tempos, para ter tocado, em vez de tantas outras, pelo menos uma vez por dia, durante não sei quantos dias (ou semanas), no espaço de 3 meses na Antena 1 ? - 2ª Questão: Será esta Canção escutada com o mesmo enlevo pelos Ouvintes que acompanham a Obra de André Sardet, ou pelos decisores da Play List da Estação, dentro de 1 ano? - 3ª Questão: Tem esta Canção – por contraponto com dezenas ou centenas de outras grandes Canções portuguesas contemporâneas – argumentos artísticos, expressividade musical, textura poética, técnica de interpretação, ambiente orquestral, universalidade temática, enfim,… modelo expressivo tão indiscutível que tenham podido fazer dela a Canção do Verão eleita pela Rádio Pública ? - Os Ouvintes questionam-se sobre se esta Canção, bonita e leve, resistirá ao rei do mundo, que é o Tempo… Ou seja: dentro de 11 anos, em 2017, será que esta Canção escolhida poderá integrar o lote das Grandes Canções que fazem parte da Memória da Antena 1?» (José Nuno Martins, in "Em Nome do Ouvinte", 21-10-2006)
Não podia estar mais de acordo com as palavras do Provedor do Ouvinte, José Nuno Martins. A escolha da citada canção de André Sardet para promoção massiva na Antena 1 é apenas um dos muitos exemplos que atestam a incompetência de Rui Santos para exercer as funções de editor de playlist da rádio pública. Talvez fosse pertinente investigar o porquê do empurrão que a Antena 1 tem vindo a dar ao André Sardet. Em contrapartida, a cantora Ana Laíns, por exemplo, que lançou este ano um dos grandes álbuns de música popular portuguesa dos últimos tempos esteve bem longe de receber o mesmo tratamento pois foi logo banida da playlist ao cabo das duas ou três semanas em que passou como Disco Antena 1. E com o devido respeito pelos fãs do André Sardet penso a suas cançonetas não tem, nem de perto nem de longe, o estofo e a perenidade dos temas de Ana Laíns. E Ana Laíns é apenas um dos vários exemplos de qualidade indiscutível do nosso meio musical a que a Antena 1 não promove como é sua obrigação, sobretudo da área da música tradicional (ou de inspiração tradicional) e do fado. Neste âmbito, a ausência destas áreas na playlist do principal canal generalista da rádio do Estado é totalmente inaceitável jamais se podendo tomar como válido e credível o argumento de Rui Pêgo segundo o qual o fado e a música tradicional têm mais notoriedade e exposição em "Alma Lusa" e "Cantos da Casa", rubricas de cinco minutos de duração que passam uma ou duas vezes num período de 24 horas (incluindo a madrugada). O Sr. Rui Pêgo não quer assumir a marginalização a que o fado e a música tradicional vêm sendo votados na Antena 1 mas isso é um facto indesmentível. Faça-se uma monitorização independente de todos os conteúdos musicais da Antena 1 ('playlist', rubricas e programas) e facilmente se perceberá a presença residual do fado e da música tradicional no cômputo geral da música portuguesa. E mesmo a música popular portuguesa de autor está bem longe de ter uma presença razoável e equilibrada. Averigúe-se e facilmente se constatará que na percentagem (77 %) apontada para a categoria a que Rui Pêgo chama "música portuguesa popular" é quase totalmente preenchida pelo pop-rock e afins. Veja-se a situação de Vitorino, José Mário Branco e José Afonso em que mal se dá por eles e ainda Amélia Muge, Pedro Barroso, Manuel Freire, Janita Salomé, Adriano Correia de Oliveira, Luiz Goes, Paco Bandeira, Rão Kyao, Frei Fado d'El-Rei, entre outros nomes de referência, que nunca aparecem na 'playlist'. Esta é a verdade e não vale a pena manipular e distorcer os números para tentar disfarçar o que é por de mais evidente. E jamais se poderá aceitar o argumento de que a marginalização/exclusão daqueles e de tantos outros artistas se deve ao propósito de corresponder aos gostos da faixa etária 35-54 anos a que pretensamente se dirige a Antena 1. Em primeiro lugar, não acredito que os ouvintes da Antena 1 dessa faixa etária não gostassem de ouvir aqueles nomes, isto para já não falar em artistas/grupos da nova geração também eles boicotados. Parecem-me muito simplistas e perfeitamente erróneas as teorias que correlacionam a idade dos ouvintes com a época em que a música foi lançada. Basta atentar no público de diferentes gerações que se vê nos concertos de alguns artistas nacionais e estrangeiros já avançados na idade. Por outro lado, não me parece nada correcto que a Antena 1 esteja apenas direccionada para a faixa etária anunciada, deixando de fora todas as outras. Assim, e partindo do pressuposto que a Antena 3 cobre a faixa abaixo dos 35 (se bem que de forma bastante questionável), a população acima dos 55 anos que não se encaixa no público da Antena 2 fica sem um canal público de rádio para ouvir. Pessoalmente, embora não me enquadre nesses escalões, não posso deixar de levantar a questão. E de nada adianta vir o Sr. Rui Pêgo dizer que a Antena 1 passa mais música portuguesa que a Rádio Renascença (uma rádio comercial, convém lembrar), porque o que está em causa não são apenas percentagens: a questão é mais funda e complexa e tem a ver também – e sobretudo – com conteúdos e respectiva diversidade e qualidade. E neste ponto, tem de se reconhecer que a música portuguesa que passa na Rádio Renascença é não só de qualidade genericamente superior à da Antena 1 como contempla também muitos dos nomes boicotados na 'playlist' da rádio pública. Isto é que devia preocupar o Sr. Rui Pêgo em vez de andar a encobrir as arbitrariedades e as atitudes censórias de Rui Santos, um indivíduo que põe e dispõe a seu bel-prazer e que, inclusive, se dá ao luxo de fazer orelhas moucas a algumas das orientações do próprio Rui Pêgo (vá-se lá saber porquê?!). Por último, não acredito na percentagem (12 %) apontada por Rui Pêgo para a música anglo-saxónica. Basta ouvir a Antena 1 no período da tarde (durante a semana e o fim-de-semana) para perceber que esse número está bastante abaixo do real. E para tal contribui não só a playlist como também o programa "Ondas Luisianas" que por si só contabiliza quatro horas de emissão semanais (duas depois da meia-noite de sexta-feira a que se somam as duas horas de reposição ao sábado). Eu pergunto ao Sr. Rui Pêgo: onde estão espaços do mesmo género dedicados à música popular portuguesa (tradicional e de autor) e ao fado? Não está em causa o programa de Luís Filipe Barros mas não deixa de ser escandaloso que na rádio estatal portuguesa, o pop/rock tenha maior destaque que os géneros que melhor exprimem a nossa identidade musical.