Em 15 de Março passado, manifestei aqui o meu protesto contra o hábito de cortar as músicas escolhidas por Luís Filipe Barros na rubrica "Outras Histórias da Música". Agora sinto-me impelido a intervir novamente porque infelizmente a prática do corte, em vez de ser erradicada, pelo contrário, tornou-se extensiva à rubrica "Os Reis da Rádio" que vai para o ar, na emissão da Antena 1, um pouco antes das 8 horas da manhã. Mas agora o problema é ainda mais grave: se o tema escolhido por Luís Filipe Barros era cortado a meio, as músicas escolhidas pelos Reis da rádio são cortadas logo à nascença, mal soem os primeiros acordes. Foi assim com um tema de Júlio Pereira escolhido por Cândido Mota na semana passada e voltou a acontecer o mesmo hoje de manhã com a música escolhida por Pedro Castelo prontamente substituída por uma qualquer musiquinha descartável. Não posso deixar de perguntar: por que é que isto se está a passar? Será que é o locutor António Macedo (na foto), que assegura a continuidade do programa da manhã, que não gosta das músicas seleccionadas pelos Reis da Rádio ou será que está a agir cumprindo recados de alguém? Qualquer que seja a hipótese, a situação é muito grave e por duas razões muito simples: primeira, trata-se de um intolerável acto de censura musical; segunda, constitui um descarado e desrespeitoso acto de sabotagem ao trabalho dos autores da rubrica "Os Reis da Rádio", todos eles figuras de referência da rádio portuguesa. E, por estranha coincidência, algumas das músicas suprimidas pertencem, nem mais nem menos, a artistas boicotados na 'playlist'. Isto acontecerá por mera casualidade ou haverá por detrás a mãozinha de quem está empenhado em silenciar os nomes do infame Index?
Segundo a legislação que enquadra o serviço público de radiodifusão é obrigação da rádio pública a defesa e promoção da língua e cultura portuguesas e dos valores que definem a identidade portuguesa. Ora acontece que a música portuguesa (cantada em português ou instrumental) é justamente uma das artes que melhor exprime os valores da portugalidade e um veículo privilegiado para a promoção e cultivo da língua lusa. A empresa pública de radiodifusão – RDP – tem três canais nacionais: um cultural – a Antena 2, reservado à música clássica, ao jazz e à cultura de pendor mais erudito; e dois canais generalistas – a Antena 3, dedicado aos jovens e que emite música anglo-americana e algum pop/rock de produção nacional; e a Antena 1, reservado à informação, ao futebol e à música não erudita em geral, devendo cumprir por imposição legal uma determinada quota de música portuguesa. Assim sendo, quando sintonizamos a Antena 1 seria expectável que ela nos desse a ouvir a melhor música (não erudita) que se faz (ou fez) em Portugal, abrangendo os vários estilos e contemplando um leque de artistas – cantores, músicos e grupos – tão amplo quanto possível, desde os nomes consagrados e de créditos firmados até aos mais novos e em início de carreira. Como sou um ouvinte atento, posso testemunhar com conhecimento de causa que não é isto o que tem vindo a acontecer na Antena 1, com as honrosas excepções da rubrica "Alma Lusa", de Edgar Canelas e de quatro programas de autor, todos eles de periodicidade semanal: "Lugar ao Sul", de Rafael Correia; "Vozes da Lusofonia" e "Passeio Público", de Edgar Canelas; e "Viva a Música", de Armando Carvalheda. Como o Sr. Provedor saberá certamente melhor do que eu, o grosso da música portuguesa que passa na Antena 1, embora apresentada pelos locutores de continuidade, não é escolhida por eles já que são obrigados a tocar os temas de uma lista pré-definida debitada por um sistema informático, vulgarmente conhecida por 'playlist'. Acontece que a maior parte da música portuguesa escolhida para figurar nessa 'playlist' não prima pela qualidade nem pela diversidade. Admito que a qualidade nem sempre seja fácil de averiguar porque, por um lado lado, depende dos critérios usados e, por outro, há sempre um apreciável grau de subjectividade na sua avaliação. Já mais fácil e objectiva de analisar é a falta de diversidade de estilos musicais representados na 'playlist', o notório desequilíbrio entre os artistas contemplados e a exclusão inconcebível de muitos outros. Embora com algumas dúvidas (que só uma monitorização externa e isenta poderá desfazer), não contesto que a Antena 1 esteja a cumprir a percentagem de música portuguesa legalmente estipulada, mas é inegável que o preenchimento de tal quota é feito de uma forma tendenciosa, enviesada, e com distorções aberrantes e intoleráveis. Senão vejamos: há um lote de artistas (todos da área da pop) que tem uma promoção desmesurada através da repetição massiva de um ou dois temas (todos os dias e mais do que uma vez), outros passam muito raramente enquanto que um extenso rol de nomes de reconhecida qualidade está a ser alvo de um escandaloso boicote (vide o Index da Música Portuguesa, em anexo). É caso para dizer: uns são filhos, alguns outros enteados e a grande maioria nem sequer enteados chegam a ser – foram pura e simplesmente expulsos de casa como se tivessem a peste. Em face disto, há uma pergunta que se impõe: se não é devido à falta qualidade, então como se explica que tantos artistas de mérito não tenham lugar (ou tenham uma presença residual) na 'playlist'? O quadrante ideológico desses cantores e músicos? Neste momento, já nem parece válida a hipótese de alguns estarem a ser ostracizados em virtude da sua ideologia política ou filiação partidária. De facto, terá de se reconhecer que a censura é já transversal a todo o espectro político. Ao dar-se uma vista de olhos pelo Index, verifica-se que ao lado de nomes declaradamente de esquerda constam também nomes do centro, de direita e inclusive figuras sem orientação ideológica bem definida ou publicamente declarada. Será então a discricionaridade do chefe de 'playlist' em razão do seu subjectivo gosto pessoal e da sua afeição ou simpatia por certos nomes? Bem sei que há, em cada um de nós, uma tendência natural para sobrevalorizarmos a música de que gostamos e desdenharmos aquela que não apreciamos. Isso é perfeitamente legítimo quando se trata de escolher a música para o nosso próprio consumo, mas já se torna abusivo fazer uso do lugar que se ocupa numa entidade pública para impingir aos outros as nossas preferências. E quando essas preferências revelam uma mundividência musical bastante limitada e afunilada da parte de quem as tenta impor, ainda mais abusivo e inaceitável se torna. A primeira impressão com que se fica ao ouvir os alinhamentos de continuidade da Antena 1 é que quem escolhe a música deve ser alguém cujas fontes de informação musical se restringem à MTV e ao "Blitz", o que convenhamos é muito pouco para quem tem a seu cargo mais de 90 % da música de um canal de serviço público. E como se isto não bastasse há outro problema ainda mais preocupante. De acordo com informações que me foram facultadas por fontes seguras e credíveis, algumas atitudes e procedimentos do chefe de 'playlist', dentro e fora da RDP, indiciam uma muito obscura ligação a determinados managers e editoras demasiado preponderantes e influentes na passagem dos seus artistas, ao passo que outros não conseguem qualquer tipo de penetração nesse reservado espaço radiofónico. A continuidade deste fenómeno denota uma prepotência e uma impunidade que assustam num país supostamente sem censura, de livre expressão, criação e acesso que, deste modo, vê, sem uma razão plausível, proliferarem manobras demasiado evidentes e atentatórias dos mais elementares princípios éticos e deontológicos para poderem ser ignoradas. O estado a que as coisas chegaram estava mesmo a pedir uma investigação/operação do tipo "playlist dourada"! Apenas um parêntesis para lembrar que nos liberalíssimos Estados Unidos da América já são vários os processos judiciais que as 'majors' discográficas têm às costas por controlo e corrupção activa nas rádios. Por cá, recusamo-nos a ver o que salta à vista e continuamos a fazer de conta que vivemos no melhor dos mundos. Pessoalmente, se quer que lhe diga, até nem me interessa muito saber se os conteúdos e o figurino da 'playlist' da Antena 1 são da inteira e exclusiva responsabilidade do chefe de 'playlist' (em total autonomia e com carta branca da direcção) ou se reflectem os ditames e orientações vindas de cima. Agora, uma coisa que eu não posso aceitar é que a 'playlist' – que não devia ser mais do que uma ferramenta de trabalho – esteja a ser usada como um instrumento de censura e de silenciamento de uma parte muito significativa do melhor da criação musical portuguesa (actual e passada) e, na prática, reduzida a mera extensão dos departamentos comerciais das editoras mais poderosas, em especial das multinacionais. Quem se der ao cuidado de ouvir com alguma atenção os alinhamentos musicais da Antena 1 (fora dos escassos programas de autor) não pode deixar de constatar que o canal de maior audiência da rádio do Estado foi transformado numa fábrica de sucessos por repetição, qual carrossel que não para de girar. Por outro lado, o tratamento desigual que a rádio pública dá aos artistas do nosso meio musical, ostracizando muitos de mérito incontestado e favorecendo outros de qualidade mais que duvidosa, tem ainda outro efeito perverso: como a radiodifusão de obras musicais está sujeita ao pagamento de direitos de autor, a RDP terá de entregar à SPA um determinado valor por cada passagem de uma determinada peça musical ou poético-musical e, como tal, os autores de uma determinada obra receberão tanto mais quanto maior o número de vezes que ela for radiodifundida. Tendencialmente serão vendidos muitos mais discos e mais pessoas afluirão aos concertos, mas mesmo que o auditório não seja muito receptivo às músicas insistentemente rodadas, os respectivos autores têm sempre garantida uma boa maquia relativa a direitos de reprodução radiofónica, dinheiro esse que teve origem na contribuição do audiovisual e nos impostos pagos pelos contribuintes. É muito triste e deveras revoltante constatar que o meu dinheiro e de demais cidadãos e empresas de Portugal vá parar aos bolsos de medíocres e não seja a justa compensação que os melhores artistas deveriam receber como reconhecimento do valor do seu trabalho e como estímulo para continuarem a criar obras que enriqueçam o nosso património musical. A repetição massiva de determinadas músicas de cariz mais comercial pode aceitar-se numa rádio privada (que até pode ter um contrato ou avença de promoção com o respectivo artista, editora ou agência de management) mas é totalmente absurda, descabida e inaceitável numa rádio cujo financiamento é assegurado por dinheiros públicos. Não haverá uma notória distorção do serviço público quando a esmagadora maioria da música que passa na Antena 1 é aquela que é ditada por uma 'playlist' formatada segundo os mesmos modelos das rádios que dependem do mercado publicitário? Isto assume ainda maior gravidade em virtude de quase não existirem espaços musicais de autor, que pudessem dar expressão à música de qualidade sonegada pela 'playlist' ou que nela tem uma presença residual (passagens esporádicas e em horários de menor audiência). Por exemplo, não se compreende que boa parte dos nomes (dos novos aos consagrados), não catalogáveis com o rótulo 'pop', que Armando Carvalheda e Edgar Canelas convidam – e muito bem – para apresentarem os seus trabalhos nos programas "Viva a Música" e "Vozes da Lusofonia", fiquem de fora da 'playlist' ou dela sejam rapidamente banidos ao fim de duas ou três semanas. Devo dizer-lhe, para que fique bem claro, que não tenho nada contra a música pop pois até gosto de alguns nomes. Defendo, inclusive, que a música pop tem o seu lugar na rádio pública, mas já não me parece razoável que lhe seja dado um destaque tão hegemónico que praticamente não deixa lugar para as outras vertentes e sensibilidades musicais autóctones. É completamente inaceitável que tanto o fado como a música popular portuguesa (tradicional e de autor) – os géneros que melhor definem a nossa identidade e no seio dos quais surgiram os valores maiores da nossa música (não erudita) – estejam a ser tratados de forma tão ignominiosa pela estação que, por acaso, até se auto-proclama de ser "a rádio que liga Portugal". E se considerarmos globalmente os três canais nacionais da RDP constatamos que até o jazz, o blues e a música étnica mundial têm mais tempo de antena que o fado e a música popular e tradicional portuguesa. É uma conta fácil de fazer: sete horas e meia por semana para o jazz, mais uma hora para o blues e mais cinco horas para a música étnica perfaz o total de treze horas e meia semanais, ou seja, o triplo do tempo que o fado e a música popular/tradicional/folk portuguesa ocupam em conjunto nas três grelhas. Será isto aceitável? Como cidadão, contribuinte e ouvinte, sinto-me no dever de pugnar para que os direitos, liberdades e garantias que a Constituição da República Portuguesa me outorga sejam respeitados. Formalmente deixou de haver censura, mas todos sabemos que continuam a existir práticas e atitudes que não sendo assumidas como censura, na verdade não são outra coisa. Utilizar a técnica da repetição de determinados nomes (sempre os mesmos!), sonegando muitos outros, não será uma forma encapotada de censura? Quando o principal canal da rádio pública portuguesa me impinge, com a repetição ad nauseam, as musiquinhas do género pop e se recusa a facultar-me a audição de temas e composições de outras áreas, não me estará a impor ostensivamente uma preconceituosa orientação estética, impedindo-me de ser eu a escolher? Com que legitimidade é que a rádio oficial de um país constitucionalmente democrático e pluralista pode tomar partido a favor uma dada linguagem musical – no caso a música pop – e ao mesmo tempo menosprezar as outras formas da música popular, designadamente as mais idiossincraticamente portuguesas? Não ficará seriamente posta em causa a liberdade de acesso do ouvinte de rádio à pluralidade da expressão musical dos criadores do seu país? Sendo a rádio o veículo entre o artista e o ouvinte, quando o elo é quebrado não se estará a coarctar o direito e a liberdade quer do artista em dar a conhecer a sua obra quer do ouvinte já não digo em frui-la em pleno, mas pelo menos em dela tomar conhecimento? Quantos artistas e trabalhos discográficos de qualidade não ficarão assim na sombra e ignorados ou despercebidos pelos sectores do público, seus potenciais apreciadores e consumidores? Neste âmbito, é pertinente perguntar: para que existe a rádio pública? É para satisfazer interesses privados e corporativos ignorando as suas obrigações de serviço público e fazendo tábua rasa dos direitos dos ouvintes que tem por missão servir? É para isto que os cidadãos e empresas de Portugal pagam uma taxa que lhes é cobrada coercivamente? Convém não esquecer que o pagamento da dita taxa pressupõe como contrapartida a prestação de um serviço específico, no caso concreto, a divulgação da produção musical nacional. Ora é bem evidente que esse serviço não está a corresponder às expectativas dos vastos segmentos do auditório que gostam de música portuguesa mas não se satisfazem (apenas) com a pop. Creio mesmo haver legitimidade – moral e jurídica – em objectar o pagamento da contribuição do audiovisual atendendo à notória infracção do princípio da reciprocidade. Em cumprimento de um dever de cidadania, vim expor ao Sr. Provedor a minha reclamação relativamente a uma situação flagrantemente lesiva dos meus direitos e liberdades de cidadão enquanto ouvinte da rádio pública, mas que extravasa esse âmbito uma vez que tem também graves repercussões culturais e económicas. Por conseguinte, apelo ao Sr. Provedor para que se digne apreciar este assunto e de emitir um parecer que propicie a necessária e urgente correcção do problema. A bem do serviço público de rádio! Com os mais respeitosos cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
Anexo: Index da Música Portuguesa ______________________________
Index da Música Portuguesa (RDP-Antena 1)
A lista que se segue, embora não sendo exaustiva, serve para exemplificar a situação da música portuguesa nos alinhamentos de continuidade ('playlist') da rádio pública, a estação que os cidadãos e empresas de Portugal financiam com a contribuição áudio-visual (antiga taxa de radiodifusão) cobrada na factura mensal de electricidade (Lei 30/2003).
Banidos/excluídos da play-list da Antena 1
Adriano Correia de Oliveira José Carvalho Aldina Duarte José Medeiros Alfredo Marceneiro José Peixoto Almanaque Júlio Pereira Amália Rodrigues Laurent Filipe Amélia Muge Lua Extravagante Anabela Lucília do Carmo Anamar Luís Cília Ana Moura Luiz Goes Ana Sofia Varela Lula Pena António Chaínho Maio Moço António Emiliano Mandrágora António Pinho Vargas Manuel Freire António Pinto Basto Mare Nostrum António Zambujo Margarida Bessa Aqua d'Iris Maria Ana Bobone Argentina Santos Maria Viana At-Tambur Melodias do Vento Banda do Casaco Mendes Harmónica Trio Belaurora Moçoilas Bernardo Sassetti Modas ao Luar Brigada Victor Jara Mu Canto da Terra Naná Sousa Dias Canto Nono Navegante Carla Pires Negros de Luz Carlos Alberto Moniz Nem Truz Nem Muz Carlos Barretto Nuno da Câmara Pereira Carlos Martins Nuno Guerreiro Carlos Paredes Ódagaita Carlos Zíngaro Orchestra Nova Harmonia Célia Barroca Paco Bandeira Chuchurumel Paulo Bragança Ciganos D' Ouro Pedra d'Hera Contrabando Pedro Barroso Corvos Pedro Caldeira Cabral Cristina Branco Pedro Jóia Danças Ocultas Pedro Moutinho Dar de Vaia Pilar Homem de Mello Dazkarieh Popularis D'Corda Quadrilha Dead Combo Quarteto 1111 Duo Ouro Negro Quinteto Amália Eduardo Ramos Quinteto de Jazz de Lisboa Fernando Farinha Quinteto Lusitânia Fernando Girão Raízes Fernando Machado Soares Rão Kyao Fernando Maurício Real Companhia Filarmónica Fraude Realejo Frei Fado d'El-Rei Rodrigo Francisco Naia Roldana Folk Gaiteiros de Lisboa Ronda dos Quatro Caminhos Galandum Galundaina Rosa dos Ventos Isabel Silvestre Samuel Janita Salomé Segue-me à Capela Joana Amendoeira Teresa Silva Carvalho João Braga Terrakota João Chora Tet Vocal João Lóio Trovas à Toa Joel Xavier Vai de Roda Jorge Rivotti Vá de Viró José Barros Vicente da Câmara TODA A MÚSICA DE COIMBRA
Passagens esporádicas e quase sempre o mesmo tema
Afonso Dias Mafalda Veiga Ala dos Namorados Maria João e Mário Laginha Ana Laíns Mariza Belle Chase Hotel Marta Dias Camaleão Azul Mísia Camané Naifa, A Carlos do Carmo Né Ladeiras Carlos Mendes Paula Oliveira e Bernardo Moreira Eugénia Melo e Castro Quinta do Bill Fausto Bordalo Dias Rio Grande Fernando Tordo Rodrigo Leão Filipa Pais Sara Tavares Jáfumega Sétima Legião João Afonso Sheiks José Afonso Som Ibérico José Mário Branco Três Tristes Tigres Katia Guerreiro Trovante Luís Portugal UHF Madredeus Vitorino Mafalda Arnauth Vozes da Rádio Última actualização: 11-07-2006
A Rádio e Televisão de Portugal disponibiliza finalmente um arquivo de programas para audição online, sendo que alguns deles são facultados em 'podcasting'. Cumpre-me felicitar a administração do grupo RTP e a direcção da RDP pelo serviço agora oferecido aos ouvintes, o qual aliás só peca por tardio. Ainda antes de surgirem os 'podcasts', não se compreendia a não existência de um arquivo de programas da RDP na internet pois a TSF há vários anos que o tem. Aliás, o programa "Questões de Moral" já esteve disponível no antigo site da RDP mas lamentavelmente, na altura em a rádio pública foi acoplada à televisão, esse arquivo foi pura e simplesmente eliminado quando o desejável era que transitasse para o novo site e que outros programas fossem também contemplados. Um passo atrás que agora se tenta corrigir. Nessa medida, espero que o histórico do "Questões de Moral" e igualmente outros programas e rubricas como "Os Sons Férteis" e "Lugar ao Sul" sejam adicionados às emissões mais recentes. No caso do programa "Os Sons Férteis" e outros de poesia recitada (ou cantada), a apresentação de um link para os textos seria um ponto de enorme interesse pois possibilita a leitura em simultâneo com a audição. Reparo que estão disponíveis praticamente todos os programas de autor, mas notei quatro ausências: "1001 Escolhas", de Madalena Balça; "Outras Histórias da Música", de Luís Filipe Barros; "Alma Lusa", de Edgar Canelas (Antena 1) e "Retrato", de Judite Lima (Antena 2). Presumo que tenha havido um lapso e, por isso, fica aqui o meu reparo na esperança de que estes bons programas e rubricas venham também a ser facultados para audição online, pelo menos. Sem prejuízo do 'podcasting' ser alargado a outros programas agora só disponíveis para audição online, penso que é importante haver a possibilidade do download sem assinatura (descarregamento manual mediante um simples clique) para determinados programas, sobretudo os que tenham uma forte componente de palavra. Isto para facilitar a vida aos ouvintes que não querem subscrever o 'podcast' de um dado programa, mas gostavam de possuir uma ou outra emissão em particular. Por outro lado, como nem todos os ouvintes tem ligação à internet em sua casa, por ainda ser relativamente cara, o download avulso daria oportunidade a esses ouvintes, no local de trabalho ou num qualquer cibercafé, de descarregarem os programas do seu interesse directamente para um iPod ou para um disco USB ('pen-drive'). Fica apresentada a sugestão! Bem sei que o arquivo está na fase de arranque e que ainda há muito a fazer. Já falei no histórico dos programas que estão em antena, mas convém não esquecer excelentes programas anteriores, da própria estação pública e de outras emissoras cujos arquivos ficaram à guarda da RDP. Atendendo a que os conteúdos culturais (não musicais) tem uma fraca presença nas grelhas actualmente em vigor nos diversos canais da RDP, a disponibilização do que melhor se fez nesta área pode tornar-se um relevante serviço não só ao vulgar ouvinte mas também à população estudantil do ensino básico e secundário. É de vital importância que a internet seja aproveitada para desenterrar o riquíssimo arquivo da RDP e colocá-lo ao dispor de quem a ele queira aceder. Afinal de contas, esse acervo é património de todos nós, sendo um crime contra memória e contra a cultura ele continuar soterrado sob o pó e as teias de aranha, qual cemitério abandonado e esquecido. Neste âmbito, aproveito para referenciar alguns bons programas, a maior parte deles emitidos na Antena 2 desde os anos 90, tendo para tal recorrido a duas fontes: à minha memória e aos boletins da programação amavelmente cedidos por uma pessoa amiga, ouvinte fiel e exclusiva da rádio clássica.
Poesia e literatura: - "Poesia e Música", de Carlos Acheman; - "Entre Textos", de Maria Clara; - "Conto por Conto", de Maria Clara; - "Reflexos", de António Cardoso Pinto; - "À Esquina da Um", de António Cardoso Pinto; - "Alquimias", de Jorge Casimiro (um olhar cruzado entre a ciência e a poesia); - "Literaturas", de Alexandra Lucas Coelho; - "A Hora das Cigarras", de José Eduardo Agualusa (poemas ditos por David Borges); - "O Prazer de Ler", de Isabel da Nóbrega; - "A Biblioteca da Minha Vida", de Manuel Hermínio Monteiro; - "Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto (leitura de José Mário Branco); - "Escritores Que Fizeram Música / Músicos Que Escreveram Livros", de Luciana Leiderfarb; - "A Música da Escrita", de Luciana Leiderfarb; - "Ouvindo a Escrita", de PEN Clube Português; - Outros programas de poesia recitada (por Carmen Dolores, Luís Lucas, Diogo Dória, etc.).
Teatro: - Teatro radiofónico (designadamente as peças de referência); - "Dicionário Sonoro do Teatro", de Carlos Porto (locução de Luís Filipe Costa); - "Auditório", de Maria Emília Correia (textos de Luís Lima Barreto).
Entrevistas: - "Perfil dum Artista", de Igrejas Caeiro (300 entrevistas realizadas entre 1954 e 1960); - "A Ilha de Orfeu", de João Paes; - "A Gosto de…", de Luís Caetano; - "A Força das Coisas", de Luís Caetano; - "Quinta-Essência", de João Almeida; - "A Quatro Mãos", de Gabriela Canavilhas; - Outras entrevistas de inegável valor documental/cultural.
História e Arte: - "Lugar à História", de Eugénio Alves; - "Caminhos da História", de Seomara da Veiga Ferreira; - "Histórias da História", de Maria Clara; - "Portugal Visto de Fora", de Vítor Wladimiro Ferreira; - "Lugares Comuns", Vítor Wladimiro Ferreira; - "Na Máquina do Tempo", de Maria João Martins; - "As Marcas da História", de António Costa Pinto; - "Memória do Esquecimento", de Maria Manuela Albuquerque; - "Arte em Portugal", de Maria Manuela Albuquerque; - "A Dádiva das Formas", de Rui Mário Gonçalves.
Programas de divulgação cultural: - "Consciências Paralelas", de João Soares Santos e Bernardino Pontes; - "Questões de Família", de Joel Costa; - "Retratos", de João Coelho e Ana Aranha; - "Horizontes", de Maria Clara; - "A Lição dos Mestres", de Maria Clara; - "Mitos e Lendas", de Maria Clara; - "Evocações", por Carlos Acheman, António Cardoso Pinto, Maria Clara, João Coelho, Esmeralda Serrano, Mafalda Serrano, Graça Vasconcelos, Ana Paula Ferreira, Eduardo Street e outros; - Ciclos temáticos (Gil Vicente, Padre António Vieira, Bocage, Marquês de Pombal, Almeida Garrett, Antero de Quental, Eça de Queiroz, José Rodrigues Miguéis, José Régio, Vitorino Nemésio, Martinho Lutero, La Fontaine, Descartes, Nietzsche, André Malraux, Descobrimentos Portugueses, Cem Anos de Cinema, etc.); - "As Biografias do Século", de Fernando Rosas e Ana Paula Ferreira; - "Pensar o Século", de Graça Vasconcelos e Rui Pedro Vau; - "A Nave do Tempo", de Margarida Lisboa (rubricas insertas no programa, como a "Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach"); - "Universos Clandestinos", de Margarida Lisboa; - "A Floresta dos Espelhos", de Margarida Lisboa; - "Quem?", de Margarida Lisboa; - "Operando a Memória", de João Lobo Antunes; - "Sociologias", de João Ferreira de Almeida; - "Os Grandes Desconhecidos", de António Carvalho.
Programas de autor de temática musical: - "O Gosto Pela Música", de João de Freitas Branco; - "O Canto e os Seus Intérpretes", de Maria Helena de Freitas; - "O Texto e a Música", de Yvette Centeno e Nuno Vieira de Almeida; - "Cancioneiro Popular Português", de José Alberto Sardinha (sobre as recolhas de Armando Leça); - "Música de Todos os Quadrantes", de João Soares Santos; - "Em Órbita", de Jorge Gil (textos do autor lidos por Paulo Rato); - "Timbres", de Vanda de Sá; - "A Palavra aos Músicos", de Jorge Rodrigues; - "Tema e Variações", de Manuel Pedro Ferreira; - "Flores de Música", de João Azevedo; - "O Fascínio das Cordas Dedilhadas", de Manuel Morais; - "A Nova Música Antiga", de Manuel Morais; - "Terras e Tradições", de Jorge Castro Ribeiro; - "Sons do Mundo", de Alexandra Almeida; - "História da Música Portuguesa", de Bruno Caseirão; - "O Meu Piano é Melhor Que o Teu", de Susana Santos e Isabel Novais; - "Poética Musical", de Pedro Amaral; - "Canções de Todos os Tempos", de Isabel Novais.
Em 7 de Abril lavrei aqui o meu protesto contra a extinção do "Magazine", programa que no segundo canal da televisão pública dava conta da actividade cultural. Para mim, era um escândalo o serviço público de televisão não ter um espaço deste género. Por isso, foi com agrado que ontem ouvi Paula Moura Pinheiro, subdirectora de programas da RTP-2, anunciar um novo programa para suceder ao "Magazine". Chama-se "Câmara Clara" e vai para o ar aos domingos, logo a seguir ao Jornal 2, por volta das 22:30. O horário merece o meu aplauso, mas confesso que achei o título algo exótico. "Câmara Clara" porquê? Depreendo que se queira dar a ideia de uma câmara de filmar com o diafragma totalmente aberto. Dado que as actividades que vão ser focadas decorrem sobretudo à noite, em ambientes de fraca luz, até percebo a ideia. Para me certificar consultei um dicionário, mas a definição que aparece é outra: câmara clara – dispositivo adaptável aos microscópios, que permite desenhar o que se observa, por um processo semelhante ao decalque. Bem, passemos à frente porque os títulos são o que menos importa. O que realmente interessa são os conteúdos e, como tal, fico na expectativa que eles façam jus ao que deve ser um verdadeiro serviço de informação cultural. Espero que o novo programa, não caia no erro do "Magazine" que dava um destaque desmesurado à música pop e se limitava a fazer uma referências escassas e breves à música clássica, ao jazz e à 'word music'. Faço votos para que o responsável editorial do "Câmara Clara" não deixe passar em claro o que de melhor for acontecendo em matéria de música popular portuguesa (tradicional e de autor), já que se trata de um género que tem sido muito desprezado pela nossa rádio. É também para isso que existe o serviço público de televisão: dar representatividade mediática à actividade cultural e artística que não tem por detrás uma forte máquina promocional.
Adenda (em 30-Maio-2006):
Paula Moura Pinheiro, logo no início da primeira emissão, dignou-se dar uma explicação para o nome do programa. Na verdade, "A Câmara Clara" é o título de um livro do pensador francês Roland Barthes que versa sobre a natureza da fotografia, o amor e a morte. Editado pela primeira vez em França no ano de 1980, está disponível em português (de Portugal) na colecção Arte & Comunicação, das Edições 70.
Capa do livro "A Câmara Clara" – Edições 70 (Portugal)
Capa do livro "A Câmara Clara" – Editora Nova Fronteira (Brasil)
Francisco Mateus, no blogue Rádio Crítica, a exemplo do que fez para a Rádio Comercial dos anos 80, inventaria também uma série de programas da Antena 1 da mesma década. Remata com uma apreciação da situação actual, da qual respigo a esta passagem: «Sou defensor da existência em Portugal do serviço público de radiodifusão, não para rivalizar com os operadores privados, mas para ser diferente destes. Para ser uma alternativa sólida, qualitativa e credível. Em 2006 a RDP, "A rádio que liga Portugal", está com um pé em cada um dos lados, e sendo assim, não está assente em nenhum. Ficando a meio caminho, acaba por "apanhar" dos dois.» Devo dizer que não podia estar mais de acordo com estas palavras e permito-me precisar que é justamente na programação musical que a Antena 1 mais peca por não ser uma alternativa qualitativa e credível às estações privadas. É facilmente verificável que quase não existem espaços musicais de autor, sendo os alinhamentos preenchidos por uma 'playlist' que pouco ou nada difere das rádios que dependem da publicidade. Uma 'playlist' monolítica, monopolizada pela música pop, que não promove o fado e ainda menos a música popular portuguesa (tradicional e de autor). Por isso, quando ouço o slogan "A rádio que liga Portugal" soa-me a uma piada de muito mau gosto.
Já aqui lamentei, mais do que uma vez, a escassez de poesia na nossa rádio (vide 'posts' Poesia na rádio e A poesia é para todos os dias). Defendo – e sei que não sou o único – que a rádio é o meio mais adequado para o culto da palavra, designadamente a palavra poética. E isso pode ser feito de duas maneiras: pela recitação e pelo canto. Muitos foram os actores que resgataram ao silêncio dos livros as palavras dos nossos poetas maiores e cuja arte ficou perpetuada em registo sonoro. Cito alguns dos mais conhecidos: João Villaret, Mário Viegas, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, Luís Lima Barreto, Luís Lucas, Carlos Daniel, João Grosso, Manuela de Freitas, Vítor de Sousa, Santos Manuel. Isto claro está sem esquecer os próprios poetas que entenderam dizer (uns bem, outros menos mal) os seus próprios poemas: Almada Negreiros, José Régio, Miguel Torga, Natália Correia, Ary dos Santos, Mário Cesariny de Vasconcelos, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade. E seria imperdoável não fazer uma referência a eméritos locutores, como Maria Clara, António Cardoso Pinto, Vítor Nobre, Graça Vasconcelos e Paulo Rato (apenas para citar os mais recentes), que aos microfones da rádio pública fizeram chegar a poesia a um público mais vasto. E digo "fizeram" porque o único que ainda o faz (e muito bem) é Paulo Rato no apontamento de poesia Os Sons Férteis, e que merecia outro destaque na grelha. Um ponto que reclama urgente correcção! E de poesia gravada (editada em disco ou guardada no arquivo histórico da RDP) nem vale pena falar tal é a míngua. Se não fosse dois ou três profissionais como Luís Caetano (Um Certo Olhar) e Rafael Correia (Lugar ao Sul) terem uma particular sensibilidade nesta área a miséria seria ainda maior. Felizmente que a internet trouxe uma nova possibilidade, ao facultar muita e boa poesia quer sob a forma escrita quer sob a forma oral. A este propósito faço uma referência muito especial a José António Moreira que através do blogue Sons da Escrita faz autênticos programas de rádio tendo como matéria-prima a poesia portuguesa e alguma da melhor música anglo-americana (Pink Floyd, King Crimson, Steve Winwood, Moody Blues, Crosby Stills & Nash, Bob Dylan, Leonard Cohen, Paul Simon, Enya, Clannad, Eric Clapton, Kinks, Mark Knopfler, etc.). Ora aqui está um trabalho que faço questão de louvar e que atendendo à situação que se assiste na rádio constitui um relevante serviço público cultural e que merece ser apoiado.
O programa "O Ouvido de Maxwell", da Antena 2, um dos melhores actualmente disponíveis na nossa rádio, já foi objecto do merecido destaque aqui neste blogue em 21 de Fevereiro. Aos ouvintes do programa e eventuais interessados fica a notícia de que já está disponível para 'podcasting' na página http://www.ouvidodemaxwell.com.
Depois desse acto bárbaro que foi a extinção do programa "Acontece!" e do afastamento de Carlos Pinto Coelho da RTP, passámos a contar com ele na TSF,no programa "Directo ao Assunto", espaço de debate nas manhãs de domingo. Mas a sua actividade radiofónica não começou aí. A par do programa televisivo, Carlos Pinto Coelho já vinha realizando o programa "Agora… Acontece!" que passa em várias dezenas de rádios locais e regionais. O programa é patrocinado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – o que é de louvar – mas ao contrário do que seria de supor, os temas abordados não se confinam à ciência pois são contempladas todas as áreas da actividade cultural e artística. Nesta medida, o "Agora… Acontece!" é um notável exemplo de serviço público e por essa razão assume ainda maior relevância atendendo ao estado calamitoso a que chegou a maioria das rádios locais (vide texto no blogue A Rádio em Portugal). Mas, estranhamente, e apesar dos direitos de transmissão serem cedidos gratuitamente a todas as emissoras que o desejem, constata-se que a maioria delas não o transmite. Porque é que isto acontece? Falta de divulgação do programa junto das rádios ou falta de sensibilidade dos directores das mesmas? A primeira hipótese é de imediato descartada porque, segundo sei, todas foram contactadas pela produção do programa. Então resta a segunda hipótese, o que configura uma a situação muito grave porque as rádios locais têm uma obrigação de serviço público de que não podem abdicar e que assumiram quando se candidataram à concessão de alvará de radiodifusão. Uma rádio local não existe para ocupar praticamente todo o tempo de emissão com conteúdos musicais decalcados das rádios nacionais as quais, como é sabido, estão ao serviço dos interesses comerciais das 'majors' multinacionais. E quando um determinado programa é cedido a custo zero torna-se completamente absurdo que seja rejeitado, ainda para mais quando ele constituiria o único espaço cultural de muitas dessas estações. Como tal, terá forçosamente de se concluir que a direcção de boa parte das rádios locais não é ocupada pelas pessoas mais competentes e preparadas para o exercício da função. Em face disto, tem de se pedir responsabilidades ao Governo por estar a pecar por omissão ao não assumir o seu papel de regulação como lhe competiria. As pessoas que não têm a sorte de terem no seu concelho uma rádio que transmite o programa ou que não tenham internet (ou que tendo não querem recorrer a esta opção por ser mais dispendiosa) ficam impossibilitadas de o ouvir. Sendo o "Agora… Acontece!" um programa de relevante serviço público e estando envolvidos dinheiros públicos, urge que situação tão anómala seja corrigida de modo a que todos os portugueses a ele tenham acesso, por via hertziana. Fica aqui o meu apelo a quem de direito.
Nota: Comentários e opiniões sobre o programa devem ser enviados para a produção: agora.acontece@clix.pt. Quem desejar receber a lista das rádios emissoras do "Agora… Acontece!", basta solicitá-lo escrevendo para ajferreira74@gmail.com.
Muita gente – eu incluído – se lamenta da baixa qualidade da música que passa na rádio portuguesa e do facto de tanta e boa música que se faz (ou se fez) não chegar à luz do éter. São muitos os artistas de talento atingidos, mas no caso de Adriano Correia de Oliveira o silêncio dói ainda mais, justamente por se tratar de um dos nomes maiores da música portuguesa de sempre. Pessoalmente, não é pelo facto de a rádio não o passar que deixo de o ouvir sempre que me apetece porque felizmente tenho na minha discoteca uma caixa com a sua obra completa. Devo confessar que foi a rádio – mais concretamente a Antena 1 – que mo deu a ouvir pela primeira vez quando passou a "Trova do Vento que Passa" (salvo erro, no programa "Retratos", de Ana Aranha). Nesses anos 90, já o grande cantor não pertencia ao número dos vivos, mas foi tal o fascínio que aquela voz cristalina e de uma beleza ímpar me causou que fui logo à procura de outras músicas suas. A primeira aquisição foi uma antologia a que se seguiu a referida caixa, editada pela Movieplay, com 7 CDs organizados tematicamente por José Niza (autor da música de alguns dos mais belos temas de Adriano e também da letra de "E Depois do Adeus" imortalizada por Paulo de Carvalho). Escusado será dizer que Adriano Correia de Oliveira se tornou um dos meus cantores de culto e, tal como eu que o descobri pela rádio há uma dúzia de anos, não duvido que aconteceria o mesmo com muitos jovens de agora se a rádio o passasse. A este propósito, gostei que Paulo de Carvalho, na última edição do "Viva a Música", tivesse lamentado o ostracismo a que a rádio portuguesa tem votado o grande Adriano Correia de Oliveira dizendo muito propositadamente que, apesar de ele já não se encontrar entre nós, existe a obra – uma obra sublime, acrescento eu. Por tudo isto, solidarizo-me com a indignação manifestada por Paulo de Carvalho e apreciei a homenagem que fez a Adriano ao recuperar "Cantar de Emigração", um dos seus temas emblemáticos.
A este propósito, impõe-se a pergunta: por que razão é que Adriano Correia de Oliveira não passa actualmente na Antena 1 e na Antena 3, ao contrário que acontece com António Variações que morreu, mais ou menos, na mesma altura? Não queria ser indelicado mas, quando se decide silenciar Adriano Correia de Oliveira na rádio pública, a razão de fundo só pode ser a ignorância e ou a falta de sensibilidade musical.
Em agradecimento a Adriano Correia de Oliveira por tantas e belas canções que nos deixou, fica aqui a letra da minha preferida.
Fala do Homem Nascido
Poema: António Gedeão
Música: José Niza
Voz: Adriano Correia de Oliveira
Viola: Rui Pato
Venho da terra assombrada,
Do ventre de minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.
Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver,
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.
(in "Cantaremos", Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999)
Realizado e apresentado por Edgar Canelas, Vozes da Lusofonia é um programa dedicado à divulgação da música que se vai fazendo em Portugal e no mundo lusófono. Cada emissão conta com um artista (cantor, músico ou grupo) em estúdio para falar do seu trabalho e das músicas que vão passando. É na verdade um programa modelar de serviço público não só por proporcionar aos criadores musicais a divulgação das suas obras mas também por dar aos ouvintes a oportunidade de conhecerem os conteúdos dos discos que vão sendo lançados. E isto é importante que seja feito porque infelizmente as 'playlists' ignoram boa parte dos discos que se editam e dos que promovem apenas passam um ou dois temas. É de louvar que Edgar Canelas tenha a preocupação de contemplar todos os géneros, não esquecendo o fado e a música de raiz tradicional. Como quem define os conteúdos da "playlist" da Antena 1 persiste em ostracizar essas importantes áreas da nossa criação musical, o programa acaba por constituir um dos pouquíssimos espaços da nossa rádio que lhe dá guarida atenuando assim a sua incompreensível e injusta representatividade radiofónica. E digo incompreensível e injusta já que não corresponde à vontade de boa parte do auditório. Não tenho quaisquer dúvidas de que se as músicas de matriz tradicional tivessem outra presença nas rádios, seriam muito mais consumidas porque têm muitos apreciadores e cultores mesmo entre os jovens e jovens adultos porque é nesses segmentos do público que o fenómeno emergente da 'world music' tem mais entusiastas. Como só se ama e deseja o que se conhece, e as rádios continuam a fazer o jogo de poderosos 'lobbies', muitos vão continuando a consumir produtos musicais de efeito efémero e rapidamente descartáveis, mas que dão de comer a artistas medianos e fazem prosperar o negócio dos vários agentes do mercado discográfico – editoras, distribuidores, lojistas. Mas se a música a metro vende e faz render bom dinheiro, nada justifica que a música de maior quilate não possa ser também vendável e sem ser necessário adulterar a sua qualidade. As pessoas não são insensíveis à boa música, desde que lhes seja dada a oportunidade de a conhecer e apreciar. É tudo uma questão de boa promoção do que se produz e lança no mercado. Por alguma razão a pianista Maria João Pires, e sem fazer concessões ao mau gosto, já ocupou por mais de uma vez o primeiro lugar do top de vendas em Portugal. E se isto acontece na área da música clássica, por maioria de razão se pode verificar noutros géneros mais acessíveis ao grande público. Embora marginalizado numa dada altura, o fado conseguiu um novo fulgor graças a algumas boas vozes que, aproveitando os caminhos abertos pela grande Amália, se foram afirmando a ponto de já não puderem ser ignoradas. E tal como no fado há também uma grande vitalidade na música de raiz tradicional mas absurdamente quem dirige as principais rádios portuguesas arroga-se em não lhe dar eco. A propósito desta questão, gostei de ouvir o músico Luís Varatojo (do grupo A Naifa), a lamentar-se a Edgar Canelas do facto da música tradicional ter sido banida das rádios nacionais. Em Espanha, e em particular na Galiza, há uma atitude bem diferente: apesar de lá privilegiarem a produção autóctone, nem por isso deixam de dar atenção à música mais autêntica do lado de cá da fronteira. É vergonhoso, e revela bem o provincianismo e a falta de cultura dos responsáveis da nossa praça, que os portugueses José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Janita Salomé, Pedro Barroso, Júlio Pereira, Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, sem esquecer alguns excelentes grupos da nova geração que recriam a música tradicional, passem mais nas rádios galegas do que nas portuguesas. Por tudo isto, só tenho que felicitar os radialistas como Edgar Canelas, pela atenção que prestam à melhor música lusófona, designadamente aquela que é criminosamente sonegada pela nossa rádio.
Nota: "Vozes da Lusofonia" passa na Antena 1, domingos às 09 horas e à meia-noite.
No domingo passado, foi para o ar a última emissão do programa "O Amigo da Música", que José Nuno Martins vinha apresentando na Antena 1 há 81 semanas. O autor do programa, cuja indigitação para provedor do ouvinte teve parecer favorável do Conselho de Opinião da RDP, entendeu por bem sair de antena. É uma atitude muito digna e que faço questão de louvar, mas não escondo a minha pena por ver chegar ao fim um dos bons programas de autor da rádio portuguesa e de que era assíduo ouvinte. Embora não tenha apreciado uma ou outra opção de José Nuno Martins, isso não me impede de fazer um balanço globalmente muito positivo do seu trabalho. E digo isto por três boas razões: primeira, José Nuno Martins é incontestavelmente uma das figuras de proa da rádio portuguesa e talvez o maior conhecedor, entre nós, de música brasileira e latina em geral; segunda, um programa dedicado às músicas da latinidade, no actual panorama radiofónico monopolizado pela música comercial anglo-americana, é verdadeiro serviço público; terceira, "O Amigo da Música" havia conquistado a fidelidade de muitos ouvintes desiludidos com a rádio actual, facto que deve ser assinalado porque a desumanização trazida pelas 'playlists' levou inevitavelmente à quebra dos elos de identificação e cumplicidade que as pessoas tinham com ela. Espero que a direcção da Antena 1 saiba preencher convenientemente o vazio deixado pelo fim (preferia chamar-lhe interregno) do programa de José Nuno Martins. Atendendo ao desequilibrado figurino até agora implementado nas 'playlists' da rádio pública, mais premente se torna ainda a existência de espaços em que possamos ouvir as músicas mais genuínas do mundo latino, sem esquecer as desta faixa ocidental da Ibéria.
O "Magazine", que Anabela Mota Ribeiro vinha apresentando na RTP-2 desde Janeiro de 2004, acaba de ser extinto. Teve a mesma sorte do "Acontece!" só que mais prematuramente. Cumpre-me perguntar: porquê? Pouco me importa o nome do programa: "Magazine", "Acontece!" ou qualquer outro. Agora o que não posso aceitar é que no serviço público de televisão não exista um espaço dedicado à actualidade cultural. Não era o "Magazine" um programa que se enquadrava no conceito de serviço público? Ninguém minimamente sério e responsável se atreve a dizer que não. Admito que houvesse necessidade de ajustar o formato ou redefinir alguns conteúdos (por exemplo, na área da música), mas nunca a extinção pura e simples para passar a reinar o vazio. Com o desaparecimento do "Magazine" o serviço público de televisão ficou em pior situação que as televisões privadas que, embora a horas tardias, ainda apresentam um cartaz cultural semanal. Estava à espera que com o novo director, Jorge Wemans, a RTP-2 pudesse recuperar alguma da qualidade que perdeu com a reestruturação ocorrida em Janeiro de 2004. Mas agora verifico que estava enganado. E a degradação não se fica pela abolição do "Magazine". Um dos grandes erros da direcção de Manuel Falcão foi preferir as séries americanas ao cinema de qualidade: séries todos os dias e apenas um filme por semana. Agora, em vez de uma, temos duas séries por dia (algumas em reposição) e a penúria de cinema continua a mesma. É pertinente a pergunta: as séries americanas têm mais valor cultural do que o cinema europeu e os grandes clássicos do cinema norte-americano? O que fizeram aos mestres da sétima arte como Bergman, Antonioni, Fellini, Visconti, Buñuel, Jean Renoir, Truffaut, Murnau, Fritz Lang, John Ford, Orson Welles ou Hitchcock? Não digo que não haja uma ou outra série de qualidade como "Roma" ou "Sete Palmos de Terra", mas ocupar o horário nobre do canal cultural da televisão pública todos os dias com infindáveis ruminações de já visto parece-me um flagrante desvio do serviço público e um desperdício do dinheiro dos contribuintes. O que se está a passar é ainda mais bizarro atendendo a que foi o próprio ministro da tutela, Augusto Santos Silva, quando entrevistado por Jorge Rodrigues no programa "Ritornello" da Antena 2, que declarou o seu empenho numa RTP-2 vocacionada para uma programação cultural de excelência. Quem é que beneficia com tudo isto? O cabo, pois claro! Quem não pode assinar o cabo, fica com as telenovelas, os concursos e os enlatados americanos. E depois venham queixar-se que o povo não tem cultura!
Já aqui aludi várias vezes a essa grande chaga que aflige a rádio actual: a ditadura das 'playlists' e o criminoso afastamento de tantos homens e mulheres que fizeram o imaginário da rádio. Francisco Mateus, no blogue "Rádio Crítica" ('posts' Paradeiros e O Que é Feito Deles? - continuação) teve a luminosa ideia de fazer uma galeria dos nomes que marcaram a rádio portuguesa nas últimas décadas. Foi com nostalgia que recordei alguns desses nomes que acompanharam o meu crescimento e que foram importantes na formação do meu gosto e sensibilidade. Evoco muito especialmente Graça Vasconcelos (afastada da RDP em Outubro de 2005) que com o seu distintíssimo "Imaginário", nas noites da Antena 1, me acompanhou nas horas de estudo sobretudo em vésperas de testes e exames. Evoco também com saudade Pedro Albergaria que me revelou grandes nomes da música popular anglo-americana dos anos 60 e 70 com o seu extraordinário "Viva o Velho" e Jorge Gil que com o clássico "Em Órbita" me conquistou para a música antiga. Dos que estão no activo permito-me acrescentar duas referências da Antena 1: Armando Carvalheda que há dez anos vem apresentado o "Viva a Música" e Rafael Correia autor do "Lugar ao Sul", actualmente o segundo programa de maior longevidade da rádio portuguesa (o primeiro é "Cinco Minutos de Jazz", de José Duarte).
Escrito e realizado por Joel Costa, "Questões de Moral", na Antena 2, é um dos meus programas de rádio imperdíveis. Fazia tenção de falar sobre ele um destes dias, mas Francisco Mateus tirou-me as palavras da boca. Recomendo pois a leitura do seu eloquente texto no blogue Rádio Crítica.
Não parece mas já passaram dez anos desde o 1 de Abril de 1996, dia em que Mário Viegas pregou a suprema partida de nos privar da sua irreverente e proveitosa companhia. Foram muitos – eu incluído – os que descobriram a beleza e o fascínio das palavras ditas pela voz magistral de Mário Viegas. "O Manifesto Anti-Dantas" foi a primeira coisa que ouvi da sua boca e foi tal a impressão que me causou que ainda hoje fico arrepiado sempre que ouço essa peça. E quando tive a oportunidade de a ouvir pelo próprio Almada Negreiros é que fiquei com a noção mais nítida da sublime arte de Mário Viegas já que superara o autor. Por tudo isso é da mais elementar justiça endereçar-lhe daqui um sincero agradecimento lá para o lugar etéreo de onde risonhamente nos observa.
Perdemos o homem, ficou a obra e a grata memória que deixou em todos aqueles que tiveram o privilégio de comungar da sua arte. Para a posteridade fica o seu legado que não é de pouca monta pois além da documentação que doou ao Museu do Teatro, dele faz parte um rico e precioso acervo de poesia recitada. Parte desse espólio de gravações pertence ao arquivo histórico da RDP e, como tal, cumpre-me aplaudir a direcção da Antena 1 por ter assinalado a efeméride com a transmissão de uma série de poemas ditos pelo grande recitador, de hora a hora logo a seguir ao noticiário. No dia das mentiras foi uma barriga cheia de poesia porque além da oportuna evocação de Mário Viegas, Francisco José Viegas teve também a louvável ideia de preencher o seu "Escrita em Dia" com o recital de poesia de vários autores que teve lugar na Casa Fernando Pessoa no Dia Mundial da Poesia. Dada a míngua de poesia de que a rádio pública tem padecido é caso para dizer que a fome deu em fartura. Mas receio bem que esta súbita abundância tenha sido circunstancial e que a penúria volte a ser a ordem do dia. Não vou ao ponto de pedir que doravante haja poesia a cada hora que passa, mas já me contentava com a transmissão de um poema três ou quatro vezes por dia e nos vários canais da RDP, a exemplo do que tem acontecido – e muito bem – com algumas rubricas da Antena 1. Penso que não é pedir muito e não será certamente por falta de material no arquivo histórico que isso não é feito.
Nota: A poesia recitada por Mário Viegas fica agora mais acessível aos interessados graças à colecção de CDs que o jornal “Público” começou a distribuir.
O PORTUGAL FUTURO
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
Poema de Ruy Belo (in "Homem de Palavra(s)", col. Cadernos de Poesia, vol. 9, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969, Lisboa: Editorial Presença, 1997) Recitado por Mário Viegas (in LP/CD "Poemas de Bibe: grande poesia portuguesa escolhida para os mais pequenos", UPAV, 1990)
De acordo com notícia divulgada esta semana, José Nuno Martins, conhecido realizador de rádio e de televisão, foi a pessoa escolhida para ocupar o cargo de provedor do ouvinte da rádio pública, figura criada pelo actual Governo. Os jornais de referência há muito que têm o provedor do leitor, pelo que a medida de adoptar a figura do ombudsman nos serviços públicos de rádio e de televisão só peca por tardia. A pessoa em causa não me suscita qualquer objecção atendendo ao seu meritório percurso profissional e por se tratar de alguém que tem uma perspectiva humanista da função da rádio. Não obstante, temo que o facto de José Nuno Martins ter um vínculo contratual com a RDP para a qual realiza o programa "O Amigo da Música" e a rubrica "Os Reis da Rádio" possa afectar a sua isenção e de algum modo condicionar a sua acção como defensor dos ouvintes junto da própria entidade patronal. Eu gostava que a circunstância de ser um homem da rádio, longe de ser um óbice, se torne uma vantagem e que o facto de ser um profissional respeitado pelas cúpulas da RDP e pelos seus pares possa facilitar as coisas. Seria muito mau se a solidariedade corporativa e eventuais cumplicidades com pessoas do mesmo ofício propiciassem a condescendência e a contemporização com determinadas condutas e procedimentos inadequados ou menos correctos. Por isso, faço votos para que José Nuno Martins, embora não se abstraindo totalmente do seu métier de radialista, se coloque sobretudo na posição dos destinatários do serviço de rádio. Eu, ouvinte atento e empenhado na melhoria da rádio pública, fico na expectativa de que O AMIGO DA MÚSICA se consiga afirmar como um mediador credível entre os ouvintes e a direcção/administração da RDP. O pior que podia acontecer seria o provedor não passar de mera figura simbólica e burocrática que existe porque está consignada na lei mas sem uma real eficácia na resolução dos problemas apresentados pelos ouvintes. E presumo que José Nuno Martins, ao aceitar o convite para o lugar, tivesse colocado como condição não ficar reduzido a uma figura de cera que fica bem no retrato mas sem qualquer outra utilidade. Nessa medida, só me resta desejar a José Nuno Martins as maiores venturas como provedor do ouvinte e que o cargo possa sair prestigiado com o seu magistério.
Foi com pesar que ontem recebi a notícia da morte de José Ramos, uma das vozes mais carismáticas da nossa rádio e bastante familiar aos telespectadores da SIC. A rádio fica indubitavelmente mais pobre. Mas ao contrário de outras circunstâncias em que se recorre a este lugar-comum apenas porque é de bom tom, no caso de José Ramos (na foto) ele faz todo o sentido porque era um homem na força da vida e que ainda tinha muito para dar. Apreciei a sentida homenagem que Rui Pêgo lhe fez hoje de manhã em "Os Reis da Rádio", rubrica que contava com a sua preciosa colaboração. E também apreciei que Luís Caetano no seu "Um Certo Olhar" tivesse recuperado uma das crónicas em que ele abordou um tema crucial da nossa rádio: a degradação que ela sofreu nos últimos tempos com o afastamento de eméritos profissionais para dar lugar às 'playlists' formatadas por uns rapazes incultos que nada mais fizeram do que afastar milhares e milhares de ouvintes. Enquanto radiófilo e apreciador de belas vozes ainda não perdi a esperança que a rádio venha a recuperar o calor humano de que foi despojada, pois só assim ela se poderá reconciliar com os ouvintes que a abandonaram.
Nota: Recomendo a leitura do texto que Paula Cordeiro escreveu a propósito no blogue "NetFM".
Não podia deixar de felicitar a direcção da Antena 1 por, no Dia Mundial da Poesia, ter tomado a louvável iniciativa de dar oportunidade a poetas novos de dizerem os seus próprios poemas. Congratulo-me que sob a direcção de Rui Pêgo a rádio pública esteja mais atenta ao calendário do que esteve durante o consulado do seu antecessor. Aconteceu agora com a poesia, mas já havia reparado que não foi deixado passar em vão o dia em que passaram 19 anos sobre a morte de José Afonso. Já tive a oportunidade de aqui abordar a situação de penúria de poesia que se verifica nas actuais grelhas da rádio pública, pelo que acolhi com regozijo a iniciativa. Agora só espero é que a direcção da RDP não se restrinja a assinalar uma data e no resto do ano tratar a poesia como um parente pobre no serviço público. Pessoalmente, não levo muito a sério os dias disto e daquilo porque reparo que os mesmos são aproveitados pelos vários poderes para comemorações de circunstância e depois tudo regressa ao mesmo. São datas que as instituições utilizam porque é politicamente correcto e, no fundo, para salvarem a face pelo que não fazem nos restantes 364 dias do ano. A poesia é para qualquer dia, é para quando nos apetecer, sendo que se torna irrelevante que alguém tenha escolhido o 21 de Março para o seu dia. O importante é que haja uma filosofia consistente e continuada no cultivo da poesia (e das outras artes) ao longo do ano. Porque a poesia faz parte da nossa vida e ficamos mais pobres se nos limitarmos a dar-lhe atenção apenas no dia em que começa a Primavera. «Ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer.», dizia a grande Natália Correia. Presumo que Rui Pêgo não goste de ser chamado de “subalimentado do sonho” e, como tal, espero que tenha o bom senso e o bom gosto de dar à poesia (e ao teatro) uma presença digna na rádio pública. Por exemplo, por que motivo a excelente rubrica "Os Sons Férteis", da Antena 2, não é repetida em vários momentos do dia, em vez de passar unicamente às 11 horas da manhã? Isto, claro está, sem prejuízo de voltar à antena um espaço semanal mais alargado como o que foi feito até meados de 2005 pela jornalista Alexandra Lucas Coelho.
Realizado e apresentado pelo jornalista Germano Campos, "Café Plaza" é um espaço que dedicado às músicas do passado, ou melhor, às músicas de sempre mas com a particularidade de terem sido criadas antes dos anos 70. No programa podemos ouvir as canções e os temas instrumentais que fizeram as delícias de quem viveu no período áureo da rádio e do cinema, remontando à época dos discos de 78 rotações que se punham a rodar em grafonolas roufenhas movidas à manivela. Esse tempo passou mas as músicas ficaram, e graças aos avanços da tecnologia as gravações remasterizadas podem hoje ser ouvidas com uma qualidade surpreendente. Os discófilos e os amantes da música sabem que o melhor aferidor da qualidade de uma peça musical é ela resistir à passagem do tempo. E é justamente os temas que apesar de tantos anos volvidos ainda continuam a fascinar não só aqueles que as ouviram na primavera da vida mas também muita gente das gerações posteriores, que Germano Campos recupera no seu programa. É bem verdade que a boa música não tem idade, é como os diamantes que não sofrem a erosão do tempo. Da minha experiência enquanto ouvinte assíduo do "Café Plaza" tenho-o constatado e posso até testemunhar que peças que foram êxitos nos anos 70 são hoje inaudíveis, coisa que não acontece com boa parte das criações dos anos 40 e 50. Alguns poderão dizer que isso resulta da evolução do gosto ao longo das épocas. Não negando existir uma ponta de verdade nesse argumento creio que há algo de mais profundo e essencial que confere carácter intemporal a uma determinada peça musical. Tal como Bach que não duvido irá perdurar até ao fim da Humanidade, também estou em crer que alguma da música popular que se fez no século XX vai continuar a ser apreciada durante muitas décadas e constituir uma referência para muitos vindouros. Nomes como Bing Crosby, Frank Sinatra, Dean Martin, Barry James, Benny Goodman, Glenn Miller, Nat King Cole, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Doris Day têm acesso privilegiado ao "Café Plaza" mas as portas não estão fechadas à música latina, designadamente a francesa, a hispano-americana e a brasileira. Aliás, as efemérides de figuras importantes da música, do cinema e do teatro, são sempre devidamente assinaladas por Germano Campos com resenhas biográficas dos homenageados e, como não podia deixar de ser, com a transmissão das respectivas interpretações mais emblemáticas. A quem se queixa – e com razão – da pobreza da programação musical na rádio portuguesa, o "Café PLaza" é um programa vivamente recomendado: aos mais velhos pela oportunidade de reviverem as músicas da sua juventude e aos mais novos pela possibilidade de descobrirem artistas e músicas que a rádio deixou de passar. No meu caso, devo confessar que Germano Campos me tem proporcionado conhecer a obra de cantores e músicos que conhecia só de nome ou de que nunca ouvira falar. Foi o caso de Nelson Riddle, autor de uma orquestração de "Lisboa Antiga", tema que esteve no top norte-americano durante várias semanas consecutivas há precisamente 50 anos, em Março de 1956. Quantas pessoas em Portugal sabem que um fado, embora em versão instrumental, foi um êxito comercial nas terras do Tio Sam? Este é um exemplo que podia servir de lição a muitos provincianos da nossa praça que aceitam acriticamente tudo o que vem de fora e ostracizam a nossa música mais autêntica. Embora não se trate de um programa de discos pedidos, Germano Campos tomou a louvável iniciativa de pedir aos seus ouvintes que apresentem sugestões de peças e ou artistas que gostariam de ouvir. É uma ideia que se aplaude, porque sem desvirtuar o conceito do programa essa interactividade ajuda a criar uma salutar cumplicidade entre o autor e o auditório e tem o efeito benéfico de fidelizar os ouvintes. Eu tenho o prazer de ser um deles.
Nota: O "Café Plaza" situa-se na Antena 2 e está aberto aos domingos das 7 às 10 horas da manhã. Os amantes de música brasileira estejam atentos porque está prometido para breve um espaço alargado dedicado à bossa nova. A não perder!