Em 7 de Abril lavrei aqui o meu protesto contra a extinção do "Magazine", programa que no segundo canal da televisão pública dava conta da actividade cultural. Para mim, era um escândalo o serviço público de televisão não ter um espaço deste género. Por isso, foi com agrado que ontem ouvi Paula Moura Pinheiro, subdirectora de programas da RTP-2, anunciar um novo programa para suceder ao "Magazine". Chama-se "Câmara Clara" e vai para o ar aos domingos, logo a seguir ao Jornal 2, por volta das 22:30. O horário merece o meu aplauso, mas confesso que achei o título algo exótico. "Câmara Clara" porquê? Depreendo que se queira dar a ideia de uma câmara de filmar com o diafragma totalmente aberto. Dado que as actividades que vão ser focadas decorrem sobretudo à noite, em ambientes de fraca luz, até percebo a ideia. Para me certificar consultei um dicionário, mas a definição que aparece é outra: câmara clara – dispositivo adaptável aos microscópios, que permite desenhar o que se observa, por um processo semelhante ao decalque. Bem, passemos à frente porque os títulos são o que menos importa. O que realmente interessa são os conteúdos e, como tal, fico na expectativa que eles façam jus ao que deve ser um verdadeiro serviço de informação cultural. Espero que o novo programa, não caia no erro do "Magazine" que dava um destaque desmesurado à música pop e se limitava a fazer uma referências escassas e breves à música clássica, ao jazz e à 'word music'. Faço votos para que o responsável editorial do "Câmara Clara" não deixe passar em claro o que de melhor for acontecendo em matéria de música popular portuguesa (tradicional e de autor), já que se trata de um género que tem sido muito desprezado pela nossa rádio. É também para isso que existe o serviço público de televisão: dar representatividade mediática à actividade cultural e artística que não tem por detrás uma forte máquina promocional.
Adenda (em 30-Maio-2006):
Paula Moura Pinheiro, logo no início da primeira emissão, dignou-se dar uma explicação para o nome do programa. Na verdade, "A Câmara Clara" é o título de um livro do pensador francês Roland Barthes que versa sobre a natureza da fotografia, o amor e a morte. Editado pela primeira vez em França no ano de 1980, está disponível em português (de Portugal) na colecção Arte & Comunicação, das Edições 70.
Capa do livro "A Câmara Clara" – Edições 70 (Portugal)
Capa do livro "A Câmara Clara" – Editora Nova Fronteira (Brasil)
Francisco Mateus, no blogue Rádio Crítica, a exemplo do que fez para a Rádio Comercial dos anos 80, inventaria também uma série de programas da Antena 1 da mesma década. Remata com uma apreciação da situação actual, da qual respigo a esta passagem: «Sou defensor da existência em Portugal do serviço público de radiodifusão, não para rivalizar com os operadores privados, mas para ser diferente destes. Para ser uma alternativa sólida, qualitativa e credível. Em 2006 a RDP, "A rádio que liga Portugal", está com um pé em cada um dos lados, e sendo assim, não está assente em nenhum. Ficando a meio caminho, acaba por "apanhar" dos dois.» Devo dizer que não podia estar mais de acordo com estas palavras e permito-me precisar que é justamente na programação musical que a Antena 1 mais peca por não ser uma alternativa qualitativa e credível às estações privadas. É facilmente verificável que quase não existem espaços musicais de autor, sendo os alinhamentos preenchidos por uma 'playlist' que pouco ou nada difere das rádios que dependem da publicidade. Uma 'playlist' monolítica, monopolizada pela música pop, que não promove o fado e ainda menos a música popular portuguesa (tradicional e de autor). Por isso, quando ouço o slogan "A rádio que liga Portugal" soa-me a uma piada de muito mau gosto.
Já aqui lamentei, mais do que uma vez, a escassez de poesia na nossa rádio (vide 'posts' Poesia na rádio e A poesia é para todos os dias). Defendo – e sei que não sou o único – que a rádio é o meio mais adequado para o culto da palavra, designadamente a palavra poética. E isso pode ser feito de duas maneiras: pela recitação e pelo canto. Muitos foram os actores que resgataram ao silêncio dos livros as palavras dos nossos poetas maiores e cuja arte ficou perpetuada em registo sonoro. Cito alguns dos mais conhecidos: João Villaret, Mário Viegas, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, Luís Lima Barreto, Luís Lucas, Carlos Daniel, João Grosso, Manuela de Freitas, Vítor de Sousa, Santos Manuel. Isto claro está sem esquecer os próprios poetas que entenderam dizer (uns bem, outros menos mal) os seus próprios poemas: Almada Negreiros, José Régio, Miguel Torga, Natália Correia, Ary dos Santos, Mário Cesariny de Vasconcelos, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade. E seria imperdoável não fazer uma referência a eméritos locutores, como Maria Clara, António Cardoso Pinto, Vítor Nobre, Graça Vasconcelos e Paulo Rato (apenas para citar os mais recentes), que aos microfones da rádio pública fizeram chegar a poesia a um público mais vasto. E digo "fizeram" porque o único que ainda o faz (e muito bem) é Paulo Rato no apontamento de poesia Os Sons Férteis, e que merecia outro destaque na grelha. Um ponto que reclama urgente correcção! E de poesia gravada (editada em disco ou guardada no arquivo histórico da RDP) nem vale pena falar tal é a míngua. Se não fosse dois ou três profissionais como Luís Caetano (Um Certo Olhar) e Rafael Correia (Lugar ao Sul) terem uma particular sensibilidade nesta área a miséria seria ainda maior. Felizmente que a internet trouxe uma nova possibilidade, ao facultar muita e boa poesia quer sob a forma escrita quer sob a forma oral. A este propósito faço uma referência muito especial a José António Moreira que através do blogue Sons da Escrita faz autênticos programas de rádio tendo como matéria-prima a poesia portuguesa e alguma da melhor música anglo-americana (Pink Floyd, King Crimson, Steve Winwood, Moody Blues, Crosby Stills & Nash, Bob Dylan, Leonard Cohen, Paul Simon, Enya, Clannad, Eric Clapton, Kinks, Mark Knopfler, etc.). Ora aqui está um trabalho que faço questão de louvar e que atendendo à situação que se assiste na rádio constitui um relevante serviço público cultural e que merece ser apoiado.
O programa "O Ouvido de Maxwell", da Antena 2, um dos melhores actualmente disponíveis na nossa rádio, já foi objecto do merecido destaque aqui neste blogue em 21 de Fevereiro. Aos ouvintes do programa e eventuais interessados fica a notícia de que já está disponível para 'podcasting' na página http://www.ouvidodemaxwell.com.
Depois desse acto bárbaro que foi a extinção do programa "Acontece!" e do afastamento de Carlos Pinto Coelho da RTP, passámos a contar com ele na TSF,no programa "Directo ao Assunto", espaço de debate nas manhãs de domingo. Mas a sua actividade radiofónica não começou aí. A par do programa televisivo, Carlos Pinto Coelho já vinha realizando o programa "Agora… Acontece!" que passa em várias dezenas de rádios locais e regionais. O programa é patrocinado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – o que é de louvar – mas ao contrário do que seria de supor, os temas abordados não se confinam à ciência pois são contempladas todas as áreas da actividade cultural e artística. Nesta medida, o "Agora… Acontece!" é um notável exemplo de serviço público e por essa razão assume ainda maior relevância atendendo ao estado calamitoso a que chegou a maioria das rádios locais (vide texto no blogue A Rádio em Portugal). Mas, estranhamente, e apesar dos direitos de transmissão serem cedidos gratuitamente a todas as emissoras que o desejem, constata-se que a maioria delas não o transmite. Porque é que isto acontece? Falta de divulgação do programa junto das rádios ou falta de sensibilidade dos directores das mesmas? A primeira hipótese é de imediato descartada porque, segundo sei, todas foram contactadas pela produção do programa. Então resta a segunda hipótese, o que configura uma a situação muito grave porque as rádios locais têm uma obrigação de serviço público de que não podem abdicar e que assumiram quando se candidataram à concessão de alvará de radiodifusão. Uma rádio local não existe para ocupar praticamente todo o tempo de emissão com conteúdos musicais decalcados das rádios nacionais as quais, como é sabido, estão ao serviço dos interesses comerciais das 'majors' multinacionais. E quando um determinado programa é cedido a custo zero torna-se completamente absurdo que seja rejeitado, ainda para mais quando ele constituiria o único espaço cultural de muitas dessas estações. Como tal, terá forçosamente de se concluir que a direcção de boa parte das rádios locais não é ocupada pelas pessoas mais competentes e preparadas para o exercício da função. Em face disto, tem de se pedir responsabilidades ao Governo por estar a pecar por omissão ao não assumir o seu papel de regulação como lhe competiria. As pessoas que não têm a sorte de terem no seu concelho uma rádio que transmite o programa ou que não tenham internet (ou que tendo não querem recorrer a esta opção por ser mais dispendiosa) ficam impossibilitadas de o ouvir. Sendo o "Agora… Acontece!" um programa de relevante serviço público e estando envolvidos dinheiros públicos, urge que situação tão anómala seja corrigida de modo a que todos os portugueses a ele tenham acesso, por via hertziana. Fica aqui o meu apelo a quem de direito.
Nota: Comentários e opiniões sobre o programa devem ser enviados para a produção: agora.acontece@clix.pt. Quem desejar receber a lista das rádios emissoras do "Agora… Acontece!", basta solicitá-lo escrevendo para ajferreira74@gmail.com.
Muita gente – eu incluído – se lamenta da baixa qualidade da música que passa na rádio portuguesa e do facto de tanta e boa música que se faz (ou se fez) não chegar à luz do éter. São muitos os artistas de talento atingidos, mas no caso de Adriano Correia de Oliveira o silêncio dói ainda mais, justamente por se tratar de um dos nomes maiores da música portuguesa de sempre. Pessoalmente, não é pelo facto de a rádio não o passar que deixo de o ouvir sempre que me apetece porque felizmente tenho na minha discoteca uma caixa com a sua obra completa. Devo confessar que foi a rádio – mais concretamente a Antena 1 – que mo deu a ouvir pela primeira vez quando passou a "Trova do Vento que Passa" (salvo erro, no programa "Retratos", de Ana Aranha). Nesses anos 90, já o grande cantor não pertencia ao número dos vivos, mas foi tal o fascínio que aquela voz cristalina e de uma beleza ímpar me causou que fui logo à procura de outras músicas suas. A primeira aquisição foi uma antologia a que se seguiu a referida caixa, editada pela Movieplay, com 7 CDs organizados tematicamente por José Niza (autor da música de alguns dos mais belos temas de Adriano e também da letra de "E Depois do Adeus" imortalizada por Paulo de Carvalho). Escusado será dizer que Adriano Correia de Oliveira se tornou um dos meus cantores de culto e, tal como eu que o descobri pela rádio há uma dúzia de anos, não duvido que aconteceria o mesmo com muitos jovens de agora se a rádio o passasse. A este propósito, gostei que Paulo de Carvalho, na última edição do "Viva a Música", tivesse lamentado o ostracismo a que a rádio portuguesa tem votado o grande Adriano Correia de Oliveira dizendo muito propositadamente que, apesar de ele já não se encontrar entre nós, existe a obra – uma obra sublime, acrescento eu. Por tudo isto, solidarizo-me com a indignação manifestada por Paulo de Carvalho e apreciei a homenagem que fez a Adriano ao recuperar "Cantar de Emigração", um dos seus temas emblemáticos.
A este propósito, impõe-se a pergunta: por que razão é que Adriano Correia de Oliveira não passa actualmente na Antena 1 e na Antena 3, ao contrário que acontece com António Variações que morreu, mais ou menos, na mesma altura? Não queria ser indelicado mas, quando se decide silenciar Adriano Correia de Oliveira na rádio pública, a razão de fundo só pode ser a ignorância e ou a falta de sensibilidade musical.
Em agradecimento a Adriano Correia de Oliveira por tantas e belas canções que nos deixou, fica aqui a letra da minha preferida.
Fala do Homem Nascido
Poema: António Gedeão
Música: José Niza
Voz: Adriano Correia de Oliveira
Viola: Rui Pato
Venho da terra assombrada,
Do ventre de minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.
Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver,
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.
(in "Cantaremos", Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999)
Realizado e apresentado por Edgar Canelas, Vozes da Lusofonia é um programa dedicado à divulgação da música que se vai fazendo em Portugal e no mundo lusófono. Cada emissão conta com um artista (cantor, músico ou grupo) em estúdio para falar do seu trabalho e das músicas que vão passando. É na verdade um programa modelar de serviço público não só por proporcionar aos criadores musicais a divulgação das suas obras mas também por dar aos ouvintes a oportunidade de conhecerem os conteúdos dos discos que vão sendo lançados. E isto é importante que seja feito porque infelizmente as 'playlists' ignoram boa parte dos discos que se editam e dos que promovem apenas passam um ou dois temas. É de louvar que Edgar Canelas tenha a preocupação de contemplar todos os géneros, não esquecendo o fado e a música de raiz tradicional. Como quem define os conteúdos da "playlist" da Antena 1 persiste em ostracizar essas importantes áreas da nossa criação musical, o programa acaba por constituir um dos pouquíssimos espaços da nossa rádio que lhe dá guarida atenuando assim a sua incompreensível e injusta representatividade radiofónica. E digo incompreensível e injusta já que não corresponde à vontade de boa parte do auditório. Não tenho quaisquer dúvidas de que se as músicas de matriz tradicional tivessem outra presença nas rádios, seriam muito mais consumidas porque têm muitos apreciadores e cultores mesmo entre os jovens e jovens adultos porque é nesses segmentos do público que o fenómeno emergente da 'world music' tem mais entusiastas. Como só se ama e deseja o que se conhece, e as rádios continuam a fazer o jogo de poderosos 'lobbies', muitos vão continuando a consumir produtos musicais de efeito efémero e rapidamente descartáveis, mas que dão de comer a artistas medianos e fazem prosperar o negócio dos vários agentes do mercado discográfico – editoras, distribuidores, lojistas. Mas se a música a metro vende e faz render bom dinheiro, nada justifica que a música de maior quilate não possa ser também vendável e sem ser necessário adulterar a sua qualidade. As pessoas não são insensíveis à boa música, desde que lhes seja dada a oportunidade de a conhecer e apreciar. É tudo uma questão de boa promoção do que se produz e lança no mercado. Por alguma razão a pianista Maria João Pires, e sem fazer concessões ao mau gosto, já ocupou por mais de uma vez o primeiro lugar do top de vendas em Portugal. E se isto acontece na área da música clássica, por maioria de razão se pode verificar noutros géneros mais acessíveis ao grande público. Embora marginalizado numa dada altura, o fado conseguiu um novo fulgor graças a algumas boas vozes que, aproveitando os caminhos abertos pela grande Amália, se foram afirmando a ponto de já não puderem ser ignoradas. E tal como no fado há também uma grande vitalidade na música de raiz tradicional mas absurdamente quem dirige as principais rádios portuguesas arroga-se em não lhe dar eco. A propósito desta questão, gostei de ouvir o músico Luís Varatojo (do grupo A Naifa), a lamentar-se a Edgar Canelas do facto da música tradicional ter sido banida das rádios nacionais. Em Espanha, e em particular na Galiza, há uma atitude bem diferente: apesar de lá privilegiarem a produção autóctone, nem por isso deixam de dar atenção à música mais autêntica do lado de cá da fronteira. É vergonhoso, e revela bem o provincianismo e a falta de cultura dos responsáveis da nossa praça, que os portugueses José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Janita Salomé, Pedro Barroso, Júlio Pereira, Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, sem esquecer alguns excelentes grupos da nova geração que recriam a música tradicional, passem mais nas rádios galegas do que nas portuguesas. Por tudo isto, só tenho que felicitar os radialistas como Edgar Canelas, pela atenção que prestam à melhor música lusófona, designadamente aquela que é criminosamente sonegada pela nossa rádio.
Nota: "Vozes da Lusofonia" passa na Antena 1, domingos às 09 horas e à meia-noite.
No domingo passado, foi para o ar a última emissão do programa "O Amigo da Música", que José Nuno Martins vinha apresentando na Antena 1 há 81 semanas. O autor do programa, cuja indigitação para provedor do ouvinte teve parecer favorável do Conselho de Opinião da RDP, entendeu por bem sair de antena. É uma atitude muito digna e que faço questão de louvar, mas não escondo a minha pena por ver chegar ao fim um dos bons programas de autor da rádio portuguesa e de que era assíduo ouvinte. Embora não tenha apreciado uma ou outra opção de José Nuno Martins, isso não me impede de fazer um balanço globalmente muito positivo do seu trabalho. E digo isto por três boas razões: primeira, José Nuno Martins é incontestavelmente uma das figuras de proa da rádio portuguesa e talvez o maior conhecedor, entre nós, de música brasileira e latina em geral; segunda, um programa dedicado às músicas da latinidade, no actual panorama radiofónico monopolizado pela música comercial anglo-americana, é verdadeiro serviço público; terceira, "O Amigo da Música" havia conquistado a fidelidade de muitos ouvintes desiludidos com a rádio actual, facto que deve ser assinalado porque a desumanização trazida pelas 'playlists' levou inevitavelmente à quebra dos elos de identificação e cumplicidade que as pessoas tinham com ela. Espero que a direcção da Antena 1 saiba preencher convenientemente o vazio deixado pelo fim (preferia chamar-lhe interregno) do programa de José Nuno Martins. Atendendo ao desequilibrado figurino até agora implementado nas 'playlists' da rádio pública, mais premente se torna ainda a existência de espaços em que possamos ouvir as músicas mais genuínas do mundo latino, sem esquecer as desta faixa ocidental da Ibéria.
O "Magazine", que Anabela Mota Ribeiro vinha apresentando na RTP-2 desde Janeiro de 2004, acaba de ser extinto. Teve a mesma sorte do "Acontece!" só que mais prematuramente. Cumpre-me perguntar: porquê? Pouco me importa o nome do programa: "Magazine", "Acontece!" ou qualquer outro. Agora o que não posso aceitar é que no serviço público de televisão não exista um espaço dedicado à actualidade cultural. Não era o "Magazine" um programa que se enquadrava no conceito de serviço público? Ninguém minimamente sério e responsável se atreve a dizer que não. Admito que houvesse necessidade de ajustar o formato ou redefinir alguns conteúdos (por exemplo, na área da música), mas nunca a extinção pura e simples para passar a reinar o vazio. Com o desaparecimento do "Magazine" o serviço público de televisão ficou em pior situação que as televisões privadas que, embora a horas tardias, ainda apresentam um cartaz cultural semanal. Estava à espera que com o novo director, Jorge Wemans, a RTP-2 pudesse recuperar alguma da qualidade que perdeu com a reestruturação ocorrida em Janeiro de 2004. Mas agora verifico que estava enganado. E a degradação não se fica pela abolição do "Magazine". Um dos grandes erros da direcção de Manuel Falcão foi preferir as séries americanas ao cinema de qualidade: séries todos os dias e apenas um filme por semana. Agora, em vez de uma, temos duas séries por dia (algumas em reposição) e a penúria de cinema continua a mesma. É pertinente a pergunta: as séries americanas têm mais valor cultural do que o cinema europeu e os grandes clássicos do cinema norte-americano? O que fizeram aos mestres da sétima arte como Bergman, Antonioni, Fellini, Visconti, Buñuel, Jean Renoir, Truffaut, Murnau, Fritz Lang, John Ford, Orson Welles ou Hitchcock? Não digo que não haja uma ou outra série de qualidade como "Roma" ou "Sete Palmos de Terra", mas ocupar o horário nobre do canal cultural da televisão pública todos os dias com infindáveis ruminações de já visto parece-me um flagrante desvio do serviço público e um desperdício do dinheiro dos contribuintes. O que se está a passar é ainda mais bizarro atendendo a que foi o próprio ministro da tutela, Augusto Santos Silva, quando entrevistado por Jorge Rodrigues no programa "Ritornello" da Antena 2, que declarou o seu empenho numa RTP-2 vocacionada para uma programação cultural de excelência. Quem é que beneficia com tudo isto? O cabo, pois claro! Quem não pode assinar o cabo, fica com as telenovelas, os concursos e os enlatados americanos. E depois venham queixar-se que o povo não tem cultura!
Já aqui aludi várias vezes a essa grande chaga que aflige a rádio actual: a ditadura das 'playlists' e o criminoso afastamento de tantos homens e mulheres que fizeram o imaginário da rádio. Francisco Mateus, no blogue "Rádio Crítica" ('posts' Paradeiros e O Que é Feito Deles? - continuação) teve a luminosa ideia de fazer uma galeria dos nomes que marcaram a rádio portuguesa nas últimas décadas. Foi com nostalgia que recordei alguns desses nomes que acompanharam o meu crescimento e que foram importantes na formação do meu gosto e sensibilidade. Evoco muito especialmente Graça Vasconcelos (afastada da RDP em Outubro de 2005) que com o seu distintíssimo "Imaginário", nas noites da Antena 1, me acompanhou nas horas de estudo sobretudo em vésperas de testes e exames. Evoco também com saudade Pedro Albergaria que me revelou grandes nomes da música popular anglo-americana dos anos 60 e 70 com o seu extraordinário "Viva o Velho" e Jorge Gil que com o clássico "Em Órbita" me conquistou para a música antiga. Dos que estão no activo permito-me acrescentar duas referências da Antena 1: Armando Carvalheda que há dez anos vem apresentado o "Viva a Música" e Rafael Correia autor do "Lugar ao Sul", actualmente o segundo programa de maior longevidade da rádio portuguesa (o primeiro é "Cinco Minutos de Jazz", de José Duarte).
Escrito e realizado por Joel Costa, "Questões de Moral", na Antena 2, é um dos meus programas de rádio imperdíveis. Fazia tenção de falar sobre ele um destes dias, mas Francisco Mateus tirou-me as palavras da boca. Recomendo pois a leitura do seu eloquente texto no blogue Rádio Crítica.
Não parece mas já passaram dez anos desde o 1 de Abril de 1996, dia em que Mário Viegas pregou a suprema partida de nos privar da sua irreverente e proveitosa companhia. Foram muitos – eu incluído – os que descobriram a beleza e o fascínio das palavras ditas pela voz magistral de Mário Viegas. "O Manifesto Anti-Dantas" foi a primeira coisa que ouvi da sua boca e foi tal a impressão que me causou que ainda hoje fico arrepiado sempre que ouço essa peça. E quando tive a oportunidade de a ouvir pelo próprio Almada Negreiros é que fiquei com a noção mais nítida da sublime arte de Mário Viegas já que superara o autor. Por tudo isso é da mais elementar justiça endereçar-lhe daqui um sincero agradecimento lá para o lugar etéreo de onde risonhamente nos observa.
Perdemos o homem, ficou a obra e a grata memória que deixou em todos aqueles que tiveram o privilégio de comungar da sua arte. Para a posteridade fica o seu legado que não é de pouca monta pois além da documentação que doou ao Museu do Teatro, dele faz parte um rico e precioso acervo de poesia recitada. Parte desse espólio de gravações pertence ao arquivo histórico da RDP e, como tal, cumpre-me aplaudir a direcção da Antena 1 por ter assinalado a efeméride com a transmissão de uma série de poemas ditos pelo grande recitador, de hora a hora logo a seguir ao noticiário. No dia das mentiras foi uma barriga cheia de poesia porque além da oportuna evocação de Mário Viegas, Francisco José Viegas teve também a louvável ideia de preencher o seu "Escrita em Dia" com o recital de poesia de vários autores que teve lugar na Casa Fernando Pessoa no Dia Mundial da Poesia. Dada a míngua de poesia de que a rádio pública tem padecido é caso para dizer que a fome deu em fartura. Mas receio bem que esta súbita abundância tenha sido circunstancial e que a penúria volte a ser a ordem do dia. Não vou ao ponto de pedir que doravante haja poesia a cada hora que passa, mas já me contentava com a transmissão de um poema três ou quatro vezes por dia e nos vários canais da RDP, a exemplo do que tem acontecido – e muito bem – com algumas rubricas da Antena 1. Penso que não é pedir muito e não será certamente por falta de material no arquivo histórico que isso não é feito.
Nota: A poesia recitada por Mário Viegas fica agora mais acessível aos interessados graças à colecção de CDs que o jornal “Público” começou a distribuir.
O PORTUGAL FUTURO
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
Poema de Ruy Belo (in "Homem de Palavra(s)", col. Cadernos de Poesia, vol. 9, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969, Lisboa: Editorial Presença, 1997) Recitado por Mário Viegas (in LP/CD "Poemas de Bibe: grande poesia portuguesa escolhida para os mais pequenos", UPAV, 1990)
De acordo com notícia divulgada esta semana, José Nuno Martins, conhecido realizador de rádio e de televisão, foi a pessoa escolhida para ocupar o cargo de provedor do ouvinte da rádio pública, figura criada pelo actual Governo. Os jornais de referência há muito que têm o provedor do leitor, pelo que a medida de adoptar a figura do ombudsman nos serviços públicos de rádio e de televisão só peca por tardia. A pessoa em causa não me suscita qualquer objecção atendendo ao seu meritório percurso profissional e por se tratar de alguém que tem uma perspectiva humanista da função da rádio. Não obstante, temo que o facto de José Nuno Martins ter um vínculo contratual com a RDP para a qual realiza o programa "O Amigo da Música" e a rubrica "Os Reis da Rádio" possa afectar a sua isenção e de algum modo condicionar a sua acção como defensor dos ouvintes junto da própria entidade patronal. Eu gostava que a circunstância de ser um homem da rádio, longe de ser um óbice, se torne uma vantagem e que o facto de ser um profissional respeitado pelas cúpulas da RDP e pelos seus pares possa facilitar as coisas. Seria muito mau se a solidariedade corporativa e eventuais cumplicidades com pessoas do mesmo ofício propiciassem a condescendência e a contemporização com determinadas condutas e procedimentos inadequados ou menos correctos. Por isso, faço votos para que José Nuno Martins, embora não se abstraindo totalmente do seu métier de radialista, se coloque sobretudo na posição dos destinatários do serviço de rádio. Eu, ouvinte atento e empenhado na melhoria da rádio pública, fico na expectativa de que O AMIGO DA MÚSICA se consiga afirmar como um mediador credível entre os ouvintes e a direcção/administração da RDP. O pior que podia acontecer seria o provedor não passar de mera figura simbólica e burocrática que existe porque está consignada na lei mas sem uma real eficácia na resolução dos problemas apresentados pelos ouvintes. E presumo que José Nuno Martins, ao aceitar o convite para o lugar, tivesse colocado como condição não ficar reduzido a uma figura de cera que fica bem no retrato mas sem qualquer outra utilidade. Nessa medida, só me resta desejar a José Nuno Martins as maiores venturas como provedor do ouvinte e que o cargo possa sair prestigiado com o seu magistério.
Foi com pesar que ontem recebi a notícia da morte de José Ramos, uma das vozes mais carismáticas da nossa rádio e bastante familiar aos telespectadores da SIC. A rádio fica indubitavelmente mais pobre. Mas ao contrário de outras circunstâncias em que se recorre a este lugar-comum apenas porque é de bom tom, no caso de José Ramos (na foto) ele faz todo o sentido porque era um homem na força da vida e que ainda tinha muito para dar. Apreciei a sentida homenagem que Rui Pêgo lhe fez hoje de manhã em "Os Reis da Rádio", rubrica que contava com a sua preciosa colaboração. E também apreciei que Luís Caetano no seu "Um Certo Olhar" tivesse recuperado uma das crónicas em que ele abordou um tema crucial da nossa rádio: a degradação que ela sofreu nos últimos tempos com o afastamento de eméritos profissionais para dar lugar às 'playlists' formatadas por uns rapazes incultos que nada mais fizeram do que afastar milhares e milhares de ouvintes. Enquanto radiófilo e apreciador de belas vozes ainda não perdi a esperança que a rádio venha a recuperar o calor humano de que foi despojada, pois só assim ela se poderá reconciliar com os ouvintes que a abandonaram.
Nota: Recomendo a leitura do texto que Paula Cordeiro escreveu a propósito no blogue "NetFM".
Não podia deixar de felicitar a direcção da Antena 1 por, no Dia Mundial da Poesia, ter tomado a louvável iniciativa de dar oportunidade a poetas novos de dizerem os seus próprios poemas. Congratulo-me que sob a direcção de Rui Pêgo a rádio pública esteja mais atenta ao calendário do que esteve durante o consulado do seu antecessor. Aconteceu agora com a poesia, mas já havia reparado que não foi deixado passar em vão o dia em que passaram 19 anos sobre a morte de José Afonso. Já tive a oportunidade de aqui abordar a situação de penúria de poesia que se verifica nas actuais grelhas da rádio pública, pelo que acolhi com regozijo a iniciativa. Agora só espero é que a direcção da RDP não se restrinja a assinalar uma data e no resto do ano tratar a poesia como um parente pobre no serviço público. Pessoalmente, não levo muito a sério os dias disto e daquilo porque reparo que os mesmos são aproveitados pelos vários poderes para comemorações de circunstância e depois tudo regressa ao mesmo. São datas que as instituições utilizam porque é politicamente correcto e, no fundo, para salvarem a face pelo que não fazem nos restantes 364 dias do ano. A poesia é para qualquer dia, é para quando nos apetecer, sendo que se torna irrelevante que alguém tenha escolhido o 21 de Março para o seu dia. O importante é que haja uma filosofia consistente e continuada no cultivo da poesia (e das outras artes) ao longo do ano. Porque a poesia faz parte da nossa vida e ficamos mais pobres se nos limitarmos a dar-lhe atenção apenas no dia em que começa a Primavera. «Ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer.», dizia a grande Natália Correia. Presumo que Rui Pêgo não goste de ser chamado de “subalimentado do sonho” e, como tal, espero que tenha o bom senso e o bom gosto de dar à poesia (e ao teatro) uma presença digna na rádio pública. Por exemplo, por que motivo a excelente rubrica "Os Sons Férteis", da Antena 2, não é repetida em vários momentos do dia, em vez de passar unicamente às 11 horas da manhã? Isto, claro está, sem prejuízo de voltar à antena um espaço semanal mais alargado como o que foi feito até meados de 2005 pela jornalista Alexandra Lucas Coelho.
Realizado e apresentado pelo jornalista Germano Campos, "Café Plaza" é um espaço que dedicado às músicas do passado, ou melhor, às músicas de sempre mas com a particularidade de terem sido criadas antes dos anos 70. No programa podemos ouvir as canções e os temas instrumentais que fizeram as delícias de quem viveu no período áureo da rádio e do cinema, remontando à época dos discos de 78 rotações que se punham a rodar em grafonolas roufenhas movidas à manivela. Esse tempo passou mas as músicas ficaram, e graças aos avanços da tecnologia as gravações remasterizadas podem hoje ser ouvidas com uma qualidade surpreendente. Os discófilos e os amantes da música sabem que o melhor aferidor da qualidade de uma peça musical é ela resistir à passagem do tempo. E é justamente os temas que apesar de tantos anos volvidos ainda continuam a fascinar não só aqueles que as ouviram na primavera da vida mas também muita gente das gerações posteriores, que Germano Campos recupera no seu programa. É bem verdade que a boa música não tem idade, é como os diamantes que não sofrem a erosão do tempo. Da minha experiência enquanto ouvinte assíduo do "Café Plaza" tenho-o constatado e posso até testemunhar que peças que foram êxitos nos anos 70 são hoje inaudíveis, coisa que não acontece com boa parte das criações dos anos 40 e 50. Alguns poderão dizer que isso resulta da evolução do gosto ao longo das épocas. Não negando existir uma ponta de verdade nesse argumento creio que há algo de mais profundo e essencial que confere carácter intemporal a uma determinada peça musical. Tal como Bach que não duvido irá perdurar até ao fim da Humanidade, também estou em crer que alguma da música popular que se fez no século XX vai continuar a ser apreciada durante muitas décadas e constituir uma referência para muitos vindouros. Nomes como Bing Crosby, Frank Sinatra, Dean Martin, Barry James, Benny Goodman, Glenn Miller, Nat King Cole, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Doris Day têm acesso privilegiado ao "Café Plaza" mas as portas não estão fechadas à música latina, designadamente a francesa, a hispano-americana e a brasileira. Aliás, as efemérides de figuras importantes da música, do cinema e do teatro, são sempre devidamente assinaladas por Germano Campos com resenhas biográficas dos homenageados e, como não podia deixar de ser, com a transmissão das respectivas interpretações mais emblemáticas. A quem se queixa – e com razão – da pobreza da programação musical na rádio portuguesa, o "Café PLaza" é um programa vivamente recomendado: aos mais velhos pela oportunidade de reviverem as músicas da sua juventude e aos mais novos pela possibilidade de descobrirem artistas e músicas que a rádio deixou de passar. No meu caso, devo confessar que Germano Campos me tem proporcionado conhecer a obra de cantores e músicos que conhecia só de nome ou de que nunca ouvira falar. Foi o caso de Nelson Riddle, autor de uma orquestração de "Lisboa Antiga", tema que esteve no top norte-americano durante várias semanas consecutivas há precisamente 50 anos, em Março de 1956. Quantas pessoas em Portugal sabem que um fado, embora em versão instrumental, foi um êxito comercial nas terras do Tio Sam? Este é um exemplo que podia servir de lição a muitos provincianos da nossa praça que aceitam acriticamente tudo o que vem de fora e ostracizam a nossa música mais autêntica. Embora não se trate de um programa de discos pedidos, Germano Campos tomou a louvável iniciativa de pedir aos seus ouvintes que apresentem sugestões de peças e ou artistas que gostariam de ouvir. É uma ideia que se aplaude, porque sem desvirtuar o conceito do programa essa interactividade ajuda a criar uma salutar cumplicidade entre o autor e o auditório e tem o efeito benéfico de fidelizar os ouvintes. Eu tenho o prazer de ser um deles.
Nota: O "Café Plaza" situa-se na Antena 2 e está aberto aos domingos das 7 às 10 horas da manhã. Os amantes de música brasileira estejam atentos porque está prometido para breve um espaço alargado dedicado à bossa nova. A não perder!
Através da 'powerbox' do serviço digital da TV Cabo é, a partir de agora, possível ouvir várias estações de rádio portuguesas, incluindo quatro canais da RDP – Antena 1, Antena 2, Antena 3 e RDP-África. Pretende-se que a rádio volte à sala depois de ter sido expulsa pela televisão, segundo as palavras de Rui Pêgo, director de programas da RDP. Se bem que alguns televisores já permitiam a sintonia de FM e praticamente todos os receptores A/V e aparelhos de cinema em casa permitam a recepção de rádio, é uma medida que os radiófilos aplaudem porque, em princípio, vai proporcionar uma recepção com melhor qualidade de som. Mas não posso deixar de perguntar à direcção/administração da RDP: por que motivo ficou de fora a RDP-Internacional? O leque de oferta de rádio aumentaria e os consumidores só ficariam a ganhar, principalmente os amantes de música portuguesa, apesar de nem toda a música portuguesa que é seleccionada para o canal ser a melhor. Saúdo a TV Cabo por passar a oferecer este novo serviço aos seus clientes, porque é uma alternativa à internet, no caso das rádios de cobertura local ou regional. No tocante às rádios de cobertura nacional, em particular da RDP, duvido sinceramente que as audiências registem um aumento digno de nota. O mais provável é que ocorra uma transferência de alguns ouvintes do FM e da internet para o cabo. Para que os telespectadores habituais da TV Cabo prefiram a rádio a alguns bons canais temáticos de televisão, inclusive de música, é preciso que as estações de rádio apresentem uma programação apelativa e de qualidade. E neste ponto, o estado actual das coisas deixa muito a desejar. Por exemplo, não acredito que as pessoas aproveitem esta nova funcionalidade para começar a ouvir no televisor as banais e descartáveis musiquinhas da 'playlist' da Antena 1, quando têm à sua disposição alternativas bem melhores.
Para compensar a pobreza da 'playlist', a Antena 1 apresenta algumas rubricas musicais de interesse. Uma delas chama-se "Outras Histórias da Música" e nela Luís Filipe Barros (na foto) evoca figuras e músicas da Historia do Rock. Trata-se de uma rubrica que gosto de ouvir e que me tem proporcionado a descoberta de boas músicas dos anos 60 e 70. Costumo ouvi-la cinco minutos antes do noticiário das nove da manhã, mas começo a perder a paciência com o locutor António Macedo quando interrompe sistematicamente as músicas para se pôr a falar de outros assuntos. O senhor António Macedo tem todo o direito de não apreciar as escolhas de Luís Filipe Barros mas está a esquecer-se de uma coisa elementar: o apontamento não existe para satisfazer os gostos de quem faz a locução da Antena 1 mas dos ouvintes que pagam o serviço público. Afinal tudo isto entronca numa questão de profissionalismo: quem assegura a continuidade da emissão não tem outra coisa a fazer do que pôr no ar as rubricas definidas na grelha e respeitando os horários estipulados. Interromper uma rubrica de forma sub-reptícia pondo-se a falar por cima ou colocá-la tardiamente no ar para ter a desculpa de a cortar por causa do sinal horário são manobras sujas e intoleráveis. Eu falo enquanto ouvinte mas presumo que Luís Filipe Barros e os autores das músicas cortadas também não devam apreciar a atitude abusiva do senhor António Macedo. Fica expresso o meu protesto na esperança de que, doravante, eu e outros ouvintes interessados tenhamos a oportunidade de ouvir as músicas até ao fim.
A situação das 'playlists', e a sua utilização como instrumento de censura, já foram várias vezes aqui abordadas, a propósito do que vem acontecendo na rádio pública, designadamente na Antena 1. O problema continua actual e, neste âmbito, recomenda-se a leitura de um texto intitulado "O autor, a música e a rádio" na página Rádio Zero.
Isabel de Castro contracenando com Ruy de Carvalho, no filme "Domingo à Tarde" (1966), de António de Macedo
A seguir ao "Prós e Contras" desta semana, a RTP-1 transmitiu o documentário "Antes de a Vida Começar", realizado por António Correia, sobre a vida da actriz Isabel de Castro, recentemente desaparecida. É de louvar que a RTP-1, depois dos anos em que andou a copiar o telelixo das privadas, esteja finalmente a fazer serviço público, com a exibição de documentários, de séries de época e de filmes de qualidade (a grande reportagem continua a ser a grande lacuna). Lamenta-se o horário tardio a que esses programas são muitas vezes colocados mas, em todo o caso, é melhor do que nada. Sempre há a possibilidade de se recorrer à gravação programada, para depois se fazer o visionamento a horas decentes. Na manhã subsequente à transmissão televisiva do citado documentário, ouço na rubrica "Cine 1" uma peça da jornalista Teresa Nicolau justamente dedicada ao documentário em questão sendo dito que o mesmo será exibido na RTP em data não anunciada. Eu não queria acreditar no que estava a ouvir. Quem não esteve atento à programação da RTP-1 e não viu o programa em directo ou não o gravou, não seria com certeza com a informação da Antena 1 que o iria ver. É caso para perguntar: andam a dormir na forma? O que é que falhou? Em primeiro lugar, é notório que a jornalista Teresa Nicolau não fez todo o trabalho de casa, ao não obter junto da direcção de programas da RTP-1 a informação sobre a data estipulada para a respectiva transmissão. Mesmo presumindo que a peça tenha sido gravada com muita antecedência nada justifica que a mesma não tenha sido actualizada (uma trivial operação de montagem) porque a informação estava disponível na internet e mesmo no teletexto. E na qualidade de jornalista da RDP, Teresa Nicolau teria certamente acesso a essa informação junto da RTP (por sinal instalada no mesmo edifício) antes de ter sido tornada pública, o que torna o caso ainda mais incompreensível. Mas o cúmulo do absurdo foi a peça ter sido emitida fora de prazo. E aqui terá de se pedir contas a quem faz a calendarização da rubrica "Cine 1", que desconheço se é a própria Teresa Nicolau se o responsável pela área do cinema, Tiago Alves. Qualquer que seja a circunstância, trata-se de um erro de palmatória próprio de amadores. Muito mal vai o serviço público de rádio quando estas coisas acontecem.