17 março 2006

Rádio por cabo

Através da 'powerbox' do serviço digital da TV Cabo é, a partir de agora, possível ouvir várias estações de rádio portuguesas, incluindo quatro canais da RDP – Antena 1, Antena 2, Antena 3 e RDP-África. Pretende-se que a rádio volte à sala depois de ter sido expulsa pela televisão, segundo as palavras de Rui Pêgo, director de programas da RDP. Se bem que alguns televisores já permitiam a sintonia de FM e praticamente todos os receptores A/V e aparelhos de cinema em casa permitam a recepção de rádio, é uma medida que os radiófilos aplaudem porque, em princípio, vai proporcionar uma recepção com melhor qualidade de som. Mas não posso deixar de perguntar à direcção/administração da RDP: por que motivo ficou de fora a RDP-Internacional? O leque de oferta de rádio aumentaria e os consumidores só ficariam a ganhar, principalmente os amantes de música portuguesa, apesar de nem toda a música portuguesa que é seleccionada para o canal ser a melhor.
Saúdo a TV Cabo por passar a oferecer este novo serviço aos seus clientes, porque é uma alternativa à internet, no caso das rádios de cobertura local ou regional. No tocante às rádios de cobertura nacional, em particular da RDP, duvido sinceramente que as audiências registem um aumento digno de nota. O mais provável é que ocorra uma transferência de alguns ouvintes do FM e da internet para o cabo. Para que os telespectadores habituais da TV Cabo prefiram a rádio a alguns bons canais temáticos de televisão, inclusive de música, é preciso que as estações de rádio apresentem uma programação apelativa e de qualidade. E neste ponto, o estado actual das coisas deixa muito a desejar. Por exemplo, não acredito que as pessoas aproveitem esta nova funcionalidade para começar a ouvir no televisor as banais e descartáveis musiquinhas da 'playlist' da Antena 1, quando têm à sua disposição alternativas bem melhores.

15 março 2006

Músicas cortadas



Para compensar a pobreza da 'playlist', a Antena 1 apresenta algumas rubricas musicais de interesse. Uma delas chama-se "Outras Histórias da Música" e nela Luís Filipe Barros (na foto) evoca figuras e músicas da Historia do Rock. Trata-se de uma rubrica que gosto de ouvir e que me tem proporcionado a descoberta de boas músicas dos anos 60 e 70. Costumo ouvi-la cinco minutos antes do noticiário das nove da manhã, mas começo a perder a paciência com o locutor António Macedo quando interrompe sistematicamente as músicas para se pôr a falar de outros assuntos. O senhor António Macedo tem todo o direito de não apreciar as escolhas de Luís Filipe Barros mas está a esquecer-se de uma coisa elementar: o apontamento não existe para satisfazer os gostos de quem faz a locução da Antena 1 mas dos ouvintes que pagam o serviço público. Afinal tudo isto entronca numa questão de profissionalismo: quem assegura a continuidade da emissão não tem outra coisa a fazer do que pôr no ar as rubricas definidas na grelha e respeitando os horários estipulados. Interromper uma rubrica de forma sub-reptícia pondo-se a falar por cima ou colocá-la tardiamente no ar para ter a desculpa de a cortar por causa do sinal horário são manobras sujas e intoleráveis. Eu falo enquanto ouvinte mas presumo que Luís Filipe Barros e os autores das músicas cortadas também não devam apreciar a atitude abusiva do senhor António Macedo. Fica expresso o meu protesto na esperança de que, doravante, eu e outros ouvintes interessados tenhamos a oportunidade de ouvir as músicas até ao fim.

10 março 2006

Sobre a ditadura das 'play-lists' (II)

A situação das 'playlists', e a sua utilização como instrumento de censura, já foram várias vezes aqui abordadas, a propósito do que vem acontecendo na rádio pública, designadamente na Antena 1. O problema continua actual e, neste âmbito, recomenda-se a leitura de um texto intitulado "O autor, a música e a rádio" na página Rádio Zero.

08 março 2006

"Cine 1" fora de prazo


Isabel de Castro contracenando com Ruy de Carvalho, no filme "Domingo à Tarde" (1966), de António de Macedo

A seguir ao "Prós e Contras" desta semana, a RTP-1 transmitiu o documentário "Antes de a Vida Começar", realizado por António Correia, sobre a vida da actriz Isabel de Castro, recentemente desaparecida. É de louvar que a RTP-1, depois dos anos em que andou a copiar o telelixo das privadas, esteja finalmente a fazer serviço público, com a exibição de documentários, de séries de época e de filmes de qualidade (a grande reportagem continua a ser a grande lacuna). Lamenta-se o horário tardio a que esses programas são muitas vezes colocados mas, em todo o caso, é melhor do que nada. Sempre há a possibilidade de se recorrer à gravação programada, para depois se fazer o visionamento a horas decentes.
Na manhã subsequente à transmissão televisiva do citado documentário, ouço na rubrica "Cine 1" uma peça da jornalista Teresa Nicolau justamente dedicada ao documentário em questão sendo dito que o mesmo será exibido na RTP em data não anunciada. Eu não queria acreditar no que estava a ouvir. Quem não esteve atento à programação da RTP-1 e não viu o programa em directo ou não o gravou, não seria com certeza com a informação da Antena 1 que o iria ver. É caso para perguntar: andam a dormir na forma? O que é que falhou? Em primeiro lugar, é notório que a jornalista Teresa Nicolau não fez todo o trabalho de casa, ao não obter junto da direcção de programas da RTP-1 a informação sobre a data estipulada para a respectiva transmissão. Mesmo presumindo que a peça tenha sido gravada com muita antecedência nada justifica que a mesma não tenha sido actualizada (uma trivial operação de montagem) porque a informação estava disponível na internet e mesmo no teletexto. E na qualidade de jornalista da RDP, Teresa Nicolau teria certamente acesso a essa informação junto da RTP (por sinal instalada no mesmo edifício) antes de ter sido tornada pública, o que torna o caso ainda mais incompreensível. Mas o cúmulo do absurdo foi a peça ter sido emitida fora de prazo. E aqui terá de se pedir contas a quem faz a calendarização da rubrica "Cine 1", que desconheço se é a própria Teresa Nicolau se o responsável pela área do cinema, Tiago Alves. Qualquer que seja a circunstância, trata-se de um erro de palmatória próprio de amadores. Muito mal vai o serviço público de rádio quando estas coisas acontecem.

06 março 2006

Os ouvintes da RDP são todos bilingues (anglófonos)?

No rescaldo da cerimónia de entrega dos Óscares, a Antena 1 transmitiu uma peça alusiva ao evento elaborada pela jornalista Lara Marques Pereira. Até aqui nada a censurar, embora tenha achado exagerado o enfoque que a Antena 1 deu, durante as últimas semanas, aos filmes nomeados para os Óscares (cultura não é só cinema e cinema não é só Hollywood). Gostei que nessa peça jornalística fosse mencionado o Óscar honorário de carreira atribuído a Robert Altman, um dos grandes cineastas norte-americanos, realizador de filmes como "M.A.S.H.", "Nashville", "Correntes", "O Jogador" e "Gosford Park" mas até agora injustamente esquecido pela Academia de Hollywood. O reparo que tenho a fazer prende-se com a ausência de tradução das palavras do cineasta que a jornalista pôs no ar. Não falo por mim, porque além do inglês domino o francês e arranho o 'portunhol'. Falo sobretudo pelos muitos milhares de ouvintes da Antena 1 que do inglês não conhecem mais do que duas palavras – Yes e No. Quem faz jornalismo não se pode esquecer de uma coisa elementar: a informação deve ser entendida pelo universo de pessoas a que se destina. Na televisão há as legendas, na rádio tem de haver a tradução simultânea. No caso concreto de Robert Altman, nem sequer daria muito trabalho fazer a tradução do excerto apresentado e a respectiva locução. Mais brio profissional não ficava nada mal. Bem melhor faz a TSF neste capítulo apesar de ser uma rádio privada e com um orçamento mais reduzido. Por outro lado, a RDP enquanto operador de serviço público tem a obrigação expressamente assumida de defender e promover a língua portuguesa, pelo que devia ter um especial cuidado nesta área.

03 março 2006

Evocações e programas culturais

Anteontem, dia 1 de Março, passaram 10 anos sobre da morte de Vergílio Ferreira. A Antena 1 dedicou à efeméride um pequeno apontamento, realizado por Ana Aranha, transmitido no programa da manhã. Pareceu-me muito pouco porque Vergílio Ferreira, indubitavelmente um dos escritores mais importantes do século XX, merecia algo mais do que uma breve e diminuta evocação. Tenho reparado que sob a direcção de Rui Pêgo há um reforço das promoções a determinados espectáculos e eventos culturais – o que se aplaude – mas a rádio, por si mesma, tem também uma função cultural. É muito redutor para o serviço público de rádio limitar-se a fazer referência a actividades extra-muros e menosprezar a componente cultural nas suas emissões. Neste contexto, parece-me muito grave a escassez de programas culturais (não musicais) nas actuais grelhas dos canais da RDP, designadamente na Antena 2. O programa "Um Certo Olhar" dá conta da actividade cultural e aborda algumas temáticas humanísticas e científicas – um pouco ao correr da pena – mas embora não seja avesso à existência de um magazine cultural diário, confesso que preferia continuar a contar com o programa "A Força das Coisas" nas tardes de sábado, pelo momento de calma e reflexão que proporcionava sobre vários aspectos da contemporaneidade. Também se faz sentir a falta de programas específicos em cada uma das várias áreas do saber, que tratem os assuntos com mais profundidade e sem constrangimentos de tempo e num horário adequado. É de lamentar que tenha desaparecido o hábito de fazer ciclos temáticos, mas mais grave ainda é não haver espaços de divulgação cultural, que não se limitem a tratar da actualidade. É importante que haja magazines do tipo "Seara de Sons" e "Escrita em Dia", mas não se pode olvidar programas que dêem ao ouvinte uma perspectiva histórica e abrangente das várias temáticas. Por outro lado, há potencialidades intrínsecas à rádio que ela pode explorar como nenhum outro meio, designadamente no campo da oralidade. Mas por mais absurdo que possa parecer, as artes por excelência da oralidade – poesia e teatro – estão a ser alvo de um vil desprezo pelo serviço público de rádio. A poesia resume-se a uma fugaz rubrica ("Os Sons Férteis") e ainda por cima num horário impróprio. E onde está o teatro radiofónico?
Na área das evocações existiu durante vários anos um programa justamente intitulado "Evocações", de meia hora de duração e que era emitido ao fim-de-semana. Em meados de 2005 foi abruptamente abolido sob o pretexto da entrada em vigor da grelha de Verão e nunca mais voltou à antena. Porquê? Um ano tem 52 semanas e em cada uma delas há sempre um evento (nascimento ou morte de uma personalidade, acontecimento histórico, etc.) digno se ser evocado. Se a actual direcção não quer aproveitar os recursos humanos que tem à disposição para a produção e realização de programas culturais, ao menos que faça uso do rico e extenso arquivo histórico. No caso concreto de Vergílio Ferreira, há certamente material de interesse que seria pertinente pôr no ar. Em alguns países europeus como a França e a Grã-Bretanha, a par de um canal dedicado à música clássica existe um canal cultural. Como isso não acontece em Portugal, cabe à Antena 2 desempenhar esse papel.

Mais uma referência...

Em IRREAL TV:


A voz da Cidadania: a revolução inesperada

A blogosfera está a permitir, pela primeira vez na história, uma participação autónoma e activa dos cidadãos na discussão do sistema e dos conteúdos dos media. É claramente o escrutínio da Cidadania que emerge. E é algo que o sistema de media é (foi) incapaz de fazer desde a revolução industrial. Isto, a propósito de mais um blogue na área: A Nossa Rádio... ouvintes da RÁDIO PÚBLICA com opinião!

01 março 2006

F. Rui Cádima no Blog IRREAL TV

O caso Rui Dias José (RDP)

Formas de Censura em Portugal no Pós-25 de Abril
(cont.)
Um histórico do caso no site do Grupo de Amigos do programa (Feira Franca).

Rui Dias José, estimado colega dos tempos do Liceu Padre António Vieira, e das lutas liceais contra o Fascismo e a Guerra Colonial, está hoje na 'prateleira' da RDP, mas pode ser encontrado, por exemplo, na organização dos "Passeios de Jornalistas": em http://www.cafeportugal.net/ e em http://cafe-portugal.blogspot.com/.

24 fevereiro 2006

"Viva a Música": lugar à música portuguesa



Armando Carvalhêda levou ontem ao seu "Viva a Música" a fadista Maria Ana Bobone, sem dúvida alguma uma das melhores vozes da nova geração. Já tinha ouvido alguns temas do disco "Nome de Mar" pela mão de Edgar Canelas, no programa "Vozes da Lusofonia", mas voltei a sentir o mesmo prazer ao ouvi-la no palco da rádio. Também fiquei algo admirado que Maria Ana Bobone, um dos talentos que João Braga tem trazido para a ribalta, só agora tenha lançado o seu primeiro disco a solo. Ela alegou razões de índole pessoal mas cá para mim parece-me que deve ter havido uma outra razão bem menos prosaica, quero dizer, a crescente insensibilidade dos responsáveis das editoras face à música portuguesa mais autêntica. Bem, o disco está aí para provar que o fado continua vivo e de boa saúde e que não é música de museu, como alguns pretendem e que gostariam de o ver confinado às casas de fado para consumo de turistas e de alguns saudosistas. Felizmente que há também na rádio um espaço que faculta a audição ao vivo não apenas de fado mas também de outros géneros da música portuguesa e lusófona. E isto deve ser louvado e enaltecido, numa altura em que algumas pessoas de responsabilidade não tem o menor pejo em chamar música portuguesa às canções que alguns portugueses cantam em inglês (de música cantada em língua inglesa prefiro mil vezes a que é feita por alguns britânicos e americanos, do mesmo modo que prefiro a Amália a uma qualquer japonesa por melhor que ela cante o fado). Outro aspecto que faço questão de elogiar é a preocupação que Armando Carvalhêda tem em contemplar as músicas mais representativas da portugalidade – fado e música de raiz ou inspiração tradicional. Numa altura em que as 'playlists' não são mais do que instrumentos ao serviço dos interesses mercantilistas das grandes editoras, assume ainda maior importância a existência de espaços que procuram corresponder às expectativas dos segmentos do público que não se contentam com os produtos mais medianos e comerciais. Como tal, esses ouvintes – entre os quais me incluo – têm uma dívida de gratidão para como Armando Carvalhêda pela atenção que tem dado à música que melhor exprime a nossa identidade. Pena é que esse paradigma de serviço público não seja extensivo aos espaços musicais de continuidade da Antena 1.

Nota: O "Viva a Música" vai para o ar, em directo, às quintas-feiras (16h) e repete aos sábados (15h). Quem quiser pode assistir ao vivo no Teatro da Luz, ao Colégio Militar em Lisboa.



Meu Nome É Nome de Mar



Letra: Manuel Alegre
Música: João Braga; arr. Ricardo Rocha
Intérprete: Maria Ana Bobone* (in CD "Nome de Mar", Vachier & Associados/Farol Música, 2006)


[instrumental]

Meu nome é nome de mar
Onde o longe é mais visível
Nome de sonho a embarcar
Para um amor impossível
Meu nome é nome de mar [bis]

Meu nome é nome de vento
Escrito na areia na espuma
E na flor do pensamento
Que é luz por dentro da bruma
Meu nome é nome de vento [bis]

Meu nome é nome de fado
Nome de casa e de rua
Nome de encontro marcado
Na outra face da lua
Meu nome é nome de fado

[instrumental]

Na outra face da lua
Meu nome é nome de fado


* Ricardo Rocha – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola
Marino de Freitas – baixo
Direcção musical e arranjos – Ricardo Rocha
Produção – Maria Ana Bobone
Gravado ao vivo na Igreja da Graça, Lisboa
Gravação, misturas e masterização – João Magalhães



Capa do CD "Nome de Mar" (Vachier & Associados/Farol Música, 2006)
Fotografia – Francisco Van Zeller
Design – Rui Garrido

21 fevereiro 2006

"O Ouvido de Maxwell": pare, escute, sinta


Sem a música a vida seria um erro.
                       Nietzsche

Quando escrevi sobre
a nova grelha da Antena 2, fiz uma breve referência a este extraordinário programa, da autoria de António Almeida. Na verdade trata-se das melhores coisas que actualmente se podem ouvir na nossa rádio e, como tal, é de toda a justiça lhe seja dado maior realce. "O Ouvido de Maxwell" faz parte daquela categoria de programas cada vez mais raros na rádio portuguesa, capazes de proporcionar uma inusitada fruição auditiva. Como tal, a palavra 'ouvido' não podia ter sido escolhida com mais propriedade. Então e a que propósito aparece o antropónimo Maxwell? O nome não é muito conhecido do grande público, mas na verdade trata-se de uma das grandes figuras da Física do séc. XIX, sobretudo pelo contributo que deu nas áreas da termodinâmica e do electromagnetismo. De facto, foi o escocês James Maxwell (na foto) que definiu a natureza ondulatória da luz através de equações matemáticas e que predisse a existência de ondas electromagnéticas não visíveis (em 1864), cuja confirmação experimental viria a ser feita por Hertz alguns anos mais tarde. Assim, a invocação de Maxwell num programa de rádio é pertinente.
Para mim, ouvir do programa "O Ouvido de Maxwell" constitui uma espécie de ritual litúrgico, uma experiência única só possível com o sentido da audição o que talvez se explique por o ouvido ser, como já alguém disse, "a porta daquilo que não é deste mundo". Por alguma razão, o ouvido na altura do adormecer é o último sentido que capitula perante a passividade inconsciente que chega, antes de se entrar na antecâmara da morte, como Shakespeare chamou ao sono. Durante a vigília os ouvidos são de todos os órgãos sensoriais os que têm um funcionamento mais imediatista e incontrolável: "as orelhas não têm pálpebras", como se dizia no programa inaugural. Por isso, não lhes é possível evitar e ignorar a informação sonora envolvente seja o som ou a ausência dele – o silêncio. «O silêncio é para as orelhas o que a noite é para os olhos. Quando a música soa, uma porta abre-se e nós entramos». Durante muito tempo, dado que a música era rara a sua sedução era vertiginosa e a sua fruição constituía uma experiência de comunhão com o inefável, com o intangível. Mas no mundo moderno em que estamos rodeados de ruídos e de música por todos os lados tornou-se inevitável a banalização, perdeu-se o fascínio primordial, o carácter ritualizado que ela teve até ao advento e proliferação dos meios de reprodução sonora, primeiro o gramofone e depois a rádio, a televisão, os auto-rádios com leitores de cassetes/CDs, os leitores portáteis de áudio digital. A música foi transformada num produto de consumo como qualquer outro.
"O Ouvido de Maxwell" dá-nos justamente o contraponto entre os múltiplos e incessantes ruídos que caracterizam a nossa civilização e a música que se ouvia desde a remota Idade Média até à Revolução Industrial. E como na poesia em que há um mote a que têm de obedecer as estrofes seguintes também cada emissão de "O Ouvido de Maxwell" é subordinada a um tema diferente. O sábio encadeamento entre os textos lidos, a música alusiva criteriosamente escolhida e os sons da actualidade (um ruído captado na rua, um excerto da banda sonora de um filme, etc.) tornam o programa um obra conceptual de rara beleza e sublime contemplação auditiva.
Dos programas até agora emitidos, não posso deixar de fazer uma referência muito especial ao programa "La commedia è finita", dedicado à morte, um tema propositadamente evitado na actual sociedade de consumo. Mas a morte, sobretudo antes da descoberta da penicilina e da democratização dos cuidados de saúde, era uma realidade quotidiana que não era possível iludir. Também nós, por muito que nos custe, seremos um dia confrontados com ela. Neste contexto, permito-me transcrever, e com a devida vénia ao seu autor, alguns excertos do citado programa que me pareceram mais eloquentes. Porque a reflexão sobre a morte pode ajudar-nos a apreciar e a valorizar melhor a vida.


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La commedia è finita
É aqui que as pessoas vêm para viver?
Sou antes tentado a crer que se morre aqui.
Rilke

Hoje mais do que fugir, ignora-se a morte. Tratamo-la como um hóspede indesejado que se arruma num quarto esconso, do qual se deita a chave fora. Vive-se como se se vivesse para sempre. Não estamos cientes que a qualquer instante a comédia pode acabar. Ignora-se o que mais valoriza o único de cada momento. É também pela convivência diária com a morte que se constrói uma vida genuína.

Acabar é o verbo que menos gosto. Morrer já me diz mais. Prefiro-o aos sinónimos: expirar, apagar, passar, trespassar, perecer, desaparecer, sucumbir, falecer. Uns porque asseguram que há qualquer coisa depois, outros porque afirmam que não há nada. Só morrer rende o facto e o enigma, a solidão de se ser tomado em qualquer coisa que não tem sentido.

Porquê a morte? É perguntar-se: porquê as palavras? Pois o que resta a deixar, a perder? Palavras; muitas vezes nada mais que um mero: Rosebud. Conhece-se esse guião que tem a beleza dos desvios e a abertura das coisas simples. Um moribundo pronuncia essas sílabas indecifráveis. Pensa-se num nome de palácio, de livro, de mulher, de empresa. Mais tarde descobre-se que era um nome de nada, um nome gravado sobre um trenó de criança.
Restam também frases como "agora e na hora da nossa morte". Em criança, pronunciava essas palavras sem as compreender. Não vivia senão à hora presente, e acreditava que a outra hora jamais soaria. Não sabia que só as orações diziam a mesma coisa nos dois extremos do tempo, que as palavras envelhecem como as peles, que se carregam de rugas, de vazios, e de gorduras. Mas algumas permanecem intactas, jovens, crianças quase. Parecem vir de uma voz que ignora o tempo. Falaremos nós mais alto, mais certo, quando essa hora chega? Porque é que será assim? As nossas palavras serão elas ainda articuladas, ou meros gemidos e balbuciamentos? Faremos nós a besta quando o anjo desliza sobre nós a sua asa?

E agora? Deixaste de habitar o mundo dos vivos. O mundo dos mortos adiados. A tua hora soou. Deixaram de te conceder o adiamento. Deves servir. E servirás tanto melhor quanto melhor tiveres aproveitado o tempo em que esperavas ordeiramente na fila a tua vez. Servir para quê? Perguntas. Da poeira de estrela vieste e a ela voltarás: "das cinzas às cinzas".
Enquanto estiveste por aqui o que é fizeste? O que é não fizeste? O que é que devias ter feito? O que é querias fazer e não fizeste por cobardia, por preguiça, por ignorância de que esta hora ia chegar.
Era só uma questão de tempo. Tudo é uma questão de tempo. Tu desapareceste. E um dia também o sítio onde exististe desaparecerá, e o planeta girante onde esse sítio existiu, e o sistema onde esse planeta girou, e a galáxia onde esse sistema existiu. Tudo será tragado num vórtice que algures por aí aguarda também a sua vez. Serás átomos, electrões, neutrões, protões, e outras partículas sub-atómicas. Cada um livre de ir onde o vórtice na sua voracidade o projectar.
E nessa sopa de partículas o que resta de ti? Da tua vida?
O que habitará nelas do que tu foste?

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Nota: O programa é emitido às quintas-feiras, pelas 10 horas da manhã ou meia-noite, alternadamente. A próxima emissão será no dia 23 à meia-noite e nela se fala daqueles que não prestam para nada mas que fazem o grande 'sacrifício' de 'servir' na política. Feliz e oportuna a inclusão do romance falado por João César Monteiro ao som de sanfona, peça de antologia do filme "Vai-e-Vem".

17 fevereiro 2006

"Pessoal e Transmissível": 5 anos de entrevistas



Esta página tem como âmbito a rádio pública mas não é indiferente a programas emitidos noutras estações que são exemplos de serviço público. É o caso do programa "Pessoal e Transmissível", agora a comemorar cinco anos de emissões na TSF. O programa tornou-se, por mérito do seu autor, o jornalista Carlos Vaz Marques, uma referência da nossa rádio no campo da entrevista. Sem formalismos e sem peias, Carlos Vaz Marques consegue imprimir às suas entrevistas a espontaneidade que a imprensa e mesmo a televisão não conseguem dar. E tudo isto é feito sem retirar profundidade e seriedade aos assuntos abordados. Um notável exemplo do poder e do fascínio da rádio. Das entrevistas mais recentes destaco a que teve como convidado o neurocirurgião e escritor João Lobo Antunes, a propósito da edição do seu último livro "Sobre a Mão e Outros Ensaios". No momento da nossa civilização em que a morte se tornou o maior dos tabus, gostei de ouvir o Prof. João Lobo Antunes falar sem rodeios e de forma desassombrada sobre o tema.
Está pois de parabéns Carlos Vaz Marques e também a TSF pelo relevante serviço público que presta com este e outros programas.

Nota: "Pessoal e Transmissível" é emitido, de segunda a quinta-feira, depois do noticiário das 19 horas.
Os programas já emitidos podem ser (re)ouvidos online, em qualquer altura, no
arquivo de programas da TSF.
Também já está disponível para
podcasting.
Algumas entrevistas foram passadas a escrito e publicadas em livro.

13 fevereiro 2006

Agostinho da Silva: centenário do nascimento

Me fiz gente se é que sou
em Barca d'Alva do Douro
para cima tudo celta
para baixo tudo mouro

o pior é que Alentejo
e Algarve tendo nas veias
como vou eu libertar-me
de tão apertadas teias

decerto não escapava
se fosse intelectual
como esses que tem havido
mais simples que Portugal

quem não for um mais o outro
mesmo que em contradição
será vencido na vida
lhe desfeito o coração

menos nadar que boiar
é que é a sabedoria
deixe a vida demonstrar
que é a verdadeira guia

e que é só ela quem sabe
o bom rumo da nação
e o porto a que vai chegar
quer ela queira quer não.


Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho")


Filho de pai algarvio e mãe alentejana, George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto, no dia 13 de Fevereiro de 1906, faz hoje exactamente 100 anos. Passou a infância em Barca de Alva, Alto Douro, posto fronteiriço onde o pai exerceu as funções de inspector alfandegário. Licenciou-se em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras do Porto, onde teve como professor Leonardo Coimbra, paladino do movimento filosófico conhecido como Renascença Portuguesa. Doutorou-se na Sorbonne, em Paris, com uma tese sobre Montaigne. Demitido do ensino oficial português, em 1935, por se recusar a assinar, por convicções pessoais, uma declaração «jurando não ter pertencido ou vir a pertencer a qualquer associação secreta», passou a leccionar no ensino particular, tendo-se contado entre os seus alunos Mário Soares e Lagoa Henriques. Colaborou em publicações de referência como a revista "Seara Nova" e, no âmbito da sua actividade pedagógica, redigiu biografias de grandes figuras da História da Humanidade (Moisés, São Francisco de Assis, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Émile Zola, Lincoln, Pasteur, etc.) e os Cadernos de Informação Cultural "Iniciação". Um deles, "O Cristianismo" (1942), pela visão heterodoxa nele expressa, veio a gerar violenta reacção de alguns clérigos e autores católicos, e a consequente perseguição pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), que chegou a encarcerá-lo na prisão do Aljube durante algumas semanas. Em 1944, exilou-se no Brasil onde fundou e fomentou a criação de várias universidades (Paraíba, Santa Catarina e Brasília) e o Centro de Estudos Africanos e Orientais da Universidade Federal da Baía, a par de uma intensa actividade académica e científica nos mais diversos campos do saber (Literatura, Filosofia, História, Teatro, Geografia, Sociologia, Antropologia e também em áreas da Biologia como a Botânica, a Entomologia, a Histologia e a Parasitologia). Regressou a Portugal em 1969, vindo a criar um fundo para a atribuição do Prémio D. Dinis. Mesmo sem o estímulo da vida académica, sempre se caracterizou por uma renovada curiosidade científica bem patente na aprendizagem de línguas como o malaio e o esperanto e nas viagens demoradas que fez por diversos países designadamente o Japão.

Fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal
dos meses prefiro Abril
aurora primaveril
de liberdade ideal
das festas vou por Natal
em que inocência infantil
triunfante vence o mal
e sempre em sonhos de anil
sempre em vagas de real
fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal.

ibidem


Na sua vida adoptou um franciscanismo simultaneamente laico e paraclético que, segundo o Prof. Jesué Pinharanda Gomes, constitui «um singular testemunho propedêutico do messianismo português». O seu desapego das coisas materiais e sobretudo as suas ideias heterodoxas, designadamente a sua visão neo-vieiriana sobre o papel de Portugal no mundo, suscitaram o desdém de alguns intelectuais da nossa praça mas transformam-no numa espécie de guru para muitos jovens. Em 1990, a série "Conversas Vadias", que manteve na RTP-1 com treze figuras conhecidas dos media, fazem-no chegar ao grande público. Vem a falecer em Lisboa, a 03 de Abril de 1994, domingo de Páscoa. A sua vasta e heterogénea obra bibliográfica, que se encontrava dispersa por várias editoras (Ulmeiro, Relógio d'Água, Assírio & Alvim, etc.), foi sistematizada numa edição lançada pela Âncora e pelo Círculo de Leitores.
Perguntar-me-ão: a que propósito vem a evocação do Prof. Agostinho da Silva num blogue sobre rádio. A explicação é muito simples: é que foi justamente na rádio que eu o descobri pela mão do radialista Fernando Alves. E de imediato me impressionou a sabedoria com que falava das coisas mais profundas utilizando uma linguagem simples e coloquial, bem diferente do jargão académico muito comum em boa parte dos seus pares. A partir daí procurei conhecer melhor o seu pensamento através dos livros, mas não deixo de ficar sempre deliciado e fascinado quando me é dada a oportunidade de o ouvir na rádio. Foi o que aconteceu na manhã de ontem, quando Germano Campos, no programa "
Café Plaza", recuperou do arquivo histórico da RDP uma conversa havida com Graça Vasconcelos em que o professor falou da dicotomia liberdade versus destino. E teve o condão de me por a reflectir até que ponto muitas das coisas que fazemos supostamente no exercício do nosso livre-arbítrio não são no fundo ditadas pela nossa própria essência bio-psico-fisiológica. Será que somos verdadeiramente livres, ainda que sem grilhetas sociais, quando não nos podemos subtrair da nossa natureza corpórea, do burro albardado como lhe chamou Agostinho? O homem, ser que aspira à liberdade, está condenado a cumprir o seu destino enquanto homem porque lhe não é possível ser outra coisa.
Além de Fernando Alves e de Graça Vasconcelos, outros profissionais da nossa rádio entre os quais José Nuno Martins fizeram entrevistas ao grande pensador. Cumpre-me aproveitar esta ocasião para chamar a atenção para o interesse da inventariação, tratamento e salvaguarda desses registos avulsos e dispersos antes que se deteriorem ou levem sumiço. Longe de serem documentos de valor desprezível, as conversas que Agostinho da Silva fez na rádio não deixam de ter importância no conjunto do seu legado. Por isso, lanço daqui um repto à Associação Agostinho da Silva no sentido desse espólio fonográfico ser coligido, digitalizado e colocado numa página da internet de modo a que todos os interessados – estudiosos e público em geral – a ele tenham acesso. Do mesmo modo que um livro tem de ser lido para existir, também uma voz que não se ouve é como se não existisse. Fazer com que o pensamento de Agostinho continue vivo também passa por aí.

Nota: A
Antena 1 associou-se (e muito bem) às comemorações do centenário com a transmissão de um programa evocativo realizado por António Jorge.
A TSF dedicou um fórum subordinado ao tema "a portugalidade e o papel de Portugal no mundo" e vem transmitindo apontamentos evocativos realizados por Fernando Alves.
O
canal 2 da RTP assinala a efeméride com a reposição durante a semana (logo a seguir ao "Magazine", por volta da 1h da manhã) de quatro das "Conversas Vadias", mais precisamente as que tiveram como interlocutores Adelino Gomes, Miguel Esteves Cardoso, Herman José e Maria Elisa Domingues. A não perder, enquanto não sai a colecção completa em DVD!


Adenda (em 17-Fevereiro-2006):

A RTP-2 transmite, hoje às 22:30, o documentário "Agostinho da Silva: Um Pensamento Vivo", realizado por João Rodrigo Mattos, seu neto.
Aos domingos, já a partir do próximo, dia 19, estará à venda nas bancas, com o jornal "Público", uma colecção de 5 DVDs que inclui a totalidade das "Conversas Vadias" e o documentário atrás citado.

"Cinco Minutos de Jazz" faz 40 anos



O mítico programa de José Duarte está a comemorar o seu 40.º aniversário.
Começou em 1966 na Rádio Renascença, e passa hoje na Antena 1, depois de uma trajectória algo atribulada por várias estações. É portanto um resistente na nossa rádio, mas apenas por mérito do seu autor e em nome do amor incondicional que devota ao jazz, ainda por cima num país onde o género nunca foi devidamente apreciado por quem tem dirigido os canais de rádio portugueses. Por isso, é ainda maior a dívida de gratidão dos amantes de jazz para com José Duarte.
Em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro no programa "
Magazine", da RTP-2, José Duarte não escondeu o seu desalento quanto à divulgação do jazz na rádio dizendo que é uma causa perdida, em virtude dos valores estéticos que actualmente prevalecem. Compreendo perfeitamente o seu desencanto pois o jazz não é o único género a sofrer com o actual estado de coisas. Está a acontecer o mesmo (ou pior) com as músicas de matriz tradicional, apesar de serem bem menos minoritárias e elitistas do que o jazz. O jazz, apesar de tudo, tem actualmente uma presença razoável na rádio pública mas a música portuguesa de raiz ou inspiração tradicional, ao ser banida da 'playlist', tem neste momento uma presença ínfima (confinada aos programas "Lugar ao Sul" e, em parte, "Vozes da Lusofonia" e "Viva a Música"). A resignação será sempre a pior atitude para enfrentar o problema e, por isso, é pena que não existam mais Josés Duartes para pugnarem pelo direito de representatividade mediática das músicas marginalizadas por um sistema que só se preocupa em promover a pop, o 'hip hop' e afins. Gostei de ouvir dizer que o jazz não se ensina, antes se aprende ouvindo. Enquanto ouvinte, eu direi que tem de se sentir e para tal é necessário que a sensibilidade seja apurada, que se torne apta a fruir. E José Duarte é dos que mais têm feito nesse sentido, não só com o "Cinco Minutos de Jazz", mas igualmente com "A Menina Dança?", e agora também com "Jazz com Brancas". Para os ouvintes, talvez a presença de jazz na rádio nunca tenha sido tão boa como hoje. Contabilizando também o contributo de Manuel Jorge Veloso com "Um Toque de Jazz", conclui-se que em cada dia há, pelo menos, uma hora de jazz na rádio portuguesa!
Quanto a cantores e músicos portugueses, também me parece que a situação é bem melhor hoje do que há uma ou duas décadas atrás. Estou mesmo em crer que alguns dos nomes da nova geração fazem hoje jazz muito por culpa de José Duarte. Por isso, não são só os ouvintes que terão de lhe prestar tributo pelo seu mister na rádio e também na academia portuguesa que finalmente abriu as portas a um género ainda encarado de forma preconceituosa por um certa intelectualidade.
Aproveito para endereçar votos de longa vida ao "Cinco Minutos de Jazz" e ao seu autor.

Nota: José Duarte é responsável pelo site
http://www.jazzportugal.net e lecciona História do Jazz no Departamento de Comunicação e Arte, da Universidade de Aveiro.

10 fevereiro 2006

Discos Antena 1

A antologia de Vitorino com o título "Tudo", agora vinda a lume, é um dos discos Antena 1. Até aqui nada a censurar. Aliás, ficaria mal à estação de serviço público se ignorasse o lançamento discográfico que assinala os 30 anos de carreira de um dos nomes maiores da música portuguesa. No entanto, tenho um reparo a fazer: nem todos os artistas de mérito reconhecido têm sido objecto da mesma atenção por parte da rádio pública, aquando dos respectivos lançamentos discográficos. Desconheço quais são os critérios que presidem à escolha dos discos a promover, mas quaisquer que sejam tais critérios não se pode aceitar que a estação que é suportada pelos contribuintes ignore alguns dos nomes mais representativos da música lusa. Apenas um exemplo: no final de 2005 foi também lançada uma "Antologia", de Pedro Barroso, outro nome grado da música portuguesa, sem que Antena 1 tivesse feito qualquer referência ao acontecimento. A escolha da colectânea de Pedro Barroso seria uma escolha óbvia para disco Antena 1, mas mais grave ainda é o cantor de "Água" e de "Longe Daqui" estar a ser objecto de um intolerável boicote pela rádio pública ao ser-lhe recusado um lugar na 'playlist'. Não estou mandatado, nem me compete falar em nome de Pedro Barroso (ou de qualquer outro artista), mas enquanto ouvinte não posso aceitar que a rádio para a qual eu contribuo com uma taxa obrigatória não me dê a oportunidade de o ouvir.
Também não se compreende que alguns CDs que aparecem nas lojas de discos com o rótulo "Disco Antena 1" não tenham nenhum tema incluído na 'playlist'. Por exemplo, o álbum "
Transparente", o último da fadista Mariza, aparece com o dito autocolante mas, absurdamente, tem estado totalmente ausente dos alinhamentos de continuidade da Antena 1. Porque é que isto acontece? Por descoordenação entre a direcção de programas e o chefe de 'playlist'? Ou será mesmo verdade que este faz o que muito bem lhe apetece e se está a marimbar para as directivas de Rui Pêgo?
Muitos dos nomes que actualmente passam com frequência na Antena 1 não são do meu especial agrado mas, apesar disso, não vou ao ponto de pedir a sua exclusão porque sou defensor do princípio da igualdade de oportunidades, quer dos artistas quer dos ouvintes. Uma estação pública que se preze deve proporcionar a todos os artistas de qualidade reconhecida a possibilidade divulgarem o seu trabalho porque a rádio é um meio privilegiado dos ouvintes poderem tomar conhecimento das respectivas obras, e assim escolherem em liberdade e sem condicionamentos. Quanto maior for o leque dos artistas contemplados e maior a diversidade da oferta musical maior será a liberdade do ouvinte para escolher. Mas não é isto o que se está a passar na rádio que, por acaso, põe no ar o slogan "Antena 1 - a rádio que liga Portugal". Quando a rádio do Estado (é bom não esquecer este pormenor) preza em ignorar ostensivamente determinados artistas, por critérios outros que não a qualidade, não estará o mesmo Estado que se diz democrático a negar-me a liberdade de ser eu a escolher o que é bom para mim e o que satisfaz os meus desejos? Em última análise, o que está em causa é o princípio constitucional do exercício dos direitos, liberdades e garantias, no caso concreto, de quem ouve a rádio pública e também daqueles que legitimamente querem e merecem ser ouvidos.

03 fevereiro 2006

Poesia na rádio

Júlio Isidro, na rubrica da Antena 1 "Os Reis da Rádio", evocou a época em que Mário Viegas começou a recitar poesia na rádio. São muitos os actuais amantes de poesia que a descobriram pela mão do saudoso actor, primeiro na rádio e depois na televisão. Na verdade, Mário Viegas, depois do imortal João Villaret, foi dos que mais fez pela divulgação da obra dos nossos poetas maiores, sem esquecer nomes menos conhecidos e até mal amados como os surrealistas. A poesia foi nos seus primórdios uma arte da oralidade (a "Ilíada" e a "Odisseia" começaram por ser difundidas de boca a ouvidos) e Mário Viegas percebeu isso melhor do que ninguém. Ora a rádio é de todos os media aquele que melhor serve a poesia, mas inexplicavelmente esta potencialidade não tem sido devidamente explorada entre nós. Que poesia há hoje na rádio portuguesa? E mais especificamente na rádio pública? Terá de se concluir que, actualmente, a situação não é muito melhor do que no tempo em que Júlio Isidro levou Mário Viegas para a rádio. Analisando, os três canais nacionais da RDP (que são os que interessam a quem reside em Portugal continental), encontra-se apenas a rubrica "Os Sons Férteis", na Antena 2, apontamento de poesia e música, da autoria de Paulo Rato. E ainda por cima num horário ingrato para muitos ouvintes - 11 horas de segunda a sexta-feira -, o que não deixa de ser algo bizarro sabendo nós que a poesia requer tranquilidade e disponibilidade de espírito que a maior parte das pessoas não pode ter naquele momento do dia. Por que motivo não há um programa de poesia ao fim-de-semana? E esse espaço até podia ser preenchido com gravações do arquivo, o qual tem um razoável mas desaproveitado manancial de poesia dita, quer por actores de renome quer por locutores da casa. Destes últimos destacaria Maria Clara e António Cardoso Pinto ambos responsáveis por memoráveis momentos de beleza, interpelação e meditação no cantinho da rádio. É um crime de lesa-cultura tantas pérolas permanecerem esquecidas sob o pó nalguma cave ou sótão e não serem servidas aos ouvintes. Uma lacuna imperdoável do serviço público.

13 janeiro 2006

Sobre as quotas de música portuguesa na rádio

A TSF, em mais uns dos seus fóruns, pôs a debate a questão das quotas de música portuguesa na rádio, iniciativa louvável e oportuna agora que estão a ser introduzidas alterações à Lei da Rádio.
Pessoalmente, preferiria que não fosse preciso impor quotas, mas reconheço que são um mal necessário. Aliás, a necessidade de consignar em lei tal obrigatoriedade já um sintoma do estado calamitoso a que as coisas chegaram. Mas não tenhamos ilusões porque as quotas não serão a panaceia miraculosa, porque o problema é bem mais fundo e radica numa questão cultural.
Do texto do DN respiguei a seguinte passagem: «A música portuguesa emitida deve incluir 35% de novidades (com menos de 12 meses) e 60% de "música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados-membros da União Europeia"». A expressão "música composta ou interpretada ..." em vez de "música composta e interpretada..." é um alçapão que se está a abrir e que vai dar origem às mais bizarras deturpações do espírito da lei. Eu pergunto: a música composta por cidadãos dos estados-membros da União Europeia também engloba a música dos portugueses que cantam em inglês? E quando o Júlio Iglésias ou o Sting cantam em português, isso é música portuguesa? E os artistas brasileiros e afro-lusófonos com dupla nacionalidade? Atentem bem: é que podemos chegar à situação absurda da quota ser preenchida não por música portuguesa - lusófona ou instrumental - mas maioritariamente por grupos e cantores portugueses que cantam em inglês e por produção de língua portuguesa não lusa. É assim que se defende a nossa identidade cultural?
José Luís Ramos Pinheiro, administrador do grupo Renascença, apresentou no fórum da TSF o argumento de que não existe suficiente produção nacional para cumprir uma quota de 25% de música portuguesa. Acontece que tal argumento é completamente falacioso e sem qualquer fundo de verdade. Parece-me que ele terá dito tal coisa para justificar os conteúdos da RFM, da Mega FM e inclusive a mudança de estratégia do canal 1 da RR, agora mais apostado nos conteúdos pop 'mainstream'. Como muito disse o músico Pedro Osório, em complemento a um texto da sua própria autoria publicado na
Gazeta dos Artistas, há uma parte muita significativa da criação nacional, fora das malhas da pop, que nunca vem à luz do éter nacional. E essa produção designadamente na área da música de raiz ou inspiração tradicional está bem longe de ser escassa havendo muitos e bons exemplos de projectos de reconhecida qualidade. Portanto, é legítimo concluir que o problema da radiodifusão de música portuguesa tem a ver com outras coisas que os responsáveis das rádios não querem assumir publicamente. O grande problema foi as rádios nacionais terem caído nas mãos de grupos empresariais que não têm outro objectivo que o mero negócio, entregando a direcção das mesmas a indivíduos de mentalidade tacanha e suburbana completamente insensíveis e ignorantes da nossa música mais representativa, que se limitam a adoptar formatos exógenos. Por isso, a imposição de quotas, embora necessária, não vai resolver o problema da maior parte dos melhores criadores portugueses. A música que tem sido marginalizada pelas rádios nacionais vai continuar a sê-lo, com quotas ou sem elas, em nome de alegadas linhas editoriais com o recurso às 'playlists' (vide texto no blogue Ex-Sitações). Os que passam agora serão os mesmos que continuarão a passar, só que em dose dupla ou tripla e assim a quota fica cumprida. Quer dizer: tocarão apenas e sempre os que dominam o aparelho, que é como quem diz as multinacionais ou nacionais com algum poder de influência junto dos directores das rádios e chefes de 'playlist'. Assim continuaremos a ter, e em doses reforçadas, o David Fonseca, os Gift, os Hands on Aproach, os Xutos, os GNR, os Clã, os Mesa, os Da Weasel, os D'ZRT, o Abrunhosa, o Gonzo, o Beto, o João Pedro Pais, os Santos e Pecadores, os Pólo Norte, os Delfins, os Filarmónica Gil, etc. ao passo que nomes como Fausto Bordalo Dias, Vitorino, José Mário Branco, Pedro Barroso, Amélia Muge, Janita Salomé, Pedro Caldeira Cabral, Eduardo Ramos, José Peixoto, Pedro Jóia, Joel Xavier, Filipa Pais, Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Frei Fado d'El-Rei, Realejo, Danças Ocultas, At-Tambur, Roldana Folk, Mandrágora, Mu, Dazkarieh, Chuchurumel e Galandum Galundaina, entre muitos outros, continuarão a ser ostracizados.
Mas se isto é grave numa RFM ou numa Comercial, ainda o é mais na RDP-Antena 1 que devia desempenhar o papel de regulação e de correcção das distorções do mercado mas que, ao invés, tem vindo a comportar-se como uma vulgar rádio comercial, atirando às urtigas o serviço público.

Nota: Recomendo a leitura do 'post' sobre este tema que Paula Cordeiro escreveu no blogue
NetFM.

"Lugar ao Sul" também na Antena 2

No âmbito do reforço das músicas de raiz tradicional na nova grelha da Antena 2 (notícia no site Attambur), o aclamado e premiado Lugar ao Sul agora também pode ouvir-se no segundo canal da RDP, sábados às 13 horas. É uma medida que faz jus ao valor cultural que é reconhecido ao programa de Rafael Correia, uma referência obrigatória na área da divulgação radiofónica da cultura tradicional portuguesa, mormente da região meridional do país. Agora que o "Lugar ao Sul" está a comemorar o 25.º aniversário, os fiéis ouvintes do programa não podiam deixar de saudar a decisão, mas continuam a contestar o facto da emissão aos sábados de manhã na Antena 1 ter sido amputada em uma hora, a qual foi atirada para depois da meia-noite de segunda-feira. Convenhamos que para um programa deste género tal horário é no mínimo estranho. Não é que me oponha à ideia da direcção da RDP querer facultar cultura tradicional portuguesa aos mais noctívagos, mas já não me parece razoável sacrificar o tempo de emissão no horário que tem um auditório bem mais vasto. Fica feito o reparo em nome dos muitos admiradores do trabalho de Rafael Correia.
Aproveito para fazer alusão a um texto notável sobre o programa, escrito pelo Prof. Manuel Pinto, da Universidade do Minho, que se pode ler na página
Carnet de Route d'Un Voyageur Solitaire en Algarve et Alentejo.

Nota: Existe um espaço através do qual os ouvintes do programa podem confraternizar: o
Grupo de Amigos do LUGAR AO SUL.

10 janeiro 2006

A nova grelha da Antena 2

Entrou em vigor no primeiro dia de 2006, a nova grelha da Antena 2. Para começar, lamento o fim do "A Força das Coisas", programa que Luís Caetano vinha realizando nas tardes de sábado desde 2003. Luís Caetano tem na nova grelha, um programa com um conteúdo similar – "Um Certo Olhar" –, o que se aplaude, mas não me parece boa ideia um programa que requer uma audição calma e sem correrias ser emitido de segunda a sexta-feira ao meio-dia. Aplaudo que o programa dedicado à música étnica, "Raízes", agora realizado e apresentado por João Almeida, tenha mais tempo de antena, mas infelizmente foi mudado para um horário que não é praticável por muitos interessados: às 13h de segunda a sexta! Programas deste género fazem mais sentido em horários pós-laborais ou ao fim-de-semana. Fica o reparo!
Dos novos programas tive uma agradável surpresa: "
O Ouvido de Maxwell" (quintas, 10h ou 24h), da autoria António Almeida, um programa que requer um ouvido atento, daqueles que bebem todas as palavras e que foi um raro momento de beleza e de sortilégio pelo sábio encandeamento entre palavras que convidam à meditação e as peças musicais criteriosamente escolhidas. Espero que esta minha impressão se venha a confirmar nas próximas emissões.
Congratulo-me que o programa de Joel Costa, "
Questões de Moral" (segundas, 10h ou 24h), continue porque é um programa de autor de referência da rádio portuguesa e, sem dúvida alguma, uma das mais valias do canal. Mas tenho a lamentar o horário nocturno ser muito adiantado. Uma hora antes já seria aceitável pois possibilitaria a sua audição por muitos interessados que tem de se levantar cedo no dia seguinte e que não o podem ouvir no período da manhã por razões profissionais. Lamento também a ausência de programas não musicais: ciência, informática, história, sociologia, ficção, teatro. Além da rubrica "Os Sons Férteis" (poesia e música) e do magazine de livros "Escrita em Dia" (que passa primeiro na Antena 1), o que há mais? Aliás, terem ido buscar o programa de Francisco José Viegas à Antena 1 evidencia bem a tentativa de disfarçar a penúria de espaços culturais na actual grelha.
O programa do horário de despertar – "
Amanhecer" – que vinha sendo conduzido por João Almeida e Maria Augusta Gonçalves, era uma alternativa muito válida a quem não quer ouvir as estações de notícias ou as rádios de 'playlist'. O programa continua em moldes semelhantes mas foi objecto de um notório desinvestimento ao ser entregue aos colaboradores mais novatos. Aos sábados de manhã continuamos a ter a Judite Lima, mas atendendo a que tanto o formato como o conteúdo do programa continuam a ser os mesmos não compreendo a mudança de nome de "Jardim da Música" para "Sarabanda". Influência do filme de Ingmar Bergman? 'Jardim da Música' parece-me um nome mais rico e poético e não me importava nada de continuar a ouvir o indicativo com o belíssimo adágio do concerto 'Inverno', de Vivaldi, com chilreios de pássaros em fundo. Bem sei que a Judite Lima (tal como eu) é uma grande cultora das suites para violoncelo de Bach, mas interrogo-me se não terá sido forçada a mudar o nome do programa. A ser verdade, é pena que a direcção não entenda que os nomes dos programas são património radiofónico e, por extensão, património cultural. Que interesse há em mudar o nome de um programa se ele continua igual?
Quando ouvi falar numa grelha para atrair novos públicos, confesso que fiquei receoso quanto à música clássica que iria constar na Antena 2. Até me ocorreu que em vez das obras integrais já não digo de Stockhausen, Pierre Boulez ou Emanuel Nunes mas, pelo menos, de Bach, Vivaldi, Haendel, Beethoven, Schubert, Mahler e Debussy passaríamos a ouvir sequências de trechos de fácil agrado do tipo Selecções do Readers Digest. Do que tenho ouvido notei haver uma preponderância de obras curtas e dos excertos mais conhecidos mas, pelo menos, à noite "(
Grande Auditório", 21h) continua a poder ouvir-se, na íntegra, as grandes obras da música erudita. Para os melómanos mais refinados, uma boa alternativa à televisão!
Numa apreciação global ao formato e aos conteúdos da presente grelha nota-se que há um piscar de olho a ouvintes habitualmente arredios da Antena 2. A esse propósito não é alheia a introdução de noticiários de duas em duas horas. Não estou nada de acordo com esta medida, porque para ouvir notícias (ainda por cima repetidas) existe a Antena 1 cuja componente noticiosa foi reforçada para se tornar numa music news, conforme foi dito por Rui Pêgo, na
entrevista ao DN. É caso para perguntar: já nem com a Antena 2 podemos contar para nos refugiarmos da poluição informativa? Mais informação não significa mais cultura, sobretudo se se trata da actualidade mais efémera e de menor relevância cultural. Um ponto negativo! Ainda relativamente ao formato, agrada-me haver mais espaços musicais de autor (modelo que gostaria de ver adoptado na Antena 1) e também uma maior preocupação didáctica. É igualmente louvável que esses espaços tenham horário fixo porque assim os ouvintes interessados num determinado programa já sabem a que hora ele passa o que favorece a criação de hábitos de escuta. Um ponto positivo!
Falando mais especificamente dos conteúdos, constato que há um maior peso das músicas fora da tradição erudita europeia. É de aplaudir que o jazz tenha agora mais destaque, com os programas "
Um Toque de Jazz", de Manuel Jorge Veloso (sábados e domingos, 14h) e "Jazz com Brancas", de José Duarte (segunda a sexta, 20h). Mas as mudanças não ficam por aí: o programa "Café Plaza" (domingos, 07-10h), dedicado à música de pendor mais ligeiro, é disso um bom exemplo. Não é que esteja contra (até gostei de ouvir), mas continuo a achar que as músicas do 'Café Plaza' e também os blues e outras músicas de cariz mais popular fazem mais sentido na Antena 1. Aliás, elas já lá estiveram até há relativamente pouco tempo. Por que razão foram banidas? Presumivelmente, para passar a reinar a 'playlist'.
Admito que a Antena 2 precisasse de alguns ajustamentos de modo a torná-la menos temática e mais ecléctica (a exemplo do canal 3 da BBC Radio), mas parece-me que há uma forma mais adequada e eficaz de conquistar novos públicos para o canal do que fazer cedências à facilidade. Do meu ponto de vista, incluir peças do repertório mais apelativo da música erudita (designadamente música barroca), em avulso ou em espaços específicos, na Antena 1 e Antena 3, animados por quem tenha experiência nesta área (José Atalaia, por exemplo), seria uma via bem mais recomendável. Bem sei que na Antena 1 já existe a rubrica "
Grandes Músicas", de António Cartaxo, mas é muito pouco. E na Antena 3? O que tem sido feito para cativar os jovens e para os ajudar a perceber que nem toda a música clássica é aquela coisa chata e enfadonha?
Talvez com esta grelha a Antena 2 venha a conquistar alguns dos tradicionais ouvintes da Antena 1 que não se revêem na programação musical que vem sendo implementada. É provável que as audiências subam, mas haverá certamente a fuga de alguns melómanos mais exigentes e exclusivistas da música clássica. Talvez os ouvintes que venham a ser conquistados ultrapassem em número os que vão desertar, mas há uma questão que se impõe: não estará a Antena 2 a desempenhar agora uma parte do papel que caberia à Antena 1?


Nota: Estando a RTP e a RDP sob a alçada da mesma administração, e tendo a obsessão com as audiências sido abandonada na televisão, não entendo ela estar a ter a sua máxima expressão na rádio. Tal dever-se-á ao facto da rádio ter menos visibilidade e, como tal, ser descurada pelo poder político? Se alguém tiver uma explicação verosímil, faça o favor de ma dar.

"1001 Escolhas" também na TV



Jorge Guimarães Silva, no blogue "A Rádio em Portugal", já havia noticiado que o "1001 Escolhas", da Antena 1, iria passar a ter uma versão televisiva, mais concretamente na RTP-N. Na altura fiquei na dúvida se o programa continuaria ou não a ter a versão radiofónica, tal como acontece, por exemplo, com os programas de entrevista que Ana Sousa Dias mantém na RTP-2 e na Antena 1. Agora constato que se mantém na rádio, o que registo com agrado porque o "1001 Escolhas" é um daqueles programas (cada vez mais raros) que nos faz prender o ouvido ao rádio. Na verdade, o programa que Madalena Balça, Sónia Silva, Diamantino José e Maria Antonieta vêm fazendo desde 2004 é uma das poucas razões pelas quais ainda vale a pena rodar o botão para a Antena 1. Durante muito tempo passou à hora de almoço e desde Setembro último logo a seguir ao também imperdível "Lugar ao Sul", aos sábados pelas 10 horas.
Os ouvintes indefectíveis têm-no agora também no canal de notícias da
RTP aos domingos, com repetição às segundas e sextas-feiras. Pena é que seja num canal codificado e não na RTP-2, por exemplo. Só espero é que Jorge Wemans, o novo director do segundo canal da televisão pública, tenha o bom senso de transmiti-lo em reposição, tal como tem acontecido com "Livro Aberto", "Estes Difíceis Amores" e "4 x Ciência".
Resta-me desejar à Madalena Balça e à sua equipa as maiores felicidades também no projecto televisivo.


Nota: Faço referência a dois 'posts' sobre o programa no blogue "Rádio Crítica": um sobre o
formato radiofónico e outro sobre o formato televisivo.

09 janeiro 2006

Afogada em transmissões de futebol

Ainda estão na lembrança de todos as críticas provocadas pelo enormes montantes dispendidos pela RTP na compra de direitos de transmissão televisiva dos jogos de futebol. O mesmo futebol usado para escorar as audiência da RTP.
Agora que a RTP perdeu o futebol para a TVI, aquelas transmissões directas deixaram de constituir Serviço Público. Veja-se no Diário de Notícias de hoje:
O futebol deixou de ser uma prioridade para a RTP. Quem o diz é o presidente do Conselho de Administração da empresa. Para Almerindo Marques, o futebol, apesar do seu "óbvio interesse público", não é um conteúdo de serviço público.
A RTP mudou as suas prioridades, explica Almerindo Marques, Presidente do Conselho de Administração da RTP:
É evidente que os jogos de futebol são de interesse público, mas não se inscrevem no conceito de serviço público que um operador como a RTP tem de respeitar.
E reconhece mesmo:
(...) somando o tempo de emissão com o futebol, é óbvio que havia um exagero na RTP.
Será que Almerindo Marques, Presidente do Conselho de Administração da RTP poderia explicar ao seu colega Presidente do Conselho de Administração da RDP (que por acaso também se chama Almerindo Marques – serão primos?) que o futebol não é um conteúdo de serviço público.
Talvez assim se moderassem os exageros que afogam a Antena 1 com relatos de futebol.