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10 junho 2019

Camões recitado e cantado (V)


"Luís de Camões preso e tendo aos pés quem quis perdê-lo. Pintado nas Índias e foi do próprio".
De autoria anónima, este retrato foi revelado pela investigadora Maria Antonieta Soares de Azevedo, em 1972, num artigo publicado na revista "Panorama" (N.º 42/43, IV Série), que o situa em 1556, sendo anterior ao outro retrato feito em vida do poeta, por Fernão Gomes.
Figurou na exposição que a Biblioteca Nacional organizou, no mesmo ano de 1972, a propósito do IV centenário da publicação de "Os Lusíadas".

«Sendo um testemunho muito importante, este retrato não é propriamente uma obra de arte. A peça é de execução tão imperfeita quanto colorida. O desenho é tosco e desajeitado, com flagrantes erros de perspectiva. Mostra um Camões arruivado, de guias do bigode assimétricas, sentado a uma mesa, segurando uma travessa na mão direita e uma pequena peça escura na esquerda. Estará prestes a trabalhar num dos cantos de Os Lusíadas (o décimo para Maria Antonieta Soares de Azevedo). Há duas folhas sobre essa mesa, mais um fragmento de outra folha.
O poeta parece dispor de um certo "conforto intelectual": vemos vários cartapácios na parede, está em fase de escrever ou a corrigir o seu poema, pode consultar uma carta geográfica que tem perto de si, certamente para verificar qualquer afirmação ou referência do poema. Mas o gibão está roto na manga esquerda e a comida representada não parece abundante, não se percebendo bem que objecto mostra na mão esquerda: um pedaço de pão ou biscoito? Uma pedra para raspar eventualmente a tinta com que escreve? Uma noz gálica para fazer mais tinta? Outra coisa?»

Vasco Graça Moura (in "Retratos de Camões", Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2014 – p. 54-55)


Neste Dia de Camões, apresentamos a três últimas Canções, do conjunto de dez que compõe o CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra" [as sete anteriores foram apresentadas nos artigos "Camões recitado e cantado (III)" e "Camões recitado e cantado (IV)"].
No que concerne a poemas camonianos musicados/cantados, resgatamos os cinco que Luís Cília gravou em França e incluiu no seu álbum "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", editado em 1967. Sendo Luís Cília, hoje em dia, um compositor/intérprete banidíssimo do éter nacional, presumimos que seja elevado o número de rádio-ouvintes que nunca tiveram contacto auditivo com estas gravações, pelo que esta possibilidade de descoberta e fruição se pode considerar verdadeiro serviço público.
À laia de preâmbulo, e igualmente com música de Luís Cília, deixamos o poema "Lamento de Luís de Camões na morte de António, seu escravo", da autoria de Eugénio de Andrade, nas vozes de Mário Viegas (recitação) e de Luís Cília (canto).

Neste 10 de Junho, o que vem fazendo (está a fazer) a rádio pública em celebração do Poeta maior da língua portuguesa? Andámos a fazer 'zapping' entre as três antenas nacionais e apenas lográmos ouvir na Antena 2, pela mão de Gabriela Canavilhas, no programa "O Ar do Tempo" [>> RTP-Play], uma versão de "Na Fonte Está Lianor", na voz de Jennifer Smith, acompanhada ao alaúde por Manuel Morais, que faz parte do CD "Saudade, Amor e Morte: Cancioneiros Ibéricos dos Séculos XVI e XVII (Philips, 1998). O poema é diferente do que foi cantado por José Afonso e não é garantido que seja de Camões pois não aparece na generalidade das edições da Lírica, mas admitamos que sim. Assim sendo, aquele espécime foi a minúscula ilha poético-musical no imenso mar de silêncio a que o Poeta foi votado. E se o silêncio imperou até agora, que são 21:45, não é de crer que o deplorável panorama se modifique durante o curto período que falta para a meia-noite.
Na Antena 2, devem ter-se esquecido, decerto, de que existem, gravadas em disco, abundantes canções sobre poemas de Camões, saídas do punho de compositores tão importantes como Luís de Freitas Branco, Joly Braga Santos e Fernando Lopes-Graça. Isto, sem referir obras evocativas de grande fôlego como é o caso do "Requiem à Memória de Camões", de João Domingos Bomtempo, e da "Sinfonia à Pátria", de José Vianna da Motta.
Na Antena 1, e sem prejuízo da transmissão de poemas ditos/recitados (coisa que as Antenas 2 e 3 também podiam e deviam fazer), já não seria mau se, ao menos no Dia de Camões, a oferta musical da 'playlist' fosse constituída somente por canções baseadas em poemas do genial Vate e de outros autores portugueses. Mas não! Nada! Apenas as mesmíssimas imundícies sonoras (exógenas e endógenas) que rodam nos demais 364 dias do ano. Absolutamente vergonhoso!
Meu caro Luís Vaz, foste grande demais para um país tão rasteiro, que não soube merecer-te em vida e continua a matar a tua memória a cada momento que passa, mesmo no dia que escolheu para te honrar. Citando Sophia, «Este país te mata lentamente».



Lamento de Luís de Camões na morte de António, seu escravo



Poema: Eugénio de Andrade (27-12-1979, de "Escrita da Terra / Epitáfios", in "Poesia e Prosa", Vol. I, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1980; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 242)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* com Mário Viegas (in LP "Marginal", Diapasão/Sassetti, 1981)


         ...viveu em tanta pobreza, que se não tivera
         um jau, chamado António, que da Índia trouxe,
         que de noite pedia esmola para o ajudar a
         sustentar, não pudera aturar a vida. Como se
         viu, tanto que o jau morreu, não durará ele
         muitos meses.
                                    PEDRO DE MARIZ


Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

— eu vi a terra limpa no teu rosto,
só no teu rosto e nunca em mais nenhum.


* [créditos gerais do disco:]
Luís Cília – voz e viola
Mário Viegas – voz (em
António Serafim – oboé
Filomena Cardoso – violino
Teresa Ribeiro – violeta
João Neves – violoncelo
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Pedro Osório – acordeão e sintetizador
Pedro Casaes – contrabaixo
Direcção musical – Luís Cília
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa, em Agosto de 1981
Técnico de som – Rui Remígio



Se de Saudade



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 782-783)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", EMEN, 1996)


          MOTE ALHEIO

Saudade minha,
quando vos veria?

          VOLTAS

Este tempo vão,
esta vida escassa,
pera todos passa,
só pera mim não.
Os dias se vão
sem ver este dia
quando vos veria.

Vede esta mudança
se está bem perdida
em tão curta vida
tão longa esperança!
Se este bem se alcança,
tudo sofreria,
quando vos veria.

Saudosa dor,
eu bem vos entendo;
mas não me defendo,
porque ofendo Amor.
Se fôsseis maior,
em maior valia
vos estimaria.

Minha saudade,
caro penhor meu,
a quem direi eu
tamanha verdade?
Na minha vontade,
de noite e de dia
sempre vos teria.


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris



CANÇÃO VIII



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Tomei a triste pena
já de desesperado
de vos lembrar as muitas que padeço,
com ver que me condena
a ficar eu culpado
o mal que me tratais e o que mereço.
Confesso que conheço
que, em parte, eu causei
o mal em que me vejo,
pois sempre meu desejo
tão comprido, em vós cumprir deixei;
mas não tive suspeita
que seguísseis tenção tão imperfeita.

Se em vosso esquecimento
tão envolto estou
como os sinais demonstram, que mostrais;
vivo neste tormento,
lembranças mais não dou
que a que de razão tomar queirais:
olhai que me tratais
assi de dia em dia
com vossas esquivanças;
e as vossas esperanças,
de que, vãmente, eu me enriquecia,
renovam a memória;
pois com tê-la de vós, só tenho glória.

E se isto conhecêsseis
que é verdade pura
como ouro de Arábia reluzente,
inda que não quisésseis,
a condição tão dura
mudáreis noutra muito diferente.
E eu, como inocente
que estou neste caso,
isto em mãos pusera
de quem sentença dera
que ficasse o direito justo e raso,
se não arreceara
que a vós por mim, e a mim por vós matara.

Em vós escrita vi
vossa grande dureza,
e n'alma escrita está que de vós vive;
não que acabasse ali
sua grande firmeza
o triste desengano que então tive;
porque antes que a dor prive
de todos meus sentidos,
ao grande tormento
acode o entendimento
com dous fortes soldados, guarnecidos
de rica pedraria,
que ficam sendo minha luz e guia.

Destes acompanhado,
estou posto sem medo
a tudo o que o fatal destino ordene;
pode ser que, cansado,
ou seja tarde, ou cedo,
com pena de penar-me, me despene.
E quando me condene
(que isto é o que espero)
inda a maiores dores,
perdidos os temores,
por mais que venha, não direi: não quero.
Contudo estou tão forte
que nem me mudará a mesma morte.

Canção, se já não queres
ver tanta crueldade,
lá vás onde verás minha verdade.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Quem Ora Soubesse



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 771-772)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", EMEN, 1996)


          MOTE

Quem ora soubesse
onde o Amor nasce,
que o semeasse!

          VOLTAS

D'Amor e seus danos
me fiz lavrador;
semeava amor
e colhia enganos.
Não vi, em meus anos,
homem que apanhasse
o que semeasse.

Vi terra florida
de lindos abrolhos:
lindos pera os olhos,
duros pera a vida.
Mas a rês perdida
que tal erva pasce
em forte hora nasce.

Conquanto perdi,
trabalhava em vão:
se semeei grão,
grande dor colhi.
Amor nunca vi
que muito durasse,
que não magoasse.


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris



CANÇÃO IX



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Junto de um seco, fero e estéril monte,
inútil e despido, calvo, informe,
da natureza em tudo aborrecido,
onde nem ave voa, ou fera dorme,
nem rio claro corre, ou ferve fonte,
nem verde ramo faz doce ruído;
cujo nome, do vulgo introduzido,
é Félix, por antífrase, infelice;
o qual a Natureza
situou junto à parte
onde um braço de mar alto reparte
Abássia da arábica aspereza,
onde fundada já foi Berenice,
ficando à parte donde
o Sol que nele ferve se lhe esconde;

nele aparece o Cabo com que a costa
Africana, que vem do Austro correndo,
limite faz, Arómata chamado
(Arómata outro tempo; que, volvendo
os céus, a ruda língua mal composta
dos próprios outro nome lhe tem dado).
Aqui, no mar que quer apressurado
entrar pela garganta deste braço,
me trouxe um tempo e teve
minha fera ventura.
Aqui, nesta remota, áspera e dura
parte do mundo, quis que a vida breve
também de si deixasse um breve espaço,
por que ficasse a vida
pelo mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
tristes, forçados, maus e solitários,
trabalhosos, de dor e de ira cheios,
não tendo tão-somente por contrários
a vida, o sal ardente e águas frias,
os ares grossos, férvidos e feios;
mas os meus pensamentos, que são meios
para enganar a própria Natureza,
também vi contra mi,
trazendo-me à memória
algũa já passada e breve glória,
que eu já no mundo vi, quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por me mostrar que havia
no mundo muitas horas de alegria.

Aqui estive eu co estes pensamentos
gastando o tempo e a vida; os quais tão alto
me subiam nas asas que caía
— e vede se seria leve o salto! —
de sonhados e vãos contentamentos
em desesperação de ver um dia.
Aqui o imaginar se convertia
num súbito chorar e nuns suspiros,
que rompiam os ares.
Aqui, a alma cativa,
chagada toda, estava em carne viva,
de dores rodeada e de pesares,
desamparada e descoberta aos tiros
da soberba Fortuna:
soberba, inexorável e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse,
nem esperança algũa onde a cabeça
um pouco reclinasse, por descanso.
Todo lhe é dor e causa que padeça,
mas que pereça não, por que passasse
o que quis o Destino nunca manso.
Oh! que este irado mar, gritando, amanso!
Estes ventos da voz importunados,
parece que se enfreiam!
Somente o Céu severo,
as Estrelas e o Fado sempre fero
com meu perpétuo dano se recreiam,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tão pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse
saber inda por certo que algũa hora
lembrava a uns claros olhos que já vi;
e se esta triste voz, rompendo fora,
as orelhas angélicas tocasse
daquela em cujo riso já vivi;
a qual, tornada um pouco sobre si,
revolvendo na mente pressurosa
os tempos já passados
de meus doces errores,
de meus suaves males e furores,
por ela padecidos e buscados,
tornada — inda que tarde — piadosa,
um pouco lhe pesasse
e consigo por dura se julgasse;

isto só que soubesse, me seria
descanso para a vida que me fica;
co isto afagaria o sofrimento.
Ah! Senhora, Senhora, que tão rica
estais que, cá tão longe, de alegria
me sustentais cum doce fingimento!
Em vos afigurando o pensamento,
foge todo o trabalho e toda a pena.
Só com vossas lembranças
me acho seguro e forte
contra o rosto feroz da fera Morte,
e logo se me ajuntam esperanças
com que a fronte, tornada mais serena,
torna os tormentos graves
em saudades brandas e suaves.

Aqui co eles fico, perguntando
aos ventos amorosos, que respiram
da parte donde estais, por vós, Senhora;
às aves que ali voam, se vos viram,
que fazíeis, que estáveis praticando,
onde, como, com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada, que melhora,
toma novos espritos, com que vença
a Fortuna e Trabalho,
só por tornar a ver-vos,
só por ir a servir-vos e querer-vos.
Diz-me o Tempo que a tudo dará talho;
mas o Desejo ardente, que detença
nunca sofreu, sem tento
me abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi vivo; e se alguém te perguntasse,
Canção, como não mouro,
podes-lhe responder que porque mouro.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Se me Levam Águas



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 772-773)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", EMEN, 1996)


          MOTE ALHEIO

Se me levam águas,
nos olhos as levo.

          VOLTAS

Se de saudade
morrerei ou não,
meus olhos dirão
de mim a verdade.
Por eles me atrevo
a lançar as águas
que mostrem as mágoas
que nesta alma levo.

As águas que em vão
me fazem chorar,
se elas são do mar
estas de amor são.
Por elas relevo
todas minhas mágoas;
que, se força de águas
me leva, eu as levo.

Todas me entristecem,
todas são salgadas;
porém as choradas
doces me parecem.
Correi, doces águas,
que, se em vós me enlevo,
não doem as mágoas
que no peito levo.


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris



CANÇÃO X



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Vinde cá, meu tão certo secretário
dos queixumes que sempre ando fazendo,
papel, com que a pena desafogo!
As sem-razões digamos que, vivendo,
me faz o inexorável e contrário
Destino, surdo a lágrimas e a rogo.
Deitemos água pouca em muito fogo;
acenda-se com gritos um tormento
que a todas as memórias seja estranho.
Digamos mal tamanho
a Deus, ao mundo, à gente e, enfim, ao vento,
a quem já muitas vezes o contei,
tanto debalde como o conto agora;
mas, já que para errores fui nacido,
vir este a ser um deles não duvido.
Que, pois já de acertar estou tão fora,
não me culpem também, se nisto errei.
Sequer este refúgio só terei:
falar e errar sem culpa, livremente.
Triste quem de tão pouco está contente!

Já me desenganei que de queixar-me
não se alcança remédio; mas quem pena,
forçado lhe é gritar se a dor é grande.
Gritarei; mas é débil e pequena
a voz para poder desabafar-me,
porque nem com gritar a dor se abrande.
Quem me dará sequer que fora mande
lágrimas e suspiros infinitos
iguais ao mal que dentro n'alma mora?
Mas quem pode algũa hora
medir o mal com lágrimas ou gritos?
Enfim, direi aquilo que me ensinam
a ira, a mágoa, e delas a lembrança,
que é outra dor por si, mais dura e firme.
Chegai, desesperados, para ouvir-me,
e fujam os que vivem de esperança
ou aqueles que nela se imaginam,
porque Amor e Fortuna determinam
de lhe darem poder para entenderem,
à medida dos males que tiverem.

Quando vim da materna sepultura
de novo ao mundo, logo me fizeram
Estrelas infelices obrigado;
com ter livre alvedrio, mo não deram,
que eu conheci mil vezes na ventura
o melhor, e o pior segui, forçado.
E, para que o tormento conformado
me dessem com a idade, quando abrisse
inda menino, os olhos, brandamente,
mandam que, diligente,
um Menino sem olhos me ferisse.
As lágrimas da infância já manavam
com ũa saudade namorada:
o som dos gritos, que no berço dava,
já como de suspiros me soava.
Co a idade e Fado estava concertado;
porque quando, por caso, me embalavam,
se versos de Amor tristes me cantavam,
logo me adormecia a natureza,
que tão conforme estava co a tristeza.

Foi minha ama ũa fera, que o destino
não quis que mulher fosse a que tivesse
tal nome para mim; nem a haveria.
Assi criado fui, porque bebesse
o veneno amoroso, de menino,
que na maior idade beberia,
e, por costume, não me mataria.
Logo então vi a imagem e semelhança
daquela humana fera tão fermosa,
suave e venenosa,
que me criou aos peitos da esperança;
de que eu vi despois o original,
que de todos os grandes desatinos
faz a culpa soberba e soberana.
Parece-me que tinha forma humana,
mas cintilava espíritos divinos.
Um meneio e presença tinha tal
que se vangloriava todo o mal
na vista dela; a sombra, co a viveza,
excedia o poder da Natureza.

Não sei como sabia estar roubando
cos raios das entranhas, que fugiam
por ela, pelos olhos sutilmente!
Pouco a pouco invencíveis me saíam,
bem como do véu húmido exalando
está o sutil humor o Sol ardente.
Enfim, o gesto puro e transparente,
para quem fica baixo e sem valia
deste nome de belo e de fermoso;
o doce e piadoso
mover de olhos, que as almas suspendia
foram as ervas mágicas, que o Céu
me fez beber; as quais, por longos anos,
noutro ser me tiveram transformado,
e tão contente de me ver trocado
que as mágoas enganava cos enganos;
e diante dos olhos punha o véu
que me encobrisse o mal, que assi creceu,
como quem com afagos se criava
daquele para quem crecido estava.

Que género tão novo de tormento
teve Amor, que não fosse, não somente
provado em mim, mas todo executado?
Implacáveis durezas, que o fervente
desejo, que dá força ao pensamento,
tinham de seu propósito abalado,
e de se ver, corrido e injuriado;
aqui, sombras fantásticas, trazidas
de algũas temerárias esperanças;
as bem-aventuranças
nelas também pintadas e fingidas;
mas a dor do desprezo recebido,
que a fantasia me desatinava,
estes enganos punha em desconcerto;
aqui, o adevinhar e o ter por certo
que era verdade quanto adevinhava,
e logo o desdizer-se, de corrido;
dar às cousas que via outro sentido,
e para tudo, enfim, buscar razões;
mas eram muitas mais as sem-razões.

Pois quem pode pintar a vida ausente,
com um descontentar-me quanto via,
e aquele estar tão longe donde estava;
o falar, sem saber o que dezia;
andar, sem ver por onde, e juntamente
suspirar sem saber que suspirava?
Pois quando aquele mal me atormentava
e aquela dor que das Tartáreas águas
saiu ao mundo, e mais que todas dói,
que tantas vezes soe
duras iras tornar em brandas mágoas;
agora, co furor da mágoa irado,
querer e não querer deixar de amar,
e mudar noutra parte por vingança
o desejo privado de esperança,
que tão mal se podia já mudar;
agora, a saudade do passado
tormento, puro, doce e magoado,
fazia converter estes furores
em magoadas lágrimas de amores.

Que desculpas comigo que buscava
quando o suave Amor me não sofria
culpa na cousa amada, e tão amada!
Enfim, eram remédios que fingia
o medo do tormento que ensinava
a vida a sustentar-se, de enganada.
Nisto ũa parte dela foi passada,
na qual se tive algum contentamento
breve, imperfeito, tímido, indecente,
não foi senão semente
de longo e amaríssimo tormento.
Este curso contino de tristeza,
estes passos tão vãmente espalhados,
me foram apagando o ardente gosto
que tão de siso n'alma tinha posto,
daqueles pensamentos namorados
em que eu criei a tenra natureza,
que do longo costume da aspereza,
contra quem força humana não resiste,
se converteu no gosto de ser triste.

Dest'arte a vida noutra fui trocando;
eu não, mas o destino fero, irado,
que eu ainda assi por outra não trocara.
Fez-me deixar o pátrio ninho amado,
passando o longo mar, que ameaçando
tantas vezes me esteve a vida cara.
Agora, exprimentando a fúria rara
de Marte, que cos olhos quis que logo
visse e tocasse o acerbo fruto seu
(e neste escudo meu
a pintura verão do infesto fogo);
agora, peregrino vago e errante,
vendo nações, linguagens e costumes,
Céus vários, qualidades diferentes,
só por seguir com passos diligentes
a ti, Fortuna injusta, que consumes
as idades, levando-lhe diante
ũa esperança em vista de diamante,
mas quando das mãos cai se conhece
que é frágil vidro aquilo que aparece.

A piadade humana me faltava,
a gente amiga já contrária via,
no primeiro perigo; e, no segundo,
terra em que pôr os pés me falecia,
ar para respirar se me negava,
e faltavam-me, enfim, o tempo e o mundo.
Que segredo tão árduo e tão profundo:
nacer para viver, e para a vida
faltar-me quanto o mundo tem para ela!
E não poder perdê-la,
estando tantas vezes já perdida!
Enfim, não houve transe de fortuna,
nem perigos, nem casos duvidosos,
injustiças daqueles, que o confuso
regimento do mundo, antigo abuso,
faz sobre os outros homens poderosos,
que eu não passasse, atado à grã coluna
do sofrimento meu, que a importuna
perseguição de males em pedaços
mil vezes fez, à força de seus braços.

Não conto tanto males como aquele
que, despois da tormenta procelosa,
os casos dela conta em porto ledo;
que inda agora a Fortuna flutuosa
a tamanhas misérias me compele,
que de dar um só passo tenho medo.
Já de mal que me venha não me arredo,
nem bem que me faleça já pretendo,
que para mim não vale astúcia humana;
de força soberana,
da Providência, enfim, divina, pendo.
Isto que cuido e vejo, às vezes tomo
para consolação de tantos danos.
Mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre, e não alcança
senão memória dos passados anos,
as águas que então bebo, e o pão que como,
lágrimas tristes são, que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantásticas pinturas de alegria.

Que se possível fosse, que tornasse
o tempo para trás, como a memória,
pelos vestígios da primeira idade,
e de novo tecendo a antiga história
de meus doces errores, me levasse
pelas flores que vi da mocidade;
e a lembrança da longa saudade
então fosse maior contentamento,
vendo a conversação leda e suave,
onde ũa e outra chave
esteve de meu novo pensamento,
os campos, as passadas, os sinais,
a fermosura, os olhos, a brandura,
a graça, a mansidão, a cortesia,
a sincera amizade, que desvia
toda a baixa tenção, terrena, impura,
como a qual outra algũa não vi mais...
Ah! vãs memórias, onde me levais
o fraco coração, que ainda não posso
domar este tão vão desejo vosso?

Nõ mais, Canção, nõ mais; que irei falando,
sem o sentir, mil anos. E se acaso
te culparem de larga e de pesada,
não pode ser (lhe dize) limitada
a água do mar em tão pequeno vaso.
Nem eu delicadezas vou cantando
co gosto do louvor, mas explicando
puras verdades já por mim passadas.
Oxalá foram fábulas sonhadas!


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Babel e Sião



Poema (trova em redondilha maior): Luís de Camões (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967)


[instrumental]

Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por entre o espesso arvoredo;
e, de noite, o temeroso,
cantando, refreia o medo. [bis]

Canta o preso docemente,
os duros grilhões cantando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente. [bis]

Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos enjeito. [bis]

Canta o preso docemente,
os duros grilhões cantando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente. [bis]

[instrumental]


* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris



Sôbolos rios que vão

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 711-721)


Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião,
e quanto nela passei.

Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado;
e tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes
na alma se representam;
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes,
como se nunca passaram.

Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.

E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.

Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura;
o mal quão depressa vem;
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

Vi aquilo que mais val
que então se entende milhor
quando mais perdido for;
vi ao bem suceder mal,
e ao mal muito pior.

E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento;
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas águas
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.

Como homem que, por exemplo
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou;

assi, despois que assentei
que tudo a tempo gastava,
da tristeza que tomei,
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.

Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: — «Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

Frauta minha que, tangendo
os montes fazíeis vir
para onde estáveis, correndo;
e as águas, que iam descendo,
tornavam logo a subir;

jamais vos não ouvirão
os tigres, que se amansavam;
e as ovelhas, que pastavam,
das ervas se fartarão
que por vos ouvir deixavam.

Já não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florescente;
nem poreis freio à corrente,
e mais, se for dos meus olhos.

Não movereis a espessura,
nem podereis já trazer
atrás vós a fonte pura,
pois não pudestes mover
desconcertos da ventura.

Ficareis oferecida
à Fama que sempre vela,
frauta de mim tão querida;
porque, mudando-se a vida,
se mudam os gostos dela.»

Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquidade
aqueles gostos passados.

Um gosto que hoje se alcança,
amanhã já o não vejo;
assi nos traz a mudança
de esperança em esperança,
e de desejo em desejo.

Mas em vida tão escassa
que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
que, quanto da vida passa,
está receitando a morte!

Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade,
não cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura.

Que idade, tempo, o espanto
de ver quão ligeiro passe,
nunca em mim puderam tanto
que, posto que deixe o canto,
a causa dele deixasse.

Mas em tristezas e enojos,
em gosto e contentamento,
por sol, por neve, por vento,
terné presente à los ojos
por quien muero tan contento.

Órgãos e frauta deixava,
despojo meu tão querido,
no salgueiro que ali estava,
que para troféu ficava
de quem me tinha vencido.

Mas lembranças de afeição
que ali cativo me tinha,
me perguntaram então
que era da música minha
que eu cantava em Sião?

Que foi daquele cantar,
das gentes tão celebrado?
Porque o deixava de usar,
pois sempre ajuda passar
qualquer trabalho passado?

Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por entre o espesso arvoredo;
e, de noite, o temeroso,
cantando, refreia o medo.

Canta o preso docemente,
os duros grilhões tocando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente.

Eu, que estas cousas senti
na alma, de mágoas tão cheia,
como dirá, respondi,
quem tão alheio está de si
doce canto em terra alheia?

Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos enjeito.

Que não parece razão
nem seria cousa idónea,
por abrandar a paixão,
que cantasse em Babilónia
as cantigas de Sião.

Que, quando a muita graveza
da saudade quebrante
esta vital fortaleza,
antes moura de tristeza
que, por abrandá-la, cante.

Que se o fino pensamento
só na tristeza consiste,
não tenho medo ao tormento:
que morrer de puro triste,
que maior contentamento?

Nem na frauta cantarei
o que passo, e passei já,
nem menos o escreverei,
porque a pena cansará,
e eu não descansarei.

Que, se vida tão pequena
se acrecenta em terra estranha;
e se Amor assim o ordena,
razão é que canse a pena
de escrever pena tamanha.

Porém se, pera assentar
o que sente o coração,
a pena já me cansar,
não canse para voar
a memória em Sião.

Terra bem-aventurada,
se, por algum movimento
da alma me fores mudada,
minha pena seja dada
a perpétuo esquecimento.

A pena deste desterro,
que eu mais desejo esculpida
em pedra ou em duro ferro,
essa nunca seja ouvida,
em castigo de meu erro.

E se eu cantar quiser,
em Babilónia sujeito,
Hierusalém, sem te ver,
a voz, quando a mover,
se me congele no peito.

A minha língua se apegue
às fauces, pois te perdi,
se, enquanto viver assi,
houver tempo em que te negue
ou que me esqueça de ti.

Mas ó tu, terra de Glória,
se eu nunca vi tua essência,
como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
senão na reminiscência.

Que a alma é tábua rasa,
que, com a escrita doutrina
celeste, tanto imagina,
que voa da própria casa
e sobre à Pátria divina.

Não é, logo, a saudade
das terras onde naceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa Cidade
donde esta alma descendeu.

E aquela humana figura,
que cá me pode alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio de Fermosura,
que só se deve de amar.

Que os olhos e a luz que ateia
o fogo que cá sujeita,
não do Sol, nem da candeia,
é sombra daquela Ideia,
que em Deus está mais perfeita.

E os que cá me cativaram,
são poderosos afeitos
que os corações tem sujeitos;
sofistas que me ensinaram
maus caminhos por direitos.

Destes o manto tirano
me obriga, com desatino,
a cantar, ao som do dano,
cantares de amor profano
por versos de amor divino.

Mas eu, lustrado co santo
Raio, na terra de dor,
de confusão e de espanto,
como hei-de cantar o canto
que se deve ao Senhor?

Tanto pode o benefício
da Graça que dá saúde,
que ordena que a vida mude;
e o que eu tomei por vício
me faz grau pera a virtude;

e faz que este natural
amor, que tanto se preza,
suba da sombra ao Real,
da particular beleza
para a Beleza geral.

Fique logo pendurada
a frauta com que tangi,
ó Hierusalém sagrada,
e tome a lira dourada
para só cantar de ti.

Não cativo e ferrolhado
na Babilónia infernal,
mas dos vícios desatado,
e cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.

E se eu mais der a cerviz
a mundanos acidentes,
duros, tiranos e urgentes,
risque-se quanto já fiz
do grão livro dos viventes.

E, tomando já na mão
a lira santa, e capaz
doutra mais alta invenção,
cale-se esta confusão,
cante-se a visão de paz.

Ouça-me o pastor e o rei,
retumbe este acento santo,
mova-se no mundo espanto,
que do que já mal cantei
a palinódia já canto.

A vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
da alta torre de Sião,
à qual não posso subir
se me vós não dais a mão.

No grão dia singular
que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
lembrai-vos de castigar
os ruins filhos de Edom.

Aqueles que tintos vão
no nobre sangue inocente,
soberbos co poder vão,
arrasá-los igualmente,
conheçam que humanos são.

E aquele poder tão duro
dos afeitos com que venho,
que encendem alma e engenho,
que já me entraram o muro
do livre alvidrio que tenho;

estes, que tão furiosos
gritando vêm a escalar-me,
maus espíritos danosos,
que querem como forçosos
do alicerce derrubar-me;

derrubai-os, fiquem sós,
de forças fracos, imbeles,
porque não podemos nós
nem com eles ir a Vós,
nem sem Vós tirar-nos deles.

Não basta minha fraqueza
para me dar defensão,
se Vós, santo Capitão,
nesta minha fortaleza
não puserdes guarnição.

E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tão feia,
toda de misérias cheia,
que mil vezes te levantas
contra quem te senhoreia:

beato só pode ser
quem co a ajuda celeste
contra ti prevalecer,
e te vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste;

quem com disciplina crua
se fere mais que ũa vez,
cuja alma, de vícios nua,
faz nódoas na carne sua,
que já a carne na alma fez.

E beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e, em nacendo, os afogar,
por não virem a parar
em vícios graves e urgentes;

quem com eles logo der
na pedra do furor santo,
e, batendo, os desfizer
na Pedra, que veio a ser
enfim cabeça do Canto;

quem logo, quando imagina
nos vícios da carne má,
os pensamentos declina
àquela Carne divina
que na Cruz esteve já;

quem do vil contentamento
cá deste mundo visível,
quanto ao homem for possível,
passar logo o entendimento
para o mundo inteligível:

ali achará alegria,
em tudo perfeita e cheia
de tão suave harmonia
que, nem por pouca, recreia,
nem, por sobeja, enfastia;

ali verá tão profundo
mistério na Suma Alteza,
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.

Ó tu, divino aposento,
minha Pátria singular,
se só com te imaginar,
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?

Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente,
que, despois de a ti subir
lá descanse eternamente.



Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 9)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", Moshé-Naïm, 1967)


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


Nota:
No manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, lê-se: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...»

* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris
URL: http://www.luiscilia.com/



Capa do LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1", de Luís Cília (Moshé-Naïm, 1967).
Fotografia – Ludwik Lewin.
Concepção – Henri Matchavariani.



Capa da antologia em CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", de Luís Cília (EMEN, 1996).



Capa do CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra" (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995).
Concepção – Cristina Reis.

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15 abril 2019

Fernando Namora: centenário do nascimento



          Um homem morto. Uma realidade directa, que me tocava de perto. Tinha estropiado cadáveres na morgue; chegara a ver enfermos a agonizar durante as lições nas enfermarias; vivia cercado de doenças, misérias, estertores. Mas tudo isso eram acontecimentos necessários para a lógica dos tratados. Esta morte dizia-me respeito. Conhecera o primo Lucas longe desse ambiente; era um homem, uma coisa viva e misturada nas recordações da minha infância; um ser pronto a sofrer, pronto aos júbilos e às desventuras. Os outros homens da enfermaria ou do necrotério não tinham para mim uma história, serviam para confirmar uma ciência.
          Alguma coisa estava brutalmente errada. Haviam-me iludido, magoado. Recebia uma lição. Daí em diante sofreria até à angústia o que é ter uma vida nas nossas mãos, uma vida que nos é entregue: um misto de desafio, de responsabilidade e desespero.

Fernando Namora (excerto da narrativa "A Prima Cláudia", in "Retalhos da Vida de um Médico", I Série, Lisboa: Editorial Inquérito, 1949; Lisboa: Círculo de Leitores, 1996 – p. 39-40).


NAMORA, FERNANDO Gonçalves (15/4/1919, Condeixa-a-Nova - 31/1/1989, Lisboa).
Romancista, ensaísta, poeta – e também pintor – devem-se a Fernando Namora páginas nas quais se perfazem estas múltiplas vocações pessoais, pois que a sua ficção guarda em quase toda ela uma reflexão individual mas solidária com o homem no complexo período que viveu e participou. Foi, porém, sempre um sentimento de comunhão humana que sobretudo o motivou sem que, no entanto, em todas as páginas dos seus livros (inclusive na crónica, que no último quartel da vida também cultivou) não deixe de reflectir-se, como nos seus romances, uma visão plástica das paisagens, como que a ilustrarem literariamente imagens e costumes. A obra tão diversificada não são alheias reflexões sobre ideias e comportamentos individuais ou colectivos e por isso ela é, também, um produto de simultâneos olhares que sendo coerentes com uma séria linha vertical, que era a do autor, de certo modo reflectem uma personalidade simultaneamente atenta, porque desperta e sensível, e preocupada com os grandes problemas individuais e colectivos do seu tempo. Esta evidente preocupação do autor esteve na origem da primeira fase da sua obra, ou antes: marcou-a mais do que às restantes, embora, como atrás se disse, desta não estivesse ausente. Tratava-se de vários factores determinantes, em primeiro lugar o do estilo narrativo da época (As Sete Partidas do Mundo, de 1938). Nesse romance de final da adolescência já se podiam detectar, no entanto, grandes linhas que o autor haveria de manter na vida e na obra. Fora publicado, porém, no rescaldo da sua experiência coimbrã, escolar de Medicina que foi, e a prevalência da cidade universitária e do relacionamento estudantil, não alheia aquela a motivações de aprofundamento psicológico próprio da época socioliterária, e a ascensão entre nós do neo-realismo norte-americano e pouco depois, mas ainda na década, do realismo regionalista brasileiro, foram, ao tempo e posteriormente, detectados pela crítica mais atenta que, no entanto, desde logo soube antever o escritor e narrador de pulso que já ali se poderia adivinhar. Caso curioso, esse romance, tão diferente na técnica e nos temas gerais dos muitos que Namora viria a publicar, deixava, desde logo, notar a garra de um narrador virado para a observação atenta dos costumes e, já então, para os principais problemas da relação humana em sociedade, por mais sui generis ela fosse. O seu segundo romance Fogo na Noite Escura, título cuja intencionalidade discreta era evidente, é ainda a atmosfera universitária coimbrã que, por outros ângulos mais vastos do que no primeiro e muito mais «doutrinados», prevalece. A ficção de Namora, se se aproxima mais do neo-realismo de atmosfera e tema, não deixa de afirmar um pulso de narrador que sucessivamente foi sendo reconhecido. À mesma linha pertencerão ainda a novela Casa da Malta e o romance Minas de San Francisco, respectivamente de 1945 e 1946. Há, porém, no conjunto de uma obra vasta, sobretudo se catalogada, digamos assim, à distância, várias matrizes temáticas que não deixam de estar, directa ou indirectamente, presentes no conjunto da sua vasta produção literária. Serão elas, rapidamente enunciadas e sem qualquer preocupação de estudo crítico que o espaço não comporta (e que, aliás, têm sido já várias vezes referidas), a presença dos meios rústicos da sua origem e de vasta vivência pessoal, embora Coimbra primeiro e Lisboa pela vida fora tenham despertado a atenção, muitas vezes dorida, outras magoada e sempre reflexiva, e a sua carreira profissional de médico, da qual nunca esteve totalmente afastado, pelos interesses profissionais, pelo seu trabalho com Francisco Gentil, no Instituto Português de Oncologia, e pela colaboração duradoura que prestou a uma fábrica de produtos farmacêuticos. Pode dizer-se que essas experiências pessoais lhe foram indesligáveis e proveitosas para a construção de uma extensa obra na qual o homem, como tal, foi sempre tema de investigação e de análise. O homem-indivíduo e o homem-social. O homem-português, do campo e da cidade, numa época, é bom lembrar, na qual era muito menor a possibilidade de observação directa e muito maiores as diferenças culturais e de educação, do que hoje. O que só acrescenta ao mérito intrínseco dos milhares de páginas que nos legou e que, até por isso, são um painel de uma época e um documento. De tudo isto são exemplo as duas séries de Retalhos da Vida de um Médico e as páginas, já de certo modo memorialísticas, das crónicas reunidas no volume A Nave de Pedra, inspirada pela sua juventude de médico em Monsanto, na Beira Baixa, Monsanto, tão indesligável da vida e da figura humana do escritor. Aberto a todas as experiências e desperto para todas as reflexões, em obras suas de horizontes internacionais, portanto muito diferentes e mais vastos, haveriam de reflectir-se os condicionantes e interesses fundamentais da sua experiência humana e intelectual. Assim o demonstram muitas, senão todas as páginas de impressões de viagens por países europeus, sobretudo à Rússia e a nações escandinavas, países e sobretudo povos, tão diferentes do seu e que soube entender e interpretar com larga capacidade humana de adesão e procura. No volume de entrevistas Encontros arquivam-se duas entrevistas de Fernando Namora com o jornalista Alexandre Manuel, publicadas em 1969 e 1976 no Diário de Notícias, nas quais como, aliás, em todas as que esse volume regista, se encontra como que a auto-radiografia, digamos assim, da sua obra como totalidade que representa. Essas entrevistas guardam, também (sobretudo a segunda), as suas impressões da experiência, infelizmente efémera por vontade própria, que foi a sua missão como presidente do então Instituto de Cultura Portuguesa, posteriormente extinto, e à qual se ficou devendo, no conjunto de realizações muito importantes na área editorial, a criação, para o grande público, da «Biblioteca Breve», que durante anos foi um exemplo de acção pedagógica isenta, vertical, variada e de custo acessível, orientada por Álvaro Salema e que foi, até hoje, uma das séries de intenção didáctica mais aliciantes e úteis. Quanto ao conjunto da obra de Namora, tão variada nos temas, motivos e observações, pode concluir-se que o entardecer da vida, longe de lhe diminuir a produtividade, a ampliou a novas mais variadas perspectivas. Inseriu-a em horizontes mais vastos que lhe foi dado conhecer – e aí se pode citar a série dos Cadernos de um Escritor, balanço também de viagens e experiências. No entanto, o romance O Rio Triste, título significativo, é de certo modo, sobretudo nas páginas de implícita análise de tipos femininos e de situações sentimentalmente aprofundadas, uma síntese final de muitas experiências e observações. O conjunto da obra de Namora, visto à perspectiva do tempo e dos factos que ela, directa ou indirectamente comporta, é um painel de uma época e o produto de várias e ricas contradições interiores, postas em termos simultaneamente confessionais e narrativos.

LUÍS FORJAZ TRIGUEIROS (in "Dicionário de Literatura Portuguesa", Org. e dir. Álvaro Manuel Machado, Lisboa: Editorial Presença, 1996 – p. 331-332)


BIBLIOGRFIA:

Ficção:
- Cabeças de Barro (contos), em colaboração com Carlos de Oliveira e Artur Varela, Lousã: Moura Marques & Filho Editores, 1937
- As Sete Partidas do Mundo (romance), Coimbra: Portugália, 1938 [Prémio Almeida Garrett, 1938]
- Fogo na Noite Escura (romance), Col. Novos Prosadores, Coimbra: Coimbra Editora, 1943; edição refundida, Lisboa: Guimarães Editores, 1956
- Casa da Malta (novela), Col. Novos Prosadores, Coimbra: Coimbra Editora, 1945
- Minas de San Francisco (romance), Col. Novos Prosadores, Coimbra: Coimbra Editora, 1946 [Prémio Ricardo Malheiros, 1953]
- A Noite e a Madrugada (romance), Editorial Inquérito, 1950
- O Trigo e o Joio (romance), Lisboa: Guimarães Editores, 1954
- O Homem Disfarçado (romance), Lisboa: Editora Arcádia, 1957
- Cidade Solitária (contos), Lisboa: Editora Arcádia, 1959
- Domingo à Tarde (romance), Lisboa: Livros do Brasil, 1961 [Prémio José Lins do Rego, 1961]
- Os Clandestinos (romance), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972
- Resposta a Matilde (divertimento), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1980
- O Rio Triste (romance), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1982 [Prémio Fernando Chinaglia, 1982; Prémio D. Dinis, 1982; Prémio Fialho de Almeida, 1983]

Biografia, narrativa memorialística e de viagens, crónica:
- Retalhos da Vida de um Médico (narrativas), Lisboa: Editorial Inquérito, 1949 [Prémio Vértice, 1949]
- Deuses e Demónios da Medicina (biografias romanceadas), Lisboa: Livros do Brasil, 1952; edição refundida e ampliada, Lisboa: Editora Arcádia, 1963
- Retalhos da Vida de um Médico (narrativas), II Série, Lisboa: Editora Arcádia, 1963
- Diálogo em Setembro (crónica romanceada), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1966
- Um Sino na Montanha (cadernos de um escritor), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1968
- Os Adoradores do Sol (cadernos de um escritor), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1971
- Estamos no Vento (narrativa literário-sociológica), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1974
- A Nave de Pedra (cadernos de um escritor), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1975
- Cavalgada Cinzenta (narrativas de viagem), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1977
- Encontros (entrevistas), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1979
- Sentados na Relva (cadernos de um escritor), Venda Nova - Amadora: Bertrand Editora, 1986
- URSS Mal Amada, Bem Amada (crónicas), Venda Nova - Amadora: Bertrand Editora, 1986
- Autobiografia, Lisboa: Edições 'O Jornal', 1987
- Jornal sem Data (cadernos de um escritor), Venda Nova - Amadora: Bertrand Editora, 1988
- Dispersos, 2 vols., org. José Manuel Mendes, Lisboa: Círculo de Leitores, 1999

Poesia:
- Relevos, Coimbra: Portugália, 1937
- Mar de Sargaços, Coimbra: Atlântida, 1939
- Terra, Col. Novo Cancioneiro, N.º 1, Coimbra, 1941
- As Frias Madrugadas (poesia reunida), Lisboa: Editora Arcádia, 1959
- Marketing, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969
- Nome para uma Casa, Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984


Arnaldo Trindade, sob o seu selo Orfeu, editou em 1980, o LP "Fernando Namora Diz Fernando Namora" contendo oito poemas e excertos da narrativa "Piquenique" (do livro "Cidade Solitária"). Um registo que nunca foi editado em CD (que seja do nosso conhecimento).
Já no presente século, saíram mais dois discos preenchidos, parcial ou integralmente, com poesia namoriana: "Sandálias de Vento" (2002), do cantautor Francisco Ceia, e "Geração do Novo Cancioneiro", de Maria de Jesus Barroso (recitação) e de Luísa Amaro (música e guitarra portuguesa). É pois recorrendo a estas duas edições que, no centenário do nascimento de Fernando Namora, celebramos a sua poética, aliás, muito mal conhecida (e injustamente). Uma série de onze poemas na qual, curiosamente, estão representados todos os livros, se bem que mais enfaticamente o último, "Nome para uma Casa". A sequência é cronológica e no caso de poemas extraídos de um mesmo livro respeita-se a ordem pela qual aí aparecem.
E qual o posicionamento da rádio pública face a Fernando Namora neste ano do centenário? De referir, em primeiro lugar, a evocação que Germano Campos fez do autor no seu programa "Café Plaza", de 27 de Janeiro passado, a propósito dos 30 anos da morte [a partir de 34':02'' >> RTP-Play]. Mais recentemente, a 11 de Abril, no programa "Páginas Tantas", Fernando Namora e a sua obra foram o assunto principal da conversa entabulada pelo trio feminino Inês Pedrosa, Patrícia Reis e Rita Ferro, sob a moderação de Fernanda Almeida [>> RTP-Play]. Por último, o poema escolhido por Luís Caetano para a rubrica "A Vida Breve", emitida neste mesmo dia, foi precisamente um da autoria de Fernando Namora dito pelo autor, de título "Um Segredo" [>> RTP-Play].
Registamos com agrado as evocações citadas, mas fica-nos a saber a pouco. A rádio pública (e referimo-nos ao conjunto dos três canais nacionais) peca por omissão se não aproveitar a ocasião do centenário do nascimento do emérito escritor para, cabalmente, aguçar nos ouvintes, especialmente nos mais jovens, o apetite de conhecerem a sua obra. E como? De uma maneira muito simples: transmitindo pontualmente ora poemas recitados (resgatados do arquivo e/ou expressamente gravados para o efeito), ora – e sobretudo – excertos de prosa lidos por quem o sabe fazer bem, evidentemente. O difícil será mesmo escolher de entre a vasta produção namoriana. Tudo isso sem prejuízo, obviamente, da reposição das adaptações de romances e narrativas de Namora que foram feitas para a rádio, nos tempos áureos do teatro radiofónico, como "Minas de San Francisco" e "A Noite e a Madrugada". Ficamos na expectativa!

Adenda (em 17-Abr-2019):
Luís Caetano, na edição de anteontem do seu programa "A Ronda da Noite", teve o mui louvável cuidado de homenagear (amplamente) Fernando Namora. E fê-lo resgatando do arquivo da RDP duas entrevistas do escritor – a primeira dada a Francisco Igrejas Caeiro para o programa "Perfil dum Artista", de 1 de Novembro de 1954; a segunda concedida a Maria Júlia Guerra para o programa "De Mãos Dadas", de 6 de Fevereiro de 1985 – e ainda textos de Namora lidos pelo próprio: o poema "Um Segredo" (inserido na rubrica "A Vida Breve") e excertos do livro "Jornal sem Data" [>> RTP-Play].
Uma vénia de agradecimento a Luís Caetano por nos ter dado a oportunidade de ouvir estas ignoradas gravações!



Poema da Utopia



Poema: Fernando Namora (in "Relevos", Coimbra: Portugália, 1937; "As Frias Madrugadas", Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 50)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


A noite caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
No alto, a utópica Lua vela comigo
e sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! se o espectáculo findou
deixa-nos também dormir.



Canção de Embalo para as Virgens dos Portos



Poema: Fernando Namora (in "Mar de Sargaços, Coimbra: Atlântida, 1939; "As Frias Madrugadas", Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 132-133)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


O coração de poeta é oiro estilhaçado
que vai semeando no seu caminho.
Oiro caído é oiro perdido
que o poeta não volta para o regar.
Vão acenar-lhe da largada
como se ele partisse para o cabo do mundo,
que o horizonte é largo e o mar é fundo
e ele não tornará.
Ondas vencidas são ondas perdidas
que o poeta só tem saudades do que virá.

Em cada praia chegada
há luzes festivas na areia:
a voz de mel do poeta triste
é canto feiticeiro de sereia.
Canta, canta, que a tua voz magoada
tenha a tristeza do bem perdido
dos sonhos azuis que o embalaram.
Ai! que dos olhos da barca
se vêem estrelas a brilhar.
Canta, canta, para o tesoiro perdido
que a esperança lá irá naufragar.

Nem a noite nem o dia o trarão consigo:
o horizonte é largo e o mar é fundo,
há outras paragens, no cabo do mundo,
para ele descobrir e enfeitiçar.


* Francisco Ceia – voz
José Marinho – orquestrações, piano e acordeão
José Menezes – saxofones (soprano, tenor, barítono)
Jean-François Lézé – marimba
Pedro Neves – violoncelo
Sertório Calado – percussões
Gravado nos Estúdios Dó-Ré-Mar, em Abril de 2002



Cacilda



Poema de Fernando Namora (in "Terra", poema 8, Col. Novo Cancioneiro, N.º 1, Coimbra, 1941 – p. 19; "As Frias Madrugadas", Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 174)
Recitado por Maria de Jesus Barroso* (in Livro/CD "Geração do Novo Cancioneiro", Althum/Museu do Neo-Realismo, 2010)
Música: Luísa Amaro




Vem, Cacilda, olhar a madrugada que rompe.
Vem e sentirás mais vastas a tua dor e a tua esperança.
Vem de manso, cautelosa,
antes que os pastores acordem em suas frautas
e perturbem a manhã.
Talvez sintas no rumorejar das aves madrugadoras
aquelas asas sem limites,
para além do campanário, para além dos montes
que teu olhar nunca soube ultrapassar.
Vem, Cacilda! Serás mais um astro branco
que a manhã serena coroou.


* Maria de Jesus Barroso – voz
Luísa Amaro – guitarra portuguesa
Gonçalo Lopes – clarinete baixo
Gravado no estúdio de André Fernandes e nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Captação de som – Tiago de Sousa
Mistura e masterização – Quico Serrano, no Estúdio da Aguda, Vila Nova de Gaia



Canto Tardio



Poema: Fernando Namora (in "Marketing", Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 99)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Antes que o Inverno chegue
volto a ser cigarra. Canto.
Da laboriosa agonia me liberto e exalto.
Canto sem cessar o tempo
temendo e saboreando o tempo,
galo da aurora
que não tem tempo de acordar dormindo
De celeiro vazio, canto,
surdo aos lobos e aos ratos
que esgadanham o restolho.
Canto no Outono, que é oiro velho
e um rosto rugoso e macio.
Canto só porque é tarde para o canto
e a cantar adio o que tarde veio.
Cantando abro-me às formigas
e ofereço-lhes o indigesto banquete
para que a morrer cantando
me devorem vivo.



Líricas



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984 – p. 13-14, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 11-12)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Resina
urze
vento:
          a infância.
Nas narinas
o suor
dos gados
no tapete
de estrume
das quelhas:
          a distância.
Nuvem inconstante
dependurada
do lamento
dos sinos:
          a ausência.
Casco e pedras
na marcha
ensonada
dos bois longínquos
colinas brandas
na pura luz
saturada
de moitas
diluvianas
inconstante nuvem
no abandono
de um momento:
          oh paisagem
          dentro dos olhos
          vagabundos
          oh paisagem esbatida
          na sépia
          dos retratos
          de antigamente.



Um Segredo



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 16-18)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Meu pai tinha sandálias de vento
só agora o sei.
Tinha sandálias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a expressão em nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem estar em todos os sítios.

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.
Meu pai era um homem com as nostalgias
do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs
e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
miraculosamente leves soltas imaginosas
indo de acaso em acaso de astro em astro
eram de vento as suas sandálias fabulosas
levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.

Os outros não o sabiam nem eu o sabia
só o víamos sentado no cepo velho
raiado de negro como uma estrela fossilizada
por isso tudo era para ele mais irremediável e triste
sei-o agora tarde de mais
tarde de mais é uma dor de remorso
que me consome víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs.
Mas de qualquer maneira existe um segredo
de que ambos partilhamos
ciosamente avaramente indecifradamente
como os astutos conspiradores
que fazem do seu segredo
um mágico tesouro inviolado.

Um segredo simples:
o que sentiste pai
sinto-o eu agora por ambos
sinto-o por ti
sinto-o por mim.

Ainda que por ele devorados.



Também as Palavras



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 79)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


No amor também as palavras
são necessárias. Os gestos talvez não bastem.
Nem a chuva lá fora enquanto o amor se inflama.
Nem o sussurro nas árvores quando os corpos serenam.
Nem a melopeia das águas quando as bocas se esmagam.
Nem o fulgor dos olhos quando a paixão se amotina.

Penso no amor e logo invento palavras
e logo as palavras se põem ébrias.
Penso no amor e logo as palavras
se soltam como fogosas aves
a que não pergunto o rumo.

Penso no amor e logo preciso
que as palavras digam
que amor é este em que penso e em que grito.



Aparição



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 104-105)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Vens como uma aparição
apenas vestida com a tua beleza
dos teus gestos tombam as pétalas
que acabaram de abrir
e em mim escorrem como orvalho
que o morno hálito fundiu

vens e entras em mim com a subtileza da nuvem que abraçou o sol
e o bebe inteiro para o ter só seu
ou como lança ardente
que rasga de lava a paisagem amortecida

vens e ficas e incorporas-te
até não haver mais do que uma súplica
nem mais do que um fogo
nem mais do que uns braços
nem mais do que uma boca
nem mais do que um olhar de pálpebras cerradas
todo recolhido no que nele é júbilo e dor
dor de ser breve sabendo-se embora infindável
a vertigem transporta-nos como no poema da Ada Negri
e deixa-nos num lugar que nem é presença
nem ausência
apenas o exacto lugar
onde apenas cabe um corpo que instantes antes eram dois.

Uma folha tomba do plátano diz a Ada.
És tu és tu que me levas pelos ares.



Se o Coração Não Cansa



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 106-107)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Se olhas a distância
talvez julgues que é tarde
e que a rosa se deixou abrir
até ser calafrio
e que tudo é o vazio
sem números nas portas
onde pernoitar de tanta viagem.

Olharás a neve que apagou
as horas e os passos
e a palidez dos espelhos
devorando o silêncio
e o crescer da relva na memória
dos longes coados.
A sombra da cinza
é orvalho
e nele os remos não avançam
no vento fatigado.
Resignado te olhas
fundindo os portos e as lendas
onde a infância gela
na remota espera
de ser desatino.
Mas não
de todas as vezes diz não
para que o tempo se desprenda
nas velas magras.

Se o coração não cansa
nada é tarde
nada.



Música na Praia



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 154-155)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Dolente
indolente
no mar indo
no mar vindo
na espuma se abrindo
espreguiçada
dolente
toada brasileira
que dorme
desperta
indo e vindo
vindo e indo
que acorda sonhando
dormindo gemendo
espreguiçada
na areia
melopeia
brasileira
voz quente
na praia ensonada
no mar bocejando
voz quente
quebrando quebrando
cansada
de ir morrendo
mas tão viva sendo
na praia extasiada



Cantilena



Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 165-166)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)


Do cardo que carda a gente
nele se vê a roupa pouca
corpo tosco tosca terra
nele se escuta a voz ausente

Da água que fura a pedra
vão lamento gasto tempo
dura água que vai dentro
do mais oculto da serra

Da saliva que o mar bebe
sonho leve ondas tontas
luas ocas que nos seguem
na palidez das lucernas

Do povo que pesa os ares
asas vagas bater de asas
sono ébrio que braveja
no crepitar das miragens

Na mão que enxuga a dor
morre a ira cansa a fera
da semente que diz não
iça a torre seca a hera

Povo povo quem te chama
tem a espora no dizer
cada quimera esvaída
no deserto vai morrer


* Francisco Ceia – voz
José Marinho – orquestrações, piano e acordeão
José Menezes – saxofones (soprano, tenor, barítono)
Jean-François Lézé – marimba
Pedro Neves – violoncelo
Sertório Calado – percussões
Gravado nos Estúdios Dó-Ré-Mar, em Abril de 2002



Capa da 1.ª edição do livro "Relevos" (Coimbra: Portugália, 1937).



Capa da 1.ª edição do livro "Mar de Sargaços" (Coimbra: Atlântida, 1939).



Capa da 1.ª edição do livro "Terra" (Col. Novo Cancioneiro, N.º 1, Coimbra, 1941).



Capa da 1.ª edição do livro "As Frias Madrugadas" (Lisboa: Editora Arcádia, 1959).



Capa da 1.ª edição do livro "Marketing" (Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969).



Capa da 1.ª edição do livro "Nome para uma Casa" (Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984).



Capa do CD "Sandálias de Vento", de Francisco Ceia (Pirilampo, 2002).



Capa do livro/CD "Geração do Novo Cancioneiro", de Maria de Jesus Barroso e Luísa Amaro (Althum/Museu do Neo-Realismo, 2010).


[reeditado em 17-Abr-2019]

27 março 2019

Dia Mundial do Teatro: mensagem de João de Freitas Branco (1981)



DIA MUNDIAL DO TEATRO
27 de Março de 1981
Mensagem

Mensagem deste "dia mundial", qualquer ela for, terá que envolver todas as pessoas dramáticas que jamais existiram. Todas as Medeias, Columbinas, Margaridas, Júlias, todos os Orfeus, Arlequins, Telémacos, Woyzecks. E os demais "Cocus", imaginários ou não, de mistura com as Respeitosas adjectivantes de substantivos Pês. E Henriques, Filipes, Ricardos-reis, Césares, Ivans, Carlos-quintos imperadores. E vigários, inquisidores, papas. E até Joana d'Arc. E seis personagens em busca de autor. E o inapagável Tenente Kije, na companhia de dois outros Ninguéns, estes de Portugal, como se Todo-o-Mundo não bastasse.
Mensagem que há-de abranger todas as paixões, desde lutos que tão bem ficam a Electra como a Bernarda "la vieja", até à suprema de quantas flamengas alegrias explodiram em horas de desmoronamento de Albas. Todos os mitos, recalques, complexos, desde logo o de Édipo, mas também o de Bartholo. Todos os tratos com a vida, desde o contínuo estar Volpone cobrando o seu próprio seguro de morte até ao estar perpetuamente à espera de Godot. Todas as guerras que imaginar se possam, muitas mais que as de Montecchi e Capuleti, de Alecrim e Manjerona, de Cabeças Redondas e Cabeças Bicudas. Todas as artes de comunicar pela vista e pelo ouvido, encenando, pintando, esculpindo, arquitectando, iluminando, projectando, cantando, tangendo, mimando, bailando. E falando.
Mensagem que necessariamente saúda os que, filhos de qualquer civilização, mantêm fecunda a linhagem dos Ésquilo, Gil Vicente, Shakespeare, Racine, Claudel, Brecht; dos Monteverdi, Mozart, Schönberg; dos Noverre, Pétipa, Fokine, quer aumentando-a com obras, quer afirmando-se, como Garrick e Talma, como a Todi e a Callas, como a Pavlova e Nijinsky, tanto mais inconfundíveis quanto mais se forem metamorfoseando sob crismas e caracterizações. E todos os que, dos palcos da lusitana revista ao mais além-Taprobana dos retábulos Wayang, dos hiper-sofisticados estúdios radiofónicos e televisivos à mais humilde barraca de feira, de outros modos participam no mágico oscilar entre realidade e ilusão, corrente alterna de tensão sem limites, sequiosa de verdade absoluta genialmente inventada.
Mensagem que oxalá abraçasse todas as mulheres e homens, os jovens e crianças de todas as raças, cores e linguagens, como público efectivo de um espectáculo universal. Público efectivo, porque honestamente estatístico, concretamente verificável. Público não congregado por coacção ou fingimento de cultura, senão que movido pela liberdade de vividamente conhecer para bem amar, e de amar para plenamente viver.
Por hoje, 27 de Março de 1981, contentemo-nos com a certeza de que um dia há-de vir, em que "Everyman" se reconheça, de corpo inteiro e coração ao alto, num espelho de ele mesmo que dará ainda, e sempre, pelo nome de TEATRO.

                JOÃO DE FREITAS BRANCO


Este texto, lido pela actriz Josefina Silva, foi difundido pela RDP-Antena 1, a 27 de Março de 1981, no programa "Tempo de Teatro", antecedendo a peça "O Juiz da Beira", de Gil Vicente, com direcção de actores de Carlos Duarte e realização radiofónica de Eduardo Street.
Estamos em 2019. Perscrutamos os vários canais da rádio pública: e que oferta há da arte de Talma? Temos, na Antena 2, o programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play], da autoria de João Pereira Bastos, que, apesar de ter como principal objecto o teatro musical e a música de filmes, não deixa de apresentar, uma vez por outra, no âmbito da evocação de actores portugueses que foram grandes no palco, no cinema e na rádio, algumas peças de teatro falado guardadas no arquivo. E que mais? Apenas, e mesmo assim muito esparsamente, também na Antena 2, um arremedo de teatro denominado "Teatro sem Fios" [>> RTP-Play]. E grafamos 'arremedo' porque aquilo, em boa verdade, não se pode considerar verdadeiro teatro radiofónico: por ser desprovido de sonorização, por os textos serem quase sempre dramaturgicamente sensaborões (não raras vezes a roçar a náusea), e por as vozes não terem carisma radiofónico. Vozes com carisma são aquelas que possuem idiossincrasia tímbrica/interpretativa, isto é, têm uma identidade bem vincada, não se confundindo com quaisquer outras, e encarnam com verosimilhança uma determinada personagem. Eis alguns exemplos (por ordem alfabética dos nomes dos actores): Alberto Villar, Alina Vaz, Antonino Solmer, Assis Pacheco, Branco Alves, Canto e Castro, Carlos Paulo, Carmen Dolores, Eunice Muñoz, Henriqueta Maia, Irene Cruz, Jacinto Ramos, João Villaret, Joaquim Rosa, Luís Pinhão, Manuel Lereno, Manuela Cassola, Mário Pereira, Mário Viegas, Paiva Raposo, Paulo Renato, Raul de Carvalho, Ruy de Carvalho, Ruy Furtado, Santos Manuel, Varela Silva. E aqui somos inevitavelmente remetidos para essa autêntica arca de preciosidades que é o arquivo histórico da rádio pública.
Em face de tal riqueza, era expectável que as direcções de programas das três antenas nacionais e também da RDP-Internacional não a descurassem e atentassem nela com olhos de ver (e ouvidos de ouvir). Tal não tem acontecido ou acontecido de forma muito incipiente. Por exemplo: não compreendemos a não existência na Antena 1 de um espaço reservado a bons conteúdos do arquivo (teatro, contos, poesia, entrevistas a figuras da Cultura e da Ciência, programas de divulgação cultural, etc.), do mesmo modo que não entendemos qual o motivo da não inclusão no espaço "Memória", da Antena 2, de peças de teatro que foram produzidas antes de 2005 (ano em que terminou o "Teatro Imaginário"), bem como de programas de poesia e de ciclos temáticos (sobre compositores, escritores, cientistas, acontecimentos históricos, etc.). Nesse resgate, que urge ser feito pois o tempo é implacável na deterioração dos registos, a prioridade, no caso do teatro, deve ser dada ao grande repertório, porque esse é intemporal: desde o dos autores gregos clássicos (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes) até ao teatro do absurdo (Beckett, Ionesco) passando por Shakespeare, Ben Jonson, Lope de Vega, Calderón de la Barca, Corneille, Molière, Racine, Marivaux, Goldoni, Beaumarchais, Schiller, Pushkin, Ibsen, Strindberg, Oscar Wilde, George Bernard Shaw, Tchekov, Pirandello, Federico García Lorca, Bertolt Brecht, Eugene O'Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Edward Albee, Jean Cocteau, Jean-Paul Sartre, Jean Anouilh, sem esquecer os nossos Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, António Ribeiro Chiado, António Ferreira, Luís de Camões, António José da Silva (O Judeu), Almeida Garrett, Raul Brandão, António Patrício, Alfredo Cortez, José Régio, Bernardo Santareno, Luiz Francisco Rebello e Luís de Sttau Monteiro.
O teatro e a sua irmã, a poesia, enquanto artes por excelência da oralidade (é bom ter presente que a "Ilíada" e a "Odisseia", obras primordiais da Civilização Ocidental, começaram por andar de boca a ouvido, antes de alguém se lembrar de passá-las a escrito), têm, além do valor cultural que lhes é intrínseco, a relevante virtude de mostrar a correcta prosódia da língua. Atendendo ao mau português que se vai ouvindo, devido à má influência da televisão e também aos efeitos nefastos que o AO90 já está a ter na pronúncia de algumas palavras, maior a premência de se resgatar o teatro radiofónico e a poesia dita.
Importa não esquecer que para os invisuais, essa é a única forma que lhes permite fruírem aquelas artes in acting (não substituível pela leitura em braille, que no caso de peças de teatro não será um exercício cativante, tal como o não é para os não cegos – o escrevente destas linhas pode testemunhar que a leitura do "Frei Luís de Sousa" nem por sombras teve no seu espírito o mesmo impacto que a memorável adaptação radiofónica que em 1992 ouviu na Antena 2).

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21 junho 2018

Grupo Banza: "Verão"


António Saiote, "Ceifeiros VII", c.1999, óleo sobre tela


Para assinalar, poética e musicalmente, o solstício de hoje, que dá início ao Estio de 2018 (no hemisfério norte, evidentemente), tivemos a ideia de trazer a belíssima moda da autoria de Manuel Conde Fialho (já falecido e que foi regente da banda filarmónica de São Pedro do Corval, Reguengos de Monsaraz), a qual surge nos discos com o título de "Verão, Alentejo e os Homens" ou "Verão, Brasa Dourada" ou simplesmente "Verão".
Tivemos acesso a nove gravações por outros tantos intérpretes (por ordem alfabética): Alencanto, António Zambujo, Grupo Banza, Grupo Coral Etnográfico "Amigos do Alentejo", Grupo Coral "Vozes de Almodôvar", Mário Moita, Modas ao Luar, Monda, e Raízes do Sul. A do Grupo Banza, publicada no álbum "Açorda Alentejana" (2004) e na compilação "25 Anos" (2006), foi a que mais nos cativou e é essa que aqui apresentamos.
Com a introdução da ceifa mecanizada, desapareceram dos campos do Alentejo os ranchos de ceifeiros que, de corpos curvados e sob um sol abrasador, cortavam e atavam em molhos a bênção loira da vida (parafraseando versos da cantiga). Tal trabalho, de tão árduo e extenuante que era, não terá deixado grandes saudades naqueles que o executavam, mau grado a contingência da procura de outro modo de sustento, mas perdeu-se irremediavelmente o contexto laboral que fez nascer alguns dos mais belos espécimes do cancioneiro popular português, de que o presente é um magnífico exemplo. O progresso cobra sempre um preço. Disso foram boas testemunhas as pessoas (portadoras de saberes ancestrais) a quem Rafael Correia deu voz no maravilhoso programa "Lugar ao Sul" durante três decénios (os dois últimos do século XX e o primeiro do século XXI), para proveito do afortunado e fiel auditório que nas matinas de sábado escutava religiosamente a Antena 1. É oportuno lembrar que, sendo o acervo do "Lugar ao Sul" algo de fabuloso e único (enquanto documento cultural e antropológico), importa que a entidade que o detém, a Rádio e Televisão de Portugal, não demore mais a resgatá-lo todo das perecíveis cassetes DAT e a disponibilizá-lo na plataforma RTP-Arquivos para que os cidadãos que com ele se queiram cultivar o possam fazer.
Às gentes que ao longo de séculos e séculos verteram o seu suor a segar o pão da vida, e desse esforçado labor souberam recolher inspiração para criar as modas e as cantigas que hoje constituem um património precioso, rendemos a nossa penhorada homenagem!



Verão



Letra e música: Manuel Conde Fialho
Intérprete: Grupo Banza* / voz solo de António Jacob (in CD "A Açorda Alentejana", Grupo Banza, 2004; CD "25 Anos", Grupo Banza, 2006)


Verão,
A brasa dourada e celeste
Esvaiu do Sol agreste
Doirando mais as espigas;
Ceifeiros, corpos curvados
Cortando e atando em molhos
A bênção loira da vida.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.

O calor caustica os corpos,
Os ceifeiros vão ceifando
Sem parar no seu labor;
O seu cantar é dolente,
É certo que é boa gente,
É verdade e tem mais sol.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.

O calor caustica os corpos,
Os ceifeiros vão ceifando
Sem parar no seu labor;
O seu cantar é dolente,
É certo que é boa gente,
É verdade e tem mais sol.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.


* [Créditos gerais do disco:]
Grupo Banza:
Victor Godinho (n. Barreiro) – voz e baixo
Joaquim Banza (n. Entradas) – voz e bandolim
Jacinto Gaspar (n. Safara) – voz e guitarra
Zé Rita (n. Safara) – acordeão
João Soares (n. Aljustrel) – voz e guitarras
António Farinha (n. Moura) – voz
António Jacob (n. Panóias) – voz e guitarra
Participação de:
Guilherme Banza – guitarra portuguesa
Diogo Clemente – guitarra clássica
Tio Bejinha – castanholas
Jorge Miguel – acordeão e teclados
Produção – Jorge Miguel / JM Produções
Gravado por Jorge Miguel, nos Estúdios IN/OUT, Vale Figueira, Sobreda da Caparica



Capa do álbum "A Açorda Alentejana", do Grupo Banza (2004).



Capa da compilação "25 Anos", do Grupo Banza (2006).

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